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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.38 n.2 São Paulo Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004000200018 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Uso de drogas psicotrópicas por estudantes: prevalência e fatores sociais associados

 

 

Meire SolderaI; Paulo DalgalarrondoI; Heleno Rodrigues Corrêa FilhoII; Cleide A M SilvaIII

IDepartamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp). Campinas, SP, Brasil
IIDepartamento de Medicina Preventiva e Social da FCM/Unicamp. Campinas, SP, Brasil
IIIComissão de Pesquisa da FCM/Unicamp. Campinas, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Determinar a prevalência do uso pesado de drogas por estudantes de primeiro e segundo graus em uma amostra de escolas públicas e particulares, e identificar fatores demográficos, psicológicos e socioculturais associados.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo transversal com uma técnica de amostragem do tipo intencional comparando-se escolas públicas de áreas periféricas e centrais e escolas particulares. Foi utilizado um questionário anônimo de autopreenchimento. A amostra foi constituída por 2.287 estudantes de primeiro e segundo graus da cidade de Campinas, SP, no ano de 1998. Considerou-se uso pesado, o uso de drogas em 20 dias ou mais nos 30 dias que antecederam a pesquisa. Para análise estatística, utilizou-se a análise de regressão logística politômica – modelo logito, visando identificar fatores que influenciem este modo de usar drogas.
RESULTADOS: O uso pesado de drogas lícitas e ilícitas foi de: álcool (11,9%), tabaco (11,7%), maconha (4,4%), solventes (1,8%), cocaína (1,4%), medicamentos (1,1%), ecstasy (0,7%). O uso pesado foi maior entre os estudantes da escola pública central, do período noturno, que trabalhavam, pertencentes aos níveis socioeconômicos A e B, e cuja educação religiosa na infância foi pouco intensa.
CONCLUSÕES: Maior disponibilidade de dinheiro e padrões específicos de socialização foram identificados como fatores associados ao uso pesado de drogas em estudantes.

Descritores: Transtornos relacionados ao uso de substâncias. Alcoolismo. Estudantes. Adolescente. Prevalência. Fatores socioeconômicos. Estudos transversais.


 

 

INTRODUÇÃO

As primeiras experiências com drogas ocorrem freqüentemente na adolescência. Nessa fase, o indivíduo é particularmente vulnerável do ponto de vista psicológico e social. Assim, é de particular importância estudar essa população de forma minuciosa, principalmente no que se refere ao uso freqüente e pesado de drogas lícitas e ilícitas, e identificar fatores psicológicos e socioculturais associados a tal uso.10

A pedido do Ministério da Saúde, um grupo de pesquisadores realizou quatro extensos levantamentos sobre o uso de drogas, abrangendo 10 capitais brasileiras, nos anos de 1987, 1989, 1993 e 1997.4 A comparação desses quatro levantamentos mostrou que as drogas mais utilizadas foram álcool, tabaco e solventes. Revelou ainda que o uso pesado de maconha aumentou nas 10 capitais pesquisadas, bem como o uso de álcool em oito delas.

Vários estudos nacionais e internacionais têm analisado a associação de fatores psicológicos e socioculturais ao uso de drogas por estudantes. Eles identificam, por exemplo, que variáveis como gênero masculino,3 idade,10,16 trabalho,17 desestruturação familiar9 e ausência de religião8 estão associados a maior uso de drogas por estudantes, em diversos contextos socioculturais.

Em vista disso, o conhecimento preciso de fatores associados ao uso de drogas em jovens no País é de grande relevância, pois permitiria intervenções sobre comportamentos e fatores de risco com vistas a inibir o possível progresso de um uso pesado de drogas lícitas e ilícitas, vício progressivamente deletério para o jovem.

Geralmente, os estudos sobre o uso de drogas por estudantes realizados no Brasil têm sido conduzidos quase que exclusivamente nas capitais. A presente pesquisa compara também diferentes tipos de escolas: centrais, periféricas e particulares. É bastante plausível que a realidade do uso de drogas em diferentes áreas da cidade varie, revelando desigualdades epidemiológicas no meio urbano.

Assim, é de se pressupor que nas regiões periféricas das grandes cidades brasileiras, onde a mortalidade por causas violentas e o tráfico de drogas são mais intensos, haveria também um consumo igualmente mais intenso. O presente trabalho tem por objetivo determinar a prevalência do uso pesado de drogas por estudantes de primeiro e segundo graus em escolas públicas centrais e periféricas e particulares e os fatores sociodemográficos, culturais e psicopatológicos associados a esse uso.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal com uma técnica de amostragem do tipo intencional, na qual se privilegiou o estudo de três grupos distintos de escolas: públicas centrais, públicas periféricas e particulares. Objetivou-se com isso identificar padrões diferenciais de uso de álcool e drogas em distintas áreas da cidade. As linhas metodológicas gerais desenvolvidas seguem, com as adaptações necessárias em função dos objetivos e dimensão do trabalho e o método proposto pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID).2

Foi utilizado um questionário anônimo de autopreenchimento, baseado no questionário do CEBRID. Conforme procedimento padronizado e recomendado pelo CEBRID, a aplicação foi coletiva, em sala de aula, sem a presença do professor. Foi feita uma explicação clara e detalhada aos alunos sobre os objetivos da pesquisa, garantindo-se enfaticamente o caráter anônimo e sigiloso do questionário. Dúvidas sobre as questões foram respondidas e após cerca de 50 minutos os questionários foram recolhidos. A partir do estudo piloto, calculou-se o tamanho da amostra no Epi Info. Esse cálculo amostral foi feito estimando-se 5% do erro tipo I (alfa) com população finita estimada em 100.000 alunos para a cidade no grau sob estudo sem reposição; prevalência de usuários de 1%; erros de desenho de no máximo 1% com precisão delta de 1%.

Uma vez que se teve como objetivo comparar diferença substancial de comportamento entre escolas públicas e particulares considerando-se as localizações periférica e central para cada nível de escolaridade, tornou-se necessária uma amostra mínima de 367 estudantes do primeiro e do segundo graus, em cada um dos três estratos pretendidos. Foram compostos então seis estratos de 400 alunos totalizando 2.400 estudantes, distribuídos entre as sexta e oitava séries do primeiro grau e primeira e terceira séries do segundo grau.

A partir das listagens de escolas fornecida pelas delegacias de ensino, foi feita a escolha intencional das participantes. Foram selecionadas duas escolas públicas centrais, duas públicas periféricas e três particulares que possuíam primeiro e segundo graus. Das listagens de alunos e turmas de 35 alunos foram sorteadas seis classes de cada grau por escola. Todos os estudantes presentes eram convidados a preencher os questionários; durante o inquérito, não foi registrada irregularidade na freqüência dos alunos às salas visitadas. Foram incluídos todos os respondentes e excluídos 86 indivíduos maiores de 26 anos de idade, limite etário máximo do estudo.

Foram aplicados 2.375 questionários. Não houve nenhuma recusa em respondê-lo. Dois questionários foram desprezados por preenchimento incompleto ou não compreensão das perguntas.

Portanto, a amostra foi constituída por 2.287 estudantes de primeiro e segundo graus de escolas públicas centrais e periféricas e escolas particulares da cidade de Campinas, SP, no ano de 1998. As estimativas oficiais do total de estudantes matriculados na cidade para a época apontavam para cerca de 56 mil estudantes matriculados de sexta a oitava séries do primeiro e segundo graus e 52 mil matriculados no segundo grau. Assim, a amostra estudada contém aproximadamente 2% do total de estudantes.

Considerou-se uso pesado, de acordo com a Organização Mundial de Saúde18 (1981), o uso de drogas em 20 dias ou mais nos 30 dias que antecederam a pesquisa.

Para identificar os fatores que influenciam o uso de drogas, utilizou-se a análise de regressão logística – modelo logito.

As drogas estudadas foram: álcool, tabaco, solventes, medicamentos psicotrópicos não-prescritos, maconha, cocaína e ecstasy. As variáveis regressoras foram: tipo de escola (pública periférica, pública central e particular); grau escolar; período que estudava; gênero; nível socioeconômico; trabalho; tipo de lazer preferencial; situação matrimonial dos pais; com quem mora; por quem foi criado nos últimos dois anos; sentir-se apoiado e compreendido pelos pais; sentir-se apoiado e compreendido pelos amigos(as) e/ou namorado(a); ter uma religião; filiação religiosa; educação religiosa na infância, e o GHQ12 (General health questionnaire 12) que avalia sintomas psiquiátricos menores, como ansiedade, depressão e insônia – validado no Brasil por Mari & Willians,7 1985.

Como o uso de várias drogas (poliuso) é sabidamente freqüente e visando comparar estudantes que não usaram nenhuma droga no mês e os que fizeram uso pesado, criou-se para o presente estudo uma variável denominada DROGA, que assume o valor 0 se o estudante não fez uso no último mês de nenhuma das drogas citadas no estudo, e 1, se fez uso de pelo menos uma droga em 20 dias ou mais do último mês (uso pesado de pelo menos uma das drogas citadas no estudo). O uso pesado de drogas lícitas e ilícitas é, de modo geral, a forma de uso que antecede a dependência química e todas suas conseqüências médicas, psicológicas e sociofamiliares.13

 

RESULTADOS

Prevalência

O uso pesado de drogas ocorreu da seguinte forma: álcool (11,9%; N=269), tabaco (11,7%; N=265), maconha (4,4%; N=101), solventes (1,8%; N=40), cocaína (1,4%; N=32), medicamentos psicotrópicos (1,1%; N=24), ecstasy (0,7%; N=17).

Análise multivariada

As estimativas de regressão logística multivariada para uso pesado de droga são apresentadas na Tabela 2.

 

 

 

 

A probabilidade do uso pesado de drogas foi maior nos estudantes da escola pública central, que trabalhavam, do período noturno, do nível socioeconômico A e B e cuja educação religiosa na infância foi pouco intensa.

A probabilidade do estudante da escola pública central fazer uso pesado de drogas foi 4,0 vezes maior que aquela da escola periférica; do que trabalhava 2,5 vezes maior que daquele que não trabalhava; do período noturno 2,2 vezes maior que daquele do período matutino; dos níveis socioeconômicos A e B 2,0 vezes maior que daqueles dos níveis D e E; que teve educação pouco religiosa na infância 1,7 vezes maior que a daquele que teve educação muito religiosa; que se sentia pouco apoiado e compreendido pela família 1,2 vezes maior que a daquele que se sentia muito apoiado e compreendido pela família. Cada ponto a mais no GHQ-12 aumentou em 1,2 vezes a chance do estudante fazer uso pesado de drogas.

 

DISCUSSÃO

Vários autores relatam que para pesquisas que têm por finalidade identificar a prevalência do uso de drogas por estudantes, o método mais comumente utilizado é o questionário de autopreenchimento aplicado coletivamente em sala de aula.11 Essa opção justifica-se por ser relativamente barata e bem aceita pelos sujeitos pesquisados, uma vez que os índices de recusa se situam abaixo de 1%. É considerado um bom procedimento para se obter informações sobre comportamentos privados, pois o anonimato é explicitamente garantido.12

Entretanto, deve-se salientar que o tipo de questionário utilizado no presente trabalho mede o relato do consumo de drogas e não o consumo em si; portanto, deve-se ter cautela na interpretação dos dados.2

Outra limitação desse desenho de pesquisa é que, por ser uma pesquisa feita em sala de aula, os jovens com envolvimento mais grave com drogas podem já ter sido excluídos do sistema escolar ou faltem com muita freqüência, não sendo captados pelo estudo. Trabalhos desenhados especificamente para avaliar a sub-população que abandonou ou é expulsa das escolas de primeiro e segundo graus devem verificar essa hipótese.

A amostra não é representativa das escolas públicas e particulares de Campinas, o que impede a extrapolação dos dados.

As diferentes drogas utilizadas

Isoladamente, a droga mais utilizada de forma pesada no presente estudo foi o álcool (11,9%), seguido de perto pelo tabaco (11,7%). As altas prevalências encontradas, em torno de 12%, indicam que tal uso é relevante e preocupante e deve ser tomado em conta em relação a possíveis ações educativas, preventivas e terapêuticas para jovens estudantes.

A droga ilícita mais utilizada no presente estudo foi a maconha (4,4% fizeram uso pesado de maconha). Swadi16 (1988), em Londres, assim como Stevens et al15 (1995), em Hampshire (EUA), também detectaram que a droga ilícita mais utilizada nesses contextos foi a maconha. No levantamento de 1997, realizado pelo CEBRID em dez capitais brasileiras, a maconha ultrapassou os solventes como a droga de maior uso na vida apenas na cidade de Porto Alegre. Nas demais capitais, aparece na segunda ou terceira posição (depois de solventes e ansiolíticos). A comparação entre os quatro levantamentos do CEBRID mostrou que o uso freqüente e pesado da maconha tiveram crescimento estatisticamente significativo.4 A maconha é considerada, por muitos jovens (e às vezes por seus familiares), uma droga leve, e talvez por isso mais aceitável. Há evidências, entretanto, que o uso pesado da droga tem implicações sérias para a saúde física e mental de seus usuários.14

Os solventes aparecem logo após a maconha. É importante relembrar que são drogas com grande potencial lesivo à saúde devido principalmente à sua neurotoxicidade.4

Diferentemente da pesquisa de Muza10 (1997), a cocaína aparece, no presente estudo à frente dos medicamentos psicotrópicos, ocupando o terceiro lugar entre as drogas ilícitas. Dados dos quatro levantamentos realizados pelo CEBRID mostram que o uso freqüente da cocaína teve aumento nas capitais pesquisadas. Indicadores estatísticos, como internações hospitalares e apreensões de cocaína feitas pela Polícia Federal, também mostram o crescimento do uso dessa droga.4 É particularmente preocupante o uso crescente da cocaína em forma de crack, pois tal uso implicaria no rápido desenvolvimento de dependência,5,6 envolvimento com atividades criminosas6 e desencadeamento de quadros psiquiátricos graves.5

O ecstasy foi a droga menos usada, talvez por ser cara e não muito difundida ainda na cidade estudada, além de estritamente vinculada a uma subcultura específica (dance) e seus rituais, como as festas raves.1

Variáveis socioculturais associadas ao uso pesado de drogas

Atualmente, a maior parte dos pesquisadores considera que o uso de drogas por estudantes não é causado por um único fator, mas por uma combinação de vários deles, tais como os genéticos, psicológicos, familiares, socioeconômicos e culturais. Assim, entende-se que o uso e a dependência de drogas são fenômenos bastante complexos que não podem ser reduzidos a uma faceta da dimensão biológica, psicológica ou social.

No presente estudo, pela análise multivariada dos dados, constatou-se que, contrariamente ao esperado, o uso de drogas foi menor nos estudantes das escolas públicas periféricas. São áreas da cidade onde o tráfico seria maior, o que se supõe pela maior mortalidade por causas violentas e por apreensões de drogas realizadas pela polícia. Apesar de haver supostamente um tráfico significativamente maior nestes bairros, o consumo de drogas pelos estudantes que freqüentam as escolas da periferia é significativamente baixo em relação ao dos bairros centrais.

Nesse sentido, é plausível que a disponibilidade financeira possa exercer uma influência significativa, pois, no presente estudo, encontrou-se que o uso pesado de drogas, além de associar-se ao trabalho, esteve associado a pertencer aos níveis socioeconômicos A e B. Assim, os estudantes de escolas públicas periféricas, apesar de viverem em áreas da cidade onde o tráfico é supostamente mais intenso, têm menor poder aquisitivo para a compra dessas drogas. Outra possibilidade é que jovens desses bairros envolvidos com o uso pesado de drogas acabem com certa freqüência "expelidos" do sistema escolar e talvez se envolvam com o "pequeno" tráfico de drogas ("aviões"), inclusive para viabilizar o consumo próprio.

Os dados da presente pesquisa também corroboram outros estudos que mostram a relação entre maior uso de drogas e estudantes que trabalham.16 Os resultados alcançados e os encontrados na literatura, referentes ao trabalho, promovem a reflexão sobre crenças relativamente bem estabelecidas na sociedade brasileira, como a de que o tempo livre seria um fator propiciador para o uso de drogas. Tal concepção implicaria na identificação de um suposto estudante pobre, que passaria maior parte de seu tempo livre na rua, sendo assim um sujeito vulnerável ao uso de drogas. Por essa razão, a reflexão referente ao trabalho do adolescente deve-se deslocar do fazer versus não fazer para a do como fazer, ou seja, deve-se analisar a qualidade do impacto de diferentes formas de trabalho sobre o jovem.

É possível hipotetizar que a associação entre o uso pesado de drogas e trabalho encontrada no estudo pode se dar por, pelo menos, três fatores: o estresse conseqüente por ter que assumir precocemente uma função adulta e repleta de obrigações, a disponibilidade financeira decorrente de receber um salário, assim como padrões de socialização associados ao "mundo do trabalho" (por exemplo, "beber" no final do expediente).

A dimensão religiosa também se revelou, no presente estudo, importante. Estudantes com uma educação religiosa na infância mais intensa tiveram significativamente na análise multivariável menor uso pesado de drogas. De uma maneira geral, a literatura mostra que jovens ligados de alguma forma à religião fazem menos uso de drogas.8,11

Tal associação pode estar relacionada aos códigos morais implícitos nas religiões que freqüentemente condenam o uso de drogas. Ao seguir uma religião, adere-se a um conjunto de valores e de comportamentos, entre os quais se inclui a proibição do uso de drogas.

A questão da estrutura familiar é tradicionalmente enfatizada quando se estuda o uso de drogas em adolescentes. No presente estudo, foi identificada a importância do ambiente e estrutura familiares como possível fator protetivo para o uso de drogas. Foi encontrado menor uso pesado em estudantes que se sentiam (de certa forma) apoiados e compreendidos pela família.

Vários autores identificaram um uso de drogas em níveis de risco para jovens pertencentes a famílias com pais separados ou famílias com relacionamentos muito deteriorados.8 Dessa forma, o presente estudo corrobora pesquisas anteriores que identificam associação entre o uso de drogas em níveis de risco e pior ambiente familiar.

Finalmente, constatou-se que o aumento da pontuação no GHQ-12 associou-se ao risco de uso pesado de drogas. O dado é relevante, pois mostra a relação entre o uso pesado de drogas e sofrimento psíquico. Esses jovens encontram-se provavelmente numa situação séria de risco psicossocial, pois o cluster – sofrimento psíquico, pior ambiente familiar e uso pesado de drogas – deve facilitar uma evolução para dependência química, desorganização da personalidade e mesmo quadros psiquiátricos mais graves.

Em conclusão, o presente estudo identificou que o uso pesado de drogas esteve relacionado com fatores sociodemográficos, culturais e psicopatológicos, que podem ser agrupados em "protetores" e "facilitadores". Como fator protetor foi identificada a educação marcadamente religiosa na infância, o que talvez indique um meio familiar mais controlador ou estruturado. Como fatores facilitadores do uso pesado de drogas lícitas e ilícitas, foram identificados a maior disponibilidade financeira (nível socioeconômico e trabalho), padrões de socialização "adulto mórficos" (trabalho e ensino noturno) e um possível pior ambiente familiar (sentir-se menos apoiado e compreendido pela família). Os achados empíricos relatados colaboram para uma melhor compreensão do uso pesado de drogas por jovens no meio sociocultural do País, e devem ser levados em conta em pesquisas e intervenções educativas e preventivas no futuro.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Meire Soldera
Rua Pascoal Notte, 32 Parque Taquaral
13087-380 Campinas, SP, Brasil
E-mail: meire@lexxa.com.br

Recebido em 6/11/2002
Reapresentado em 19/8/2003
Aprovado em 19/9/2003
Pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp - Processo n. 00/02082-4)

 

 

Trabalho desenvolvido no Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.
Artigo baseado em tese de doutorado apresentada à Universidade Estadual de Campinas, 2001.