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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.42 n.5 São Paulo Oct. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102008000500004 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Perfil de pacientes que evoluem para óbito por tuberculose no município de São Paulo, 2002

 

Perfil de pacientes que evolucionan a óbito por tuberculosis en el municipio de São Paulo, 2002

 

 

Ana Angélica Bulcão Portela LindosoI; Eliseu Alves WaldmanII; Naomi Kawaoka KomatsuIII; Sumie Matai de FigueiredoIII; Mauro TaniguchiIII; Laura C RodriguesIV

IFaculdade de Medicina. Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
IIFaculdade de Saúde Pública. USP. São Paulo, SP, Brasil
IIISecretaria de Saúde da Prefeitura do Município de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IVLondon School of Hygiene and Tropical Medicine. London, United Kingdom

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever o perfil de pacientes adultos residentes no município de São Paulo que evoluíram para óbito associado à tuberculose, segundo fatores biológicos, ambientais e institucionais.
MÉTODOS: Estudo descritivo, abrangendo todos os óbitos por tuberculose (N=416) ocorridos em 2002, entre maiores de 15 anos. Os dados analisados foram obtidos do Sistema Municipal de Informações de Mortalidade, prontuários hospitalares, Serviço de Verificação de Óbitos e Sistema de Vigilância de Tuberculose. Os cálculos dos riscos relativos e intervalos de confiança de 95% (IC 95%) tiveram como referência o sexo feminino, grupo de 15 a 29 anos, e os naturais do Estado de São Paulo. A análise comparativa usou o teste do qui-quadrado de Pearson e o exato de Fisher para variáveis categóricas e o teste Kruskal-Wallis para variáveis contínuas.
RESULTADOS: Do total de óbitos, 78% apresentavam a forma pulmonar; o diagnóstico foi efetuado após a morte em 30% e em unidades de atendimento primário em 14% dos casos; 44% não iniciaram tratamento; 49% não foram notificados; 76% eram homens e a mediana da idade foi de 51 anos; 52% tinham até quatro anos de estudo, 4% eram prováveis moradores de rua. As taxas de mortalidade aumentavam com a idade, sendo de 5,0/100.000 no município, variando de zero a 35, conforme o distrito. Para 82 de 232 pacientes com registro de tratamento, havia referência de tratamento anterior, e desses, 41 o haviam abandonado. Constatou-se presença de diabetes (16%), doença pulmonar obstrutiva crônica (19%), HIV (11%), tabagismo (71%) e alcoolismo (64%) nos pacientes.
CONCLUSÕES: Homens acima de 50 anos, migrantes e residentes em distritos com baixo Índice de Desenvolvimento Humano apresentam maiores riscos de óbito. A pouca escolaridade e apresentar co-morbidades são características importantes. Observou-se baixa participação das unidades básicas de saúde no diagnóstico e a elevada sub-notificação.

Descritores: Tuberculose, mortalidade. Comorbidade. Perfil de Saúde. Epidemiologia Descritiva. Brasil.


RESUMEN

OBJETIVO: Describir el perfil de pacientes adultos residentes en el municipio de São Paulo (Sureste de Brasil) que evolucionaron a óbito asociado con tuberculosis, según factores biológicos, ambientales e institucionales.
MÉTODOS: Se realizó estudio descriptivo, abarcando todos los óbitos por tuberculosis (N=416) ocurridos en 2002, entre mayores de 15 años. Los datos analizados fueron obtenidos del Sistema Municipal de Informaciones de Mortalidad, prontuarios hospitalares, Servicio de Verificación de Óbitos y Sistema de Vigilancia de Tuberculosis. Los cálculos de riesgos relativos e intervalos de confianza de 95% (IC 95%) tuvieron como referencia el sexo femenino, grupo de 15 a 29 años, y los naturales del Estado de Sao Paulo. El análisis comparativo uso la prueba de Chi-cuadrado de Pearson y el exacto de Fisher para variables categóricas y la prueba de Kruskal-Wallis para variables continuas.
RESULTADOS: Del total de óbitos, 78% presentaron la forma pulmonar; el diagnóstico fue efectuado posterior a la muerte en 30% y en unidades de atención primaria en 14% de los casos; 44% no iniciaron tratamiento; 49% no fueron notificados; 76% eran hombres y la edad mediana fue de 51 años; 52% tenían cuatro años de estudio, 4% probablemente vivían en las calles. Las tasas de mortalidad aumentaban con la edad, con un valor de 5,0/100.000 en el municipio, variando de cero a 35, dependiendo del distrito. Para 82 de 232 pacientes con registro de tratamiento, había registro de tratamiento anterior, y de esos, 41 lo habían abandonado. Se comprobó presencia de diabetes (16%), enfermedad pulmonar obstructiva crónica (19%), HIV (11%), tabaquismo (71%) y alcoholismo (64%) en los pacientes.
CONCLUSIONES: Los hombres por encima de los 50 años, migrantes y residentes en distritos con bajo Índice de Desarrollo Humano presentaron mayores riesgos de óbito. La baja escolaridad y presentar co-morbilidad son características importantes. Se observo baja participación de las unidades básicas de salud en el diagnóstico y una elevada sub-notificación.

Descriptores: Tuberculosis, mortalidad. Comorbilidad. Perfil de Salud. Epidemiología Descriptiva. Brasil.


 

 

INTRODUÇÃO

O Brasil situa-se entre os países com maiores taxas de morbi-mortalidade por tuberculose (TB), tendo registrado anualmente cerca de 85.000 casos novos e 6.000 óbitos.6 De 1980 a 1995, a proporção de óbitos associados à TB elevou-se de 10,1% para 15,5%, em relação ao total de mortes por doenças transmissíveis (Capítulo I) da Classificação Internacional Estatística de Doenças (CID-10) ocorridos no País.13 Tais dados apontam o elevado nível endêmico da TB e uma tendência distinta da maioria das doenças infecciosas, cuja incidência diminuiu de forma expressiva nas últimas duas décadas. 4, a

No município de São Paulo, as taxas de morbi-mortalidade por TB aproximam-se da média registrada no País, sendo, no entanto, mais elevadas do que as registradas no interior do estado (Galesi, 1998).b Em 2000, esse município apresentou taxa de incidência de 65/100.000 habitantes, com 60% dos casos novos bacilíferos, e a taxa de mortalidade em 5,7/100.000 habitantes. Essas taxas variam quando analisadas por distritos, com incidência entre 18,7 e 261,1/100.000 habitantes. Ausente em alguns distritos, a mortalidade alcançava taxas de até 20,9/100.000 habitantes naqueles aonde residem os segmentos mais pobres da população.c

Alguns dados disponíveis sobre as atividades de controle da TB na capital são consistentes com a grave situação dessa endemia. A proporção de curas situava-se, em 2000, em torno de 70%, o abandono em 20% e a letalidade em 13%.c

O objetivo do presente estudo foi descrever o perfil de pacientes adultos residentes no município de São Paulo que evoluíram para óbito associado à tuberculose, segundo fatores biológicos, ambientais e institucionais.

 

MÉTODOS

O município de São Paulo, com cerca de 10 milhões de habitantes, apresenta amplos diferenciais no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), variando dos distritos mais pobres aos mais afluentes de 0,245 a 0,811.d

Trata-se de estudo descritivo incluindo todos os pacientes, de ambos os sexos, com 15 anos ou mais de idade, residentes no município de São Paulo que evoluíram para óbito por TB, por todas as formas clínicas, como causa básica (códigos A15 a A19 da CID 10), no período de janeiro a dezembro de 2002.

Foram analisadas as seguintes variáveis: sexo, idade, raça/etnia, naturalidade, estado civil, escolaridade, distrito de residência; local de ocorrência do óbito, forma clínica, tipo de serviço onde foi efetuado o diagnóstico, critérios de diagnóstico, intervalo de tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico, duração do tratamento do episódio de TB que evoluiu para o óbito, duração da internação durante a qual ocorreu o óbito, tipo de tratamento, história pregressa de TB, tipo do desfecho do tratamento anterior (cura, abandono), co-morbidades e condições (diabetes, câncer, doença pulmonar obstrutiva crônica, co-infecção TB/HIV, alcoolismo, tabagismo) e notificação ou não do caso ao sistema de vigilância de TB.

A pesquisa utilizou as seguintes fontes: Sistema de Informações de Mortalidade do Município de São Paulo (PROAIM), para identificação dos óbitos de interesse e obtenção das informações disponíveis nos certificados de óbito; prontuários dos hospitais onde ocorreram os óbitos de interesse; Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) do Estado de São Paulo para obtenção de resultados de exames anatomopatológicos (macroscópicos); Sistema de Vigilância da Tuberculose do Centro de Controle de Doenças do Município de São Paulo (CCD), para verificação da notificação dos casos e obtenção das informações disponíveis; Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística como fonte de dados populacionais utilizados nos cálculos das taxas de mortalidade. Os dados obtidos na vigilância da TB foram atualizados até setembro de 2003.

O instrumento de coleta de dados foi um formulário pré-codificado no qual foram registradas as informações obtidas nas diferentes fontes consultadas. Foi criado um banco de dados, com dupla digitação, no software EpiInfo versão 6.4.

As taxas de mortalidade segundo o sexo, faixa etária, distrito de residência e naturalidade foram calculadas tomando como numerador os óbitos identificados na pesquisa e como denominador a população com 15 anos ou mais estimada para primeiro de julho de 2002. Os cálculos dos riscos relativos e intervalos de confiança de 95% (IC 95%) tomaram o sexo feminino, o grupo de 15 a 29 anos e os naturais do Estado de São Paulo como referência.

Para a elaboração do mapa do município com a apresentação das taxas de mortalidade por distrito utilizamos o programa TabWin. A análise comparativa utilizou o teste do qui-quadrado de Pearson e o exato de Fisher para variáveis categóricas e o teste Kruskal-Wallis para variáveis contínuas. Todos os cálculos foram efetuados usando os softwares estatísticos EpiInfo versão 6.4 e SPSS versão 14.

A pesquisa foi aprovada pela Comissão de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

RESULTADOS

Foram identificados em 2002, 416 óbitos ocorridos por TB como a causa básica. As formas clínicas mais freqüentes foram a pulmonar (77,9%) e a disseminada (17,5%). Desse total, 44,1% não haviam iniciado o tratamento, 51,1% receberam o esquema 1 e 4,8% o esquema 1R; 20,2% e 38,5% foram tratados, respectivamente, por até uma semana ou, no máximo, por período de um mês até a morte.

Entre os tratados, para 82/232 (35,3%) havia referência de história prévia de TB, dentre os quais 50% haviam abandonado o tratamento anterior e em 34/82 (41,5%) a TB ocorrera nos últimos dois anos. Em 30,4% dos pacientes o diagnóstico de TB foi efetuado após a morte.

Do total dos óbitos 86,0%, 11,1% e 2,9% ocorreram, respectivamente, em hospitais, no domicílio e em via pública. Entre os que no hospital, 20,1% faleceram nas primeiras 24 horas de internação e 43,1% em 72 horas. Os critérios de confirmação diagnóstica foram: bacteriológico em 31,8%, anatomo-patológico (macroscópico) em 38,9%, clínico-radiológico em 27,2% e histopatológico em 2,1%.

Dos 416 óbitos, 19,5% receberam visita domiciliar. Entre os não notificados à vigilância (n=206; 49,5%), 187 não iniciaram o tratamento. Para 15 pacientes (3,6%) o endereço era desconhecido, assim como a identidade em seis deles e nenhum havia sido notificado, sugerindo que fossem moradores de rua.

A mediana da idade dos pacientes foi de 51 anos (16 a 98 anos), sendo de 53 anos para mulheres (17 a 98 anos) e de 50 para homens (16 a 93 anos) (p>0,05); o sexo masculino respondeu por 75,5% dos óbitos. De acordo com os certificados de óbito, os pacientes eram brancos (54,7%), pardos (27,2%), negros (16,1%) e amarelos (2,0%).

Dos 202 óbitos com informação da escolaridade, 51,9% possuíam menos de quatro anos, 32,7% de quatro a sete e 15,4% acima de sete anos de estudo formal. A escolaridade segundo a categorização acima entre nascidos no Estado de São Paulo foi de 37,2%, 43,0% e 19,8%, respectivamente. Entre os nascidos nos demais estados, esses valores são 63,6%, 26,1% e 10,2% (p<0,005), respectivamente.

A proporção de indivíduos casados (38,2%; 140/377) foi menor do que aquela formada por solteiros, viúvos, divorciados e sem parceiros fixos, que totalizavam 61,8% (233/377) (p<0,001).

A taxa de mortalidade por TB encontrada foi de 5,1/100.000 habitantes/ano, sendo de 8,3 para homens e de 2,3 para mulheres, aumentando com a idade (Figura 1). As taxas de mortalidade dos nascidos no Estado de São Paulo, nas regiões Sul e Centro-Oeste e no conjunto das regiões Norte, Nordeste e Sudeste, excluído nesta última o Estado de São Paulo, foram de, respectivamente, 2,5, 3,7 e 6,1 por 100.000 habitantes/ano. Tomando os primeiros como referência, os riscos relativos foram, respectivamente, de 1,48 (IC 95%: 0,79;2,66) e de 2,48 (IC 95%: 1,98;3,01).

Em 8/96 (8,3%) distritos do município não ocorreram óbitos, enquanto que, em 11/96 (11,5%) as taxas de mortalidade atingiram níveis iguais ou superiores ao dobro da taxa média do município, com o máximo de 34,3/100.000 habitantes/ano. A distribuição das taxas de mortalidade e dos IDH por distrito está ilustrada na Figura 2. A distribuição porcentual dos óbitos mostra que 2,6%, 52,2%, 34,6% e 4,1% residiam em distritos cujo IDH era, respectivamente, inferior a 0,40, de 0,40 a 0,50, de 0,51 a 0,69 e superior a 0,69.

Os pacientes eram também portadores de diabetes (16%), doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC 19%), infecção por HIV (11%), tabagismo (71%) e alcoolismo (64%). Dos casos, 84,6% apresentavam sintomatologia respiratória e 89,3% perda de peso.

Classificando como não efetivamente tratados aqueles que não iniciaram tratamento ou que foram tratados por até uma semana, não se verificaram diferenças significativas entre tratados e não tratados, segundo sexo, idade, estado civil, escolaridade e etnia (p>0,05) (Tabela 1).

 

 

Efetuando a mesma comparação com referência diabetes, câncer, DPOC, co-infecção pelo HIV, presença de sintomas respiratórios a época do diagnóstico, perda de peso, tabagismo e alcoolismo, observa-se maior proporção de pacientes não tratados entre os que apresentavam infecção pelo HIV (p<0,005) e história de alcoolismo (p<0,01) (Tabela 2).

 

 

DISCUSSÃO

Desde de 1996, o município de São Paulo tem apresentado um declínio da mortalidade por TB, fato que pode ser atribuído, em parte, à introdução das novas terapias antiretrovirais. Isso tem revertido a tendência de ascensão iniciada em meados dos anos 80, em função do impacto da co-infecção TB-HIV.1,2 A despeito desse arrefecimento, a importância da TB como causa de morte no município se mantém, atingindo principalmente a população residente nos distritos com pior IDH, apontando forte influência de fatores socioeconômicos, à semelhança do que ocorre em outras capitais brasileiras.14

Contudo, os dados apresentados indicam somente parte do problema, pois se os óbitos por TB como causa associada tivessem sido incluídos, a magnitude observada seria expressivamente maior.17 Além disso, é possível que os resultados estejam subestimados, pois o número de mortes entre presumíveis moradores de rua foi relativamente baixo, considerando os indicadores sociais do município de São Paulo. Por sua vez, a ausência de óbitos entre pacientes naturais de países latino-americanos contrasta com a importância crescente dessa corrente migratória, originária de regiões com alta prevalência de TB.16

Analisando-se as características dos pacientes que evoluíram para óbito, as taxas de mortalidade por sexo e idade encontradas no presente estudo são consistentes com a literatura.14,17,20 O maior risco encontrado entre idosos provavelmente pode ser explicado pela menor imunidade, maior dificuldade de diagnóstico da TB e ao fato das coortes mais velhas terem sido submetidas a maior risco de infecção no passado.22

A maior taxa de óbito por TB encontrada entre migrantes de outras regiões do País, explica-se, em parte, pelo fato dessa população ser mais velha,2,5 pertencer a segmentos mais pobres da população e ser originária de áreas de maior prevalência de TB.3

A alta prevalência de diabéticos, portadores de DPOC, tabagistas e indivíduos com história de alcoolismo indica que fatores biológicos, socioeconômicos e comportamentais influenciaram as condições de vulnerabilidade e contribuíram para a evolução da TB para formas graves e óbito.3,5,12,22

A prevalência de co-infecção TB-HIV encontrada é inferior à apontada por estudos realizados na década de 1990,2,20 mas semelhante aos resultados de Oliveira et al,15 que mostra diminuição da mortalidade pelos co-infectados, provavelmente resultado da introdução de novos esquemas terapêuticos altamente potentes.

A elevada proporção de casos diagnosticados após o óbito ou não tratados, tratados por menos de um mês, e dos que evoluíram para óbito logo após a internação mostram as dificuldades dos serviços de saúde em identificar e tratar oportunamente parcela significativa dos portadores de TB no município de São Paulo. Tais características permitem classificá-los como potencialmente evitáveis, devendo merecer prioridade nas intervenções de saúde pública.

Somando-se a isso, o predomínio de formas bacilíferas e a pequena parcela de casos identificados em unidades de básicas de saúde, bem como dos que receberam visitas domiciliares, ampliam o risco de transmissão da doença entre os contatos, diminuindo ou neutralizando o impacto das atividades de controle.8,11 À semelhança de outras regiões do País,20 cerca de metade dos óbitos eram de casos de TB não notificados, portanto não identificados pelo Programa de Controle de TB até o momento do óbito.

A baixa escolaridade dos pacientes que evoluíram para óbito por TB pode ter contribuído para o menor grau de percepção da doença. No entanto, segundo publicação recente, a dificuldade de acesso aos serviços não se mostrou associada à demora no diagnóstico e tratamento da TB numa capital brasileira.18 Tal resultado é consistente com o fato de que no Brasil o acesso ao diagnóstico e ao tratamento da TB é universal e gratuito e o município de São Paulo oferece ampla cobertura pela rede de serviços básicos de saúde.

O fato de que boa parte dos pacientes apresentava sinais e sintomas característicos da doença indica falha das equipes dos serviços de saúde em suspeitar do diagnóstico de TB em grupos de risco ou em indivíduos que apresentam manifestações clínicas sugestivas.

A elevada proporção de pacientes com história prévia de TB nos últimos dois anos, de abandono desse tratamento, e o fato de parcela dos pacientes ser tratada com esquema 1R, permite-nos supor que parte desses óbitos esteja associada à infecção por Mycobacterium tuberculosis multidroga resistente.5,21 Ademais, sugere também o acompanhamento insuficiente de pacientes e de seus comunicantes domiciliares durante e depois do término do tratamento, por período mínimo de dois anos.

A elevada prevalência de infectados pelo Mycobacterium tuberculosis no País não favorece um declínio acentuado da incidência da TB no curto prazo. Porém, os resultados apresentados sugerem que a adoção do tratamento diretamente observado de curta duração (DOTS) com ampla cobertura e prioridade para os distritos de menor IDH, maior concentração de migrantes e com foco em grupos de risco para evolução grave da doença, possibilitará a rápida diminuição da mortalidade por essa causa, à semelhança de países onde a TB constitui igualmente sério problema de saúde pública.6,7,19

O acesso universal e gratuito ao diagnóstico e tratamento da TB, a ampla rede de serviços básicos de saúde e a baixa prevalência de infecções por Mycobacterium tuberculosis multidroga resistente no Brasil4,21 constituem fatores adicionais que ampliam a condições favoráveis à rápida diminuição da mortalidade por TB.

Para tanto, seria recomendável modificar a estratégia do DOTS no município, que tem visado à cobertura universal dos pacientes com TB, sem um foco especial nos grupos de maior risco. Por outro lado, se fazem necessárias investigações que nos permitam o melhor conhecimento dos preditores de óbito por TB no contexto brasileiro. Em termos operacionais, considerando as dimensões da população, os enormes bolsões de miséria e a elevada incidência da TB, é indispensável que se dimensione adequadamente a infra-estrutura para o diagnóstico, viabilizando a busca sistemática de TB entre sintomáticos respiratórios atendidos pela rede básica de serviços.

 

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Correspondência | Correspondence:
Eliseu Alves Waldman
Faculdade de Saúde Pública
Universidade de São Paulo
Av. Dr. Arnaldo, 715
01246-904 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: eawaldma@usp.br

Recebido: 20/9/2007
Revisado: 31/3/2008
Aprovado: 28/4/2008

 

 

EA Waldman é apoiado pelo Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq; Proc. Nº 309502/2003-9 - Bolsa Produtividade em Pesquisa (CNPq).
ABP Lindoso foi apoiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento do Ensino Superior (Capes; Bolsa de doutorado).
a Ministério da Saúde. Situação da prevenção e controle das doenças transmissíveis no Brasil. Brasília; 2003. Saúde Brasil 2004: uma análise da situação de saúde. p. 301-37.
b Galesi VMN. Mortalidade por tuberculose no município de São Paulo, análise de uma década, 1986 a 1995 [dissertação de mestrado]. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da USP; 1998.
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