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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.42 n.4 São Paulo Aug. 2008 Epub June 27, 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102008005000036 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Percepções de professores portugueses sobre educação sexual*

 

Percepciones de profesores portugueses sobre educación sexual

 

 

Lúcia Ramiro; Margarida Gaspar de Matos

Faculdade de Motricidade Humana. Universidade Técnica de Lisboa. Lisboa, Portugal

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar percepções e atitudes em relação à educação sexual entre professores portugueses do ensino básico e secundário.
MÉTODOS: Participaram do estudo 371 professores de ambos os sexos, do segundo e terceiro ciclos e do ensino secundário do continente Português, entre Fevereiro e Março de 2006. A coleta de dados foi feita por meio de questionário, pela técnica bola de neve, constituído por duas partes; a primeira abordava dados sociodemográficos, caracterização profissional, crenças religiosas, formação e experiência em educação sexual em meio escolar. A segunda parte foi composta por escalas relativas a atitudes, importância atribuída a temas de educação sexual e nível de ensino para introduzir tópicos de educação sexual. A análise das diferenças entre géneros, entre professores com e sem experiência em educação sexual, e entre professores com e sem formação complementar na área foi efectuada pela análise de variância ANOVA.
RESULTADOS: Os professores, no geral, revelaram quer atitude quer importância médias/altas em relação à educação sexual. Imagem corporal foi o único tópico que deveria ser introduzido no primeiro ciclo. As professoras [F(1;366)=7,772; p=0,006] por oposição aos professores, os professores com formação em educação sexual [F(1;351)=8,030; p=0,005], por oposição aos que não têm formação, e os com experiência em educação sexual em meio escolar [F(1;356)=30,836; p=0,000], por oposição aos sem experiência, revelaram uma atitude mais positiva em relação à educação sexual (M=39,5; 40,4; 41,3; respectivamente). Somente professores com mais formação atribuíram mais importância à educação sexual [F(1;351)=5,436;p=0,020] e as professoras propuseram introdução da educação sexual mais cedo [F(1;370)=5,412; p=0,021].
CONCLUSÕES: Os professores no geral são favoráveis à educação sexual em meio escolar. O fato de a maioria dos tópicos ficarem reservados para os segundo e terceiro ciclos pode não ser adequado, pois a educação sexual deve ser introduzida antes da manifestação de comportamentos sexuais.

Descritores: Educação Sexual, recursos humanos. Ensino. Currículo. Conhecimentos, Atitudes e Prática em Saúde.


RESUMO

OBJETIVO: Evaluar percepciones y actitudes en relación a la educación sexual entre profesores portugueses de enseñanza básica y secundaria.
MÉTODOS: Participaron del estudio 371 profesores de ambos sexos, del segundo y tercer ciclo y de la enseñanza secundario del continente Portugués, entre Febrero y Marzo de 2006. La colecta de datos fue hecha por medio de cuestionario, por la técnica bola de nieve, constituido por dos partes; la primera abordaba datos sociodemográficos, caracterización profesional, creencias religiosas, formación y experiencia en educación sexual en medio escolar. La segunda parte fue compuesta por escalas relativas a actitudes, importancia atribuida a temas de educación sexual y nivel de enseñanza para introducir tópicos de educación sexual. La análisis de las diferencias entre géneros, entre profesores con y sin experiencia en educación sexual, y entre profesores con y sin formación complementaria en el área fue efectuada por la análisis de variancia ANOVA.
RESULTADOS: Los profesores, en general, revelaron actitud y importancia medias/altas en relación a la educación sexual. Imagen corporal fue el único tópico que debería ser introducido en el primer ciclo. Las profesoras [F (1; 366)=7,772; p=0,006] por oposición a los profesores, los profesores con formación en educación sexual [F (1; 351)=8,030; p=0,005], por oposición a los que no tienen formación, y los con experiencia en educación sexual en medio escolar [F (1; 356)=30,836; p=0,000], por oposición a los sin experiencia, revelaron una actitud más positiva en relación a la educación sexual (M=39,5; 40,4; 41,3; respectivamente). Solamente profesores con más formación atribuyeron más importancia a la educación sexual [F (1; 351)=5,436; p=0,020] y las profesoras propusieron introducción de la educación sexual mas temprano [F (1; 370)=5,412; p=0,021].
CONCLUSIONES: Los profesores en general son favorables a la educación sexual en medio escolar. El hecho de que la mayoría de los tópicos quedaron reservados para los segundos y terceros ciclos puede no ser adecuado, debido a que la educación sexual debe ser introducida antes de la manifestación de comportamientos sexuales.

Descriptores: Educación Sexual, recursos humanos. Enseñanza. Curriculum. Conocimientos, Actitudes y Práctica en Salud


 

 

INTRODUÇÃO

A sexualidade resulta da socialização a que todos estão sujeitos, formal e informalmente. Ela envolve processo de aprendizagem, com início na infância, no seio familiar e se complementa com outros agentes de socialização, tais como amigos, escola, mídia e internet.13,17,18

No que diz respeito ao mais importante agente de socialização - a família, investigações9,15 sugerem que a atitude parental positiva em relação à sexualidade, bom relacionamento e a percepção de supervisão parental influenciam no adiamento da primeira experiência sexual dos filhos, no aumento da contracepção e na redução de gravidez não planeada.

Segundo o relatório do Fundo das Nações Unidas para a População,5 actualmente existe no mundo a maior geração de jovens (15 aos 24 anos). Além disso, constata-se recente aumento na incidência de infecção por HIV entre jovens - cerca de metade dos novos casos, o que pode potenciar um problema mundial de saúde sexual reprodutiva. Portugal figura em quinto lugar entre os países europeus com maior taxa de prevalência do HIV (0,7% de homens e 0,2% de mulheres) entre 15 e 49 anos.

A escola é lugar privilegiado para realização de educação sexual formal e articulada, pois crianças e adolescentes permanecem um tempo significativo na escola e outros agentes de educação sexual como internet e mídia fornecem frequentemente educação não estruturada. As primeiras vivências amorosas acontecem em idade escolar, e existem na instituição os recursos humanos e materiais para a concretização da educação.16 A educação sexual na escola também contribui para sua promoção em família.1

A avaliação efectuada aos vários programas de educação sexual indica que esta tem atrasado a entrada na vida sexual activa ou aumentado a freqüência de utilização do preservativo dos que já tinham iniciado a sua vida sexual.6

Em estudo recente sobre a população portuguesa,12 cerca de 90% dos inquiridos afirmaram a importância da educação sexual em meio escolar e sua obrigatoriedade (87%).

Segundo vários autores,1,8,15 o professor é o agente central no sucesso da educação sexual, mais por suas atitudes do que pelos conhecimentos que comunica, especialmente em temas tão controversos como sexualidade.

Zapiain19 enfatiza a importância da formação do professor, pois seus conhecimentos na área da sexualidade são pré-requisito para o sucesso da educação sexual. Eles podem ser adquiridos durante a formação inicial na área ou por meio de formação contínua. Em Portugal, os docentes são obrigados a cumprir no mínimo 25 horas anuais de formação contínua. Este tipo de formação torna-se ainda mais relevante porque, de acordo com o Ministério da Educação de Portugal,2 qualquer professor, independentemente da formação inicial, poderá leccionar educação sexual desde que tenha formação complementar específica na área e possibilidade de supervisão pessoal.

Reis & Vilar11 afirmam que, assim como a formação, a experiência de educação sexual em meio escolar está associada com as atitudes do professor. Segundo Fisher et al,4 as atitudes podem ser mais no extremo erotofílico ou mais no extremo erotofóbico, i.e., mais positivas ou mais negativas face à sexualidade. A atitude é especialmente relevante porque os autores sugerem uma associação entre a erotofilia e a motivação para adquirir conhecimentos sobre sexualidade, a adopção de comportamentos sexuais seguros e a crença de que a educação sexual em meio escolar promove escolhas saudáveis e responsáveis. Tais atitudes4 são influenciadas pelo grau de concordância com a educação sexual e com o programa a implementar. Ou seja, quanto mais favorável for sua atitude em relação à educação sexual, mais importância será atribuída ao tema e desenvolverá maior motivação para adquirir conhecimentos e para a leccionar.

A educação sexual em meio escolar é obrigatória em todos os ciclos do ensino básico desde 1986, mas as escolas não cumpriram a directiva ministerial por motivos como falta de professores com formação específica ou inexistência de um quadro conceptual de educação sexual. Apesar desse quadro conceptual ter sido publicado em 2000, poucas escolas se envolveram.

Actualmente,3 o Ministério de Educação português produziu orientações sobre os moldes para as escolas trabalharem a educação sexual: 1) como parte integrante de uma área mais abrangente, a "Educação para a Saúde"; 2) transversalmente pela reformulação dos currículos que contemplam conteúdos e/ou competências de educação sexual; 3) em nível curricular pela selecção de uma das áreas curriculares não disciplinares do ensino básico; e da 4) criação de um gabinete de apoio aos alunos do secundário. Apesar de todos os esforços do ministério da educação, nem todas as escolas cumprem estas directrizes, estando a educação sexual em fase de implementação.

Dada a centralidade do professor na educação sexual, o presente estudo teve por objetivo avaliar percepções e atitudes em relação à educação sexual entre professores portugueses do ensino básico e secundário.

 

MÉTODOS

Foram inquiridos professores, de ambos os sexos, de segundo e terceiro ciclos do ensino básico e secundário pela técnica "bola de neve".4 Adotou-se esta técnica, pois os professores são uma amostra de difícil recolha devido à grande quantidade de tempo que consomem em tarefas burocráticas, à sensibilidade da temática em causa e maior garantia de anonimato tendo em vista menor contacto com o investigador.

Após explicação da investigação, foi pedido o consentimento informado aos participantes, garantindo-se a confidencialidade dos dados a recolher. Os primeiros 16 questionários foram distribuídos pela investigadora e, após explicação da técnica escolhida, os sujeitos que quiseram participar foram informados que deveriam recolher a informação de outros: metade do género masculino e metade do feminino; e que estes últimos, por sua vez, se interessados, deviam seguir as mesmas recomendações. O número de questionários distribuído inicialmente a cada professor foi diferente uma vez que o número de participantes ao alcance de cada um era completamente díspar, de acordo com a dimensão da comunidade escolar em que se inseria. Os primeiros professores envolvidos na técnica "bola de neve" eram quer de zonas rurais quer urbanas do norte ao sul de Portugal continental. Para garantir a eficácia da técnica, foi criado um documento de explicação do estudo e instruções de recolha de questionários. Foram distribuídos 670 inquéritos durante Fevereiro e Março de 2006. Foram devolvidos 55,4% dos inquéritos. A não identificação do género foi critério de exclusão.

O questionário foi constituído por duas partes: a primeira relativa a dados sociodemográficos, caracterização profissional dos participantes, crenças religiosas, formação e experiência na área da educação sexual em meio escolar; a segunda por escalas referentes a atitudes, importância atribuída a dez temas de educação sexual e nível de ensino para introduzir 26 tópicos de educação sexual.

A escala de atitudes foi retirada do "Questionário de Avaliação de Atitudes dos Professores face à Educação Sexual" (QAAPES - Reis & Vilar,10) e é constituída por dez itens: 1. "A educação sexual nas escolas é muito importante para as crianças e jovens.", 2. "A educação sexual nas escolas motiva comportamentos sexuais precoces.", 3. "A sexualidade vai-se aprendendo ao longo da vida e não na escola.", 4. "Só os professores de Biologia têm responsabilidade na educação sexual.", 5. "A educação sexual deve ser uma das áreas obrigatórias em todas as escolas.", 6. "As acções de educação sexual na escola são um meio muito eficaz de prevenção da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA).", 7. "As acções de educação sexual na escola são um meio muito eficaz de prevenção do recurso ao aborto.", 8. "É aos pais e não à escola que compete a educação sexual das crianças e jovens.", 9. "Hoje em dia, com toda a informação que passa nas revistas e na televisão, a educação sexual na escola é pouco necessária." e 10. "Todos os professores têm responsabilidades na educação sexual dos seus alunos.". As respostas foram do tipo likert, com cinco pontos: 1 - discordo totalmente, 2 - discordo, 3 - nem concordo nem discordo, 4 - concordo, e 5 - concordo totalmente. O valor alfa de Cronbach obtido foi de 0,79.

A escala que avaliou a importância que o professor atribui à abordagem de determinados tópicos de educação sexual em meio escolar foi traduzida da Attitudes, knowledge, and comfort of teachers in New Brunswick schools (AKCT - Cohen et al2) e é constituída por dez itens: "Linguagem técnica dos órgãos genitais", "Puberdade", "Reprodução", "Contracepção e sexo seguro", "Abstinência", "Infecções sexualmente transmissíveis (IST)", "Abuso e assédio sexuais", "Segurança pessoal (prevenção de abuso sexual)", "Prazer e orgasmo" e "Tomada de decisões nos relacionamentos amorosos", com um formato de resposta de cinco pontos: 1- nada importante, 2 - razoavelmente importante, 3 - importante, 4 - muito importante, e 5 - extremamente importante. No presente estudo obteve-se um valor alfa de Cronbach de 0,82.

A escala que avaliou o nível de ensino em que o professor considera que determinados tópicos da educação sexual devem ser introduzidos em meio escolar foi traduzida e adaptada da AKCT2 e é constituída por 26 itens, sendo nove dos dez já referidos na escala anterior, à excepção de "Tomada de decisões nos relacionamentos amorosos"; e "Imagem corporal", "Sonhos molhados", "Menstruação", "Gravidez e parentalidade na adolescência", "Igualdade de género no relacionamento amoroso", "Homossexualidade", "Atracção, amor e intimidade", "Comunicação acerca do relacionamento sexual", "Estar à vontade com o sexo oposto", "Pressão dos pares para a actividade sexual", "Masturbação", "Comportamento sexual", "Sexo como parte do relacionamento amoroso", "Problemas e preocupações sexuais", "A sexualidade e os Media", "Pornografia" e "Prostituição nos jovens". Cada item apresentava cinco possibilidades de resposta relativa ao nível de ensino: 1 - primeiro ciclo, 2 - segundo ciclo, 3 - terceiro ciclo, 4 - secundário, e 5 - nenhum. Depois de recodificado o nível de resposta 5 para missing, os resultados poderiam variar entre 26 e 104. Resultados mais baixos significaram a introdução dos tópicos mais cedo na vida escolar. No presente estudo obteve-se um valor alfa de Cronbach de 0.91.

Quer os investigadores canadianos, quer os portugueses, autorizaram a utilização de seus instrumentos, mesmo que abreviados e adaptados. Relativamente à adaptação da escala que avalia o nível de ensino, foram consideradas as diferenças entre os sistemas de ensino e adaptou-se a mesma para o sistema de ensino português. As escalas foram traduzidas por um especialista nas línguas inglesa e portuguesa. Antes de aplicado, o questionário foi avaliado por um painel de especialistas, por um especialista na área, e sujeito a um teste piloto em amostra reduzida da população. O questionário foi administrado em cerca de 30 min.

As atitudes, importância e nível de ensino para introduzir a educação sexual foram descritos com base em estatística descritiva. A escala relativa ao nível de ensino foi também utilizada para avaliar o momento em que os respondentes consideravam que determinados tópicos devem ser introduzidos.

Os participantes foram distribuídos por grupos de acordo com o género, experiência em educação sexual em meio escolar e formação complementar na área. A análise dessas diferenças foi efectuada pela análise de variância ANOVA para grupos independentes.

Os procedimentos estatísticos foram efectuados utilizando-se o programa SPSS, versão 13.0.

O estudo teve a aprovação da Comissão de Ética da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa.

 

RESULTADOS

A amostra foi constituída por 371 professores, sendo 39.6% do sexo masculino. A média de idade era 39.1 anos (DP=8,17), a maioria era católica (70,8%), casada (53,1%), e com filhos (63,1%), em relacionamento com duração média de 13,7 anos (DP=8,47). Quanto à categoria profissional, a maior parte era professor efectivo do quadro (58,9%), leccionavam há 14.2 anos (DP=8,13), são dos vários grupos disciplinares e são licenciados (78,4%). A maioria (77,6%) não possuía formação complementar específica em educação sexual, e quanto à experiência de educação sexual em meio escolar, apenas 28,3% dos professores inquiridos a referiram (Tabela 1).

 

 

Observou-se atitude positiva em relação à educação sexual em meio escolar, uma vez que a opinião dos professores oscilou entre moderadamente positiva - nos itens positivos à educação sexual em meio escolar (por exemplo "A educação sexual nas escolas é muito importante para as crianças e jovens."), e moderadamente negativa - nos itens negativos (por exemplo "A educação sexual nas escolas motiva comportamentos sexuais precoces."). O item "Só os professores de Biologia têm responsabilidade na educação sexual." foi o único com o qual os inquiridos manifestaram opinião não moderada com valor modal 1 ("discordo totalmente"), mas revelaram atitude positiva ao fazê-lo pois assumiram que a educação sexual é responsabilidade de todos.

Constataram-se diferenças estatisticamente significativas de atitude quanto ao género dos participantes, indicando que homens tiveram atitude menos positiva do que mulheres em relação à educação sexual (média=37,9; DP=5,98 para sexo masculino e média=39,5; DP= 4,9 para o sexo feminino; F (1;366)= 7,772; p=0,006).

Houve diferenças estatisticamente significativas das atitudes quanto à formação de educação sexual dos participantes [F (1;351)= 8,030; p=0,005]: a média dos docentes com formação (40,4; DP=4,9) foi superior à dos que não tiveram formação (38,5; DP=5,5).

Observaram-se ainda diferenças estatisticamente significativas das atitudes quanto à experiência em educação sexual em meio escolar [F (1;356)=30,836; p=0,000]: os que já haviam desenvolvido actividades revelaram atitudes mais positivas (41,3; DP= 4,4) dos que ainda não tinham desenvolvido (37,9; DP= 5,5).

A pontuação final da escala de atitude em relação à educação sexual variou entre 16 e 50. Verificou-se que os professores tiveram atitude média /alta (38,9; DP=5,41) em relação à educação sexual (Tabela 2).

 

 

Foi atribuída importância a todos os tópicos - variando a média entre 3 (DP=1,16) e 4,6 (DP=0,65) nos itens "Abstinência" e "ISTs", respectivamente.

Não se constataram diferenças estatisticamente significativas da importância atribuída a temas gerais da educação sexual quanto ao género dos participantes [F (1;351)=3,012; p=0,084] nem quanto à experiência [F (1;356)=3,468; p=0,063] para um nível de significância de pd"0,05. Contudo foram observadas diferenças estatisticamente significativas quanto à formação complementar [F (1;351)=5,436; p=0,020], quando esses professores atribuíram maior importância (M=40,7; DP=5,4) do que os sem formação complementar (M=39,0; DP=5,6).

A pontuação final da escala da importância atribuída a temas gerais da educação sexual variou entre 24 e 50. Verificou-se que os professores atribuíram nível de importância médio/alto aos temas gerais da educação sexual (M=38,4; DP=5,56) (Tabela 3).

 

 

No que diz respeito ao momento de introdução dos tópicos da educação sexual, observaram-se diferenças estatisticamente significativas quanto ao género [F (1;370)=5,412; p=0,021], no sentido dos professores introduzirem a educação sexual em meio escolar mais tarde (M=68,8; DP=11,7) do que as professoras (M=65,7; DP=11,4). Não foram verificadas diferenças nem quanto à formação complementar [F (1;351)=1,243; p=0,266] nem quanto à experiência em educação sexual em meio escolar [F (1;319)=3,427; p=0,065] para um nível de significância de p<0.05.

A pontuação final da escala sobre o momento de introdução dos tópicos da educação sexual variou entre 33 e 92, sendo introduzidos preferencialmente mais tarde (M=67; DP=11,60) (Tabela 4).

 

 

O nível de ensino foi descrito com base em estatística descritiva e os tópicos foram organizados por níveis (Tabela 5). "Imagem corporal" foi o único tópico que deveria ser introduzido no primeiro ciclo, "Menstruação", "Puberdade", "Reprodução e Nascimento", "Segurança pessoal", "Linguagem técnica dos órgãos genitais", e "Abuso e assédio sexuais" no segundo ciclo, e os demais tópicos no terceiro ciclo. Relativamente ao tópico "ISTs / SIDA", os respondentes ficaram divididos entre o segundo ciclo (n=161; 45,1%) e o terceiro (N=167, 46,8%). Apesar de, no geral, os professores apoiarem a introdução dos vários tópicos da educação sexual em meio escolar, "Abstinência" (16,5%) e "Pornografia" (15,3%) foram identificadas como tópicos a serem excluídos.

 

DISCUSSÃO

Os resultados do presente estudo sugerem que os professores, no geral, são maioritariamente favoráveis à educação sexual em meio escolar, pois revelam atitudes ou importância média/alta, ou seja, bastante positiva. No entanto, consideraram que a maior parte dos tópicos deve ser introduzida apenas no terceiro ciclo, revelando atitude pouco positiva face à educação sexual.

Estudos enfatizam a importância atribuída à educação sexual como aspecto crucial.2,11 Constatou-se que os participantes consideraram todos os tópicos importantes e metade deles ("Contracepção e sexo seguro", "ISTs", "Abuso e assédio sexuais", "Segurança pessoal" e "Tomada de decisões nos relacionamentos amorosos") extremamente importantes. Dentre os temas considerados como muito importantes foram contemplados "Contracepção e sexo seguro" e "IST". Esses dados estão em concordância com um estudo português à população geral14 que elegeu estes tópicos como os mais importantes na educação sexual.

Quanto ao nível de ensino adequado para introduzir os 26 tópicos, só o "Imagem corporal" foi seleccionado para o primeiro ciclo; os restantes 25 tópicos ficaram reservados para o segundo e terceiro ciclos. Todavia, vários autores2,11 referem a importância da educação sexual ser introduzida cedo, antes de qualquer comportamento sexual.

A abstinência é proposta para ser excluída da lista de tópicos de educação sexual por um grupo relevante de sujeitos. Essa questão resulta de uma especificidade cultural:3 a capacidade de adaptação que originou uma atitude de tolerância é um dos traços da cultura portuguesa. De facto, nunca foi advogada em Portugal a preferência por uma educação sexual no sentido da abstinência ou um qualquer valor religioso, nem por especialistas,19,2 nem pela população.12 Compreende-se, assim, que não se defenda a promoção de qualquer comportamento sexual - abstinência ou outro - em Portugal, mas que se favoreçam as escolhas individuais, conscientes e livres.14

Dado o aumento na incidência de HIV e na taxa de gravidez não planeada no grupo de jovens, deve-se verificar a importância que os professores atribuem a tópicos como "ISTs / Sida" e "Contracepção e sexo seguro". Os professores participantes no presente estudo atribuiram nível de importância médio/alto em relação aos tópicos relacionados com a prevenção de HIV e IST, e da gravidez não planeada. No entanto, estão divididos entre o segundo e o terceiro ciclos quanto ao nível de introdução do tópico "IST/Sida". A maioria considerou que "Contracepção e sexo seguro" deva ser introduzido no terceiro ciclo porém, este ciclo abrange idades em que alguns adolescentes iniciam a sua vida sexual, além do facto da idade da primeira relação sexual estar a antecipar-se.

Analisando-se as diferenças entre géneros, observou-se que as mulheres parecem revelar atitudes mais favoráveis e, inclusive, propõem que os tópicos seleccionados sejam introduzidos mais cedo. Esses resultados estão em discordância do estudo de Cohen et al2 no qual homens revelavam atitudes mais favoráveis. Possivelmente os resultados diferem porque a amostra estudada por Cohen et al,2 além de não ser portuguesa, era constituída por professores do primeiro, segundo e terceiro ciclos do ensino básico e com apenas 26% de sujeitos do sexo feminino. Por outro lado, a amostra do presente estudo foi constituída por professores do segundo e terceiro ciclos do ensino básico e do secundário, dos quais cerca de 60% eram mulheres.

Considerando a formação dos professores inquiridos, verifica-se que aqueles que frequentaram acções de formação nesta área foram os que revelaram atitudes mais positivas e atribuíram maior importância ao tema.

Apesar da legislação portuguesa5 ter tornado obrigatória a educação sexual em meio escolar há alguns anos, os resultados do presente estudo sugerem que esta ainda não está estabelecida de forma generalizada. Talvez a isso se deva o facto de 77,6% dos sujeitos desta amostra não terem freqüentado qualquer acção de educação sexual apesar de haver instituições a promover formação complementar. Este dado é concordante, apesar de mais acentuado, com os estudos internacionais (65%2) e portugueses (67%7 ).

Quanto à experiência em educação sexual em meio escolar, são os professores que já desenvolveram actividades que referem atitudes mais positivas.

A técnica da bola de neve tem como limitação selecionar a amostra por conveniência, o que neste caso sugere que poderão ter sido escolhidos sujeitos com atitude favorável à educação sexual, deste modo enviesando os resultados.

À semelhança de outras investigações, no presente estudo foi avaliada a percepção que os sujeitos têm das suas atitudes e da importância que atribuem à educação sexual e não os constructos em si, fazendo com que os resultados possam estar influenciados pela avaliação subjectiva dos participantes. Relativamente aos níveis de ensino em que introduziriam determinados tópicos de educação sexual, salienta-se o carácter hipotético das suas opções uma vez que a educação sexual ainda não está implementada de forma generalizada nas escolas portuguesas.

Como limitação, o tamanho da amostra foi pouco significativo para o universo de sujeitos, o que pode prejudicar a generalização dos resultados.

Os resultados sugerem que as atitudes são passíveis de serem alteradas pela formação complementar e pelo envolvimento em experiências de educação sexual em meio escolar. Assim, considerando-se as atitudes como centrais no processo de ensinoa-prendizagem, especialmente no desenvolvimento das competências dos adolescentes, as atitudes devem ser priorizadas. Acresce o facto de ser também pela formação complementar que os professores, cujas habilitações iniciais não estão relacionadas com a sexualidade, podem ultrapassar as dificuldades nesse âmbito. De facto, mesmo a formação inicial parece ser demasiado redutora em relação à multiplicidade de áreas do conhecimento humano que a educação sexual abrange, reiterando, deste modo, a importância da formação complementar. Como já foi referido, actualmente, um grupo de especialistas2,3 nomeado pelo Ministério da Educação de Portugal tem vindo a indicar medidas que potenciam a implementação da educação sexual em meio escolar, sendo a formação complementar uma das identificadas. No futuro, se cumpridas as orientações, o grau de formação dos professores deverá ser superior e é assim de esperar que as suas atitudes em relação à educação sexual e o grau de importância conferida seja também mais positivo, permitindo-lhes desempenhar um papel fundamental e proactivo no desenvolvimento futuro da educação sexual em Portugal.

 

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Correspondência | Correspondence:
Lúcia Ramiro
Faculdade de Motricidade Humana
Estrada da Costa, 1495-688
Cruz Quebrada, Portugal
E-mail: aventurasocial@fmh.utl.pt

Recebido: 6/6/2007
Revisado: 22/11/2007
Aprovado: 3/1/2008

 

 

* Artigo redigido no idioma português de Portugal.
1 López F, Fuertes A. Para compreender a sexualidade. Lisboa: Associação para o Planeamento da Família; 1999.
2 Ministério da Educação. Grupo de Trabalho de Educação Sexual. Relatório Preliminar do Grupo de Trabalho de Educação Sexual. Lisboa; 2005 [acesso em 5 dez 2005]. Disponível em: http://sitio.dgidc.min-edu.pt/saude/documents/relatorio_preliminar_es_31-10-2005.pdf
3 Ministério da Educação. Grupo de Trabalho de Educação Sexual. Relatório de progresso. Lisboa; 2007 [acesso em 20 jan 2007]. Disponível em: http://sitio.dgidc.min-edu.pt/saude/documents/relatorio_progressogtes.pdf
4 Atkinson R, Flint J. Accessing hidden and hard-to-reach populations: snowball research strategies. Soc Res Update [periódico na internet]. 2001 [acesso em 6 jan 2006]; 33. Disponível em http://www.soc.surrey.ac.uk/sru/SRU33.html
5 Portugal. Lei nº 3/84, de 24 de março de 1984. Educação Sexual e Planeamento Familiar. D.R. n.º 71 I. 24 mar 1984. p.981-3.