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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.41 n.3 São Paulo Jun. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102007000300008 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Captura de culicídeos em área urbana: avaliação do método das caixas de repouso

 

 

Eudina Agar Miranda de Freitas BarataI; Francisco Chiaravalloti NetoII; Margareth Regina DiboII; Maria de Lourdes G MacorisIV; Angelita Anália C BarbosaIII; Delsio NatalV; José Maria Soares BarataV; Maria Teresa Macoris AndriguettiIV

IDivisão de Programas Especiais. Superintendência de Controle de Endemias (Sucen). Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo (SES-SP). São Paulo, SP, Brasil
IIServiço Regional de São José do Rio Preto. Sucen. (SES-SP). São José do Rio Preto, SP, Brasil
IIIFaculdade de Medicina de São José do Rio Preto. São José do Rio Preto, SP, Brasil
IVServiço Regional de Marília. Sucen. (SES-SP). Marília, SP, Brasil
VDepartamento de Epidemiologia. Faculdade de Saúde Pública. Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a ocorrência de população adulta de culicídeos em área urbana e medir a sensibilidade do método de coleta em caixa de repouso
MÉTODOS: Foram coletados mosquitos entre 1999 e 2000, em duas cidades do Estado de São Paulo: Ocauçu e Uchoa. Em cada uma delas, sortearam-se 15 quadras, e em cada quadra um domicílio, onde foram instaladas duas caixas de repouso, no intra e no peridomicílio. Realizaram-se coletas mensais por domicílio, durante 13 meses, utilizando aspiradores manuais no intra e peridomicílio e no interior das caixas. Os espécimes capturados foram levados ao laboratório para triagem e identificação por espécie e sexo.
RESULTADOS: Dos 2.112 espécimes de culicídeos coletados, 99,7% corresponderam a quatro espécies: Culex quinquefasciatus, Aedes aegypti, Cx. declarator e Cx. coronator. A distribuição percentual dessas espécies foi, respectivamente, em Ocauçu: 83,3%, 3,2%, 10,8% e 2,4%, e em Uchoa: 83,8%, 8,4%, 4,4% e 3,0%. Das fêmeas do gênero Culex, 34,3% foram coletadas nas caixas de repouso e 59,9% encontravam-se no intradomicílio. Das fêmeas de Ae. aegypti, 17,6% foram coletadas nas caixas de repouso e 82,4% encontraram-se no intradomicílio.
CONCLUSÕES: A grande maioria dos espécimes coletados pertenciam a quatro espécies de culicídeos, sendo Cx. quinquefasciatus a mais freqüente. Proporcionalmente, as fêmeas de Ae. aegypti ocuparam mais o intradomicílio do que as do gênero Culex. A caixa de repouso apresenta potencial de utilização como dispositivo de vigilância, mas precisa ser mais bem avaliada.

Descritores: Culicidae. Insetos vetores. Comportamento espacial. Técnicas de estimativa. Estudos de avaliação. Sensibilidade e especificidade. Aedes aegypti. Culex.


 

 

INTRODUÇÃO

Entre os culicídeos de área urbana, o Aedes aegypti é considerado o principal vetor dos vírus da dengue e potencial vetor do vírus da febre amarela,18 tendo sido alvo de vigilância e controle em todo território nacional.

Mosquitos do gênero Culex, em especial a espécie Cx. quinquefasciatus, também são presentes em ambientes antrópicos urbanos. Além de representarem importante fator de incômodo às pessoas, seu papel como vetor de filária Wuchereria bancrofti também o remete à condição de alvo de controle. Recentemente, o envolvimento deste mosquito na transmissão do Vírus do Nilo Ocidental (VNO) no continente americano12 representa um risco potencial para a introdução da doença no País.

No Brasil, a vigilância de Ae. aegypti baseia-se na medida de índices larvários,13 determinando-se a presença, freqüência de ocorrência e a abundância de larvas no ambiente.3 No entanto, o indicador entomológico mais associado ao risco de transmissão dos vírus da dengue é a relação de fêmeas com a população humana. São relevantes as informações sobre a bioecologia das fêmeas em área urbana, pois ajudam na seleção de medidas de controle desse vetor. Considera-se ainda que o conhecimento da dinâmica da população adulta permite avaliações epidemiológicas mais acuradas. Embora estas questões sejam tratadas com freqüência na literatura mundial, no Brasil isso raramente ocorre.2

A metodologia de captura de culicídeos adultos com aspiradores manuais16 em ambiente domiciliar é trabalhosa, possui baixo rendimento e tem como desvantagem a influência da destreza do capturador.11,19 A metodologia proposta por Edman et al10 para vigilância entomológica de Ae. aegypti é a captura em caixas de repouso, que contorna as dificuldades operacionais da aspiração, além de otimizar o trabalho de campo. Tal metodologia foi testada com sucesso na Ásia para Ae. aegypti e nos Estados Unidos para Cx. quinquefasciatus.7,10,15

O objetivo do presente trabalho foi avaliar a ocorrência de população adulta de espécies de culicídeos segundo densidade, sexo e local e captura; e medir a sensibilidade da captura em caixas de repouso para detecção de adultos destas espécies. Além disso, para o gênero Aedes, foi relacionado o número de fêmeas com indicador de infestação larvária.

 

MÉTODOS

Para o estudo foram escolhidos os municípios de Ocauçu e Uchoa. Ocauçu está localizado a 22º25'S e 49º56'W, 551 m a.n.m. e dista 46 km de Marília, município-sede da região de mesmo nome localizada no centro-oeste do Estado de São Paulo. No ano de 2000, possuía 4.164 habitantes e 1.100 domicílios urbanos. Foi detectada a presença de Ae. aegypti no ano de 1993 e, até fevereiro de 2007, o município não notificou casos autóctones de dengue.*

Uchoa está localizado a 20º57'S e 49º10'W, 485 m a.n.m. e dista 33 km de São José do Rio Preto, município-sede de região de mesmo nome localizada a noroeste do Estado de São Paulo. No ano 2000, possuía 9.035 habitantes e 3.020 domicílios urbanos. Detectou-se a presença do Ae. aegypti no município em 1988. Ocorreram casos de dengue em 1995 (164 casos/100.000 habitantes) e 2001 (77 casos/100.000 habitantes).*

Em cada município, sortearam-se 15 quadras da área urbana. Em cada quadra foi sorteado um domicílio para instalação de duas caixas de repouso,10 uma no intradomicílio e outra no peridomicílio. As caixas eram constituídas de papelão de cor preto fosco, tanto interna como externamente, com dimensões de 30 cm de largura, 30 cm de profundidade e 90cm de altura. Na parte frontal dispunham de uma abertura retangular de 30 cm de largura por 50 cm de altura. Para aumentar sua atratividade, no interior de cada caixa foi colocado um recipiente de oviposição constituído de um frasco preto fosco de aproximadamente um litro, preenchido com 500 mL de água e contendo no seu interior uma palheta de madeira.

No período de junho de 1999 a junho de 2000, realizou-se uma coleta mensal em cada um dos 15 domicílios, com aspiradores manuais no intra e peridomicílios e no interior das caixas. Os imóveis selecionados permaneceram como pontos fixos para monitoramento das variáveis em estudo e as caixas de repouso eram instaladas uma semana antes das coletas. Duas duplas de operadores realizavam as coletas, trabalhando uma no intra e outra no peridomicílio, entre 8h e meio-dia. Cada coleta teve duração média de 30 min. Mosquitos adultos foram coletados com aspiradores movidos à bateria recarregável conforme modelo proposto por Nasci.16

Após as capturas, os mosquitos foram colocados em caixas entomológicas, mantidas em isopor contendo gelo reciclável até chegar ao laboratório para triagem e identificação dos culicídeos segundo espécie e sexo.

Foram realizadas medidas mensais de Índices de Breteau (IB – número de recipientes com larvas por cem casas)4 para Ae. aegypti e Ae. albopictus, em amostragem por conglomerados (quadras) nos dois municípios. Todas as casas das quadras sorteadas foram visitadas à procura de recipientes com larvas de mosquitos.1 Cada uma das amostras para medida de IB, em torno de 250 casas, foi sorteada de maneira independente da amostra de 15 domicílios para a coleta de adultos.

Para as fêmeas e machos dos culicídeos capturados registrou-se, para cada espécie e gênero, número de exemplares, local de captura (intra e peridomicílio) e presença nas caixas de repouso. Calcularam-se número de exemplares de fêmeas por domicílio. A sensibilidade da detecção de culicídeos pelas caixas de repouso foi representada pelo percentual de exemplares capturados nas caixas em relação ao total coletado com os aspiradores16 segundo gênero e/ou espécie, sexo, local de captura e município. As espécies do gênero Culex foram agrupadas nesta análise e na avaliação segundo ambientes de captura devido a todas serem potenciais vetores na infecção pelo VNO.

Para a verificação de possíveis diferenças significativas entre as proporções obtidas, foram utilizados o teste exato de Fisher, o teste de proporções ou o teste do qui-quadrado. O nível de significância considerado foi de 5%. As proporções, quando não comparadas por meio de testes estatísticos, foram apresentadas com os intervalos de confiança de 95% (IC 95%). As relações entre os números de fêmeas de Ae. aegypti por casa e os IB foram avaliadas pelo coeficiente de correlação de Spearman.

Para análise estatística dos dados foram utilizados os programas Stata e EpiInfo 2002.

 

RESULTADOS

No período de junho de 1999 a junho de 2000 foram coletados em Ocauçu 1.386 espécimes de mosquitos adultos: 1.155 (83,3%) exemplares de Cx. quinquefasciatus, 150 (10,8%) de Cx. declarator, 44 (3,2%) de Ae. aegypti, 33 (2,4%) de Cx. coronator, 2 (0,1%) de Ochlerotatus scapularis, 1 (0,1%) de Anopheles brasiliensis e 1 (0,1%) de Coquillettidia sp.. Em Uchoa, no mesmo período, foram coletados 726 exemplares: 608 (83,8%) de Cx. quinquefasciatus, 61 (8,4%) de Ae. aegypti, 32 (4,4%) de Cx. declarator, 22 (3,0%) de Cx. coronator, 2 (0,3%) de Ochlerotatus scapularis e 1 (0,1%) de Anopheles sp..

Em relação às quatro espécies com maior freqüência (99,7% do total), a distribuição em Ocauçu apresentou diferença estatisticamente significativa daquela encontrada em Uchoa (c2=49,75; p=0,0000). As espécies que contribuíram para essa diferença foram o Cx. declarator com valor maior que o esperado em Ocauçu (c2=24,83; p=0,0000) e o Ae. aegypti também com valor maior que o esperado para Uchoa (c2=26,54; p=0,0000). As outras duas espécies não apresentaram distribuições com diferenças significativas.

Das fêmeas de Ae. aegypti, foram capturadas entre os meses de novembro/1999 a abril/2000 respectivamente em Ocauçu e Uchoa: 72,2% (IC 95%: 46,5;90,3) e 93,9% (IC 95%: 79,8;99,3). Em relação aos machos, foram capturados nesse mesmo período 76,9% (IC 95%: 56,4;91,0) e 96,4% (IC 95%: 81,7;99,9), respectivamente em Ocauçu e Uchoa. Para as três espécies de Culex capturadas em Ocauçu, observou-se maior densidade em determinados meses: fêmeas e machos de Cx. quinquefasciatus ocorreram com maiores freqüências entre agosto e dezembro/1999, respectivamente 64,4% (IC 95%: 60,4;68,3) e 75,2% (IC 95%: 71,5;78,7); fêmeas e machos de Cx. declarator com maiores freqüências entre março e maio/2000, respectivamente 72,3% (IC 95%: 63,3;80,1) e 80,8% (IC 95%: 62,5;92,5); fêmeas e machos de Cx. coronator com maiores freqüências entre agosto e outubro/1999, respectivamente 73,3% (IC 95%: 44,9;92,2) e 88,9% (IC 95%: 65,3;98,6). Em Uchoa não se identificaram, para o gênero Culex, agrupamentos de espécimes em determinado período do ano.

Observa-se na Figura 1 que os maiores valores do IB e do número médio de fêmeas por casa em Ocauçu foram, respectivamente, 7,5 e 0,4 e ocorreram em fevereiro/2000. Os valores máximos do IB e fêmeas por casa para Uchoa, respectivamente 12,0 e 0,7, ocorreram em março/2000. O coeficiente de correlação de Spearman entre essas duas variáveis pareadas para Ocauçu, segundo mês, não foi significativamente diferente de zero (p=0,208). Para Uchoa obteve-se o valor do coeficiente igual 0,77 (significativamente diferente de zero, p=0,002). Ao contrário dos adultos, com captura somente de Ae. aegypti, as medidas de IB revelaram a presença de Ae. albopictus. Essa espécie foi detectada em Ocauçu em fevereiro/2000, março/2000 e abril/2000 e em Uchoa em janeiro, fevereiro e março de 2000.

Na Figura 2 apresentam-se, para as três espécies de Culex, os números médios de fêmeas por casa, segundo mês. Em Ocauçu os maiores valores foram 7,8 fêmeas por casa em dezembro/1999 para Cx. quinquefasciatus, 2,7 em maio/2000 para Cx. declarator e 0,3 em agosto/1999 para Cx. coronator. Em Uchoa, os picos ocorreram em dezembro/1999 para Cx. quinquefasciatus (4,4), em agosto/1999 para Cx. declarator (0,7) e em dezembro1999 para Cx. coronator (0,4).

Na Tabela 1 apresenta-se a distribuição de machos e fêmeas de Ae. aegypti segundo ambientes de captura. Não foram capturadas fêmeas de Ae. aegypti nas caixas colocadas no peridomicílio. Os valores da sensibilidade das caixas de repouso em abrigar fêmeas no intradomicílio foram, respectivamente, para Ocauçu e Uchoa 20,0% e 22,2% (p=1,000). Em conjunto para os dois municípios, a sensibilidade foi de 21,4% (IC 95%: 10,3;36,8) para o intradomicílio e de 17,6% (IC 95%: 8,4;30,1) para o total coletado. Das fêmeas de Ae. aegypti capturadas em Ocauçu e Uchoa, respectivamente 15 (83,3%) e 27 (81,8%) encontravam-se no intradomicílio (p=1,000).

Nas 13 medidas de IB em Ocauçu foram encontrados 64 recipientes com larvas de Ae. aegypti, sendo 2 (3,1%) no intradomicílio e 62 (96,9%) no peridomicílio. Em Uchoa, dos 114 recipientes encontrados com larvas deste vetor 14 (12,3%) estavam no intradomicílio e 100 (87,7%) no peridomicílio. Todos os recipientes encontrados com larvas de Ae. albopictus, 21 em Ocauçu e seis em Uchoa, estavam no peridomicílio.

Na Tabela 2 apresenta-se a distribuição de machos e fêmeas de Culex segundo ambientes de captura. As sensibilidades da caixa de repouso para coleta de fêmeas de Culex no intradomicílio foram, respectivamente 33,6% para Ocauçu e 17,1% para Uchoa (p=0,040). Em conjunto para os dois municípios, a sensibilidade foi de 27,8% (IC 95%: 24,4;31,4) para o intradomicílio e de 34,3% (IC 95%: 31,5;37,2) para ambos os ambientes.

 

DISCUSSÃO

A coincidência das espécies de culicídeos predominantes com suas distribuições em áreas urbanas de duas cidades pertencentes a regiões distintas do Estado de São Paulo apontam a possibilidade de estabelecimento de mecanismos semelhantes de vigilância e controle desses vetores.

A maioria das fêmeas e machos de Ae. aegypti foi capturada entre os meses de novembro e abril, o que está de acordo com o padrão climático das áreas estudadas e com o comportamento sazonal da espécie. Os dois municípios trabalhados pertencem a regiões cujo clima é caracterizado pela existência de duas estações definidas: uma chuvosa e quente entre novembro e abril e outra seca e mais fria entre maio e outubro.** Em relação ao Culex, apenas em Ocauçu ocorreram concentrações em determinados períodos do ano, mas sem aparente relação com as estações climáticas.

Os achados da presente pesquisa, em relação à distribuição das fêmeas de Ae. aegypti no intra e peridomicílio, confirmam os resultados de Barata et al2 em estudo realizado em São José do Rio Preto. Nessa cidade de porte médio da região noroeste paulista, a proporção de fêmeas no intradomicílio foi de 87,3%. No presente estudo, realizado em duas cidades de pequeno porte, em regiões distintas do Estado, não foram encontradas diferenças entre as proporções de fêmeas no intradomicílio. Deduz-se que a permanência no ambiente interno é uma característica do comportamento da fêmea, pois esse local contemplaria sua necessidade de alimentação e abrigo.

A permanência das fêmeas de Ae. aegypti no intradomicílio contrasta com o seu comportamento de seleção dos ambientes para postura, uma vez que a maioria dos recipientes com larvas de Ae. aegypti foi encontrado no peridomicílio. Estudo8 que avaliou o melhor local para instalação de armadilhas de oviposição mostrou que, mesmo havendo igual disponibilidade no intra e peridomicílio, 83,5% do total de ovos foram depositados no peridomicílio. Esses dados têm repercussões importantes nas atividades de controle de Ae. aegypti. Se o principal objetivo é atuar sobre as formas adultas, o intradomicílio deve ser priorizado, mas se for controlar as formas larvárias, deve-se priorizar o peridomicílio. Os resultados do presente trabalho vêm ressaltar a importância desse tipo de investigação que, para Donalísio & Glasser,9 são instrumentos capazes de responder questões específicas dos programas de controle.

O encontro de cerca de 60% das fêmeas do gênero Culex no intradomicílio nos dois municípios evidencia sua adaptação ao ambiente antrópico e que o ser humano é a fonte preferencial de alimentação. Essas características, em conjunto com o maior ou menor grau de ornitofilia das três espécies encontradas,6 abrem a possibilidade para que o quadro de transmissão do VNO se complete, caso ocorra sua introdução.14

Apesar de coletas de adultos com aspiradores manuais fornecerem informações a respeito do número de fêmeas de culicídeos por casa, Focks11 aponta como limitações o desconhecimento da relação entre o total de fêmeas existentes e o número de fêmeas coletadas. Uma outra questão a ser levantada é a respeito da capacidade das capturas no peridomicílio em representar a quantidade de mosquitos existentes no ambiente. No presente trabalho, a captura de fêmeas do gênero Culex em proporções bem superiores à de fêmeas de Ae. aegypti no peridomicílio mostra a utilidade do aspirador em coletar mosquitos nesse ambiente.

Para Focks,11 a quantidade de recursos envolvidos também constitui limitação da técnica. Entretanto, quando utilizada em investigações científicas, fornece informações sobre o comportamento dos vetores que podem direcionar o controle e compensar os custos. No caso do Ae. aegypti, por exemplo, Rodrigues-Figueroa et al20 consideram o número de fêmeas por pessoa ou por área como bons indicadores de risco para a ocorrência de transmissão dos vírus da dengue.

Apesar de inferiores ao valor de 1,2 fêmeas por casa relatado por Barata et al,2 os valores de fêmeas de Ae. aegypti por casa encontrados no presente estudo são superiores aos considerados como limiar para a ocorrência de dengue em Singapura (0,2 fêmeas por casa),5 e compatíveis com a transmissão dos vírus. Um ponto a ser destacado é a concordância temporal entre as maiores densidades de números de fêmeas de Ae. aegypti por casa e dos valores dos IB. Em Uchoa, as duas medidas (fêmeas por casa e IB) apresentaram correlação significante. Se o pico do indicador de adultos concorda temporalmente com o pico do indicador larvário, a identificação desta ocorrência no tempo pode auxiliar na realização de atividades de vigilância entomológica e na adoção de medidas de controle.

As densidades de fêmeas de Cx. quinquefasciatus nos meses de maior infestação atingiram valores mais expressivos do que os encontrados para Ae. aegypti (respectivamente 7,8 e 4,4 fêmeas por casa para Ocauçu e Uchoa). Além de representar incômodo para a população, tais densidades indicam que esta espécie poderia atuar como um importante vetor na transmissão de doenças e em especial na infecção por VNO.17

Em relação à sensibilidade, em pesquisa realizada na Tailândia, do total de adultos de Ae. aegypti capturados no intradomicílio, 30% a 60% foram aspirados de duas a quatro caixas de repouso. Esses valores foram superiores aos encontrados no presente estudo (21,4% das fêmeas), onde se trabalhou com apenas uma caixa no ambiente.10 Essas diferenças podem estar relacionadas à quantidade de caixas utilizadas, aos níveis de infestação e também aos horários de coletas. Enquanto que na Tailândia obteve-se uma média (realizando-se duas capturas diárias) de 14,2 fêmeas por casa, em Ocauçu e Uchoa os valores foram inferiores (realizando-se apenas captura de manhã).

Para o gênero Culex, as caixas de repouso mostraram ser um método de detecção mais sensível do que para o Ae. aegypti. O comportamento biológico do Culex, com atividade hematófagica noturna e repouso diurno, favorece o seu encontro em locais de repouso durante o dia.7 Por outro lado, a atividade hematofágica de Ae. aegypti é diurna com menor probabilidade de encontro em locais de repouso em capturas realizadas neste período.

Novas avaliações devem ser realizadas para a proposição ou descarte das caixas de repouso como método de vigilância entomológica tanto para Ae. aegypti como o gênero Culex. É preciso levar em conta que a sensibilidade das caixas foi medida em relação ao número de adultos que os operadores tiveram êxito em coletar e não em relação ao total de adultos presentes. Mesmo para o gênero Culex, que apresentou maiores valores de sensibilidade, as caixas de repouso devem ser comparadas com outros métodos de estimativa da densidade de adultos, como as armadilhas tipo CDC.

 

AGRADECIMENTOS

À Dra. Carmen M. Glasser, da Superintendência de Controle de Endemias, pelas sugestões na elaboração do projeto. Às equipes de campo e aos membros das equipes de apoio técnico e científico dos Serviços Regionais 8 e 11 da Superintendência de Controle de Endemias, pelo auxílio no trabalho de campo e laboratório.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Francisco Chiaravalloti Neto
Laboratório de Vetores
Av. Brigadeiro Faria Lima, 5.416
15090-000 São José do Rio Preto, SP, Brasil
E-mail: fcneto@famerp.br

Recebido: 9/3/2006
Revisado: 17/7/2006
Aprovado: 3/11/2006
Financiado pelo Convênio entre Fundação Nacional de Saúde do Ministério da Saúde e a Superintendência de Controle de Endemias (Processo FNS nº. 25100.004590/98-20).

 

 

* Informações da Superintendência de Controle de Endemias. Dados inéditos.
** Informações da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. Dados inéditos.