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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.37 n.3 São Paulo Jun. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102003000300020 

COMUNICAÇÕES BREVES BRIEF COMMUNICATIONS

 

Encontro de Aedes albopictus no Estado do Pará, Brasil

 

Occurrence of Aedes albopictus in the state of Pará, Brazil

 

 

Maria de Nazaré de Oliveira SeguraI; Hamilton Antonio de Oliveira MonteiroI; Ernani da Silva LopesII; Orlando Vaz da SilvaI; Francisco Corrêa CastroI; Pedro Fernando da Costa VasconcelosI

IInstituto Evandro Chagas. Belém, PA, Brasil
IISecretaria Municipal de Saúde. Medicilândia, PA, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Pela primeira vez é registrada a presença do Aedes (Stg) albopictus no Estado do Pará, Brasil, em área urbana no município de Medicilândia distante cerca de 90 km de Altamira, onde foram capturados por meio de isca humana 42 exemplares de mosquitos adultos. Estes foram inoculados em C6/36 e em camundongos recém-nascidos na tentativa de isolamento viral, não tendo sido isolado nenhum vírus. A presença de Aedes albopictus em áreas da Amazônia onde circulam os vírus de dengue e de febre amarela é preocupante e representa um risco potencial desta espécie de mosquito se tornar infectada com tais vírus.

Descritores: Aedes. Insetos vetores. Culicidae. Dengue. Transmissão. Arbovírus. Aedes albopictus.


ABSTRACT

It is first reported the detection of Aedes (Stg) albopictus mosquitoes in state of Pará, Brazil, in the urban area of Medicilândia, a municipality far 90 km from Altamira, where 42 adult mosquitoes were baited using human attraction. All mosquitoes were pooled and inoculated into C6/36 and suckling mice in attempts for virus isolation. No virus was isolated. The occurrence of Aedes albopictus in urban areas of the Amazon region is of concern since dengue and yellow fever viruses are endemic in the Amazon and thus there is a potential risk for this mosquito species to become infected with both viruses.

Keywords: Aedes. Insect vectors. Culicidae. Dengue. Transmission. Arbovirus. Aedes albopictus.


 

 

O primeiro registro do Aedes albopictus no Brasil aconteceu em 1986 nos Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais (Forattini,2 1986), trazidos do sul da Ásia por meio do comércio marítimo, durante o transporte de minério de ferro, e se interiorizou via estrada de ferro (Consoli & Lourenço de Oliveira,1 1994).

O Ae. albopictus é uma espécie exótica no Continente Americano sendo de origem asiática, onde é vetor secundário da dengue, em áreas rurais e urbanas, e de encefalite japonesa.

Nas Américas foi encontrado infectado naturalmente com o vírus da encefalite eqüina do leste e em laboratório demonstrou competência à infecção e à transmissão para 22 distintos arbovírus (Moore & Mitchell,5 1997). No Brasil mostrou capacidade de transmitir dengue, febre amarela e vírus da encefalite eqüina venezuelana em laboratório (Miller e Ballinger,4 1988). Segundo Gomes et al,3 (1999) a presença do Ae. albopictus já foi detectada em 14 Estados brasileiros.

O Serviço de Arbovírus do Instituto Evandro Chagas (IEC) no período de 1954 a 2000 realizou cerca de 11.000 isolamentos de 190 tipos diferentes de vírus; 161 arbovírus isolados pela primeira vez no Brasil; 90 confirmados serem novos para a ciência; 34 sorotipos associados com doença no homem. Os arbovírus encontrados na Amazônia brasileira estão distribuídos em 20 grupos sorológicos com 134 sorotipos diferentes e um número significativo de vírus não grupados que precisam ser caracterizados (Travassos da Rosa et al,6 2000). Assim, é grande a preocupação com a presença do Ae. albopictus na Amazônia brasileira, por sua potencialidade vetorial observada no continente asiático podendo no futuro ser inferido para vírus autóctones.

Durante as atividades de campo de rotina do programa de controle da dengue, em Medicilândia, os agentes de saúde, no mês de abril de 2002, por meio de larvitrampas detectaram a presença de larvas do mosquito Ae. albopictus em criadouros artificiais na área urbana do município de Medicilândia, PA, o que depois foi confirmado pela equipe de técnicos do IEC.

No mês de maio de 2002, a equipe de técnicos do IEC em área peridomiciliar do município, por meio de isca de atração humana, capturou 42 espécimes, sendo 19 fêmeas e 23 machos, no período matutino (8h-11h). Todos os exemplares foram acondicionados em tubos de vidro devidamente identificados e mantidos em N2 líquido e no laboratório do IEC, conservados em freezer mecânico a -70°C onde foi realizada identificação, mantidos em temperatura de 25°C e retornados ao freezer para posterior tentativa de isolamento viral. As formas imaturas (larvas) foram encontradas em terrenos baldios em criadouros artificiais como vasilhames de plásticos, sacos plásticos, caixas d'água, brinquedos abandonados, latas etc, e postas para criação até a forma adulta onde foram identificadas e colocadas na coleção do laboratório de entomologia do IEC.

O município de Medicilândia está a 90 Km da cidade de Altamira e a 848 Km da capital do Estado do Pará. Tem uma população de 21.423 habitantes (Censo 2000) e está implantado às margens da rodovia BR-230 (transamazônica) que é corredor de escoamento da produção agrícola, pecuária e de madeira do município e áreas vizinhas. Acredita-se que esse mosquito tenha sido trazido por transporte rodoviário, proveniente de algum Estado do Brasil onde sua ocorrência tenha sido relatada, devido a grande movimentação de caminhoneiros e imigrantes de todos os cantos do País.

Os espécimes de Ae. albopictus capturados foram inoculados em camundongos recém-nascidos e em células C6/36 em tentativas de isolamento de vírus. Nenhuma amostra viral foi isolada, talvez pela quantidade de espécimes capturados.

Apesar do Ae. albopictus ainda não ter sido incriminado como vetor da dengue no Brasil, estudos em laboratório demonstraram a capacidade vetorial desse mosquito para os quatro sorotipos virais (Miller & Ballinger,4 1998). Portanto, não se pode descartar a possibilidade da transmissão local da dengue e da febre amarela silvestre por essa espécie (Gomes et al,3 1999), evidenciando a necessidade de estudos mais detalhados acerca de isolamento de vírus em populações naturais, bem como de sua capacidade vetorial para os arbovírus.

 

REFERÊNCIAS

1. Consoli RAGB, Lourenço RO. Principais mosquitos de importância sanitária no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz; 1994.        [ Links ]

2. Forattini OP. Identificação de Aedes (Stegomyia) albopictus no Brasil. Rev Saúde Pública 1986;20:244-5.        [ Links ]

3. Gomes AC, Bitencourt MD, Natal D, Pinto LS, Mucci LF, De Paula MD et al. Aedes albopictus em área rural do Brasil e implicações na transmissão de febre amarela silvestre. Rev Saúde Pública 1999;33:95-7.        [ Links ]

4. Miller BR, Ballinger ME. Aedes albopictus mosquitoes introduced into Brazil: vector competence for yellow fever and dengue viruses. Trans R Soc Trop Med Hyg 1988;82:476-7.        [ Links ]

5. Moore CG, Mitchell CJ. Aedes albopictus in the United State: ten-year presence and public health implications. Emerg Infec Dis 1997;3:329-34.        [ Links ]

6. Travassos da Rosa APA, Pinheiro FP, Travassos da Rosa ES, Rodrigues SG, Travassos da Rosa JFS, Vasconcelos PFC. Arboviroses. In: Tonelli E, Freire LMS. Doenças infecciosas na infância e adolescência. 2ª ed. Rio de Janeiro: MEDSI; 2000. p. 986-1015.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Maria de Nazaré de Oliveira Segura
Instituto Evandro Chagas
Av. Almirante Barroso, 492 Marco
66090-000 Belém, PA, Brasil
E-mail: nazaresegura@iec.pa.gov.br
E-mail: nazalu@hotmail.com

Recebido em 8/8/2002
Reapresentado em 20/9/2002
Aprovado em 10/3/2003