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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.38 n.3 São Paulo Jun. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102004000300002 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Doenças respiratórias agudas em serviços de saúde entre 1996 e 2001, Fortaleza, CE

 

 

Mônica Cardoso FaçanhaI; Alicemaria Ciarlini PinheiroII

IUniversidade Federal do Ceará. Fortaleza, CE, Brasil
IICoordenadoria de Políticas de Saúde. Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza. Fortaleza, CE, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: As doenças respiratórias agudas, principalmente as pneumonias, são a causa mais importante de óbito em menores de cinco anos e são responsáveis por doença grave nos maiores de 60 anos. O estudo realizado tem como objetivo descrever as principais características epidemiológicas dos casos de doenças respiratórias agudas notificadas pelas unidades de saúde.
MÉTODOS: Todos os registros de atendimentos de pacientes com doença respiratória aguda, no período entre 1996 e 2001, foram revistos semanalmente, em formulário específico, a partir dos boletins de atendimento médico preenchidos por 100 unidades públicas de saúde. Os dados foram classificados em não pneumonia e pneumonia por faixa etária.
RESULTADOS: Foram informados 2.050.845 casos de doença respiratória aguda no período estudado. Os meses com maior número de casos foram maio e junho. A faixa etária mais acometida foi a de um a quatro anos, com cerca do dobro do número de casos das outras faixas etárias. Pneumonias representaram, aproximadamente, 7,7% dos casos.
CONCLUSÕES: O acompanhamento das doenças respiratórias agudas serve para mostrar sua magnitude em termos numéricos, e estimular seu diagnóstico apropriado, tratamento precoce e prevenção, tanto das complicações, quanto de sua ocorrência.

Descritores: Infecções respiratórias, epidemiologia. Pneumonia, epidemiologia. Resfriado comum. Vigilância epidemiológica.


 

 

INTRODUÇÃO

As doenças respiratórias agudas (DRA) abrangem amplo espectro de eventos mórbidos de diferentes etiologias e de distinta gravidade que comprometem o trato respiratório. Suas principais manifestações clínicas são tosse, dificuldade respiratória, dor de garganta, corrimento nasal e dor de ouvido.8 As DRA podem ser doenças infecciosas (resfriado comum e pneumonias, por exemplo) ou não infecciosas (como rinite alérgica e asma), cuja origem nem sempre é possível distinguir.7

Cerca de 40% das crianças que procuram atendimento médico estão acometidas de infecção respiratória aguda (IRA). A IRA, especialmente a pneumonia, é a principal causa de morte em crianças menores de cinco anos de idade, matando cerca de dois milhões de crianças anualmente. Corresponde a 25 a 33% do total das mortes observadas nos cinco primeiros anos de vida.6,11 É comum que os óbitos sejam atribuídos a outras causas, quando, na verdade, são decorrentes de IRA "oculta".11

Tanto em países desenvolvidos como nos em desenvolvimento, as doenças respiratórias representam grande proporção da morbidade na infância e, nessa medida, exercem pressão sobre os serviços de saúde.10,11 As DRA chegam a ser responsáveis por cerca de um quinto das internações hospitalares no Sistema Único de Saúde (SUS).5

Também as DRA provocam doenças graves, internações freqüentes e óbitos entre os maiores de 60 anos.4 Os adultos apresentam entre um e três episódios de DRA1 por ano, o que provoca grande absenteísmo no trabalho e prejuízos econômicos individuais para as empresas e para a nação.9 Infelizmente, as DRA são consideradas, pela população e pela maioria dos profissionais de saúde, como "normais", principalmente entre as crianças.

Elas também não constam da lista de doenças de notificação compulsória nacional. Dessa forma, dados mais precisos sobre o comportamento epidemiológico das DRA são escassos.3 No município de Fortaleza, CE, desde 1995, as DRA são acompanhadas pela célula de vigilância epidemiológica.

O presente estudo tem como objetivo descrever as principais características epidemiológicas dos casos de doenças respiratórias agudas informadas pelas unidades públicas de saúde.

 

MÉTODOS

Para fins de coleta de informações, a definição de DRA utilizada foi "todo processo inflamatório, infeccioso ou não, que incide no trato respiratório".4 Portanto, pode ocorrer no nariz, ouvidos, faringe, traquéia, brônquios ou bronquíolos e pulmões.8

A classificação em pneumonia e não pneumonia foi feita de acordo com o diagnóstico anotado pelo médico no boletim de atendimento. De um modo geral, para o diagnóstico de pneumonia nas unidades ambulatórias, além da história e exame físico, dá-se importância ao aumento da freqüência respiratória e tiragem intercostal.8

Em 1995, foi feita a implementação da notificação das DRA. O número de unidades de saúde estabilizou em 1996, alcançando todas as unidades de saúde públicas e conveniadas do SUS, ambulatoriais e hospitalares de Fortaleza, que forneceram as informações para o presente estudo. Estima-se que cerca de 70% da população de Fortaleza seja atendida pelo SUS. Os consultórios privados raramente informam qualquer uma das doenças de notificação compulsória, bem como acerca das DRA.

As DRA foram consolidadas semanalmente em formulário específico preenchido nas unidades de saúde, a partir dos boletins de atendimento médico, e distribuídas por classificação em não pneumonias e pneumonias e por faixa etária (menores de um ano de idade, entre um e quatro anos, entre cinco e nove anos e maiores de 10 anos). Os consolidados seguiram o mesmo fluxo das doenças de notificação compulsória: cada unidade remeteu suas planilhas para a Secretaria Executiva Regional (SER) onde está localizada a unidade, e cada SER consolidou as informações de suas unidades e enviou para a Célula de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza (CEVEPI), onde foram reunidas as informações das seis SER.

Na CEVEPI, as informações foram digitadas e consolidadas em arquivos utilizando o programa Excel. Há uma planilha para a entrada de dados de cada uma das SER, por semana epidemiológica.

Foi feita análise descritiva dos casos de DRA atendidos ambulatorialmente entre 1996 e 2001.

As informações sobre a pluviometria foram obtidas da Fundação Cearense de Metereologia (Funceme).

 

RESULTADOS

Foram informados 2.050.845 casos de DRA entre 1996 e 2001. De uma maneira geral, os meses de maio e junho tiveram o maior número de notificações, tendo apresentado uma média de 36.978,7 casos em maio e 37.679,2 casos em junho. Os meses do ano com menores números de casos de DRA foram janeiro e fevereiro. A partir de março, os casos apresentaram tendência crescente até junho e, a partir daí, decresceram (Tabela 1).

 

 

Houve tendência crescente no número de casos de DRA entre 1996 e 1999, ano com maior número de notificações. Observou-se tendência à estabilização entre 2000 e 2001. A incidência geral sofreu pequena variação entre 1997 e 2001, com exceção de um pico observado em 1999.

Nem sempre é possível identificar uma correlação entre os índices pluviométricos e o número de casos de DRA: tanto se observa aumento no número de casos logo depois das chuvas, quanto sem nenhuma correspondência com elas (Figura).

 

 

Distribuição semelhante é vista para doenças de vias aéreas superiores e pneumonias, isoladamente, e para DRA em menores de um ano de idade.

Entre 1996 e 2001, as pneumonias representaram, em média, 7,7% dos casos de DRA informados, variando de 6,1%, em 1997, a 8,7%, em 1996 e em 2000 (Tabela 2).

 

 

Cerca de 38,8% dos casos de DRA (797.677 casos) ocorreram em crianças entre um e quatro anos de idade. As outras faixas etárias, inclusive a de 10 anos ou mais, estão representadas com aproximadamente 20% dos casos. O grupo de maior risco foi o de menores de um ano; a incidência foi de 1.115,7 para cada mil menores de um ano. Em crianças de um a quatro anos foi de 516,2/1.000, em crianças de cinco a nove anos foi de 209,3/1.000 e em maiores de 10 anos 35,4/1.000 (Tabela 3).

 

 

DISCUSSÃO

Houve pouca variação na incidência geral de DRA no período, excetuando a elevação no número de casos em 1999, sugestiva de surto em Fortaleza. A média anual de notificações nesses seis anos foi de 341.808, com média mensal de 20.484 casos. Se a distribuição dos casos fosse uniforme nas 100 unidades notificantes, a média seria de 205 casos por mês. Dessa forma, haveria necessidade de um profissional médico, com 70% de seus atendimentos destinados apenas às DRA. Entretanto, nos períodos de maior incidência, a média de casos pode dobrar, exigindo que a quantidade de profissionais para o atendimento seja revista.

A constatação de que o número de casos, em média, começa a crescer no mês de março e a diminuir a partir de julho sugere que o comportamento das DRA no município de Fortaleza é diferente do observado na região Sudeste do País.2,5

As faixas etárias utilizadas nessa coleta de dados representaram uma limitação a análises mais detalhadas entre as pessoas mais velhas. Elas foram definidas para diarréias agudas e DRA durante a epidemia de cólera no Nordeste, quando a maior preocupação era a detecção precoce de cólera e o acompanhamento de DRA na infância. Acredita-se que já é possível reavaliar as faixas etárias de interesse para esse acompanhamento, considerando-se a gravidade que elas podem ter em adultos mais velhos.

As informações coletadas não permitem avaliação da gravidade e evolução dos pacientes, visto que esses casos não são investigados de forma mais aprofundada e a grande maioria foi atendida apenas em ambulatório. O endereço residencial dos pacientes não é registrado e como há mobilidade dos pacientes, que nem sempre procuram atendimento na unidade de saúde mais próxima de sua residência, a distribuição dos casos por local de atendimento pode não se superpor à do local de residência.

A forma de acompanhamento de DRA precisa ser aprimorada. É possível que o preenchimento adequado das informações sobre o diagnóstico, no Sistema de Informação de Atendimentos Ambulatoriais (SAI-SUS), revele um quadro epidemiológico mais preciso e sem maiores custos das DRA e de outras doenças, atendidas prioritariamente em ambulatório. Enquanto não se alcança essa melhoria, é necessário o aprimoramento e a análise das informações existentes com o objetivo de melhorar o planejamento das intervenções em saúde. A ação permitirá proporcionar cuidado mais adequado dessas enfermidades e realizar a prevenção de doenças mais graves e de suas complicações, além de estudos de validação que permitam seu aprimoramento.

 

REFERÊNCIAS

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2. Barata RCC, Waldman EA, Moraes JC, Guibu IA, Rosov T, Takimoto S. Gastroenterites e infecções respiratórias agudas em crianças menores de cinco anos em área da região sudeste do Brasil, 1986-1987. I- infecções respiratórias agudas. Rev Saúde Pública 1996;30:553-63.        [ Links ]

3. Benício MHA, Cardoso MRA, Gouveia NC, Monteiro CA. Tendência secular da doença respiratória na infância na cidade de São Paulo (1984-1996). Rev Saúde Pública 2000;34(Supl):91-101.        [ Links ]

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7. Halpern R, Halpern S, Glugliani ERJ. Doença respiratória aguda na criança. In: Duncan BB, Schimidt MI, Glugliani ERJ. Medicina ambulatorial: condutas clínicas em atenção primária. Porto Alegre: Artes Médicas; 1990. p. 336-40.        [ Links ]

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9. Nogueira, SA. Infecções das vias respiratórias. I. Infecções das vias aéreas superiores. In: Schechter M, Marangoni DV. Doenças Infecciosas: conduta diagnóstica e terapêutica. 2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1998. p. 263-71.        [ Links ]

10. Straliotto SM, Nestor SM, Siqueira MM. Respiratory syncytial vírus groups A and B in Porto Alegre, Brazil, from 1990 to 1995 and 1998. Mem Inst Oswaldo Cruz 2001;96:155-8.        [ Links ]

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Endereço para correspondência
Mônica Cardoso Façanha
Rua Pinto Madeira, 777/701
60150-000 Fortaleza, CE, Brasil
E-mail: mfacanha@ufc.br

Recebido em 26/6/2002
Reapresentado em 4/11/2003
Aprovado em 21/1/2004