SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.38 issue2Evaluation of the program for prevention and health promotion in phenylketonuria patients in BrazilEstimate of the validity of a new method for the isolation of rabies virus author indexsubject indexarticles search
Home Page  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.38 n.2 São Paulo Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004000200022 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Metodologia para a avaliação da atividade física habitual em homens com 50 anos ou mais

 

 

Alex Antonio FlorindoI; Maria do Rosario Dias de Oliveira LatorreI; Patrícia Constante JaimeII; Tomoe TanakaI; Cristiano Augusto de Freitas ZerbiniIII

IDepartamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
IIDepartamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP. São Paulo, SP, Brasil
IIIServiço de Reumatologia do Hospital Heliópolis. São Paulo, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever a metodologia de avaliação da atividade física habitual, utilizanda em uma pesquisa em população masculina, por meio de um questionário já validado.
MÉTODOS: O questionário de atividade física habitual de Baecke, traduzido para a língua portuguesa e, a seguir, foi realizado o back translation. Em sua versão final o questionário foi aplicado em estudo epidemiológico transversal, realizado com 326 homens com idade igual ou superior a 50 anos. A consistência interna entre as questões foi analisada pelo a de Cronbach e foram calculados os coeficientes de correlação de Spearman entre os escores de atividade física habitual, bem como os coeficientes de correlação parcial, ajustados por idade, índice de massa corporal e escolaridade.
RESULTADOS: A consistência interna mostrou-se satisfatória nas magnitudes de atividade física ocupacional e exercícios físicos no lazer. Foram obtidas correlações significativas entre todos os escores de atividades físicas com o escore total de atividade física habitual, independente da idade, escolaridade e índice de massa corporal.
CONCLUSÕES: O questionário Baecke mostrou-se um instrumento prático para avaliar a atividade física habitual, aliando rapidez na aplicabilidade e facilidade no entendimento para as respostas, sendo indicado para estudos epidemiológicos no Brasil.

Descritores: Exercício. Avaliação. Métodos. Questionários. Saúde do idoso. Densidade óssea. Atividade física habitual.


 

 

INTRODUÇÃO

A busca de métodos para avaliar atividades físicas num contexto populacional, que sejam acessíveis do ponto de vista de custo e facilidade de aplicação, tem estimulado pesquisadores a desenvolverem questionários para a avaliação da atividade física habitual (AFH). Sabe-se que é preciso ter cautela na escolha do questionário, pois ele deve abranger todas as peculiaridades da AFH, que podem variar de acordo com o ambiente, cultura e características sociodemográficas das populações.

Atualmente, existem mais de vinte instrumentos listados na literatura, sendo alguns específicos para adolescentes, mulheres e homens adultos e idosos.20 O questionário de AFH de Baecke et al2 teve sua origem na Holanda e foi publicado em 1982. Ele fornece três escores de atividades físicas dos últimos 12 meses, caracterizados por atividades ocupacionais, exercícios físicos e atividades de lazer e locomoção. O instrumento tem sido empregado em pesquisas epidemiológicas num contexto mundial.3,4,10,15,20 No Brasil, foi utilizado analisando o escore de AFH como variável quantitativa contínua6-8 e categórica.26

O questionário de AFH de Baecke et al2 está estruturado de forma quali-quantitativa em escala de likert, levando em conta o ponto de vista das pessoas em relação às suas atividades físicas; é de fácil entendimento e preenchimento. O objetivo do presente estudo foi descrever a tradução para o português e a consistência interna do questionário de Baecke et al2 de AFH, bem como a metodologia de avaliação da AFH em pesquisa que estudou os fatores relacionados à densidade da massa óssea em homens com 50 anos ou mais.

 

MÉTODOS

Fase de tradução do questionário de atividade física habitual

Inicialmente, foi solicitado aos autores do questionário Baecke et al2 de AFH permissão para traduzir o instrumento. Obtida a permissão, a fase de tradução foi realizada em três etapas, seguindo algumas recomendações adaptadas de outros estudos.5,11,26

Na primeira etapa, o questionário original de Baecke et al2 foi traduzido do inglês para o português por dois pesquisadores experientes. Houve uma versão de consenso dessa tradução com base na discussão dos pesquisadores responsáveis pelo estudo. Na segunda etapa, o back translation foi realizado por dois professores de inglês, nascidos nos Estados Unidos e na Inglaterra. Novamente, os responsáveis pelo estudo compararam as versões em inglês realizadas pelos professores, discutindo as discrepâncias encontradas. Elas referiam-se às adaptações verbais nas questões 1, 6, 8 e 9 do questionário. Para finalizar, o grupo teve um novo contato com os autores do original, apresentando os resultados finais da tradução e aplicação do instrumento.*

Validação e reprodutibilidade

A validação e reprodutibilidade do questionário foram analisadas em alunos do sexo masculino que cursavam o sexto semestre do curso de Educação Física da Escola da Polícia Militar do Estado de São Paulo.9 Os escores de exercícios físicos no lazer, das atividades de lazer e locomoção e escore total foram considerados válidos para medir a freqüência e a intensidade da prática de exercícios físicos, pois foram correlacionados significativamente com o índice de exercícios físicos, com a percentagem de decréscimo na freqüência cardíaca e com o índice de atividades de locomoção. Ao comparar as entrevistas com uma diferença de 45 dias, verificou-se que as médias dos escores foram semelhantes e os coeficientes de correlação intraclasse superiores a 0,69, demonstrando uma boa reprodutibilidade.

Questionário de avaliação da atividade física habitual

O questionário de Baecke et al2 investiga a AFH dos últimos 12 meses. Este instrumento é composto por 16 questões e abrange três componentes da atividade física: 1) atividades físicas ocupacionais (Q1 a Q8); 2) exercícios físicos praticados durante o tempo de lazer (Q9 a Q12); e 3) atividades físicas durante o tempo de lazer e atividades físicas de locomoção, excluindo exercícios físicos (Q13 a Q16).

A atividade física ocupacional (AFO) é avaliada através das questões 1 a 8. A questão 1 leva em conta o tipo de ocupação, classificada em três níveis de gasto energético: leve, moderado e vigoroso. Para essa classificação, recomenda-se utilizar o compêndio de atividades físicas de Ainsworth,1 pois as profissões citadas no artigo original do questionário não são muito abrangentes; além disso, existem profissões que estão desatualizadas em relação ao gasto energético. As outras questões (2 a 8) se referem às atividades durante o trabalho e são bem objetivas: ficar sentado, ficar em pé, andar, carregar carga pesada, se sentir cansado após o trabalho e comparar fisicamente o trabalho com pessoas da mesma idade. Para os aposentados ou licenciados, deve-se considerar uma segunda atividade ocupacional.22 No caso de não existir uma segunda atividade, recomenda-se adotar o escore 1,000.20 Para as atividades domésticas, recomenda-se adotar o nível moderado na questão 1.23

A avaliação dos exercícios físicos no lazer (EFL) é investigada através da prática dos exercícios físicos regulares (questão 9) envolvendo modalidades específicas, divididas em três níveis intensidade, de acordo com o gasto energético: leve, moderada e vigorosa. Sugere-se que, para essa classificação, seja utilizado o compêndio de atividades físicas citado anteriormente.1 São perguntadas a duração e a freqüência (horas por semana e os meses por ano) para cada atividade. Com base na intensidade, freqüência e duração, é calculado um escore específico para essa questão. O escore engloba mais três questões (10 a 12) referentes à comparação das atividades físicas no lazer com pessoas da mesma idade, presença de suor nas horas de lazer, e uma última pergunta sobre a prática de exercícios físicos sem regularidade nas horas de lazer.

Na avaliação das atividades de lazer e locomoção (ALL), as questões referem-se às atividades de assistir à televisão (atividade sedentária), caminhar, andar de bicicleta e uma última questão sobre os minutos por dia em atividades de locomoção (caminhar ou uso de bicicleta para ir e voltar do trabalho, escola ou compras).

Para a determinação do escore total de AFH (ET), somam-se os escores AFO, EFL e ALL. Para as questões que ficarem sem respostas nas escalas, recomenda-se adotar o valor médio de todas as questões do respectivo escore.21 Na Tabela 1 estão apresentadas as fórmulas para o cálculo dos escores.

Metodologia para a avaliação da atividade física habitual

Foi realizado estudo epidemiológico transversal. A coleta de dados foi feita entre março e outubro de 1997 no posto de atendimento médico de um hospital público estadual, fundado em 1969, que prestava assistência à saúde em diversas especialidades. Sua abrangência de atendimento incluía a região Sul do município de São Paulo e os municípios de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema.

A amostra foi composta por 326 indivíduos voluntários com idade igual ou superior a 50 anos, do sexo masculino, saudáveis, sem utilização de medicamentos que pudessem afetar o metabolismo ósseo e não portadores de doenças como câncer, mieloma, hipertiroidismo e doença reumatóide. O convite para participarem do estudo foi feito por meio do jornal do bairro e cartazes, homens que moravam próximos ao posto de atendimento médico do hospital, freqüentadores ou não desse posto de saúde, indivíduos submetidos ao controle periódico de saúde pelo serviço de cardiologia, cônjuges de mulheres que tinham indicação de densitometria óssea e funcionários daquele complexo hospitalar.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética do hospital e pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Detalhes da metodologia utilizada estão descritos em trabalhos anteriores.6-8,13,25,28 A avaliação da AFH foi realizada por meio do questionário de Baecke et al2 (1982).

O questionário foi originalmente padronizado para ser auto-administrado.2,19 Porém, na presente pesquisa, a aplicação foi em forma de entrevista, devido ao baixo nível de escolaridade da população de estudo. Esse procedimento já foi utilizado em outras pesquisas e o tempo de aplicação variou entre cinco a 10 minutos.10,20

Análise estatística

A caracterização da população de estudo foi realizada por meio de estatística descritiva. A consistência interna do instrumento foi analisada através do coeficiente de Cronbach (a). Foi calculado o coeficiente de correlação de Spearman entre os escores AFO, EFL, ALL e ET, pois os escores de AFH não possuíam aderência à distribuição normal, avaliada através do teste de Kolmogorov-Smirnov. Foram calculados os coeficientes de correlação parcial entre os escores, corrigidos pela idade, índice de massa corporal (IMC) e escolaridade (anos de escola). As análises foram feitas pelo programa SPSS versão 10.0 e, em todas elas, adotou-se um nível de significância de 5%.

 

RESULTADOS

A população de estudo, composta por 326 homens com idade média de 62,5 anos (desvio-padrão =7,9 anos), teve predomínio de indivíduos nas faixas etárias de 50 a 59 anos (42%) e 60 a 69 anos (37,4%). A maioria dos homens era casada (86,8%), tinha cor da pele branca (80,1%) e ensino fundamental incompleto (73,6%). A média do IMC foi de 26,7 kg/m2 (dp=4,1 kg/m2) e grande parte apresentava sobrepeso (42%) ou foi considerada como obesa (22%).

Observou-se que somente 28,2% dos participantes informaram profissões com nível de gasto energético moderado ou vigoroso e 6,4% relataram praticar exercícios físicos nos últimos 12 meses. Porém, 67,8% dos entrevistados disseram andar a pé ou de bicicleta para se locomover, por um período igual ou superior a 30 minutos por dia. Metade da população (53,5%) referiu assistir à televisão com muita freqüência nas horas de lazer.

A consistência interna do instrumento está descrita na Tabela 2. Os maiores coeficientes a de Cronbach foram entre as questões do escore de EFL (a=0,45 ou mais). Porém, se fosse retirada a questão que avalia "suar na prática de exercício físico nas horas de lazer", a consistência interna melhoraria. Nas questões do escore de AFO, os coeficientes foram baixos, principalmente nas questões referentes a ficar em pé ou andar no trabalho. Já as questões referentes a sentar no trabalho e comparar fisicamente o trabalho com outras pessoas apresentaram bons coeficientes (respectivamente, a=0,60 e 0,52). Por último, houve grande variabilidade dos coeficientes nas questões do escore ALL (a de 0,13 a 0,50), com destaque para a melhora da consistência interna se a questão referente a "assistir à televisão nas horas de lazer" fosse retirada do escore.

A Tabela 3 apresenta a matriz de correlação entre os escores de AFH. As correlações mais fortes foram obtidas entre o escore total (ET) e o escore de ALL (r=0,78), seguido pelo escore de AFO (r=0,70) e pelo escore de EFL (r=0,60), mesmo após o ajuste pela idade, IMC e escolaridade (respectivamente, raj=0,77, raj=0,67 e raj=0,67). Entre os escores, as correlações foram sempre positivas e fracas (r<0,31), embora significativas. O ajuste pela idade, IMC e escolaridade pouco alteraram os valores dos coeficientes de correlação.

 

 

DISCUSSÃO

A utilização do questionário de Baecke et al2 para avaliação da AFH mostrou-se adequada no estudo dos fatores determinantes da massa óssea de homens com 50 anos e mais, lembrando que esse questionário já foi aplicado em homens de outra faixa etária9 e em mulheres,** sem que outros problemas tenham ocorrido.

De acordo com o censo demográfico de 2000, para o Brasil, do total de homens com 50 anos e mais, 54% estavam na faixa etária de 50 a 59 anos, 77,4% estudaram até a 7a série e 62% referiram cor da pele branca. No presente estudo, embora a população fosse voluntária, apresentou características semelhantes às dos homens brasileiros (42% estavam na faixa etária de 50 a 59 anos, 73,6% estudaram até a 7a série e 80% referiram cor da pele branca), o que contribui para a validade externa do estudo.

De acordo com a Pesquisa de Padrão de Vida (PPV) realizada pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE),*** entre 1996 e 1997, a prevalência de sobrepeso em homens brasileiros com mais de 45 anos era de 30,4% e a de obesidade de 6,8% (média de IMC=24,4 kg/m2), valores estes superiores ao do presente estudo.

Os questionários são métodos importantes na avaliação da AFH, tendo em vista o baixo custo e facilidade de aplicação.17 O questionário de Baecke et al2 é um dos poucos descritos na literatura que são estruturados de forma quali-quantitativa e em escala de likert. Isso proporciona que o indivíduo se posicione com relação ao cotidiano no ambiente onde vive, oferecendo uma melhor avaliação da AFH.11 Existem dúvidas com relação à eficácia da utilização de questionários de AFH em populações diferentes daquelas onde eles foram originalmente validados.5,11,26 No caso desse instrumento, esses problemas não ocorreram, tendo em vista a objetividade das questões.

Esse instrumento, desenvolvido na Holanda,2 vem sendo utilizado em estudos epidemiológicos de países como Bélgica,3 Estados Unidos4,10,20 e Croácia.15 No Brasil, foi utilizado pela primeira vez na pesquisa "Determinantes da densidade mineral óssea em homens", cujos resultados foram publicados em periódicos nacional7 e internacionais.8,25

Discutindo especificamente os componentes das atividades físicas abordadas pelos escores, observa-se que o escore de atividade física ocupacional é extremamente importante para avaliações em saúde. A partir de estudo realizado em trabalhadores da London Transport em 1953,16 que mostrou relação inversa e significativa entre níveis de atividade física ocupacional com doenças cardiovasculares, a avaliação da atividade física no trabalho vem sendo incluída em estudos epidemiológicos.17 Porém, esse tipo de atividade física é difícil de ser avaliada em virtude da falta de um instrumento adequado para tal investigação.12 Trabalhar com o tipo de ocupação e se basear no seu gasto energético médio tem sido uma alternativa. No entanto, pode incorrer em falhas, uma vez que não analisa as atividades específicas dentro do trabalho.12

O escore de atividade ocupacional de Baecke, além de incluir o tipo de ocupação com base no gasto energético (primeira questão), avalia outras atividades físicas básicas, como sentar, ficar em pé e andar no trabalho, carregar carga pesada no trabalho, se sentir cansado após o trabalho, suar no trabalho, além de fazer a comparação da atividade física no trabalho com pessoas da mesma faixa etária. Por essa abrangência, esse escore vem sendo considerado como um dos mais adequados para se avaliar atividades físicas laborais.12

No presente estudo, as dificuldades de entendimento se restringiram à oitava questão, em que algumas pessoas não conseguiram entender se a expressão "fisicamente pesado" seria referente ao estresse ou ao gasto energético. Pols et al22 (1995), estudando mulheres e homens holandeses, também relataram a mesma dificuldade. Na análise da consistência interna, houve melhora no coeficiente quando da exclusão da questão 2. Porém, resolveu-se mantê-la no escore, tendo em vista que é uma questão de inatividade física relacionada a muitas profissões; além disso, houve forte correlação negativa dessa questão com o escore de AFO (r=-0,72; p<0,001) (dados não apresentados).

A avaliação dos exercícios físicos no lazer é uma das mais importantes para o campo da saúde pública, tendo em vista que a prática de exercícios físicos regulares é fator protetor para diversas doenças crônicas não transmissíveis e para os fatores de risco dessas doenças, como obesidade e hiperlipidemia.18 O escore de exercícios físicos de Baecke procura investigar amplamente as modalidades praticadas nas horas de lazer. A nona questão (primeira do escore de exercícios físicos) avalia a prática regular, abordando uma tríade importante da fisiologia do exercício (intensidade, freqüência e duração). A intensidade é avaliada através do tipo de modalidade, a duração investigada através das horas por semana de prática e a freqüência através dos meses por ano de prática. Para complementar o escore, é perguntado o ponto de vista das pessoas com relação aos exercícios físicos nas horas de lazer. Houve algumas dificuldades nas respostas das questões 10 e 12. Como ressaltado em outros estudos,22,23 por serem questões comparativas e de auto-análise, elas podem gerar alguma dificuldade nas respostas. Na análise da consistência interna, houve melhora no coeficiente quando da exclusão da questão 11. Porém, resolveu-se mantê-la no escore, tendo em vista a importância de questões que enfocam o relato de suor ou transpiração para a avaliação da AFH.24,27 Além disso, houve forte correlação positiva entre esta questão e o escore de EFL (r=0,80; p<0,001) (dados não apresentados).

O escore referente às atividades de lazer e locomoção é relevante no contexto atual da epidemiologia, tendo em vista os benefícios da prática diária de 30 minutos ou mais de atividades físicas.18 Nesse escore, foi incluída a terminologia locomoção, a qual não é citada na literatura e nem no artigo original. A questão 16 avalia primordialmente as atividades de transporte ativo através de caminhada e bicicleta em atividades do cotidiano como trabalho, escola e/ou compras. Com relação às respostas nesse escore, apenas nessa última questão é que houve alguns problemas, principalmente no que diz respeito à recordação exata dos minutos por dia gastos nessas atividades. Na análise da consistência interna, houve melhora no coeficiente quando da exclusão da questão 13. Porém, optou-se por mantê-la, dada a importância da avaliação da falta de atividades físicas no contexto das atividades de lazer, além da forte correlação negativa com o escore de ALL (r=-0,88; p<0,001) (dados não apresentados).

O escore total de AFH também é um indicador que pode ser útil quando se pretende avaliar todos os aspectos das atividades físicas em conjunto, salientando que dois estudos internacionais recomendam sua utilização.3,23

A Organização Mundial de Saúde propôs um questionário internacional de atividade física (IPAQ), cujas formas longa e curta já foram validadas em uma amostra de voluntários brasileiros com mais de 12 anos, residentes na Grande São Paulo, com escolaridade um pouco superior do que a média do Brasil.14 Considerando a atividade física total, ambos mostraram boa reprodutibilidade após três a 10 dias. Porém, sua validade foi considerada de baixa a moderada, quando comparada com o sensor de movimento Computer Science & Applications (CSA). Segundo os autores, as principais limitações encontradas foram dificuldades de entendimento das questões, como, por exemplo, o que significa uma semana usual ou normal, ou o que seria atividade física moderada ou vigorosa. Também referiram que houve dificuldade em quantificar algumas atividades, como a de sentar; os indivíduos tenderam a pular algumas questões ou dar respostas contraditórias. O tempo de aplicação da forma longa foi de oito a 20 minutos e o da forma curta de três a cinco minutos.

O tempo de aplicação do questionário de Baecke foi de cinco a 10 minutos quando utilizado em uma população de homens com 50 anos ou mais, com baixo nível de escolaridade. Praticamente não houve dificuldade de quantificação das atividades; mesmo quando isso acontecia, outros estudos já apontavam a solução, o que garante uma padronização internacional.20-23 Além disso, nos três estudos em que esse questionário foi utilizado, em quase todas as questões os participantes conseguiram se situar dentro da escala likert, não necessitando que interpretassem, por exemplo, o que é vigoroso ou moderado.8-9,**

 

REFERÊNCIAS

1. Ainsworth BE, Haskell WL, Whitt MC, Irwin ML, Swartz AM, Strath SJ, et al. Compendium of physical activities: an update of activity codes and MET intensities. Med Sci Sports Exerc 2000;32:S498-504.        [ Links ]

2. Baecke JA, Burema J, Frijters JE. A short questionnaire for the measurement of habitual physical activity in epidemiological studies. Am J Clin Nutr 1982;36:936-42.        [ Links ]

3. Delvaux K, Lefevre J, Philippaerts R, Dequeker J, Thomis M, Vanreusel B, et al. Bone mass and lifetime physical activity in flemish males: a 27-year follow-up study. Med Sci Sports Exerc 2001;33:1868-75.        [ Links ]

4. Evenson KR, Rosamond WD, Cai J, Diez-Roux AV, Brancati FL. Influence of retirement on leisure-time physical activity: the atherosclerosis risk in communities study. Am J Epidemiol 2002;155:692-9.        [ Links ]

5. Ferreira PL. Criação da versão portuguesa do MOS SF-36: parte I - adaptação cultural e lingüística. Acta Méd Port 2000;13:55-66.        [ Links ]

6. Florindo AA. Atividade física habitual e densidade mineral óssea em homens adultos e idosos [dissertação de mestrado]. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da USP; 2000.        [ Links ]

7. Florindo AA, Latorre MRDO, Jaime PC, Tanaka T, Zerbini CAF. Atividade física habitual e sua relação com a densidade mineral óssea em homens adultos e idosos. Rev Bras Ativ Fís Saúde 2000;5:22-34.        [ Links ]

8. Florindo AA, Latorre MRDO, Jaime PC, Tanaka T, Pippa MG, Zerbini CA. Past and present habitual physical activity and its relationship with bone mineral density in men aged 50 years and older in Brazil. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2002;57:654-7.        [ Links ]

9. Florindo AA, Latorre MRDO. Validação do questionário de Baecke de avaliação da atividade física habitual em homens adultos. Rev Bras Med Esporte 2003;9:121-8.        [ Links ]

10. Folsom AR, Arnett DK, Hutchinson RG, Liao F, Clegg LX, Cooper LS. Physical activity and incidence of coronary heart disease in middle. Med Sci Sports Exec 1997;29:901-9.        [ Links ]

11. Guillemin F. Measuring health status across cultures. Rheumatol Eur 1995;2:S102-3.        [ Links ]

12. Jacobs Jr DR, Ainswoth BE, Hartman TJ, Leon AS. A simultaneous of 10 commonly used physical activity questionnaires. Med Sci Sports Exerc 1993;25:81-91.        [ Links ]

13. Jaime PC, Marucci MFN, Latorre MRD, Tanaka T, Florindo AA, Zerbini CAF. Influência do consumo de cálcio dietético na densidade mineral óssea de homens com 50 anos e mais. Rev Bras Reumatol 2000;40:105-11.        [ Links ]

14. Matsudo S, Araujo T, Matsudo V, Andrade D, Andrade E, Oliveira LC, Braggion G. Questionário internacional de atividade física (IPAQ): estudo da validade e reprodutibilidade no Brasil. Rev Bras Ativ Fís Saúde 2001;6:5-18.        [ Links ]

15. Misigoj-Durakovic M, Heimer S, Matkovic BR, Ruzic L, Prskalo I. Physical activity of urban adult population: questionnaire study. Croat Med J 2000;41:428-32.        [ Links ]

16. Morris J, Heady JÁ, Rafle PAB, Roberts CG, Parks JW. Coronary heart-disease and physical activity of work. Lancet 1953;28:1111-9.        [ Links ]

17. Paffenbarger Jr RS, Blair SN, Lee IM, Hyde RT. Measurement of physical activity to assess health effects in free-living populations. Med Sci Sports Exerc 1993;25:60-70.        [ Links ]

18. Pate RR, Pratt M, Blair SN, Haskell WL, Macera CA, Bouchard C, et al. Physical activity and public health: a recommendation from the centers for disease control and prevention and the American College of Sports Medicine. JAMA 1995;273:402-7.        [ Links ]

19. Pereira MA, Fitzgerald SJ, Gregg EW, Joswiak ML, Ryan WJ, Suminski RR, et al. A collection of physical activity for health related research. Med Sci Sports Exerc 1997;29:S1-205.        [ Links ]

20. Pereira MA, Folsom AR, McGovern PG, Carpenter M, Arnett DK, Liao D, et al. Physical activity and incident hypertension in black and white adults: the atherosclerosis risk in communities study. Prev Med 1999;28:304-12.        [ Links ]

21. Philippaerts RM, Westerterp KR, Lefevre J. Comparison of two questionnaires with a tri-axial accelerometer to assess physical activity patterns. Int J Sports Med 2001;22:34-9.        [ Links ]

22. Pols MA, Peeters PHM, Bueno-de-mesquita HB, Ocké MC, Wentink CA, Kemper HCG, et al. Validity and repeatability of modified Baecke questionnaire on physical activity. Int J Epidemiol 1995;24:381-8.        [ Links ]

23. Pols MA, Peeters PHM, Kemper HCG, Collette HJA. Repeatability and relative validity of two physical activity questionnaires in elderly women. Med Sci Sports Exerc 1996;28:1020-5.        [ Links ]

24. Siconolfi SF, Lasater TM, Snow RCK, Self-reported physical activity compared with maximal oxygen uptake. Am J Epidemiol 1985;122:101-5.        [ Links ]

25. Tanaka T, Latorre MR, Jaime PC, Florindo AA, Pippa MG, Zerbini CA. Risk factors for proximal femur osteoporosis in men aged 50 years or older. Osteoporos Int 2001;12:942-9.        [ Links ]

26. Ware Jr JE, Keller SD, Gandek B, Brazier JB, Sullivan M. Evaluating translations of health status questionnaires. Int J Technol Assess Health Care 1995;11:525-51.        [ Links ]

27. Washburn RA, Goldfield SRW, Smith KW, McKinlay JB. The validity of self-reported exercise-induced sweating as a measure of physical activity. Am J Epidemiol 1990;132:107-13.        [ Links ]

28. Zerbini CAF, Latorre MRDO, Jaime PC, Tanaka T, Pippa MGB. Bone mineral density in Brazilian men 50 years and older. Braz J Med Biol Res 2000;33:1429-35.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Alex Antonio Florindo
Departamento de Epidemiologia Faculdade de Saúde Pública da USP
Av. Dr. Arnaldo, 715
01246-904 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: aflorind@usp.br

Recebido em 7/11/2002
Reapresentado em 4/8/2003
Aprovado em 12/9/2003

 

 

Trabalho realizado no Hospital Heliópolis, em São Paulo, e no Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP.
Baseado em dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, 2000.
* A versão final do questionário em português está disponível aos pesquisadores interessados.
** Florindo AA, Latorre MRDO, Santos ECM, Negrão CE, Azevedo LF, Segurado AAC. Validation and reliability of the Baecke's questionnaire for the evaluation of habitual physical activity in HIV/AIDS subjects. Pan Am J Public Health [Submetido à publicação].
*** Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa de Padrão de Vida. 1996/1997 [CD-Rom]. [14 set 1998].