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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.42  suppl.1 São Paulo Jun. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102008000800005 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Comportamento e práticas sexuais de homens e mulheres, Brasil 1998 e 2005

 

 

Regina Maria BarbosaI, II; Mitti Ayako Hara KoyamaIII; Grupo de Estudos em População, Sexualidade e Aids*

INúcleo de Estudos de População. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil
IICentro de Referência em DST/Aids. São Paulo, SP, Brasil
IIIFundação Sistema Estadual de Análise de Dados. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Comparar achados básicos de duas pesquisas sobre comportamento e práticas sexuais de mulheres e homens e suas associações com características sociodemográficas da população.
MÉTODOS: Os dados analisados foram obtidos por meio de questionário aplicado a uma amostra probabilística de 3.423 pessoas em 1998, e 5.040 em 2005, com idades entre 16 e 65 anos, moradores em regiões urbanas do Brasil. Análises comparativas foram realizadas por sexo e ano de realização da pesquisa, e segundo variáveis sociodemográficas, utilizando o teste qui-quadrado de Pearson.
RESULTADOS: O número de parcerias sexuais no ano que antecedeu a entrevista diminuiu entre os homens, de 29,5% para 23,1%. Constatou-se ainda variabilidade de comportamentos e práticas sexuais em função da idade, escolaridade, situação conjugal, religião e região geográfica de residência, além de características específicas segundo sexo. Verificou-se aumento da proporção de mulheres que iniciaram a vida sexual no grupo daquelas com 16 a 19 anos e ensino até fundamental, ou residentes na região Sul do País; e aumento de relato de atividade sexual no último ano entre as mulheres e redução desse relato entre os homens com mais de 55 anos, protestantes/pentecostais, ou separados e viúvos. A proporção de homens com mais de um parceira(o) sexual no último ano diminuiu entre aqueles com 25 a 44 anos ou com ensino até médio. Houve aumento de relato da prática de sexo oral por parte de mulheres com mais de 35 anos ou residentes no Norte/Nordeste.
CONCLUSÕES: A análise comparativa entre 1998 e 2005 sugeriu tendência de diminuição das diferenças entre homens e mulheres. Possivelmente isso resulta de um padrão de mudança caracterizado por aumento da freqüência nos comportamentos femininos investigados e diminuição da freqüência nos comportamentos masculinos.

Descritores: Comportamento Sexual. Gênero e Saúde. Conhecimentos, Atitudes e Prática em Saúde. Estudos Populacionais em Saúde Pública. Brasil. Estudos transversais.


 

 

INTRODUÇÃO

A partir do final dos anos 1990, com a emergência da Aids, começaram a ser realizados inquéritos populacionais seriados sobre comportamentos e práticas sexuais. Esses inquéritos buscaram compreender melhor a relação entre o exercício da sexualidade e a transmissão sexual do HIV - responsável por grande parte dos casos nos países acometidos pela epidemia.12-14,16,a,b,c

Embora não haja necessariamente uma relação direta ou passível de comprovação entre mudanças de comportamento sexual e a incidência de infecção por HIV e de outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), segundo Fishbein & Pequegnat,9,15 tais inquéritos constituem importante fonte de informação para avaliar impactos de ações de intervenção e políticas de prevenção do HIV no comportamento sexual.

Nesse sentido, a perspectiva de produção de dados seriados é particularmente útil por permitir comparações ao longo do tempo e, assim, identificar eventuais mudanças de comportamento, práticas e atitudes relacionadas à sexualidade. Um exemplo é a pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em 1998de 2005,e por solicitação da Coordenação Nacional de DST e Aids/Ministério da Saúde.

As informações disponíveis a respeito do HIV/Aids no Brasil revelam uma epidemia com diferenciais regionais relevantes e maneiras diversas de afetar as populações,8 ressaltando a importância de se considerar as dimensões de gênero, classe social, raça e geração. Análises desenvolvidas em separado por homens e mulheres são fundamentais para a identificação e compreensão das diferenças nos padrões de comportamento sexual,10-12 bem como para a adoção de medidas preventivas e de cuidado da saúde.

O objetivo do presente artigo foi comparar achados de duas pesquisas sobre o comportamento e práticas sexuais de mulheres e homens, bem como suas associações com características sociodemográficas da população.

 

MÉTODOS

Optou-se por uma análise exploratória de vários indicadores, de forma a fornecer um panorama mais abrangente do comportamento sexual da população de homens e mulheres, e sinalizando para possíveis mudanças nos padrões, de 1998 para 2005.

Os dados analisados referem-se aos achados da pesquisa "Comportamento Sexual e Percepções da População Brasileira Sobre HIV/Aids", realizada em 2005,e e cotejados com pesquisa similar realizada em 1998.d

Os dados foram obtidos a partir de amostra probabilística, em múltiplos estágios, da população brasileira com idade entre 16 e 65 anos, residente nas grandes regiões urbanas brasileiras.4 Em 1998 foram entrevistadas 1.835 mulheres e 1.489 homens, totalizando 3.324 indivíduos; em 2005, 2.742 mulheres e 2.298 homens, totalizando 5.040 indivíduos. A metodologia da pesquisa e o plano amostral estão, respectivamente, descritos por Berquó et al3 e Bussab & GEPSAIDS.4

A escolha das variáveis analisadas foi balizada por constituírem indicadores relacionados à transmissão de IST/HIV e por permitirem comparações entre 1998 e 2005. Portanto, as variáveis referem-se à população sexualmente ativa ao longo da vida e nos 12 meses anteriores à entrevista; indivíduos que fizeram sexo com parceiro do mesmo sexo ao longo da vida; número de parceiros sexuais nos 12 meses anteriores à entrevista; práticas sexuais adotadas com o último parceiro (estável e/ou eventual).

As relações sexuais foram definidas como a prática de sexo oral ou sexo com penetração anal ou vaginal. Assim, em todos os momentos que o instrumento de pesquisas fazia referência a relações sexuais isso era explicitado, como no exemplo: "Você já teve relações sexuais, ou seja, praticou sexo de alguma destas maneiras: sexo com penetração vaginal, ou anal ou sexo oral?"

A população sexualmente ativa ao longo da vida expressa o contingente de indivíduos que já tiveram relações sexuais pelo menos uma vez na vida. A população sexualmente ativa nos 12 meses anteriores à entrevista incluiu homens e mulheres que relataram pelo menos uma relação sexual no período, entre aqueles(as) já ativos(as) sexualmente. A diferenciação desses dois indicadores, proposta por Cleland & Ali,5 permite caracterizar a "abstinência primária", identificada com o início da vida sexual, da "abstinência temporária ou secundária", caracterizada pela interrupção das relações sexuais, que pode estar associada, dentre outros fatores, à seleção de parceiros sexuais e/ou à freqüência de relações sexuais.5

A ocorrência de relações sexuais com parceiros do mesmo sexo foi analisada somente com relação ao período ao longo da vida, com base na pergunta: "Você já teve relações sexuais com pessoas do mesmo sexo?". As variáveis número de parceiros(as) sexuais e práticas sexuais foram analisadas apenas com relação aos 12 meses anteriores à entrevista.

A variável referente ao número de parceiros sexuais nos últimos 12 meses foi construída a partir da pergunta: "Nos últimos 12 meses, com quantas pessoas você teve relações sexuais?".

Dentre as práticas sexuais descritas pelos entrevistados(as) elegeu-se a ocorrência de sexo oral e sexo com penetração vaginal ou anal com o último parceiro (estável e/ou eventual) nos 12 meses anteriores à entrevista.

As variáveis sociodemográficas selecionadas foram: faixa etária, categorizada, sempre que possível, nos estratos 16-19, 20-24, 25-34, 35-44, 45-54 e 55-65 anos; escolaridade, categorizada em fundamental (incluiu analfabeto), médio e superior; raça/cor, dicotomizada em branca e não-branca (preto, pardo, amarela e indígena); situação conjugal: solteiro, casado/unido, separado/divorciado/viúvo; religião, segundo as categorias: católica, protestante/pentecostal, outras e nenhuma; região geográfica do país: Norte/Nordeste, Centro-Oeste/Sudeste, Sul e estado de São Paulo.

Análises bivariadas, com utilização do teste qui-quadrado de Pearson, foram ajustadas com a incorporação das informações do plano amostral, sendo utilizado o módulo complex samples do pacote estatístico SPSS 13.0. Realizaram-se análises segundo sexo e ano, adotando-se o nível de significância de 5% para todos os testes estatísticos.

Tendo em vista o tamanho reduzido da amostra para determinados recortes de interesse, as análises comparativas entre 1998 e 2005 foram apresentadas apenas quando passíveis de produzir estimativas confiáveis para ambos os períodos. Sempre que o tamanho da amostra permitiu, foram efetuadas análises estratificadas para as variáveis demográficas selecionadas. As análises comparativas por sexo segundo ano foram referidas apenas em caso de diferenças estatisticamente significativas.

O projeto da pesquisa "Comportamento Sexual e Percepções da População Brasileira Sobre HIV/Aids" foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

 

RESULTADOS

Os resultados referentes à população sexualmente ativa ao longo da vida estão apresentados na Tabela 1. A proporção de homens e mulheres que referiu ter tido relações sexuais alguma vez na vida se manteve inalterada para os grupos populacionais de 1998 e 2005. Porém, observaram-se diferenças segundo sexo, com proporção maior para homens do que para mulheres, sendo essas diferenças estatisticamente significativas nos dois períodos analisados.

A análise por faixa etária evidenciou uma distribuição não homogênea para homens e mulheres, em ambos os períodos, com as mulheres iniciando a vida sexual mais tardiamente que os homens. Observou-se pequeno decréscimo na proporção de homens sexualmente ativos com idades entre 20-24 anos e 35-44 anos.

Com relação à escolaridade, registrou-se em 2005 proporção menor de pessoas de ambos os sexos com ensino médio que havia iniciado a vida sexual. No entanto, entre as mulheres com ensino até fundamental, observou-se aumento estatisticamente significativo dessa proporção, associado exclusivamente a jovens de 16 a 19 anos.

No que se refere à religião, em 2005 a proporção de homens protestantes/pentecostais que não havia iniciado vida sexual foi menor que dos católicos e outras religiões. Entre as mulheres, a distribuição mostrou-se independente das religiões.

A análise por região geográfica permitiu verificar, aumento de mulheres sexualmente ativas na região Sul de 1998 para 2005, associado a jovens de 16 a 24 anos e mulheres de 25 a 34 anos.

Os resultados referentes à população sexualmente ativa no último ano estão apresentados na Tabela 2. A proporção de homens e mulheres ativos(as) sexualmente que referiu ter tido relações sexuais no ano anterior à entrevista manteve-se inalterada para os grupos populacionais de 1998 e 2005. Essa proporção foi acentuadamente maior entre homens do que entre mulheres, sendo essas diferenças estatisticamente significativas nos dois anos.

A distribuição por faixa etária de indivíduos sexualmente ativos no ano anterior à entrevista não foi homogênea para mulheres nos dois períodos; para homens não foi homogênea apenas em 2005 (p<0,0001).

Em 2005, as menores proporções de homens sexualmente ativos no ano anterior à entrevista concentraram-se nas faixas etárias extremas de 16-19 anos e 55-65 anos. De 1998 para 2005 houve um aparente decréscimo na proporção de homens sexualmente ativos no último ano, a partir de 45 anos, no entanto essa diferença não se mostrou estatisticamente significativa.

Entre as mulheres, a distribuição manteve-se homogênea nas primeiras quatro faixas etárias, nos dois períodos analisados, diminuindo a partir dos 45 anos (p<0,0001). Paralelamente, verificou-se um aumento na proporção de mulheres sexualmente ativas no último ano, na faixa etária de 55-65 anos, diferença estatisticamente não significativa.

Quanto à escolaridade, o padrão observado em 1998 confirmou-se em 2005: proporção menor de mulheres, com nível de ensino até fundamental, teve vida sexual ativa no ano anterior à entrevista (1998, p=0,0609; 2005, p<0,0001). Essa característica mostrou-se associada exclusivamente a mulheres com mais de 45 anos. Em contraposição, a vida sexual ativa dos homens no ano anterior à entrevista não revelou qualquer associação com escolaridade.

Com relação à raça/cor, observou-se distribuição homogênea nos dois períodos, tanto para homens como para mulheres, com redução na proporção de homens brancos com vida sexual ativa no ano anterior à entrevista (p=0,0229).

No que concerne à religião, constatou-se distribuição homogênea entre os homens nos dois períodos, e entre as mulheres, em 1998. De um período para outro foi possível notar redução (p=0,0377) na proporção de homens protestantes/pentecostais com vida sexual ativa no ano anterior à entrevista.

No que diz respeito à situação conjugal, entre homens separados e viúvos, ocorreu queda no percentual dos sexualmente ativos no ano anterior à entrevista, entre os dois períodos (p=0,0051) e aumento entre mulheres separadas e viúvas (p=0,0006). Quando esta análise considerou a idade, observou-se que esse aumento entre as mulheres separadas e viúvas ocorreu nas faixas etárias a partir dos 25 anos; entre os homens na mesma condição, a queda ocorreu a partir de 35 anos.

Houve redução, de 1998 para 2005 (p=0,0002), no percentual de homens residentes em São Paulo sexualmente ativos no ano anterior à entrevista. Quando esta análise considerou também a idade observou-se que essa redução associou-se exclusivamente a homens com mais de 45 anos.

Em 2005, 3,2% dos homens referiram ter tido relações sexuais com outro homem em algum momento da vida - proporção igual à observada em 1998 (p=0,7677). Em 1998, 3,0% das mulheres relataram ter tido relação sexual com outras mulheres em algum momento de suas vidas. Análises comparativas entre 1998 e 2005 restringem-se à população masculina devido ao tamanho reduzido da amostra de mulheres que, em 2005, referiu parcerias do mesmo sexo. Também não foi possível analisar a relação entre variáveis sociodemográficas e parceria do mesmo sexo.

Com relação ao número de parceiros no ano anterior à entrevista, as diferenças de comportamento sexual entre homens e mulheres foram mais evidentes. A proporção de homens que referiu mais de um parceiro sexual foi aproximadamente cinco vezes maior que a das mulheres nos dois períodos. Esta proporção diminuiu no grupo dos homens e manteve-se inalterada entre as mulheres. Os resultados referentes ao número de parceiros(as) no último ano estão apresentados na Tabela 3. Não foi possível realizar análises comparativas entre 1998 e 2005 para a população feminina segundo variáveis sociodemográficas, dado o tamanho reduzido da amostra de mulheres para este recorte (5,2%). Embora a proporção de homens com mais de um parceiro(a) no ano anterior à entrevista tenha mantido tendência decrescente em função da idade, a queda concentrou-se entre homens de 25 a 34 anos (p=0,0307) e de 35 a 44 anos (p=0,0354). Entre jovens de 16 a 19 anos, observou-se redução de cerca de 15%, porém, não significativa estatisticamente.

No conjunto da população masculina, houve redução do número de parceiros no grupo com ensino até fundamental e médio. Redução que sugere relação positiva entre número de parceiros sexuais em 2005, em função da escolaridade.

Além das diferenças observadas por faixa etária e escolaridade, evidenciou-se, entre 1998 e 2005, diminuição na proporção de homens católicos, brancos e solteiros com mais de um parceiro no último ano.

A filiação a qualquer religião mostrou-se associada à maior proporção de parcerias únicas no ultimo ano, tanto em 1998 quanto em 2005.

Em termos de distribuição por região geográfica, observou-se redução acentuada no número de homens com mais de uma parceria sexual no ano anterior à entrevista para a região Centro-Oeste/Sudeste (32,2%, em 1998, 17,5%, em 2005; p=0,0038), assumindo assim um padrão semelhante ao observado nas demais regiões. No Norte/Nordeste as proporções foram similares nos dois períodos, aproximadamente o dobro das proporções encontradas para as outras regiões em 2005 (p<0,0001).

Em relação às práticas sexuais, em 2005, quase 100% das pessoas sexualmente ativas no ano anterior à entrevista relataram prática de sexo vaginal com o(a) último(a) parceiro(a) estável ou eventual. Apenas 1% dos homens e 0,3% das mulheres não a referiram - proporções similares às observadas em 1998. De um repertório constituído por sexo vaginal, anal e oral, 60,8% dos homens relataram sexo vaginal como prática exclusiva em 1998 e em 2005, 53,6% (p=0,0530); entre as mulheres, os números foram 62,7% e 57,3%, respectivamente (p=0,2720).

Dada a predominância quase absoluta do sexo vaginal, as análises estratificadas serão apresentadas apenas para sexo oral (Tabela 4) e anal (Tabela 5).

Não foram verificadas diferenças significativas na prática de sexo oral para as amostras de 1998 e 2005. Menos da metade dos homens e das mulheres, relatou ter praticado sexo oral com o(a) último(a) parceiro(a) sexual (Tabela 4).

Nos períodos analisados, a distribuição de pessoas que praticam sexo oral mostrou-se heterogênea para ambos os sexos, por faixa etária, escolaridade, religião, situação conjugal ou número de parceiros(as) no ano anterior à entrevista. A prática decresceu a partir dos 35 anos (em 1998 e 2005), observando-se, no entanto, um aumento significativo no grupo de mulheres de 35 a 44 anos (p<0,0001) e homens de 45 a 65 anos (p=0,0143).

O relato de sexo oral aumentou de 1998 para 2005, de acordo com a escolaridade, tanto para homens quanto para mulheres. Observou-se ainda, um incremento da prática entre mulheres com ensino até fundamental (p=0,0443).

Proporções menores de relato de sexo oral foram registradas entre homens e mulheres filiados à religião católica ou protestante/pentecostal, em comparação às demais categorias. As diferenças ficaram próximas a 20%.

Em ambos os períodos, a prática de sexo oral mostrou-se mais difundida entre mulheres e homens solteiros ou com mais de um parceiro sexual no último ano. Destacou-se, porém aumento significativo estatisticamente dessa prática entre homens casados/unidos (p=0,0150) e com parceira única (p=0,0037). Em ambos os períodos, o relato de sexo oral manteve-se mais freqüente no grupo de mulheres e homens brancos. Ao considerar a distribuição por região geográfica de residência, verificou-se mudança de padrão, de 1998 para 2005, cujas distribuições não foram homogêneas. Houve aumento no relato entre os homens residentes no Norte/Nordeste (p=0,0275) e no estado de São Paulo (p<0,0001). Em contrapartida, houve decréscimo (p=0,0283) entre homens da região Sul. Para as mulheres registrou-se, em 2005, incremento no relato de sexo oral entre mulheres residentes no Norte/Nordeste (p=0,0093).

A prática do sexo anal manteve-se inalterada nos dois períodos analisados. O relato foi menos freqüente, se comparado com sexo oral, e homens tendem a referir mais a sua ocorrência (Tabela 5). Análises comparativas entre 1998 e 2005, segundo variáveis sociodemográficas, não foram realizadas para a população feminina devido ao tamanho reduzido da amostra. Essa prática foi maior entre jovens do sexo masculino de 16 a 19 anos e decresceu com a idade; e entre as mulheres, foi mais freqüente entre aquelas de 20 a 44 anos.

Assim como verificado em relação ao sexo oral, a distribuição de pessoas que praticavam sexo anal diferiu para ambos os sexos, por escolaridade, religião, situação conjugal ou número de parceiros(as). Tenderam a declarar menos freqüentemente a prática do sexo anal homens e mulheres com ensino até fundamental, com filiação às religiões católica ou protestante/pentecostal, casados/unidos e com um único parceiro sexual no último ano.

Nos períodos analisados, o relato da prática de sexo anal manteve-se homogêneo entre mulheres e homens brancos e não brancos. No que se refere à distribuição por região geográfica de residência, verificou-se homogeneidade para ambos os sexos em 2005, observando-se um incremento da prática entre homens, de 1998 para 2005, no Estado de São Paulo (p<0,0479). Devido ao tamanho reduzido da amostra em 1998, esse incremento deve ser interpretado com cautela.

 

DISCUSSÃO

Existe na literatura debate quanto à validade e confiabilidade dos dados produzidos por inquéritos sobre comportamentos e práticas sexuais devido à natureza subjetiva desse tipo de informação, sujeita a viés de memória, adequação de resposta e outros desvios.10,11,15 Por referir-se a comportamentos relacionados à vida privada e íntima das pessoas, o relato dessas informações é particularmente suscetível a pressões sociais e, portanto, pode refletir respostas consideradas socialmente esperadas ou corretas.10,12

Além disso, a comparação temporal de dados de pesquisas deveria considerar um possível impacto nas respostas de mudanças culturais ocorridas ao longo do tempo. Uma mesma prática sexual, experimentada em momentos diferentes, pode ser relatada com mais ou menos freqüência em função de contextos culturais mais ou menos liberais com relação à prática no momento em questão.

No entanto, conforme ressaltam Bastos et al,2 "inquéritos populacionais são pouco sujeitos a erros sistemáticos e vícios que invalidem comparações e contrastes, uma vez minimizados os erros não-sistemáticos e reconhecidas as suas limitações amostrais e referentes à confiabilidade e validade dos instrumentos utilizados".

Feitas estas considerações, não foram observadas mudanças significativas nos padrões de comportamento sexual de homens e mulheres, de 1998 para 2005 para o conjunto da população. Exceção feita ao número de parcerias sexuais no ano que antecedeu a entrevista, que diminuiu entre os homens.

Os padrões diferenciados de comportamento sexual segundo sexo mantiveram-se similares, a saber: mulheres iniciaram a vida sexual mais tardiamente; proporção menor de mulheres manteve-se sexualmente ativa no último ano e proporção ainda menor relatou mais de um parceiro sexual no último ano. Embora os resultados divulgados por Szwarcwald et alf não forneçam estimativas para a população com mais de um parceiro no último ano, os padrões encontrados no presente estudo são similares aos encontrados por esses autores em 2004.

Também não foram identificadas mudanças nos padrões de homens e mulheres, quanto às práticas sexuais mantidas com o(a) último(a) parceiro(a). As diferenças segundo sexo foram observadas apenas com relação à prática de sexo anal, menos freqüente entre as mulheres.

Embora não existam dados disponíveis no Brasil para o mesmo recorte etário, inquérito populacional realizado em 2002 por Heilborn et al, 11 com jovens de 18 a 24 anos residentes nas cidades de Salvador, Rio de Janeiro e Porto Alegre, registrou predominância de sexo vaginal, sendo sexo oral uma prática mais difundida e praticada de forma menos assimétrica entre homens e mulheres. O sexo anal foi menos freqüente no repertório sexual dos jovens e apresentou diferenças marcantes de gênero.

Por outro lado, as diferenças por sexo, identificadas no relato do sexo anal, não encontram paralelo nos estudos realizados em países como Estados Unidos, Inglaterra e Austrália.7,13,14 Para Heilborn et al,11 a maior freqüência de sexo anal entre homens no Brasil provavelmente reflita mais a valorização do relato da prática do que evidencia sua ocorrência. Porém, as freqüências observadas no presente estudo, tanto para homens como para as mulheres, situaram-se em patamares mais elevados do que as referidas pelos estudos realizados na Inglaterra13 e Estados Unidos,14 que utilizaram indicadores similares aos da presente pesquisa. Esse fato talvez indique que o sexo anal seja mais praticado no Brasil. Padrão similar a este também foi observado no Chile em 2000.b

Quanto aos padrões referentes às parcerias do mesmo sexo ao longo da vida, não foram encontradas diferenças entre homens e mulheres: cerca de 3% da população entrevistada (1998) referiram ter se relacionado sexualmente com parceiros do mesmo sexo ao longo da vida, proporção mantida em 2005 entre os homens.1 Padrão semelhante foi encontrado na França, em 2006.ª A análise comparativa dos achados franceses relativos ao grupo de homens em 2006, com os disponíveis para o mesmo país em 1992, evidencia estabilidade da estimativa ao longo do tempo e aumento da proporção entre as mulheres. No Brasil, todavia, não foi possível estabelecer estimativas confiáveis para a população feminina, em 2005, devido ao pequeno número de relatos desse tipo de parceria. Mais do que uma redução objetiva do evento, esse achado sugere que o relato de parcerias homossexuais entre mulheres ainda é marcado por temores de preconceitos e censura e, nesse sentido, mais passíveis de serem omitidos nos contextos de pesquisa. Isso foi indicado anteriormente em estudo etnográfico por Barbosa & Facchini.g

Se a análise não revelou mudanças substantivas para o conjunto de homens e mulheres, de 1998 para 2005, as análises estratificadas mostraram cenário mais diversificado e complexo. Tal cenário caracteriza-se pela variabilidade de comportamentos e práticas sexuais, conforme idade, escolaridade, situação conjugal, religião e região geográfica de residência, fatores que interagem entre si de maneira particular, segundo sexo.

Uma discussão mais aprofundada dessas inter-relações requer análises multivariadas de modo a controlar o efeito do conjunto de variáveis sobre comportamentos e práticas sexuais. Ainda assim, os achados da presente pesquisa parecem indicar diminuição das diferenças entre homens e mulheres, corroborando Bozonc e Johnson et al13 ao analisarem mudanças recentes, respectivamente, na França e na Inglaterra.

Essa redução das diferenças mostrou-se associada, no caso brasileiro, a um padrão de mudança caracterizado por: aumento da proporção de mulheres que iniciaram a vida sexual com 16 a 19 anos, com escolaridade até o ensino fundamental, ou residentes na região Sul do Brasil; o aumento de relato de atividade sexual no ano anterior à entrevista pelas mulheres; redução de relato similar por parte de homens com mais de 55 anos, protestantes/pentecostais, ou separados e viúvos; diminuição da proporção de homens com mais de um parceira(o) sexual no último ano, entre aqueles com 25 a 44 anos ou com ensino até médio; aumento de relato da prática de sexo oral por mulheres com mais de 35 anos ou residentes no Norte/Nordeste.

Embora a interpretação de mudanças ocorridas no comportamento e nas práticas ao longo do tempo exija cautela e necessite levar em conta o possível impacto de questões metodológicas, anteriormente assinaladas, as sucessivas observações - com valores reiteradamente negativos para os homens e positivos para as mulheres - levantam a hipótese de estar ocorrendo um processo de mudança nos padrões de comportamento e práticas sexuais no Brasil. Tal mudança poderá ser mais bem compreendida em análises específicas e aprofundadas, e confirmada pela repetição da pesquisa, de forma a se obter mais pontos no tempo.

Até o momento, estudos de tendências e mudanças nos padrões de comportamentos e práticas sexuais no Brasil baseavam-se em amostras e instrumentos de pesquisa diversos. Exceção foi a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) realizada em 1986 e repetida em 1996,h que, no entanto, não contemplava essas temáticas como eixo central. Talvez por essas razões, análises comparativas temporais dos padrões de comportamento e práticas sexuais no Brasil não tenham sido encontradas na literatura consultada, a exemplo dos estudos realizados em países da África Subsaariana,5,6 Inglaterra13 e França.ª

A dificuldade de comparar os achados da presente pesquisa com os de pesquisas brasileiras semelhantes, quanto à abrangência geográfica e recorte populacional, refere-se também ao recorte analítico utilizado na produção de dados sobre comportamento e práticas sexuais. Entre 1998 e 2005 foram realizadas outras pesquisas populacionais de abrangência nacional sobre comportamento e práticas sexuais (2003i e 2004f). Ocorre que as análises realizadas a partir desses estudos, ao tomarem o sexo como mais uma categoria apenas, dentro do rol de outras variáveis sociodemográficas, não explicitaram diferenças internas desses grupos, inviabilizando a comparação com vários dos resultados do presente estudo. Esse fato provavelmente reflete a incorporação incipiente da categoria gênero em estudos e análises epidemiológicas em geral, uma perspectiva de análise que vem sendo internacionalmente adotada em trabalhos7,13,14,a dessa natureza e imprescindível para estudos sobre sexualidade.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Regina Maria Barbosa
Núcleo de Estudos de População-NEPO/UNICAMP
R. Albert Einstein 1300
13081-970 Campinas, SP, Brasil
E-mail: rbarbosa@nepo.unicamp.br

Recebido: 10/12/2007
Revisado: 10/3/2008
Aprovado: 2/4/2008

 

 

Artigo baseado em dados da pesquisa "Comportamento sexual e percepções da população brasileira sobre HIV/Aids", realizada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), com o apoio do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde (Processo n.º ED 213427/2004).
Este artigo seguiu o mesmo processo de revisão por pares de qualquer outro manuscrito submetido a este periódico, sendo garantido o anonimato entre autores e revisores. Editores e revisores declaram não haver conflito de interesses que pudessem afetar o processo de julgamento dos artigos.
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
* Integrantes: Elza Berquó, Francisco Inácio Pinkusfeld Bastos, Ivan França Junior, Regina Barbosa, Sandra Garcia, Vera Paiva, Wilton Bussab.

a Agence Nationale de Recherches Sur le Sida et les Hépatites Virales. Dossier de presse - Premiers résultats de l’enquête "Contexte de la sexualité en France". Paris; 2007. Disponível em: http://www.anrs.fr/index.php/anrs/content/download/483/3662/fi le/
DP%2013%20mars%2007%20-%20Premiers%20r%C3%A9sultats%20de%20l%5C’enqu%C3%AAte%20CSF.pdf

b Arredondo A, Goldstein E, Olivera MP, Bozon M, Giraud M, Messich A, et al. Estudio nacional de comportamiento sexual: primeros analisis, Chile 2000. Santiago: Ministerio de Salud.Comisión Nacional del Sida; 2000.
c Naciones Unidas. Programa para El Desarrollo. Actitudes, información e conductas en relación con el VIH SIDA en la población general: informe para el establecimiento de la línea de base para el proyecto Actividades de Apoyo a la Prevención y Control del VIH/SIDA en Argentina. Buenos Aires; 2005.
d Berquó E, coordenador. In: Comportamento sexual da população brasileira e percepções do HIV/Aids. Brasília (DF): Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde, Coordenação Nacional DST e Aids; 2000. (Série avaliação, 4).
e Pesquisa coordenada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e Ministério da Saúde.
f Ministério da Saúde. Coordenação Nacional de DST e AIDS. Pesquisa de conhecimento, atitudes e práticas na população brasileira de 15 a 54 anos, 2004. Brasília; 2006.
g Barbosa RM, Facchini R. Mulheres, cuidados à saúde, gênero e diversidade sexual. São Paulo; 2006. (Relatório de pesquisa - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - Processo n. 401256/2004-9)/CNPq).
h Dados inéditos.
i França Junior I, Paiva V, Lopes F, Venturi G. Aspectos metodológicos e analíticos da pesquisa. Ministério da Saúde/Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, Brasil-2003. São Paulo; 2003. Disponível http://www.aids.gov.br/data/documents/storedDocuments/%7BB8EF5DAF-23AE-
4891-AD36-1903553A3174%7D/%7B588C389F-E032-449B-9787-C6DF78BFFDF9%7D/artigo_metodologia.pdf