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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.38 n.1 São Paulo Feb. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004000100018 

COMUNICAÇÕES BREVES

 

Consumo de drogas psicoativas por adolescentes escolares de Assis, SP

 

Psychoactive drug use in school age adolescents, Brazil

 

 

José Luiz Guimarães; Pedro Henrique Godinho; Rubens Cruz; Jair Izaías Kappann; Lairto Alves Tosta Junior

Departamento de Psicologia Experimental e do Trabalho da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade do Estado de São Paulo (UNESP). Assis, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Com o objetivo de quantificar o consumo das diferentes drogas psicoativas entre os estudantes da cidade de Assis, SP, e investigar as variáveis relacionadas com seu uso, foi aplicado um questionário que identificava dados sociodemográficos e padrão de uso não-médico de psicotrópicos em 20% dos estudantes das escolas públicas e privadas da cidade. Os maiores índices de consumo para o uso na vida foram os do álcool com 68,9% e o tabaco com 22,7%. As drogas mais utilizadas foram: solventes (10,0%); maconha (6,6%); ansiolíticos (3,8%); anfetamínicos (2,6%); cocaína (1,6%) e anticolinérgicos (1,0%).

Descritores: Transtornos relacionados ao uso de substâncias, epidemiologia. Drogas ilícitas. Adolescente. Consumo de bebidas alcoólicas, epidemiologia. Tabagismo, epidemiologia. Promoção da saúde. Levantamentos epidemiológicos. Questionários. Fatores socioeconômicos.


ABSTRACT

To quantify psychoactive drug use and investigate use-related variables among students of Assis, Brazil, a questionnaire was administered to collect sociodemographic data and identify the pattern of non-medical use of psychoactive drugs in 20% of public and private school students. The largest consumption indexes for lifetime use were seen for alcohol (68.9%) and tobacco (22.7%). Drugs most often used were: solvents (10.0%); marijuana (6.6%); benzodiazepines (3.8%); amphetamines (2.6%); cocaine (1.6%); and anticholinergics (1.0%).

Keywords: Substance-related disorders, epidemiology. Street drugs. Adolescent. Alcohol drinking, epidemiology. Smoking, epidemiology. Health promotion. Health surveys. Questionnaires. Socioeconomic factors.


 

 

INTRODUÇÃO

O consumo de drogas tornou-se motivo de preocupação constante da sociedade brasileira. Neste contexto, as pesquisas epidemiológicas sobre o consumo de substâncias psicoativas são de especial relevância para elaboração de políticas públicas adequadas e efetivas de prevenção ao uso indevido dessas substâncias (Bucher,2 1992).

Há vários estudos sobre o uso de psicotrópicos entre jovens estudantes no Brasil, (Bucher,2 1992; Muza et al,4 1997), sendo os mais abrangentes os realizados pelo CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas. Estes levantamentos foram realizados em 10 capitais brasileiras nos anos de 1987, 1989, 1993 e 1997 (Galduróz et al,3 1997). O presente estudo objetivou quantificar o consumo das diferentes drogas psicoativas entre os estudantes da cidade de Assis, SP, e investigar as variáveis relacionadas com seu uso.

 

MÉTODOS

Os sujeitos pesquisados foram alunos da quinta à oitava séries do ensino fundamental e da primeira à terceira séries do ensino médio de Assis, SP, situada a 450 Km da capital, com 87.251 habitantes. A amostra constituiu-se de 20% do total de alunos de 18 escolas da cidade, tendo sido aplicados 1.803 questionários na rede pública e 320 na rede privada.

As salas foram sorteadas aleatoriamente no momento da aplicação dos questionários, respeitando-se o critério de proporcionalidade por escola, período e série. A aplicação, em cada escola, feita por alunos no ensino superior, previamente treinados, foi simultânea em todas as salas, evitando que eles tomassem conhecimento prévio do conteúdo dos questionários. A esses alunos foram explicados os objetivos da pesquisa e solicitada sua colaboração voluntária, sem que precisassem se identificar. Somente participaram da pesquisa os alunos que estavam presentes na sala de aula e os professores foram convidados a se retirarem para evitar qualquer tipo de constrangimento.

Foi utilizado um questionário fechado de autopreenchimento sem identificação - o mesmo utilizado por Galduróz et al3 (1997), elaborado a partir de critérios da Organização Mundial da Saúde. O questionário continha 43 questões sobre o padrão de uso de psicotrópicos, freqüência dos alunos às aulas e dados sociodemográficos, para o qual foi utilizada a escala socioeconômica da ABIPEME (Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa de Mercado).1 Entre as questões havia uma com nomes de drogas fictícias para detectar incoerências e desatenção no preenchimento.

O critério de classificação utilizado para estabelecer a freqüência do uso de drogas foi baseado em Galduróz et al,3 1997 que definem cinco tipos de uso: uso na vida, uso no ano, uso no mês, uso freqüente e uso pesado.*

As respostas foram digitadas em um banco de dados (Planilha Eletrônica do Microsoft Excel 2000). Já a análise dos dados foi realizada com a utilização dos softwares Estatística 5.0 (1995) e Minitab (1994). Para as comparações, foi utilizado o Teste Qui-quadrado. O nível de significância foi fixado em a=0, 05, considerando o intervalo de confiança de 95% para todos os testes.

Na verificação crítica dos dados, foram eliminados questionários em branco, questionários com mais de três questões sem resposta, ou resposta afirmativa à questão contendo nome de drogas fictícias.

 

RESULTADOS

Do total da amostra, 46,9% dos sujeitos são do sexo masculino e 48,7%, do sexo feminino, distribuídos pelas faixas etárias de 13 a 15 anos (36,1%), 16 a 18 anos (30,0%) e de 10 a 12 anos (27,2%). Apenas 4,4% tinham idade superior a 18 anos. Com relação ao nível socioeconômico, a maioria pertencia à classe C (45,9%), seguida pela B (23,7%), depois A (11,5%), pela classe D (14,3%) e uma minoria pertencia à classe E (1,4%). Do total de alunos, 3,2% não informaram a classe social.1

As drogas psicoativas mais utilizadas na modalidade uso na vida, foram: álcool (68,9%), tabaco (22,7%), solventes (10,1%), maconha (6,6%), ansiolíticos (3,8%), anfetamínicos (2,6%), e cocaína (1,6%) (Tabela).

 

 

Os alunos que fizeram uso na vida de alguma droga faltaram mais à escola (72,5%) do que os não usuários (58,5%), (p<0,05).

Em relação aos sexos, houve maior uso na vida de maconha, cocaína e solventes pelos alunos do sexo masculino e os anfetamínicos e os ansiolíticos entre as meninas. O ansiolítico mais usado foi o Diazepam®, citado por 41,2% dos estudantes, seguido pelo também calmante Lexotan®. Os anfetamínicos mais citados foram o Inibex® e o Hipofagin®.

Quanto às outras drogas, não houve diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos, inclusive para tabaco e álcool.

Além das diferenças associadas às variáveis socioeconômicas entre os alunos das duas redes, constatou-se que na rede pública 16,6% dos estudantes experimentaram alguma droga (exceto tabaco e álcool) e 2,4% fizeram uso freqüente. As substâncias mais consumidas foram: álcool (67,6%), tabaco (22,2%), solventes (8,9%), maconha (6,3%), ansiolíticos (3,5%), anfetamínicos (2,2%), e cocaína (1,7%).O uso pesado de maconha foi de 1,0%, seguido pelos solventes com 0,6%.

Nas escolas particulares, foi maior o uso na vida para o total de usuários: 22,5% (p<0,05), solventes, 16,9% (p<0,05), anfetamínicos, 4,7% (p<0.05). Para as demais drogas, não houve diferença estatística significativa em relação à rede pública: álcool (76,2%), tabaco (25,6%), maconha (8,4%), ansiolíticos (5,0%), e cocaína (1,2%). Já o uso pesado de solventes foi de 1,9% e de maconha, 0,9%.

Nas escolas públicas, constatou-se maior incidência de consumo nas idades acima de 16 anos, o que, provavelmente, se deve à maior disponibilidade de recursos financeiros, já que muitos estudantes dessa rede de ensino, nessa faixa etária, declararam trabalhar. Os índices de uso, no ensino privado, na faixa etária de 16 a 18 anos, é maior em todas as categorias de uso. Em contrapartida, na faixa de 10 a 12 anos, o consumo é maior nas escolas públicas.

 

DISCUSSÃO

Os sujeitos do sexo masculino consumiram mais drogas que os do feminino. Nota-se, porém, uma nítida preferência por parte do sexo feminino, pelas drogas lícitas (medicamentos, como ansiolíticos e anfetamínicos) e pelas drogas ilícitas, pelo sexo masculino, confirmando uma tendência observada em outros estudos (Bucher,2 1992; Galduróz et al,3 1997; Muza et al,4 1997; Zilberman,5 1998).

A comparação entre as redes pública e privada mostra maior prevalência de uso das drogas nas escolas particulares, o que pode estar ligado à condição social, cuja disponibilidade de recursos financeiros facilitaria a aquisição de drogas.

Demais conclusões a respeito ficam prejudicadas devido à escassez de estudos epidemiológicos nas escolas particulares, em virtude da dificuldade de acesso de pesquisadores para a obtenção de dados. (Bucher,2 1992).

Os índices de consumo de drogas nas escolas de Assis são semelhantes aos encontrados pelos pesquisadores do CEBRID, para a cidade de São Paulo (19% para uso na vida) e um pouco inferiores aos de outras capitais do País (média de 24,7% para uso na vida), pesquisadas pelos mesmos autores (Galduróz et al,3 1997) que, por sua vez, são bem inferiores aos índices dos países desenvolvidos (Muza et al4).

O consumo de drogas psicoativas sempre existiu na história da humanidade, variando somente a quantidade, tipo e a forma de seu uso. Se existe mais ênfase num ou noutro tipo de consumo em determinada época, isso se deve a fatores específicos e característicos do momento histórico em que se vive. Nesse sentido, o consumo abusivo de drogas é mais um sintoma do que a causa de problemas em nossa sociedade e deve ser tratado tendo em vista a complexidade e magnitude do assunto. A forma mais eficaz de minimizar o problema é o desenvolvimento de ações preventivas específicas para cada segmento e faixa etária, tendo como objetivo a valorização da saúde e o respeito à vida.

 

REFERÊNCIAS

1. Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa de Mercado [ABIPEME].Proposição para um novo critério de classificação socioeconômica. São Paulo; 1978. p. 15.        [ Links ]

2. Bucher R. Drogas e drogadição no Brasil. Porto Alegre: Artes Médicas; 1992.        [ Links ]

3. Galduróz JCF, Noto AR, Carlini EA. IV levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de 1º e 2º graus em 10 capitais brasileiras-1997. São Paulo: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas /Escola Paulista de Medicina; 1997.        [ Links ]

4. Muza GM, Bettiol H, Muccillo G, Barbieri MA. Consumo de substâncias psicoativas por adolescentes escolares de Ribeirão Preto, SP. I - Prevalência do consumo por sexo, idade e tipo de substância. Rev Saúde Pública 1997;31:21-9.        [ Links ]

5. Zilberman ML. Características clínicas da dependência de drogas em mulheres [tese de doutorado]. São Paulo: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; 1998.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
José Luiz Guimarães
Av. Dom Antônio, 2100 Parque Universitário Caixa Postal 65
19806-900 Assis, SP, Brasil
E-mail: jluiz@assis.unesp.br

Recebido em 5/9/2002
Reapresentado em 10/7/2003
Aprovado em 6/8/2003
Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP - Processos nº. 99/08304-0 e 99/08305-6)

 

 

* Uso na vida: quando a pessoa utilizou qualquer droga psicotrópica pelo menos uma vez na vida; uso no ano: utilizou drogas nos últimos doze meses anteriores à pesquisa; uso no mês: utilizou drogas nos últimos trinta dias; uso freqüente: utilizou drogas seis ou mais vezes nos últimos 30 dias, e uso pesado: utilizou drogas 20 ou mais vezes no mês que antecedeu a pesquisa.