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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.38 n.1 São Paulo Feb. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004000100010 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Atividade antiparasitária do artemether na esquistossomose mansônica experimental

 

Antischistosomal activity of artemether in experimental Schistosomiasis mansoni

 

 

Susana Zevallos LescanoI; Pedro Paulo ChieffiI, II; Rosa Regina CanhassiI; Marcos BoulosIII; Vicente Amato NetoIV

ILaboratório de Imunopatologia da Esquistossomose (LIM 06) do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IIFaculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IIIDepartamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IVLaboratório de Parasitologia (LIM 46) do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar o efeito da administração intramuscular de artemether a camundongos infectados experimentalmente por Schistosoma mansoni no momento da infecção, durante a maturação dos esquistossômulos e após iniciada a oviposição.
MÉTODOS: Oitenta camundongos Balb/c, fêmeas adultas, foram divididos em oito grupos com 10 animais cada. Sete grupos foram infectados por S. mansoni empregando-se 60 cercárias para cada animal, inoculadas por via subcutânea; o grupo restante foi mantido sem infecção. Entre os sete grupos infectados, seis foram tratados com artemether, segundo o seguinte esquema: três grupos receberam dose correspondente a 100 mg/kg no dia 0, 20 ou 60 após inoculação das cercárias; os demais receberam 50 mg/kg de artemether, no mesmo período que os lotes anteriores. Da 9ª, 10ª e 11ª semanas após infecção os camundongos infectados por S. mansoni foram submetidos a exames de fezes pela técnica de Kato-Katz. No 80º dia do experimento, os animais sobreviventes foram sacrificados e submetidos à perfusão do sistema porta para recuperação de vermes. Determinaram-se, nessa ocasião, os pesos corporal, hepático e esplênico de cada animal.
RESULTADOS: Observou-se queda na oviposição e no número de vermes recuperados entre os camundongos tratados com artemether (50 ou 100 mg/kg) no 20º dia após infecção. A diminuição do número de vermes foi mais expressiva no caso de fêmeas de S. mansoni. Verificou-se, ainda, diminuição significativa nos pesos hepático e esplênico entre os animais tratados com 50 e 100 mg/kg de artemether no 20º dia e também entre os que receberam a droga na dose de 50 mg/kg 60 dias após infecção.
CONCLUSÕES: Ficou evidenciada a atividade anti-Schistosoma do artemether, mesmo ao se empregar dose correspondente a 50 mg/kg, quando a droga foi administrada durante o período de maturação dos esquistossômulos no sistema porta do hospedeiro vertebrado.

Descritores: Schistosoma mansoni. Artemisininas, uso terapêutico. Esquistossomose mansoni, quimioterapia. Experimentaçäo animal. Artemether.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To evaluate the effect of intramuscular injection of artemether in mice experimentally infected with Schistosoma mansoni , at the time of infection, during schistosomula maturation and after the beginning of egg-laying.
METHODS: Eighty adult females Balb/c mice were divided into 8 groups with 10 animals each. Seven groups were infected with S. mansoni using 60 cercariae for each animal, inoculated subcutaneously, and the remaining group was maintained without infection. Among the seven infected groups, six were treated with artemether, according to the following schedule: three groups received doses of 100 mg/kg on days 0, 20 or 60 after inoculation of the cercariae; the other three received 50 mg/kg of artemether, also on days 0, 20 or 60. At the end of the 9th, 10th and 11th weeks after infection all the mice infected with S. mansoni were submitted to fecal examination using the Kato-Katz technique. On the 80th day of the experiment, the surviving animals were sacrificed and submitted to perfusion of the portal system in order to recover the worms. Body, liver and spleen weights of each animal were determined at that time.
RESULTS: A reduction in egg-laying and the number of worms recovered was observed in mice treated with artemether (50 or 100 mg/kg) on the 20th day after infection. The decrease in the number of worms was more notable among S. mansoni females. A significant decrease in liver and spleen weights was also seen on the 20th day among animals treated with 50 or 100 mg/kg of artemether and also among those that received the drug at a dose of 50 mg/kg 60 days after infection.
CONCLUSIONS: Evidence of the antischistosomal activity of artemether was shown, even at a dose of 50 mg/kg, when the drug was administered during the schistosomula maturation period in the portal system of the vertebrate host.

Keywords: Schistosoma mansoni. Artemisinins, therapeutic use. Schistosomiasis mansoni, drug therapy. Animal experimentation. Artemether.


 

 

INTRODUÇÃO

Acredita-se que existam no Brasil no mínimo 2,5 milhões de portadores de esquistossomose mansoni e cerca de 25 milhões de indivíduos expostos aos riscos de contraí-la.9

Duas drogas têm sido amplamente usadas no tratamento da doença com boa eficácia e baixa toxicidade: oxamniquine e praziquantel, ocorrendo preferência pelo uso do segundo nos últimos anos. Em vista do possível desenvolvimento de tolerância ou resistência ao praziquantel, justifica-se a pesquisa e produção de novas drogas para prevenção e cura da esquistossomose mansoni.4

Os derivados da artemisinina, usados com eficácia no tratamento da malária, também revelaram atividade anti-Schistosoma, especialmente o artemether. A ação esquistossomicida da artemisinina foi descoberta em 1980 por cientistas chineses: a droga administrada a animais infectados experimentalmente com Schistosoma japonicum provocou marcada redução da carga de vermes quando comparada com a dos animais controle não tratados (Chen et al apud Utzinger et al,11 2001).

Em 1982, Le et al7 confirmaram a propriedade esquistossomicida do artemether: Camundongos ou cães infectados com S. japonicum e tratados com esta droga em doses variadas e utilizando diferentes vias de administração mostraram redução significativa na carga de vermes. As fases larvárias (esquistossômulos) de S. japonicum mostraram-se também suscetíveis ao artemether. Porém, não foi observado nenhum efeito sobre os ovos do trematódeo.15 Estudos subseqüentes confirmaram as propriedades esquistossomicidas para outros derivados da artemisinina: artesunato,3,8 arteether14 e, recentemente, para a dihidroartemisinina.1 Em 1991, Araújo et al,2 no Brasil, estudaram a atividade do artemether em hamsters e camundongos infectados experimentalmente por S. mansoni 45 dias após a penetração das cercárias. Observaram, ainda, melhores resultados quando a droga foi administrada por via intramuscular.

No presente trabalho procurou-se avaliar o efeito da administração intramuscular de artemether em camundongos experimentalmente infectados com S. mansoni no momento da infecção, durante a maturação dos esquistossômulos e após o início da oviposição.

 

MÉTODOS

Foram utilizados 80 camundongos da linhagem Balb/c, fêmeas adultas, divididos em oito subgrupos: seis infectados por S. mansoni e tratados com artemether, um igualmente infectado porém não tratado com artemether e, por fim, outro subgrupo não infectado nem tratado, conforme mostra a Tabela 1.

 

 

Os camundongos dos subgrupos 1 a 7 foram infectados cada um com 60 cercárias de S. mansoni, cepa BH, por via subcutânea. A cepa BH do trematódeo vem sendo mantida, há mais de 15 anos, no Laboratório de Imunopatologia da Esquistossomose do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo utilizando-se exemplares de Biomphalaria glabrata e hamsters. O inóculo correspondente a 60 cercárias foi obtido por diluição (1:6) de alíquota que continha 1.800 cercárias por mL, injetando-se 0,2 mL em cada camundongo. O artemether, nas doses correspondentes a 50 e 100 mg/kg, foi administrado por via intramuscular aos camundongos dos subgrupos 1 a 6.

Avaliou-se o efeito do artemether por meio de exames de fezes quantitativos efetuados segundo o método de Kato-Katz6 na 9a, 10a e 11a semanas após a infecção. Oitenta dias após o início do experimento os animais sobreviventes foram sacrificados e submetidos à perfusão do sistema porta para recuperação e contagem dos vermes presentes, segundo técnica recomendada por Pellegrino & Siqueira.10 Nessa ocasião, determinaram-se os pesos corporal, hepático e esplênico de cada camundongo.

Durante todo o experimento os camundongos receberam alimentação e água ad libitum e o seu manejo obedeceu às recomendações do Colégio Brasileiro de Experimentação Animal.

Os resultados foram analisados com o emprego de testes estatísticos não paramétricos, utilizando-se nível de significância de 95% (p=0,05).

 

RESULTADOS

Na Tabela 2 consta o número médio de ovos de S. mansoni por grama de fezes obtido nos diversos lotes de camundongos, durante a 9a ,10a e 11a semanas após infecção. Nos subgrupos 2 e 5, tratados com artemether aos 20 dias p.i. com, respectivamente, doses de 100 mg/kg e 50 mg/kg, houve queda acentuada no número de ovos encontrado.

 

 

Na Tabela 3 apresentam-se os dados referentes ao número de vermes recuperados após perfusão do sistema porta dos animais sobreviventes.

 

 

A relação entre os pesos hepático e esplênico e o peso corporal dos camundongos dos diversos grupos estudados está apresentada no Tabela 4. Observou-se diferença significativa entre os valores encontrados nos animais dos subgrupos 2, 5 e 6 e os do lote de camundongos infectados porém não tratados com artemether (subgrupo 7).

 

 

DISCUSSÃO

A esquistossomose continua a ocupar – após a malária – a segunda posição no mundo entre as parasitoses, em termos de extensão de áreas endêmicas e quantidade de pessoas infectadas. O tratamento com praziquantel é eficaz na redução da morbidade, porém, falha na prevenção da reinfecção. Portanto, ainda existem focos com elevados índices de transmissão em áreas endêmicas, apesar da administração regular desta droga.13 Em vista do possível desenvolvimento de tolerância e/ou resistência a essa droga, justifica-se a pesquisa de novas alternativas para a prevenção e cura da esquistossomose.4

A artemisinina (qinghaosu) é o princípio ativo extraído das folhas de Artemisia annua, uma planta amplamente disseminada na China e que também cresce naturalmente na Europa Central, Estados Unidos e Argentina. Sua atividade antimalárica foi confirmada em 1971 e durante os últimos 20 anos, mais de dois milhões de pacientes com malária foram tratados com esta droga e seus derivados (artemether, artesunato e arteeter).11 A atividade antiesquistossomótica da artemisinina foi descoberta em 1980, quando se verificou que sua administração a animais experimentalmente infectados com S. japonicum provocou marcada redução na carga de vermes, comparada à de animais controle não tratados.11 Tais resultados foram confirmados pelos achados de Le et al7 (1982) e, por sua vez, Yue et al15 (1984) verificaram suscetibilidade de esquistossômulos de S. japonicum ao artemether. Não observaram, porém, nenhum efeito dessa droga sobre os ovos do trematódeo.

Estudo experimental efetuado por pesquisadores chineses mostrou maior atividade do artemether contra S. mansoni quando a droga, empregada em dose elevada (400 mg/kg), foi utilizada na fase de evolução dos esquistossômulos (14 a 21 dias após penetração das cercárias), evidenciando-se menor atividade sobre vermes adultos. Pesquisa realizada no Brasil (Araújo et al,2 1991) confirmou a redução moderada da carga parasitária quando o artemether foi empregado em camundongos que albergavam exemplares adultos de S. mansoni.

No presente trabalho procurou-se utilizar doses menores de artemether, mais próximas das empregadas em seres humanos no tratamento da malária, com o objetivo de simular situação que poderá ocorrer em regiões onde malária e esquistossomose são endêmicas. Os resultados obtidos sugerem igualmente maior atividade do artemether sobre os esquistossômulos (Tabela 3). Nos animais dos subgrupos 2 e 5 (infectados e tratados com 100 mg/kg/peso e 50 mg/kg de peso de artemether aos 20 dias pi., ocasião em que se processa a maturação dos esquistossômulos), recuperou-se menor número de vermes após a perfusão do sistema porta. Esses resultados foram confirmados pela ausência ou baixa contagem de ovos nas fezes de camundongos dos mesmos subgrupos na 10a e 11a semanas após a infecção (Tabela 2). Tais achados coincidem, em parte, com os de Xiao & Catto12 (1989) e Xiao et al13 (2000), que trabalharam com camundongos infectados com S. mansoni e observaram que os parasitos com 14 e 21 dias de idade foram os mais suscetíveis ao artemether. Nos subgrupos tratados com artemether, com exceção do subgrupo 3 que recebeu a droga quando já estavam plenamente desenvolvidos os exemplares de S. mansoni, observou-se menor mortalidade do que no subgrupo 7, constituído por camundongos infectados por S. mansoni e não tratados com artemether.

Os animais dos subgrupos 3 e 6 – tratados aos 60 dias pi. com 100 mg/kg e 50 mg/kg de peso de artemether – apresentaram menor número de vermes fêmeas após a perfusão (Tabela 3) e a contagem de ovos foi negativa na última semana do experimento (Tabela 2). Fica, assim, evidenciada atividade antiparasitária do artemether, principalmente sobre esquistossômulos e fêmeas de S. mansoni, mesmo quando se utilizam doses menores dessa droga.

No Brasil, praticamente não existe superposição de áreas endêmicas de malária e esquistossomose. Entretanto, em certas regiões do continente africano, a transmissão dessas parasitoses ocorre concomitantemente e os resultados com o uso de praziquantel têm sido menos promissores do que o esperado.5 Nessas circunstâncias, o emprego de derivados da artemisinina com o intuito de tratar casos de malária pode exercer influência não desprezível na diminuição da taxa de morbidade da endemia esquistossomótica.

 

REFERÊNCIAS

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15. Yue WJ, You JQ, Mei JY. Effects of artemether on Schistosoma japonicum adult worms and ova. Acta Pharmacol Sin 1984;5:60-3.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Pedro Paulo Chieffi
Instituto de Medicina Tropical
Av. Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, 500 2o andar Cerqueira César
05403-000 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: pchieffi@usp.br

Recebido em 1/11/2002
Reapresentado em 11/7/2003
Aprovado em 6/8/2003

 

 

Apresentado no 36o Congresso Brasileiro de Patologia Clínica – Medicina Laboratorial realizado em São Paulo, 2002.