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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.42 n.4 São Paulo Aug. 2008 Epub May 09, 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102008005000031 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Inquérito sobre uso de medicamentos por idosos aposentados, Belo Horizonte,MG

 

 

Andréia Queiroz RibeiroI; Suely RozenfeldII; Carlos Henrique KleinII; Cibele Comini CésarIII; Francisco de Assis AcurcioI

IDepartamento de Farmácia Social. Faculdade de Farmácia. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Belo Horizonte, MG, Brasil
IIEscola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca. Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIIDepartamento de Estatística. Instituto de Ciências Exatas. UFMG. Belo Horizonte, MG, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Caracterizar o uso de medicamentos por aposentados e pensionistas idosos, com ênfase nas diferenças entre gêneros.
MÉTODOS: Inquérito domiciliar conduzido com amostra aleatória simples de 667 indivíduos com 60 anos ou mais, residentes em Belo Horizonte, MG, em 2003. Os idosos foram entrevistados por farmacêuticos, utilizando questionário padronizado. Foram estimadas a prevalência de uso e a média de medicamentos usados nos últimos 15 dias anteriores à entrevista, as quais foram estratificadas de acordo com o gênero segundo variáveis sociodemográficas e de saúde.
RESULTADOS: A prevalência de uso de medicamentos foi de 90,1%, significativamente maior entre as mulheres (93,4%) do que entre os homens (84,3%). Mulheres utilizaram em média 4,6±3,2 produtos e homens 3,3±2,6 (p<0,001). Os princípios ativos mais usados pelos idosos pertenciam aos sistemas cardiovascular, nervoso, e do trato alimentar e metabolismo. O consumo foi superior entre as mulheres nesses três grupos, assim como as médias de uso de medicamentos segundo variáveis sociodemográficas e de saúde selecionadas.
CONCLUSÕES: O estudo identificou uso mais intenso de medicamentos pelas mulheres, fato que as torna mais vulneráveis aos prejuízos de polifarmácia, como risco de interações e uso inadequado.

Descritores: Saúde do Idoso. Medicamentos de Uso Contínuo. Quimioterapia Combinada. Gênero e Saúde. Farmacoepidemiologia.


 

 

INTRODUÇÃO

O Brasil tem vivenciado importantes mudanças demográficas, com aumento da expectativa de vida e acentuado envelhecimento da população. Na primeira década do século XXI estima-se incremento populacional anual de meio milhão de indivíduos com 60 anos ou mais.10 Os idosos possuem demandas sociais, econômicas e sanitárias específicas para obtenção de condições adequadas de vida que fazem do envelhecimento tema emergente de investigação nas distintas áreas de conhecimento. Entre elas, a farmacoepidemiologia tem como objeto o estudo da distribuição e dos determinantes de acontecimentos relacionados com os fármacos nas populações e sua aplicação a uma terapêutica farmacológica eficaz.9

Indivíduos com 60 anos ou mais de idade apresentam aumento da freqüência das doenças crônico-degenerativas, cujo controle e prevenção de seqüelas muitas vezes demandam o uso constante de medicamentos. A maior utilização de medicamentos por idosos ocorre entre as mulheres, nos mais velhos, naqueles com pior percepção da saúde, com maior freqüência de doenças crônicas e que utilizam mais os serviços de saúde.3,8,17,18,21

No que diz respeito ao gênero, têm sido descritas diferenças na utilização de medicamentos por idosos. As mulheres utilizam mais analgésicos, antireumáticos e psicotrópicos e nos homens se observa maior utilização de agentes trombolíticos, cardioterápicos e antiasmáticos.5,8,12,16 Outras investigações relataram diferenças de gênero no uso de medicamentos prescritos e não prescritos com maior prevalência de uso entre mulheres em ambas as situações.6,13

No Brasil, a farmacoepidemiologia do envelhecimento ainda é uma área incipiente e poucos inquéritos investigaram diferenças entre homens e mulheres na freqüência de utilização de medicamentos.4,7,13,15

O objetivo do presente artigo foi caracterizar o uso de medicamentos entre os idosos beneficiários do INSS, com ênfase nas diferenças entre gêneros.

 

MÉTODOS

Os dados analisados fazem parte de projeto maiora com o objetivo de descrever o perfil de utilização de medicamentos por aposentados e pensionistas do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), com 60 anos ou mais de idade, em três âmbitos: o Brasil e os municípios de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro.1

Trata-se de estudo de delineamento seccional (inquérito). A população-alvo foi constituída pelos aposentados e/ou pensionistas, com idade de 60 anos ou mais, vinculados ao Regime Geral de Previdência Social do INSS/MPAS e residentes em Belo Horizonte, MG, em 2002. Em dezembro daquele ano, o cadastro da Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social (DATAPREV) registrava nessa cidade 157.809 idosos com benefícios previdenciários e assistenciais ativos de prestação continuada pela Previdência Social (aposentadoria, pensão ou amparo social ao idoso).

A seleção dos participantes foi realizada pela DATAPREV, a partir de seu cadastro de beneficiários, por amostragem aleatória simples. O tamanho da amostra foi definido considerando nível de confiança de 95%, taxa de resposta de 75%, erro amostral entre 4% e 0,8% para prevalências entre 50% e 1%, respectivamente, e supondo não existirem diferenças significativas entre respondentes e não respondentes. Inicialmente foram sorteados 800 indivíduos. Entretanto, foi necessário sorteio adicional para cobrir possíveis perdas, como falecimento, mudança para outros municípios ou local desconhecido e endereços não localizados. Este procedimento resultou em acréscimo de 81 indivíduos à amostra inicial. Maiores detalhes sobre a metodologia estão descritos em Acurcio et al.1

As informações foram obtidas por meio de questionário com perguntas fechadas e pré-codificadas referentes a características sociodemográficas, condições de saúde, uso de serviços de saúde e medicamentos nos 15 dias anteriores à realização da entrevista. Para evitar viés de memória, os dados sobre uso de medicamentos foram obtidos com período recordatório de 15 dias, por 14 farmacêuticos previamente selecionados e treinados. A maioria dos medicamentos teve seu uso comprovado por bulas, embalagens ou prescrições apresentadas pelos entrevistados.

Para cada especialidade farmacêutica utilizada, foram identificados fabricante, forma farmacêutica e origem da prescrição/indicação. Fabricante e forma farmacêutica foram utilizados para auxiliar na classificação dos medicamentos.

As entrevistas foram individuais e domiciliares realizadas durante três meses (mar-jun/2003), preferencialmente com os idosos selecionados na amostragem. Entretanto, quando havia impedimento por motivos de saúde, tais como surdez ou déficit cognitivo, as entrevistas foram feitas com parentes ou cuidadores, que também prestaram esclarecimentos, exceto em caso de auto-avaliação.

As unidades de análise foram os indivíduos e os princípios ativos. As proporções dos princípios ativos usados pelos idosos foram identificados com o auxílio do Dicionário de Especialidades Farmacêuticas (DEF)14 e do Anatomical Therapeutic Chemical Classification System (ATC)20 e agrupados segundo preconiza a classificação. A razão do número de princípios ativos por entrevistado foi usada como indicador da intensidade de uso de cada grupo, calculada dividindo-se o número de princípios ativos contidos nos medicamentos citados pelo número de entrevistados. A comparação por gênero foi feita dividindo-se a razão do número de princípios ativos por entrevistado entre mulheres e homens.

As variáveis-resposta foram uso e número de medicamentos nos 15 dias anteriores à entrevista. As variáveis explicativas foram idade, escolaridade, tipo de moradia, co-habitação, estado de saúde e doenças auto-referidas, afiliação a plano de saúde privado e uso de serviços de saúde.

As diferenças entre as proporções foram testadas com o qui-quadrado de Pearson e o qui-quadrado de tendência linear. Intervalos de confiança de 95% foram construídos para as razões de prevalência. As diferenças entre as médias foram comparadas por análise de variância. Para todos os testes, utilizou-se nível de significância de 5%. O programa empregado nas análises estatísticas foi o SPSS 14.0.1.

Ocorreram perdas de informação para a realização das entrevistas principalmente por recusa, falecimento ou mudança de endereço.1 Na elaboração das estatísticas, considerou-se que os indivíduos perdidos foram representados pelos entrevistados. Desse modo, a influência das perdas se restringe à redução de precisão de estimativas.

A pesquisa foi conduzida dentro dos padrões exigidos pela Declaração de Helsinque e aprovada pelos Comitês de

Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais e da Fundação Oswaldo Cruz.

 

RESULTADOS

Dos 667 indivíduos que responderam ao inquérito, 63,7% eram mulheres. Observa-se na Tabela 1 que 43,6% (291) dos participantes tinham entre 70 e 79 anos de idade, a maioria possuía até primeiro grau incompleto (67,4%) e 15,1% declararam viver sós. Aproximadamente metade dos entrevistados considerava sua saúde como muito boa ou boa (46,8%) e 13,8% relatou ter estado acamado nos 15 dias anteriores à entrevista. Mais de um terço dos aposentados consultou seis ou mais vezes um médico no último ano e cerca de um quinto relatou alguma internação hospitalar no mesmo período. Pouco mais da metade dos entrevistados declarou possuir plano de saúde privado. Mais de dois terços referiram a ocorrência de uma até quatro doenças. A prevalência de uso de medicamentos nos últimos 15 dias foi de 90,1%.

 

 

Ainda na Tabela 1 observam-se diferenças significativas nas proporções entre homens e mulheres em relação à idade (maior entre mulheres), escolaridade (maior entre os homens) e co-habitação (maior proporção de mulheres que vivem só). Ademais, as mulheres referiram pior estado de saúde, estiveram acamadas com maior freqüência nos 15 dias anteriores à entrevista, consultaram o médico mais vezes no ano anterior e relataram maior número de doenças quando comparadas aos homens. Entre os homens, a prevalência de uso de medicamentos foi significativamente inferior à observada entre as mulheres.

Os participantes utilizaram o total de 2.742 medicamentos (média=4,1; dp= 3,0; amplitude=1 a 22), correspondendo a 3.298 princípios ativos. Esta diferença entre o número de medicamentos e de princípios ativos deveu-se ao fato de que 20% dos medicamentos eram associações em dose fixa de dois ou mais princípios ativos. A maioria dos medicamentos foi recomendada pelo médico (89%). Os homens utilizaram, em média 3,3 produtos (dp=2,6) e as mulheres 4,6 (dp=3,2) (p<0,001).

Na Tabela 2, observa- se que os princípios ativos mais utilizados pela amostra geral e por gênero pertenciam aos sistemas cardiovascular, nervoso e do trato alimentar/metabolismo. As razões de consumo de princípios ativos pertencentes a esses três grupos, por indivíduo, foram maiores entre as mulheres: 1,17 para os cardiovasculares, 1,58 para os do sistema nervoso e 1,47 para os do trato alimentar e metabolismo.

Os subgrupos terapêuticos mais freqüentemente utilizados no sistema cardiovascular foram diuréticos, agentes com ação no sistema renina-angiotensina e bloqueadores dos canais de cálcio. As diferenças de gênero mais expressivas foram observadas para os diuréticos, cujo consumo entre as mulheres foi aproximadamente 44% superior ao dos homens. Os subgrupos terapêuticos do sistema nervoso foram representados principalmente por analgésicos, psicoanalépticos e psicolépticos cujo consumo foi superior entre as mulheres (61%, 73% e 50%, respectivamente). Os fármacos com ação no trato alimentar e metabolismo mais citados foram vitaminas, fármacos usados no tratamento do diabetes, antiácidos e demais agentes para tratamento de úlcera péptica e flatulência. Dentre esses, apenas os hipoglicemiantes foram mais consumidos por homens (24% a mais). Outras diferenças relevantes foram maior uso de agentes antitrombóticos por homens e de fármacos do sistema músculo-esquelético por mulheres.

No conjunto dos entrevistados, observou-se associação positiva e significativa entre uso de medicamentos e idade maior ou igual a 80 anos, pior estado de saúde auto-referido, ter estado acamado nos 15 dias anteriores à entrevista, maior número de consultas médicas no ano anterior, histórico de internação, participação em plano de saúde privado e maior número de doenças auto-referidas (Tabelas 3 e 4). Essas associações também ocorreram entre os homens, mas sem significância estatística para a variável participação em plano de saúde privado. Entre as mulheres, a probabilidade de usar medicamentos não diferiu entre as categorias das variáveis sociodemográficas (Tabela 3), mas aumentou significativamente com maior número de consultas médicas (Tabela 4).

Ao se considerar o número de medicamentos usados, observou-se que, na amostra geral, a média de medicamentos utilizados foi significativamente superior entre indivíduos mais idosos, com pior percepção de saúde, que estiveram acamados nos 15 dias anteriores à entrevista, com maior número de consultas médicas e de doenças relatadas, com histórico de internação no ano anterior e com afiliação a plano de saúde privado. O mesmo foi observado entre as mulheres (entre as quais houve, também, associação significativa com o nível de instrução) e entre os homens (entre os quais não houve associação significativa com história de internação e afiliação a plano de saúde privado). Independentemente da característica selecionada, a média de medicamentos utilizados pelas mulheres foi sempre superior à média usada pelos homens.

 

DISCUSSÃO

O tamanho da amostra não foi planejado para testar diferenças de gênero, portanto, algumas das diferenças podem não ter sido detectadas por insuficiência da quantidade de observações. Por outro lado, não é razoável supor que esse fato tenha comprometido as diferenças observadas e descritas. As estimativas obtidas são generalizáveis apenas para aposentados e pensionistas do INSS, residentes em Belo Horizonte, com idade igual ou superior a 60 anos. Portanto, a extrapolação dos resultados para o conjunto dos idosos residentes em Belo Horizonte só pode ser feita com restrições.

A prevalência de uso de medicamentos (90,1%) bem como a média de produtos usados (4,1) foram superiores às encontradas em outros países,3,6,8,12 onde as prevalências variaram de 75% a 88% e as médias oscilaram entre 2 e 3,8 medicamentos usados. Na comparação com estudos nacionais, a prevalência foi superior à observada em Bambuí (MG)13 e em Fortaleza4 (CE), mas semelhante à encontrada em Porto Alegre (RS).7 As diferenças nas estimativas podem ser parcialmente atribuídas a características da população fonte e ao intervalo do período recordatório. Além disso, podem estar relacionadas ao fato de que em alguns estudos, sobretudo em outros países, medicamentos prescritos e não prescritos foram analisados separadamente. Ainda que no presente estudo mais de 85% dos medicamentos utilizados tiveram a prescrição médica como fonte de indicação informada, os critérios para classificação de medicamentos em relação à necessidade de prescrição médica no Brasil e em países desenvolvidos são diferentes, o que sugere cautela nas comparações. Consideradas as diferenças, os achados do presente estudo são condizentes com a literatura no que diz respeito à grande utilização de medicamentos por pessoas com 60 anos ou mais de idade e reforçam a preocupação acerca da medicalização desse subgrupo da população no Brasil.

A maior utilização de medicamentos pelas mulheres idosas em comparação aos homens é consistente com os resultados de outras investigações epidemiológicas. Todavia, no presente estudo, tanto a prevalência quanto o número médio de medicamentos utilizados pelas mulheres se mostrou superior ao observado por outros autores.6,7,12,13

Os grupos terapêuticos mais utilizados foram semelhantes aos observados em países desenvolvidos, tais como Inglaterra,3 Finlândia12 e Espanha.17 A ordem de freqüência de consumo observada no presente estudo, qual seja, fármacos cardiovasculares, do sistema nervoso e agentes com ação no trato gastrintestinal e metabolismo, foi a mesma observada nos municípios brasileiros de Porto Alegre, Fortaleza e Bambuí.4,7,13 Embora uma comparação mais precisa das freqüências de uso necessite da análise dos intervalos de confiança, as pequenas diferenças podem ser parcialmente devidas às associações medicamentosas, cuja classificação é mais sensível a divergências. Esse fato é particularmente importante em relação aos fármacos do sistema nervoso, sobretudo analgésicos, e do trato alimentar e metabolismo, em especial antiácidos e polivitamínicos. Esse cenário de semelhanças nos perfis de consumo parece ser reflexo de necessidades comuns de populações idosas em diversos locais. No entanto, é possível também que os prescritores assumam padrões de indicação em função da idade dos pacientes, de acordo com pressões ideológicas e de mercado. É possível que a combinação entre necessidade e indicação não varie de forma relevante nos diferentes locais pesquisados.

Homens e mulheres se diferenciaram em relação ao uso de determinados grupos e subgrupos terapêuticos. O maior uso, pelas mulheres, de fármacos cardiovasculares, do sistema nervoso, do sistema músculo-esquelético, para terapia de tireóide e de suplementos vitamínicos corrobora os achados em outros países. O mesmo ocorre para a maior utilização, pelos homens, de trombolíticos.5,8,16 Esse cenário pode ser parcialmente explicado pelo perfil de morbidade diferenciado entre homens e mulheres na terceira idade: maior prevalência de doenças ósteo-articulares e depressão relatada entre as mulheres e de infarto entre os homens. Ademais, em média, as mulheres alcançam idades mais avançadas que os homens, e algumas doenças, como as cardiovasculares, podem atingir homens mais jovens. Isso pode explicar o maior uso de fármacos cardiovasculares nas mulheres, especialmente nas mais idosas, que são, em média, mais velhas do que os homens. Outra hipótese é a de que parece haver entre os homens tendência ao uso mais intenso de produtos empregados para tratar doenças cuja terapêutica farmacológica é bem estabelecida. De forma oposta, as mulheres tenderiam a utilizar com maior freqüência medicamentos para tratar sintomas ou adquiridos sem prescrição médica, tais como analgésicos, suplementos vitamínicos, antiácidos e relaxantes musculares.

De modo geral, a idade é um fator importante na farmacoepidemiologia do envelhecimento.13,15,19 Idosos mais velhos têm maior probabilidade de usar medicamentos e em maior quantidade quando comparados aos mais jovens e isso parece independer do gênero. É possível que essa situação esteja relacionada a maiores freqüência e/ou gravidade das doenças, bem como à maior utilização de serviços de saúde.12 Se considerada a razão entre uso e não uso de medicamentos, o aumento na prevalência com a idade foi mais acentuado entre os homens. Por outro lado, o aumento do número de medicamentos usados com a idade foi mais expressivo entre as mulheres. No primeiro caso nota-se que a freqüência de uso entre os homens mais jovens foi mais baixa do que entre as mulheres nessa mesma faixa etária, o que implica possibilidade de incrementos maiores em idades mais avançadas.

No presente estudo, a escolaridade influenciou a quantidade de medicamentos utilizados entre as mulheres. Em países desenvolvidos, poucos estudos evidenciaram associação entre escolaridade e uso de determinadas classes terapêuticas entre idosos.3 No Brasil, alguns estudos relataram maior uso de medicamentos prescritos entre idosos de melhor nível socioeconômico.4,13,15 Embora a utilização da escolaridade como indicador de nível socioeconômico deva ser cautelosa, tal achado pode sugerir desigualdades no acesso e uso de medicamentos por idosos. Esse fato pode indicar, também, que o consumo total aumentará conforme a escolaridade, entre as mulheres. Essas hipóteses requerem investigações adicionais, com amostras adequadas, visto que as mulheres tendem a envelhecer em situações econômicas menos favoráveis.2

As variáveis relacionadas à saúde, em sua maioria, se associaram ao uso de medicamentos e ao número de medicamentos utilizados, acompanhando os achados de outros estudos epidemiológicos.7,8,13,15 No presente estudo, tanto para o conjunto dos entrevistados, como para cada gênero, observaram-se gradientes para as diferenças no número de medicamentos utilizados de acordo com a percepção da saúde e o número de doenças referidas. Com isso, verifica-se que quanto pior o indicador de saúde, maior a quantidade de medicamentos utilizados. Esse consumo elevado suscita questões acerca do impacto da polifarmácia na morbimortalidade de idosos brasileiros, que poderá ser mais bem compreendido com estudos longitudinais.

A participação em plano privado de saúde se associou de maneira significativa à maior probabilidade de utilização de medicamentos, bem como do uso em maior quantidade. Sugere-se que esta condição aumentaria o consumo de medicamentos ao facilitar o acesso a mais prescritores. Essa associação não foi observada em outros estudos, pelo menos quando outros fatores também foram controlados.6,13 No presente estudo, a participação em plano de saúde diferenciou a quantidade de medicamentos usados somente entre as mulheres.

Em síntese, o perfil de utilização de medicamentos pelos idosos estudados foi semelhante ao observado em outros países e em outras populações de idosos do Brasil. A prevalência de uso e a quantidade de medicamentos foi superior entre as mulheres. Embora existam várias justificativas para esse sobre-uso de medicamentos pelas mulheres, esforços devem ser feitos para propiciar farmacoterapia adequada a esse subgrupo, mais vulnerável aos prejuízos do mau uso de medicamentos. Por outro lado, investigações subseqüentes devem avaliar, de forma mais abrangente, o perfil de utilização de medicamentos pelos homens para identificar especificidades que favoreçam ou comprometam o uso adequado de medicamentos. As pesquisas no âmbito da farmacoepidemiologia do envelhecimento no Brasil devem avançar no sentido de se qualificar a polifarmácia e compreender seu impacto na adesão aos tratamentos e na morbimortalidade dos idosos. Assim, tornar-se-á possível subsidiar de forma mais consistente a Política Nacional de Medicamentos e contribuir para o uso mais racional desses produtos, bem como para a melhoria das condições de saúde entre os idosos brasileiros.

 

AGRADECIMENTOS

À Confederação Brasileira dos Aposentados e Pensionistas (Cobap) pela divulgação da pesquisa entre aposentados e pensionistas do INSS; à Célia Regina de Andrade (ENSP/Fiocruz) pela participação no planejamento e supervisão do trabalho de campo; a Cristiano Soares de Moura (UFBA) pela participação no planejamento e supervisão do trabalho de campo e na constituição dos bancos de dados.

 

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Correspondência | Correspondence:
Andréia Queiroz Ribeiro
Departamento de Farmácia Social - Faculdade de Farmácia da UFMG
Av. Antônio Carlos, 6627 – sala 1048B2 – Campus Pampulha
31270-901 – Belo Horizonte – MG
E-mail: andreiaribeiro@hotmail.com

Recebido: 8/1/2007
Revisado: 13/11/2007
Aprovado: 23/1/2008
Financiado pelo Ministério da Saúde (convênio N.º 796/2002).

 

 

a Projeto "Perfil de utilização de medicamentos por aposentados brasileiros", desenvolvido em 2003 pela Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais e pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz.