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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.37 n.5 São Paulo Oct. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102003000500017 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Microscopia eletrônica de varredura de ovos de Haemagogus leucocelaenus (Diptera: Culicidae)

 

 

Jeronimo AlencarI; Anthony Érico GuimarãesI; Rubens Pinto MelloI; Catarina Macedo LopesI; Nicolas DégallierII; Jacenir R Santos-MalletI

IDepartamento de Entomologia da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIInstituto de Pesquisa para o Desenvolvimento. Brasília, DF, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Observar detalhes morfológicos de ovos de Haemagogus leucocelaenus visualizados pela primeira vez por microscopia eletrônica de varredura (MEV) e realizar morfometria das principais estruturas.
MÉTODOS: Foram utilizados ovos de Hg. leucocelaenus provenientes de fêmeas capturadas na Reserva Biológica do Tinguá, RJ, sendo parte destinada à eclosão e outra ao processamento de MEV, dos quais três foram submetidos à análise morfométrica. O material foi fixado em glutaraldeído 2,5% e pós-fixado em tetróxido de ósmio 1%, ambos em tampão cacodilato de sódio 0.1M, pH 7.2, processado e observado ao MEV Jeol 5310. Medições foram realizadas com o auxílio do software de análise Semafore.
RESULTADOS: Os ovos apresentaram contorno elíptico com aproximadamente 574 µm de comprimento e 169 µm de largura, sendo o índice do ovo (l/wratio) 3,39 µm. O exocório é extremamente regular, possuindo ornamentação hexagonal e algumas vezes pentagonal. Nas células coriônicas, observaram-se tubérculos simetricamente dispostos com relação ao eixo longitudinal, e, no interior delas, tubérculos menores, individualizados, dispostos na periferia, e poucos agrupados no centro. A superfície do retículo coriônico não apresentou rugosidades. O aparelho micropilar apresenta colar proeminente, contínuo, com disco micropilar bem evidente.
CONCLUSÕES: A ornamentação do exocório apresenta diferenças em relação aos tubérculos das células coriônicas e ao retículo coriônico externo entre os ovos de Hg. leucocelaenus comparados aos ovos de Hg. janthinomys e Hg. equinus, bem como com relação aos de Aedes aegypti, Ae. albopictus e Ae bahamensis.

Descritores: Dipteros, ultra-estrutura. Culicidae, ultra-estrutura. Ovos. Microscopia eletrônica de varredura. Haemagogus.


 

 

INTRODUÇÃO

O gênero Haemagogus apresenta grande diversidade especifica, sendo constituído de 32 espécies (Arnell,11973). Muitas delas são de extrema importância sob o ponto de vista epidemiológico por estarem envolvidas na transmissão do vírus da febre amarela silvestre e outras arboviroses, atuando na manutenção do ciclo natural dessas zoonoses. Os transmissores da febre amarela silvestre atualmente conhecidos no Brasil, são exclusivamente mosquitos, sendo os hospedeiros vertebrados, pertencentes principalmente aos primatas, incluindo o homem (Degallier et al,5 1992).

Haemagogus (Conopostegus) leucocelaenus é uma espécie essencialmente silvestre, que tem a copa das árvores como habitat preferencial, desenvolvendo suas atividades durante o período diurno (Chadee et al,3 1995; Forattini & Gomes,6 1988). Esse culicídeo é comumente encontrado no Brasil e sua importância epidemiológica relaciona-se à atuação na transmissão de arboviroses, dentre elas a febre amarela (Kumm & Cerqueira,12 1961). O Haemagogus (Conopostegus) leucocelaenus foi recentemente incriminado como vetor primário do vírus da febre amarela silvestre no Sudeste do Brasil.* Os arbovírus Wyeomyia, Ilhéus, Maguari, Tucunduba e Una também foram isolados nessa espécie (Karabatsos,11 1985; Hervé et al,8 1986). Em laboratório, tem se mostrado vetor mais eficiente do vírus amarílico do que o Aedes aegypti (Waddell,15 1949). O Hg. leucocelaenus tem recebido especial atenção devido à sua crescente importância médica (Forattini & Gomes,6 1988). Sua distribuição geográfica estende-se de Trinidad ao Sul do Brasil e Norte da Argentina. No Brasil, ocorre principalmente nos Estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste (Consoli & Lourenço-de-Oliveira,4 1988).

O primeiro estudo de ovos de mosquitos usando microscopia eletrônica de varredura foi realizado por Matsuo & Kunou13 (1972). São conhecidos os ovos de apenas quatro espécies de Haemagogus: Hg. spegazzinii Brèthes, Hg. lucifer (Howard, Dyar & Knab) (Mattingly,14 1973), Hg. equinus e Hg. janthinomys (Linley & Chadee,10 1991). O presente estudo teve por objetivo observar os ovos de Hg. leucocelaenus pela microscopia eletrônica de varredura (MEV), e realizar análise morfométrica das principais estruturas.

 

MÉTODOS

Os ovos de Hg. leucocelaenus são provenientes de fêmeas capturadas na Reserva Biológica do Tinguá, município de Nova Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro, na latitude S 22º28 - 22º39' e longitude W 43º13' - 43º34'. As fêmeas foram capturadas já ingurgitadas na natureza, usando tubo de sucção manual (capturador de Castro) e levadas no mesmo dia para o laboratório sendo somente utilizadas fêmeas em perfeito estado. As fêmeas foram isoladas individualmente em um tubo de vidro de fundo plano, com 25 mm de diâmetro e 50 mm de altura, contendo ao fundo uma porção de algodão umedecido, coberto com papel de filtro, com a função de servir como substrato para oviposição (Bates & Roca-Garcia,2 1945). Foram utilizadas cerca de 10 fêmeas, tendo sido obtidos 20 ovos, dos quais três foram submetidos à análise morfométrica.

Imediatamente após a postura, o material foi fixado em glutaraldeído 2,5% e pós-fixado em tetróxido de ósmio 1%, ambos em tampão cacodilato de sódio 0.1M, pH 7,2. Após a lavagem no mesmo tampão, os ovos foram desidratados em séries crescentes de etanol e submetidos ao método de secagem pelo ponto crítico, utilizando CO2 superseco em aparelho Balzers. A seguir, foram montados em suportes metálicos, recobertos com ouro e observados ao microscópio eletrônico de varredura Jeol 5310.

As medições foram realizadas diretamente das imagens obtidas, com o auxílio do software de análise Semafore acoplado ao microscópio. Foram utilizados os seguintes parâmetros: comprimento total, largura total, espessura do colar micropilar e tamanho da micrópila, sendo citadas na tabela os máximos, mínimos, médias e desvio padrão.

A terminologia utilizada para a descrição dos ovos segue Harbach & Knight7 (1980).

 

RESULTADOS

Os ovos de coloração fortemente negra são ovipostos isolados e firmemente aderidos ao substrato. Apresentam contorno elíptico com aproximadamente 574 µm de comprimento e 169 µm de largura na região central (Figura, parte 1). Nas extremidades, a região anterior apresenta 50 µm na altura da micrópila e 61,9 µm na região posterior. O índice do ovo, ou seja, a razão entre o comprimento e a largura, foi calculado utilizando-se a largura da região central obtendo-se 3,39 µm.

 

 

O revestimento externo dos ovos apresenta o exocório extremamente regular. A maioria das células do exocório possui ornamentação de aspecto hexagonal e algumas vezes pentagonal (Figura, parte 2).

Na borda dessas células coriônicas, observa-se tubérculos de 1.49-6.32 µm de diâmetro simetricamente dispostos com relação ao eixo longitudinal e, no interior delas, tubérculos menores, individualizados, alguns dispostos na periferia, e outros agrupados no centro (Figura, parte 3).

A sua densidade é de 18 a 25 (21,1±2,08; n=10) por célula na região ventral anterior. O aspecto dos tubérculos é liso, não apresentando nenhum tipo de nódulo em sua superfície. A superfície do retículo coriônico não apresenta rugosidades. Na região anterior do ovo, observou-se o aparelho micropilar, formado por um colar proeminente e contínuo, apresentando cerca de 8,32µm de espessura, cuja superfície é ligeiramente irregular (Figura, parte 4).

No centro observa-se um disco micropilar bem evidente com cerca de 7,29 µm de diâmetro, apresentando continuidade com o colar sob a forma de pregas membranosas dispostas uniformemente de maneira helicoidal. Visualiza-se no centro desse disco um orifício bem evidente, a micrópila, medindo 1,6 µm. O diâmetro total externo do aparelho micropilar é de 27,3 µm (Figura, parte 4).

 

DISCUSSÃO

Excelente parâmetro de comparação entre espécies, a ornamentação do exocório revela significativas diferenças, principalmente no que se refere à presença de tubérculos nas células coriônicas. Os ovos de Hg. janthinomys e Hg. equinus examinado por Linley & Chadee10(1991) diferenciavam-se pela forma das células e distribuição destes tubérculos. Esses autores observaram em Hg. janthinomys células coriônicas de aspecto hexagonal e algumas vezes ligeiramente ovaladas. Em Hg. equinus estas apresentam aspecto hexagonal e algumas vezes pentagonal, o que também foi, no presente estudo, observado em Hg. leucocelaenus (Figura, parte 2). Hg. equinus apresenta pequenos tubérculos coriônicos espalhados uniformemente no centro e na periferia da célula, enquanto que em Hg. janthinomys eles se dispõem no centro das células. Não foram encontradas similaridade de distribuição desses tubérculos em Hg. leucocelaenus. Em Hg. equinus muitos deles apresentam-se fusionados, outros claramente espalhados, diferindo de Hg. leucocelaenus por apresentar em suas superfícies pequenos nódulos. O retículo coriônico externo observado em Hg. leucocelaenus possui aspecto liso diferindo do observado por Linley & Chadee10 (1991) em Hg. janthinomys e Hg. equinus. Linley9 (1989) verificou que o retículo coriônico externo em Aedes aegypti, Ae. albopictus e Ae. bahamensis também apresenta rugosidades, possuindo uma fina malha reticular. O mesmo autor relata que nessas espécies ocorre somente um tubérculo central no interior das células corônicas, o que diverge das observações realizadas em Haemagogus.

Em Hg. spegazzinii Mattingly14 (1973) não visualizou a micrópila em suas observações ao microscópio óptico. Bem diferente dos ovos de Hg. spegazzinii e Hg. lucifer, que não apresentam um colar apical circular, os ovos de Hg. leucocelaenus assemelham-se mais aos de Hg. equinus do que ao de Hg. janthinomys. A micrópila também se apresenta menor do que nessas duas espécies. O disco micropilar, situado no centro do aparelho micropilar, difere do observado em ovos de Hg. janthinomys (Linley & Chadee,10 1991), uma vez que nesses últimos não há continuidade do disco com o colar.

Linley & Chadee10 (1991) relataram que em Hg. janthinomys e Hg. equinus a superfície dorsal do ovo encontrava-se aderida ao substrato por meio de tubérculos filamentosos. Esses autores ressaltam que estas estruturas teriam possíveis funções de melhorar a fixação do ovo, impedindo a remoção física por predadores, bem como permitir a flutuação em águas pluviais. Esses filamentos não foram observados em Hg. leucocelaenus.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Laboratório de Biologia Celular Hertha Meyer, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pela cessão do microscópio eletrônico de varredura.

 

REFERÊNCIAS

1. Arnell JH. Mosquitos studies (Diptera, Culicidae). XXXII. A revision of the genus Haemagogus. Contr Amer Entomol Inst 1973;10:1-174.        [ Links ]

2. Bates M, Roca-Garcia M. The laboratory studies of Saimiri Haemagogus cycle of jungle yellow fever. Am J Trop Med 1945;25:203-16.        [ Links ]

3. Chadee DD, Ganesh R, Hingwan JO, Tikasingh ES. Seasonal abundance, biting cycle and parity of the mosquito Haemagogus leucocelaenus in Trinidad, west indies. Med Vet Entomol 1995;9:372-6.        [ Links ]

4. Consoli RAGB, Lourenço-de-Oliveira R. Principais mosquitos de importância sanitária no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1998. p. 225.        [ Links ]

5. Dégallier N, Travassos da Rosa APA, Hervé JP, Travassos da Rosa JFS, Vasconcelos PFC, Silva CJM et al. A comparative study of yellow fever in África and South América. Ciência e Cultura 1992;44(2/3):143-51.        [ Links ]

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11. Karabatsos N. Internacional catalogue of arboviruses including certain other virases of vertebrates. 3rd ed. San Antonio: American Society of Tropical Medicine and Hygiene; 1985. p. 1147.        [ Links ]

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15. Waddell MB. Comparative efficacy of certain South American Aedes and Haemagogus mosquitoes as laboratory vectors of yellow fever. Am J Trop Med 1949;29:567-75.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Jeronimo Alencar
Departamento de Entomologia - Fiocruz
Av. Brasil, 4365
21045-900 Rio de Janeiro, RJ, Brasil
E-mail: jalencar@ioc.fiocruz.br

Recebido em 16/10/2002
Reapresentado em 1/4/2003
Aprovado em 8/5/2003

 

 

* Comunicação pessoal do Professor Pedro Vasconcellos - Laboratório de Arbovirus do Instituto Evandro Chagas.