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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.37 n.5 São Paulo Oct. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102003000500021 

COMUNICAÇÕES BREVES BRIEF COMMUNICATIONS

 

Reservatórios domiciliares de água e controle do Aedes aegypti

 

Household water reservoirs and control of Aedes aegypti

 

 

Oswaldo Paulo ForattiniI; Marylene de BritoII

INúcleo de Pesquisa Taxonômica e Sistemática. Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IILaboratório de Culicídeos de Taubaté. Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN). Taubaté, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os reservatórios domiciliares de água, comumente conhecidos como caixas d'água, constituem fonte de desenvolvimento do Aedes aegypti. Em áreas com edificações precárias existe tendência para situar essas caixas sobre a laje das casas. Todavia, observa-se na arquitetura moderna a mesma situação em relação a esses recipientes, mesmo em condomínios de luxo. Assim sendo, chama-se a atenção para a necessidade de, na vigilância entomológica, ter cuidado especial para tais reservatórios domiciliares de água.

Descritores: Aedes. Ecologia de vetores. Insetos vetores. Controle de vetores. Reservatórios. Dengue, prevenção e controle. Aedes aegypti. Vigilância entomológica.


ABSTRACT

Water reservoirs for domestic use are important sites for the development of Aedes aegypti. In poor areas, these reservoirs are often located outdoors upon flat rooftops. In modern architecture buildings, however, the same is seen even in high-class condominiums. Special attention should be given to these modern architectural constructions during entomological surveillance.

Keywords: Aedes. Ecology, vectors. Insect vectors. Vector control. Reservoirs. Dengue, prevention and control. Aedes aegypti. Entomological surveillance.


 

 

A ocorrência da dengue no Brasil pode ser considerada como decorrência da reinfestação do território nacional pelo vetor Aedes aegypti. Este culicídeo tem acentuada preferência por recipientes contendo água relativamente limpa, embora tenha sido observado também em ambientes poluídos (Clements,1 1999). Dentre os recipientes de caráter permanente, que mais têm merecido atenção, encontram-se os reservatórios domiciliares de água, comumente conhecidos como caixas d'água.

As observações foram levadas a efeito na sede do município de Potim, localizada na região do Médio Vale do Paraíba, na região leste do Estado de São Paulo. No período de março de 2000 a setembro de 2001, dos vários tipos de recipientes encontrados positivos para formas imaturas de Ae aegypti, os maiores percentuais foram atribuídos a esses reservatórios, sendo em média: 60% caixas d'água, 12% potes, latas e garrafas, 8,0% vasos de planta, 7,0% pneus, 4,0% de tambores e 9,0% de outros recipientes.1 Essa situação já havia sido relatada no mesmo município (Forattini & Marques,3 2000).

Nas inspeções de rotina dos programas de controle, esses recipientes foram considerados como de difícil acesso uma vez que costumam estar localizados sobre as lajes de casas.2 Por se tratar de típico criadouro instalado em caráter permanente, o volume líquido é mantido constante.

Em novembro de 2001, durante a realização de pesquisa desenvolvida no município, a coleta nos reservatórios foi feita utilizando-se peneira, mediante técnica de varredura, buscando coletar cerca de 70% dos imaturos (Tun-Lin et al,5 1995). Tais coletas limitaram-se às larvas de quarto estádio e às pupas.

Esses reservatórios mostraram ser os locais de preferência para o encontro dessas formas imaturas em relação aos demais recipientes inspecionados, respondendo por 85% do total de recipientes positivos, conforme dados coletados na presente pesquisa. Na maioria deles, a água é de fornecimento público, captada por poços profundos, recebendo tratamento com cloro e flúor.3

Dos reservatórios inspecionados na pesquisa, apenas oito eram preenchidos com água procedentes da própria residência, conhecidos localmente pelo nome geral de "cacimbas". Embora com tampas precariamente conservadas, a inspeção desse número limitado de reservatórios, recebendo líquido de procedência doméstica, não apresentou formas imaturas de Ae aegypti. Tal encontro fez levantar hipótese da existência de algum fator de atração contido na água dos poços (Figura a).

 

 

Na atividade de oviposição de culicídeos, a seleção do criadouro pode estar associada a fatores presentes na água, tais como: matéria orgânica, compostos químicos e presença de imaturos, entre outros (Marques & Miranda,4 1992).

As caixas d'água colocadas acima do telhado constituem planejamento de arquitetura moderna (Figura b). Seja em qualquer situação, ou sobre a laje por falta de recursos para completar o telhado, seja acima deste, torna-se necessário alertar os moradores sobre a importância da vigilância de tais reservatórios.

Considerando que determinados tipos de recipientes podem assumir papéis diferenciados na produção de adultos em diferentes regiões, pode-se atribuir aos reservatórios domiciliares como sendo o principal criadouro de Aedes aegypti, em Potim. E, em se tratando de reservatórios permanentes para o consumo humano, propiciam excelentes condições para a criação do vetor, contribuindo assim para a manutenção de populações desse mosquito, mesmo em períodos não favoráveis, como nos meses de baixas precipitações.

Por outro lado, Fajardo et al2 (2001), em estudo sobre o impacto das campanhas de informação e esclarecimentos à população, sugere que a percepção que a comunidade traz de determinado problema deve ser levado em conta quando do planejamento e implantação dos programas de prevenção e controle, visto que a limpeza e manutenção desses reservatórios são realizadas pelos moradores.

Estudos relacionados aos aspectos físico-químicos da água e ao comportamento de oviposição de fêmeas de Aedes aegypti, em Potim, seriam oportunos para esclarecer tal situação. Poderiam contribuir para o enfrentamento do problema alternativas educativas que contemplem a percepção que a comunidade tem em relação ao vetor, sua biologia e controle.

 

REFERÊNCIAS

1. Clements NA. The biology of mosquitoes. Wellinford: CABI Publications; 1999. v. 2.        [ Links ]

2. Fajardo P, Monje CA, Lozano G, Realpe O, Hernández LE. Nociones populares sobre "dengue" y "rompehuesos", dos modelos de la enfermedad en Colombia. Rev Panam Salud Publica 2001;10:167-8.        [ Links ]

3. Forattini OP, Marques GRAM. Nota sobre o encontro de Aedes aegypti em bromélias. Rev Saúde Pública 2000; 34:543-4        [ Links ]

4. Marques CCA, Miranda, C. Influência de extratos de formas evolutivas sobre atividades de oviposição de fêmeas de Aedes (S) albopictus (Skuse). Rev Saúde Pública 1992;26: 269-71.        [ Links ]

5. Tun-Lin, Maung-Maung-Mya, Sein-Maung-Than and Tin-Maung-Maung. Rapid and efficient removal of immature Aedes aegypti in metal drums by sweep net and modified sweeping method. Southeast Asian J Trop Public Health 1995;26:754-9.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Oswaldo Paulo Forattini
Núcleo de Pesquisa Taxonômica e Sistemática em Entomologia Médica
Av. Dr Arnaldo, 715
01246-904 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: opforati@usp.br

Pesquisa subvencionada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp - Processo Temático n. 99/105178-1)
Recebido em 6/2/2003
Reapresentado em 17/7/2003
Aprovado em 27/7/2003

 

 

1 Dados dos Arquivos da Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN) da Secretaria de Estado da Saúde, Taubaté, SP (SR 3).
2 Dados dos Arquivos da Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN) da Secretaria de Estado da Saúde, Taubaté, SP (SR 3).
3 Dados dos Arquivos da Prefeitura Municipal de Potim – da Secretaria Municipal de Obras.