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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.40 n.5 São Paulo Oct. 2006 Epub Sep 01, 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102006005000001 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Associação entre distúrbios psíquicos e aspectos psicossociais do trabalho de professores

 

 

Lauro Antonio PortoI; Fernando Martins CarvalhoI; Nelson Fernandes de OliveiraII; Annibal Muniz Silvany NetoI;Tânia Maria de AraújoIII; Eduardo José Farias Borges dos ReisI; Núria Serre DelcorIV

IDepartamento de Medicina Preventiva. Faculdade de Medicina. Universidade Federal da Bahia (UFBA). Salvador, BA, Brasil
IIDepartamento de Estatística. Instituto de Matemática. UFBA. Salvador, BA, Brasil
IIIDepartamento de Saúde. Universidade Estadual de Feira de Santana. Feira de Santana, BA, Brasil
IVPós-Graduação em Medicina e Saúde. Faculdade de Medicina. UFBA. Salvador, BA, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Investigar a associação entre aspectos psicossociais do trabalho e prevalência de distúrbios psíquicos em professores da educação infantil e do ensino fundamental.
MÉTODOS: Estudo de corte transversal realizado com 1.024 professores das escolas públicas municipais e das 10 maiores escolas particulares de Vitória da Conquista, Estado da Bahia, em 2001. A variável de exposição principal foi constituída pelo modelo de demanda-controle, que classifica os indivíduos de acordo com as exigências do trabalho. A variável de resposta representou distúrbios psíquicos medidos pelo Questionário de auto-resposta. A medida de freqüência foi a prevalência, e a medida de associação foi a razão de prevalências. A principal técnica estatística utilizada foi a análise de regressão logística.
RESULTADOS: A prevalência de distúrbios psíquicos foi de 44%. Evidenciou-se associação entre sua presença e as condições de demanda e controle no trabalho, após o controle do confundimento introduzido pelas variáveis sexo, zona de trabalho e suporte social. Os professores com trabalho de alta exigência apresentaram prevalência 1,5 vez maior que os com trabalho de baixa exigência.
CONCLUSÕES: A prevalência de distúrbios psíquicos foi elevada entre professores. Há evidências de que a prevalência estava associada com as exigências do trabalho.

Descritores: Ensino fundamental e médio. Transtornos mentais. Saúde ocupacional. Condições de trabalho. Satisfação no emprego. Questionários, utilização. Estudos transversais.


 

 

INTRODUÇÃO

A proporção de trabalhadores no setor terciário tem crescido nas últimas décadas, sendo a educação um dos ramos que mais empregam trabalhadores. O número de funções docentes em 28/3/2001 na educação básica (pré-escola, alfabetização, ensino fundamental, ensino médio) era de 2.341.951 no Brasil e de 179.334 na Bahia (Censo Escolar 2001).1

Recentemente, houve um incremento nos estudos dedicados a este setor, escassos há uma década.24 Alguns estudos6,22,24 destacaram o sofrimento mental dos professores, quase todos investigando distúrbios psíquicos menores, definidos como "distúrbios classificados pela nosografia psiquiátrica – freqüentemente distúrbios ansiosos, depressivos ou somatizações – mas que não necessariamente geram procura de tratamento especializado" (Borges & Faria,2 1993, p. 9).

Na revisão9 de estudos brasileiros que utilizaram o Questionário de Auto-Resposta (Self Reporting Questionnaire - SRQ), foram localizados três levantamentos em pacientes ambulatoriais.3,7,18 Esses estudos relataram proporções de distúrbios psíquicos de 33% a 63% com ponto de corte 7/8 (resultados negativos: escores 7 ou menos; resultados positivos: escores 8 ou mais). No trabalho18 com validação do instrumento, obtiveram-se sensibilidade de 83% e especificidade de 80%. Em outro,3 com positividade de 33% ao SRQ-20, 49% dos pacientes foram definidos como portadores de transtornos em entrevista psiquiátrica. Em duas investigações em populações urbanas adultas,7 sem validação, 23% dos indivíduos obtiveram escore alto.

Dos 14 estudos de trabalhadores de diversas categorias, publicados de 1990 a 2004, oito usaram ponto de corte 6/7, dois unicamente 7/8 e um só 5/6; para um dos sexos, dois empregaram 7/8, dois 5/6, um 8/9 e um 4/5. A positividade ao SRQ-20 variou de 19% a 39%. Em cinco destes estudos o SRQ-20 foi validado. A sensibilidade foi expressivamente inferior à do estudo18 de pacientes ambulatoriais em três investigações8,12,16 (de 56% a 62%) e similar nos outros21 (de 71% a 83%). A especificidade variou de 65% a 86%.

Foram encontrados sete estudos realizados com professores brasileiros, todos com ponto de corte 6/7 e sem validação. Em quatro deles, a positividade ao SRQ-20 foi de 18% a 20%; nos outros,6,22,24 foi de 42% a 56%.

Entre as características do trabalho referidas mais freqüentemente pelos professores como associadas ao adoecimento estão trabalho repetitivo, ambiente estressante, ritmo acelerado, fiscalização contínua e pressão da direção.6,22,24 Esses aspectos psicossociais do trabalho estão incluídos no modelo denominado demanda-controle,13 que classifica os indivíduos segundo as demandas psicológicas sofridas na execução do trabalho e o controle sobre o próprio trabalho e atribui à falta deste controle o principal fator de risco para a saúde dos trabalhadores.

Uma ampla investigação foi demandada pelos Sindicatos do Magistério Municipal Público e dos Professores no Estado da Bahia, para descrever aspectos da saúde mental e condições de trabalho dos professores de Vitória da Conquista, Bahia. Nesse contexto, o presente estudo teve por objetivo analisar a associação entre aspectos psicossociais do trabalho e a prevalência de distúrbios psíquicos em professores da educação infantil (pré-escola e alfabetização) e do ensino fundamental.

 

MÉTODOS

De setembro a novembro de 2001, em estudo de corte transversal, um questionário auto-aplicável foi respondido por professores da educação infantil e do ensino fundamental de Vitória da Conquista, da rede pública municipal e de escolas particulares, sem a identificação dos sujeitos. A população-alvo foi formada pelo conjunto dos professores dessas modalidades em atividade nesse município. Foi realizado um censo dos professores das escolas municipais (em que não há ensino médio).

Com base em listas da Secretaria Municipal de Educação e dos sindicatos, a população efetiva foi estimada em 963 professores das escolas municipais e 272 das escolas particulares incluídas no estudo. Destes 1.235 professores elegíveis, participaram da pesquisa 808 professores das escolas municipais e 216 das particulares, totalizando 1.024 indivíduos. Houve perda de 211 (17%) docentes: duas estavam afastadas por licença maternidade, cinco por doença, dois por licença-prêmio, nove não receberam o questionário, 91 recusaram-se a participar e 102 não devolveram o questionário. Ademais, 284 questionários omitiram a resposta a algumas questões, inviabilizando seu aproveitamento no cômputo dos indicadores no modelo final. A perda total atingiu, assim, 495 observações (40% dos professores elegíveis).

Excluíram-se os professores de educação física, xadrez, artes, informática, de orientação em sala de leitura e aqueles com exercício exclusivo de direção ou coordenação, porque não seguem o padrão comum de sala de aula.

A variável de exposição principal representou aspectos psicossociais do trabalho, sendo constituída pelas categorias do modelo demanda-controle, definidas com base no Questionário sobre o Conteúdo do Trabalho (Job Content Questionnaire), cujo uso foi permitido pelo autor.13 As quatro categorias do modelo são: baixa exigência do trabalho (baixa demanda psicológica, alto controle sobre o próprio trabalho), trabalho ativo (alta demanda, alto controle), trabalho passivo (baixa demanda, baixo controle) e alta exigência (alta demanda, baixo controle). O indicador da demanda é composto por variáveis que medem ritmo, volume, tempo de realização do trabalho e existência de solicitações conflitantes. O indicador do controle é composto por variáveis que medem aprendizado, criatividade, habilidade, diferenciação das tarefas e repetição no trabalho.13 Na alocação dos indivíduos nos quadrantes do modelo, usaram-se como pontos de corte a mediana da escala das demandas psicológicas e o percentil 25 da escala do controle sobre o trabalho.

A variável de resposta representou distúrbios psíquicos durante o mês anterior ao preenchimento do questionário medidos pelo SRQ-20.9 Escores de 8 a 20 foram considerados sugestivos de distúrbios psíquicos, acompanhando o melhor ponto de corte segundo Mari & Williams18 e Jardim et al.12 Não foi adotado o ponto de corte 6/7, como nos estudos revisados de professores, porque Fernandes & Almeida Filho8 consideraram-no insatisfatório.

Outras variáveis analisadas foram: sexo, idade, escolaridade, situação conjugal, zona de trabalho, vínculo de trabalho, tempo de trabalho como professor, carga horária semanal, trabalho em outra escola, outra atividade remunerada, sindicalização e suporte social. Neste último considerou-se nível de interação social de auxílio mútuo dos trabalhadores entre si e com os coordenadores,13 composto por indicadores da competência, interesse mútuo, cordialidade e colaboração no trabalho.

Para avaliação da associação entre as variáveis, utilizou-se a análise de regressão logística com estimação incondicional de máxima verossimilhança dos parâmetros. A medida de freqüência foi a prevalência e como medida de associação foi usada a razão de prevalências, obtidas por método convencional baseado na estimativa das probabilidades de ocorrência da variável de resposta, de acordo com cada categoria da variável de exposição. O respectivo intervalo de 95% de confiança foi definido com base na estimativa da variância do logaritmo natural do estimador da razão de prevalências, pelo método delta, com as matrizes de co-variância geradas pela regressão logística.20

As variáveis foram avaliadas individualmente na pré-seleção para definição do modelo de regressão logística, adotando-se como critérios a relevância epidemiológica e um valor p inferior a 0,25 no teste da razão de verossimilhança para a significância do coeficiente.11,19 Este critério visou não excluir variáveis importantes porque, na avaliação do confundimento potencial, a prioridade é evidenciar que os estratos da co-variável não diferem significantemente quanto ao possível efeito da variável de exposição.5 Objetivou-se, portanto, verificar a presença do erro do tipo II (descartar incorretamente o efeito de uma co-variável). Uma alternativa foi escolher um nível crítico elevado no teste de significância. Este procedimento estatístico foi utilizado nesta etapa (apesar das críticas fundamentadas ao uso destes testes na análise de confundimento)5,14 por não se ter sido localizado na literatura consultada embasamento sólido sobre a presença de confundimento da associação de interesse pelas co-variáveis analisadas.5,19

Considerando-se a possibilidade de que variáveis fracamente associadas com a resposta, quando avaliadas individualmente, pudessem tornar-se importantes na predição da resposta quando tomadas conjuntamente, optou-se pela seleção dos melhores subconjuntos.11 O modelo mínimo continha as variáveis indicadoras (dummy variables) do modelo demanda-controle e o modelo máximo todas as variáveis pré-selecionadas.

Os critérios adotados na seleção do melhor subconjunto foram:11 menor valor do critério Cq de Mallows17 (estimativa do valor esperado da medida de adequação da predição baseada em mínimos quadrados de um subconjunto de variáveis); relevância das variáveis para a explicação da morbidade psíquica; e, ainda, menor número de variáveis e de observações excluídas.

A modificação de efeito foi definida pela significância estatística dos termos de interação no modelo analisado, no teste da razão de verossimilhança com nível de 10%. A presença de confundimento foi analisada pela magnitude da variação dos coeficientes estimados da variável de exposição principal com a introdução de outras variáveis no modelo, e pelo desvio da verossimilhança do modelo examinado em relação à do modelo com o maior número de variáveis (deviance).11 Os efeitos de confundimento pelas demais variáveis de exposição foram controlados pelo método da predição condicional15 para o ajustamento por regressão, usando-se a média de cada co-variável como valor padrão para se obter do modelo uma estimativa de prevalência ajustada para cada grupo de interesse.

Para a análise estatística foram utilizados os programas SAS 8.01 e Stata 7.0.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Registro n. 218/02).

 

RESULTADOS

A maioria dos professores era constituída por mulheres, casados, com escolaridade incompleta para a profissão, trabalhadores em escolas públicas, na zona urbana, nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, efetivos ou concursados, sem outro trabalho remunerado e sindicalizados (Tabela 1).

O trabalho de baixa exigência, de menor risco esperado, reuniu cerca de um terço dos professores, parcela igual ao trabalho ativo (Tabela 1). Nessas duas categorias houve alto controle sobre o próprio trabalho. A maioria recebia suporte social aceitável.

A média de idade dos professores era de 34 anos, o tempo médio de trabalho como professor era de 11 anos e a carga horária semanal total de trabalho na escola de referência era de 30 horas (Tabela 2).

As variáveis indicadoras do modelo demanda-controle, sexo, zona de trabalho e suporte social foram selecionadas preliminarmente. Esse conjunto apresentou o segundo menor valor de Cq, contendo o menor número de variáveis (seis), teve menor perda de informação por exclusão de observações (284) e incluiu variáveis relevantes para a explicação da morbidade psíquica. No modelo final, o suporte social foi representado por duas variáveis indicadoras, contrastando os níveis baixo e médio de suporte social com o nível alto (grupo de referência), definidas com base nos quartis da variável contínua correspondente, com os quartis intermediários agrupados.

Na análise estratificada, nenhuma variável mostrou potencial de confundimento, caracterizado por associação estatisticamente significante simultaneamente com as variáveis de exposição e de resposta (entre os não expostos). Não houve diferenças relevantes entre o valor bruto das razões de prevalências e os valores ajustados pelas variáveis de controle (Tabela 3).

A avaliação das variáveis por meio da regressão logística identificou sexo e suporte social como potencialmente modificadoras do efeito da associação. Entretanto, os termos-produto correspondentes foram desconsiderados porque seu ajuste teve validade questionável em decorrência do pequeno número de professores do sexo masculino e do nível baixo de suporte social em alguns estratos.O modelo final incluiu as variáveis indicadoras do modelo demanda-controle (qdc1, qdc2 e qdc3), sexo, zona de trabalho e as variáveis indicadoras do suporte social (suprq1 e suprq2), não se considerando a ocorrência de modificação de efeito. No modelo ajustado, P(dp=1) denota a probabilidade de um indivíduo apresentar distúrbio psíquico.

logito[P(dp=1)] = -2,6906 + 0,7624(qdc1) - 0,0723(qdc2) + 0,7258(qdc3) + 1,3995(sexo) + 0,2857(zona) + 1,2723(suprq1) + 0,5098(suprq2)

A prevalência global de distúrbios psíquicos foi de 44% nos 1.016 professores com informação disponível entre os 1.024 investigados. Com ponto de corte 6/7, a proporção seria de 53%.

Entre os 284 docentes cujas observações foram excluídas do modelo final por omissão parcial das respostas do questionário, as distribuições por distúrbios psíquicos, sexo, zona de trabalho e suporte social foram praticamente iguais às dos professores remanescentes (diferenças inferiores a cinco pontos percentuais). A proporção de professores com trabalho de baixa exigência foi menor e a daqueles com trabalho de alta exigência foi maior (Tabela 1).

A Tabela 4 apresenta os valores estimados das razões de prevalências e seus respectivos intervalos de 95% de confiança para o modelo demanda-controle, com ajuste dos efeitos do confundimento pelas co-variáveis. A prevalência de distúrbios psíquicos foi significantemente maior nas categorias de alta exigência e de trabalho ativo em comparação com a categoria de referência (baixa exigência), resultando em razões de prevalências de 1,5. A prevalência de distúrbios psíquicos na categoria de trabalho passivo foi aproximadamente igual à da categoria de referência. As razões de prevalências ajustadas mostraram-se inferiores às não ajustadas.

Considerando-se modelos de regressão logística em que cada uma das demais variáveis foi tomada como de exposição principal, controlando-se as restantes, o sexo feminino apresentou 2,6 vezes mais distúrbios psíquicos que o masculino e o nível baixo de suporte social duas vezes mais que o nível alto e o nível médio 1,4 vezes mais que o nível alto. Não houve diferenças relevantes segundo a zona de trabalho (Tabela 4).

As estatísticas c2 e Pearson (c2=32,66; p=0,48) e de Hosmer-Lemeshow (c2=5,00; p=0,76) indicaram que o modelo logístico ajustou-se satisfatoriamente, com concordância entre as freqüências observadas e as esperadas da variável de resposta.

O valor da área sob a curva ROC (Receiver Operating Characteristic) foi de 0,68, mostrando que o modelo discriminou bem os indivíduos com provável distúrbio dos prováveis sadios.

A bondade do ajuste do modelo foi avaliada no conjunto dos valores ajustados determinados pelas co-variáveis no modelo. Observaram-se 41 padrões de co-variáveis, totalizando 740 registros individuais. Quatro padrões estavam pobremente ajustados, com discordância da freqüência observada de distúrbios psíquicos em relação à predita pelo modelo ajustado. Apenas um padrão, quando excluído, produziu mudanças relevantes dos coeficientes e das medidas ajustadas, mas as discrepâncias não justificaram sua exclusão.

 

DISCUSSÃO

Estudos de corte transversal estão sujeitos à superestimação de casos de doenças de longa duração e à subestimação de doenças de curta duração. Com a exposição associada à duração e à gravidade da doença, haverá superestimação da associação exposição-doença nas doenças leves e subestimação nas graves, mesmo que a exposição não altere o risco de adoecer.23 Além disso, são inapropriados para o estudo de doenças raras. Em populações grandes e sem amostragem aleatória, as freqüências de doenças e de outras características são inválidas se a condição de doente ou o nível do fator de exposição influenciar a probabilidade da seleção (viés de seleção). Estudos transversais não permitem: caracterizar uma relação causal entre exposição a um fator e adoecimento, e indicar a direção da relação eventualmente observada, assim como a seqüência temporal dos eventos, sem informações adicionais.14

O presente estudo baseou-se em um censo. Os distúrbios psíquicos são relativamente comuns, duradouros ou transitórios e recorrentes, mas raramente fatais. Não afetam, portanto, a sobrevivência dos pacientes, mas podem afastar o professor de suas atividades. Entretanto, no presente estudo, não foi possível avaliar abandonos da profissão e afastamentos por doenças relacionadas com o trabalho.

Outra limitação foi que os instrumentos utilizados para quantificar os construtos subjacentes (aspectos psicossociais do trabalho e morbidade psíquica) podem não ter cumprido satisfatoriamente este propósito. O escore do SRQ-20 é apenas sugestivo de distúrbio ou de sofrimento psíquico, não sendo um meio de diagnóstico.

A proporção final de resposta pode ser considerada boa, segundo Babbie.1 Não se pôde estimar a situação dos não respondentes quanto aos aspectos psicossociais do trabalho e à morbidade, mas as exclusões por respostas incompletas provavelmente não enviesaram os resultados (Tabela 1).

Esta investigação assentou-se na compreensão de que "o modo como os homens vivem (e trabalham) determina o modo como os homens são" e que "o perfil de morbidade e de mortalidade da população é uma condição socialmente produzida e definida pela inserção dos indivíduos nos processos de apropriação e transformação da natureza" (Codo & Jacques,4 2002, p. 20). Apesar de se reconhecer que o sofrimento psíquico atinge o indivíduo no que este tem de mais estritamente subjetivo, ele é freqüentemente determinado por fatores independentes do sujeito, tornando necessária a busca do que, apesar das diferenças individuais, provoca aqueles sintomas. Entretanto, é "muito difícil reconstruir os nexos entre o individual e o social, particularmente quando se fala de sofrimento psíquico, que por definição se esconde do portador e do outro", além de que "o modo como o trabalho se organiza em nossa sociedade, por definição esconde suas determinações fundamentais" (Codo & Jacques,4 2002, p. 25). Esta é mais uma limitação do estudo, na aferição da variável de resposta.

A positividade ao SRQ-20 obtida equiparou-se a dos estudos com resultados mais elevados entre docentes: Silvany Neto et al,24 que relataram um estudo-piloto; Delcor et al6 e Reis et al,22 que analisaram separadamente os mesmos dados do presente trabalho.

Assim, os resultados observados foram superiores aos obtidos em estudos de professores,6,22,24 de outras categorias de trabalhadores2,8,12,16,21 e da população geral.7 Esses valores alcançaram valores de estudos de pacientes atendidos em unidades de saúde,3,7,18 portanto, pessoas que se reconhecem como possivelmente doentes, embora nem sempre de transtorno psíquico.

Este auto-reconhecimento como doentes ficou patenteado em seminário onde foram apresentados resultados preliminares da pesquisa aos professores conquistenses.

As doenças e os sintomas entre os professores ocorrem sazonalmente, sendo mais freqüentes ao final dos trimestres ou semestres do ano escolar.2 Os professores de um sindicato do Estado da Bahia costumam designar, jocosamente, de outubrite as afecções que se avolumam ao final do ano.

Como a coleta dos dados ocorreu no final do ano, é provável que os professores estivessem em um período de maior intensidade de trabalho, pelo processo de avaliação final dos alunos, acentuando as tensões acumuladas ao longo do ano.3 Já foram descritas evidências de variações cíclicas sazonais de tensões reconhecidas pelos próprios docentes, no início e no final dos períodos letivos.10 Houve ainda a coincidência com uma mobilização política convocada pelos sindicatos, em campanha salarial e por melhores condições de trabalho. Essa conjunção de fatores estressantes pode ter elevado a ocorrência de sintomas psíquicos, seu reconhecimento e sua verbalização.

A prevalência de distúrbios psíquicos foi aproximadamente igual nas categorias de trabalho passivo e de baixa exigência. Mesmo este valor de base foi muito elevado em comparação com resultados de investigações similares com professores.3

Contrariamente ao esperado com base nos estudos que fundamentam o modelo demanda-controle,12 a variável "controle" não discriminou o sofrimento psíquico dos professores segundo suas categorias, ao contrário da variável "demanda psicológica". Provavelmente, porque os professores classificaram-se, majoritariamente, como detentores de níveis satisfatórios de controle sobre o próprio trabalho, resultando em pequena variação desta característica no grupo estudado.

Em conclusão, evidenciou-se prevalência de casos suspeitos de distúrbios psíquicos era elevada entre professores e indícios da associação desta prevalência com as exigências do trabalho. Estudos adicionais, com metodologias apropriadas, são necessários para compreender os motivos desta elevada prevalência e esclarecer a associação evidenciada.

Entretanto, independentemente de novas investigações, é imprescindível que autoridades de educação do município e representantes sindicais examinem detidamente a situação buscando amenizá-la. São recomendáveis a realização de exames médicos periódicos no professorado e a viabilização do suporte médico e psicológico aos casos que requeiram assistência. Também é recomendado dar atenção às condições de trabalho potencialmente danosas à saúde dos professores e discutir com eles temas relacionados à sua saúde, como mantê-la e melhorá-la.

 

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Correspondência:
Lauro Antonio Porto
Av. Sete de Setembro, 2022 apto. 601
Edifício Marte Vitória
40080-004, Salvador, BA, Brasil
E-mail: lauroporto@uol.com.br

Recebido: 8/8/2005
Revisado: 17/1/2006
Aprovado: 18/2/2006

 

 

Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - Processo n. 475564/2003-0).
1 Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Censo Escolar 2001. Disponível em http://www.inep.gov.br/ [acesso em 22 fev 2005]
2 Gomes L. Trabalho multifacetado de professores/as: a saúde entre limites [dissertação de Mestrado]. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz; 2002.
3 Araújo T, Silvany Neto AM, Reis E, Kavalkievicz C. Condições de trabalho e saúde dos professores da rede particular de ensino: Salvador, Bahia. Salvador: Sindicato dos Professores no Estado da Bahia; 1998. p.42