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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.38 n.1 São Paulo Feb. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004000100021 

CARTAS AO EDITOR

 

Bebedouro doméstico como criadouro de Aedes aegypti

 

Domestic water reservoir as breeding site of Aedes aegypti

 

 

Allan Martins da Silva

Secretaria de Estado da Saúde do Paraná
Coordenador Estadual de Pesquisas em Entomologia Médica

 

 

Aedes (Stegomyia) aegypti (Linnaeus, 1762) é um díptero Culicidae vetor da dengue e da febre amarela urbana. Participa também do ciclo de transmissão de outras doenças para o homem e para animais nas Américas, onde suas formas imaturas se desenvolvem quase que exclusivamente em recipientes artificiais (Forattini,2 2002). Tais criadouros são representados por recipientes abandonados a céu aberto, preenchidos pelas águas das chuvas, e aqueles utilizados para armazenar água de uso doméstico, como caixas d'água, tonéis, latões e cisternas, entre outros (Consoli & Lourenço de Oliveira,1 1994).

As normas do Ministério da Saúde para o controle do Aedes aegypti incluíam reservatórios domésticos de água potável como criadouros de mosquitos, sendo os mais comuns os potes, moringas, talhas e filtros, classificados como depósitos de barro (SUCAM,4 1986). Os atuais bebedouros domésticos abastecidos por água mineral engarrafada podem ser incluídos entre os depósitos artificiais especiais. Dessa forma, deixam de aparecer nas estatísticas de combate ao A. aegypti.

Segundo Forattini et al3 (1998), vivencia-se a produção de grande número de objetos e implementos plásticos de caráter transitório. Tal fato poderia estar influenciando grandemente a oferta de locais de criação para culicídeos. Recentemente, na região Norte do Estado do Paraná, foram encontradas formas imaturas de A. aegypti colonizando bebedouros domésticos. O primeiro encontro ocorreu no município de Bandeirantes (23º06' S e 50º22' W), dia 18/2/2002, em um bebedouro abastecido de água mineral engarrafada, localizado no prédio da Secretaria Estadual das Relações do Trabalho (SERT), onde foram coletadas 22 larvas de segundo estádio. No dia 17/10/2002, em uma residência do Bairro Aeroporto, município de Jacarezinho (23º09' S e 49º58' W), foram identificadas oito larvas de segundo e terceiro estádios. Nesse bebedouro, também instalado no intradomicílio, foram observadas frestas de sete mm entre o garrafão e o anel de vedação. Embora a casa estivesse desabitada, ela era freqüentemente visitada pelo proprietário. Ele garantiu que a cada troca do garrafão era efetuada a higienização, que consistia na lavagem da cuba com detergente líquido. As observações ocorreram no momento da troca do galão, quando a cuba retinha o equivalente a 500 ml de água, que para alguns modelos de bebedouros corresponde à porção excedente após o esvaziamento parcial do garrafão.

Assim sendo, os dois achados merecem ser levados em consideração face as grandes dificuldades de controlar a dengue no País. Há, portanto, que se discutir as diversas razões para incluir o mencionado bebedouro no rol dos criadouros artificiais utilizados pelo A. aegypti. Primeiramente, existe a possibilidade da cuba do bebedouro ficar descoberta, ou seja, sem o garrafão sobreposto, permitindo a oviposição de mosquitos que, a exemplo do A. aegypti, depositam seus ovos acima da linha d'água. Nesse caso, com o reabastecimento do bebedouro não higienizado, a água atingiria os ovos depositados na parede interna da cuba, havendo a eclosão das larvas. As imperfeições da parte superior do garrafão podem produzir frestas entre ele e o anel de vedação da cuba, permitindo a entrada de mosquitos fêmeas. Outra possibilidade remota, porém plausível, é a de que os bebedouros estão sendo abastecidos com água da rede pública, procedentes de reservatórios pouco protegidos contendo larvas de mosquito carreadas para os bebedouros pela troca dos galões.

Mesmo se tratando do primeiro registro de A. aegypti nesse tipo de bebedouro doméstico, o Ministério da Saúde já divulga em seus informativos a necessidade de lavar o suporte de garrafões de água mineral no momento da troca. Desta forma, fica claro que a orientação dos agentes envolvidos nos programas de combate à dengue deverá contemplar principalmente a higienização correta e periódica do bebedouro. Entremente, deverão também ser indicados cuidados com a vedação de possíveis frestas existentes entre o garrafão e a cuba.

Finalmente, no que se refere à técnica de pesquisa e tratamento focal empregados atualmente no controle do A. aegypti, deve-se considerar a inspeção de bebedouros domésticos como potenciais criadouros desse vetor.

 

REFERÊNCIAS

1. Consoli RAGB, Lourenço de Oliveira R. Principais mosquitos de importância no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1994.

2. Forattini OP. Culicidologia médica. Vol. 2. São Paulo: Editora Universidade de São Paulo; 2002.

3. Forattini OP, Kakitani I, Marques GRAM, Brito M. Formas imaturas de anofelíneos em recipientes artificiais. Rev Saúde Pública 1998;32:189-91.

4. Superintendência de Campanhas de Saúde Pública [SUCAM]. Combate ao Aedes aegypti: instruções para guardas, guardas-chefes e inspetores. 4ª ed. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 1986.

 

 

Recebida em 30/9/2003

 

 

* This section "Letters to the Editor" is intended to discuss topics submitted to RSP in recently published articles as well as public health issues (maximum 600 words).