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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.42  suppl.1 São Paulo Jun. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102008000800006 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Uso do preservativo: tendências entre 1998 e 2005 na população brasileira

 

 

Elza BerquóI, II; Regina Maria BarbosaII, III; Liliam Pereira de LimaI; Grupo de Estudos em População, Sexualidade e Aids*

IÁrea de População e Sociedade. Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. São Paulo, SP, Brasil
IINúcleo de Estudos de População. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil
IIICentro de Referência em DST/Aids. Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar os níveis, tendências e diferenciais sociodemográficos do uso do preservativo na população brasileira urbana.
MÉTODOS: Os dados analisados foram coletados em 1998 e 2005, na pesquisa "Comportamento Sexual e Percepções da População Brasileira sobre HIV/Aids". As amostras, probabilísticas em múltiplos estágios, incluíram homens e mulheres de 16 a 65 anos de idade, domiciliados em áreas urbanas. Foram consideradas para análise as entrevistas com indivíduos sexualmente ativos nos 12 meses anteriores à entrevista. Os modelos univariados basearam-se em testes qui-quadrado, corrigidos pelo planejamento amostral, e cálculos de odds ratios; a análise multivariada envolveu o ajuste de modelos de regressão logística, controlando-se as demais variáveis de interesse.
RESULTADOS: Houve aumento significativo do uso do preservativo nos 12 meses anteriores à entrevista e na última relação sexual. Jovens de 16 a 24 anos se protegeram mais nas relações sexuais, principalmente com parcerias eventuais. Homens usaram mais o preservativo, somente com parcerias eventuais. Maior freqüência de uso do preservativo ocorreu entre pessoas solteiras. Não houve diferença regional quanto ao uso consistente do preservativo. Nas relações estáveis os pentecostais revelaram a menor proteção no sexo; pessoas sem religião ou adeptos de outras religiões apresentaram os maiores índices de proteção. A escolaridade, que se mostrou diferencial importante no uso do preservativo em 1998, manteve seu destaque em 2005.
CONCLUSÕES: Os resultados mostraram ser necessário aprofundar a discussão em torno de ações que visem a aumentar o uso consistente de preservativo, especialmente entre populações de menor escolaridade e as mais vulneráveis, como mulheres jovens ou em parcerias estáveis.

Descritores: Preservativos. Sexo Seguro. Sexo sem Proteção. Comportamento Sexual. Fatores Socioeconômicos. Estudos Populacionais em Saúde Pública. Brasil. Uso de preservativos. Estudos transversais.


 

 

INTRODUÇÃO

A preocupação com a necessidade de estudos para avaliar graus de vulnerabilidade às doenças sexualmente transmissíveis de grupos populacionais vem marcando o cenário mundial nas últimas décadas.

A partir de meados dos anos 1990 surgiram no Brasil os primeiros estudos de abrangência nacional sobre comportamento sexual e percepção de risco ao HIV, em resposta ao crescimento do número de casos de Aids diagnosticados e notificados. Essa tendência é igualmente observável na Austrália, França, Inglaterra, Estados Unidos, entre outros países.4,6,7,ªNa América Latina, Chile e Argentina também realizaram inquéritos populacionais sobre comportamento sexual, proporcionando parâmetros de comparação com realidades mais próximas à brasileira.b, c

Até então, no Brasil, informações sobre o uso do preservativo estavam, em grande medida, associadas à contracepção e provinham, geralmente, de inquéritos populacionais, como a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS),d realizada com mulheres em idade reprodutiva, casadas ou unidas. Nesse contexto, o preservativo era pouco referido como método anticoncepcional.2 Em 1986, apenas 5% das mulheres casadas ou unidas referiram o preservativo como método contraceptivo atual.e

Contudo, quando a PNDS 1996 acrescentou um módulo sobre DST/Aids, foi possível levantar informações sobre o uso do preservativo como forma de prevenção do HIV. Assim, embora 4,3% das mulheres sexualmente ativas entrevistadas em 1996 tenham referido o preservativo como método contraceptivo atual,d 11% fizeram referência ao seu uso na última relação sexual.f

Com o objetivo de estudar o comportamento, atitudes e práticas sexuais da população brasileira, visando à formulação de estratégias de intervenções preventivas das DST/Aids, o Ministério da Saúde firmou convênio com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) para a realização da pesquisa "Comportamento Sexual da População Brasileira e Percepções do HIV/Aids".g Conduzida em 1998, trata-se do primeiro inquérito populacional de abrangência nacional, que produziu informações sobre a prevalência de uso do preservativo e seus diferenciais sociodemográficos para a população brasileira urbana, de ambos os sexos, com idade de 16 a 65 anos.

Em 2003 e 2004, dois outros inquéritos populacionais de abrangência nacional foram realizados com a finalidade de construir indicadores para a avaliação sistemática do desempenho da Coordenação Nacional DST/Aids.h,i Esses inquéritos produziram informações sobre o perfil de uso de preservativo e seus diferenciais sociodemográficos para a população jovem e adulta de ambos os sexos.

Essas pesquisas, bem como estudos específicos sobre a população jovem,5 possibilitaram a produção de um conjunto de informações valiosas sobre o comportamento sexual e a utilização de preservativo pela população brasileira na última década.

A reedição da pesquisa "Comportamento Sexual da População Brasileira e Percepções do HIV/Aids", em 2005,j teve como objetivo identificar mudanças ou permanências no conhecimento sobre HIV/Aids, comportamento, atitudes e práticas sexuais da população brasileira, ocorridas a partir de 1998. Dessa forma, torna-se possível pela primeira vez a comparabilidade histórica de dados produzidos a partir de inquéritos populacionais realizados com amostras e instrumentos desenhados com esta finalidade.

O objetivo do presente estudo foi analisar os níveis, tendências e diferenciais sociodemográficos do uso do preservativo na população brasileira.

 

MÉTODOS

Os dados analisados referem-se aos achados da pesquisa "Comportamento Sexual e Percepções da População Brasileira Sobre HIV/Aids", realizada em 2005,j e cotejados com pesquisa similar realizada em 1998.c

De corte transversal, as pesquisas de 1998 e 2005 basearam-se em amostras probabilísticas representativas da população urbana brasileira, a partir de micro-áreas definidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O plano amostral, estratificado em múltiplos estágios, sorteou em cada micro-região, sucessivamente, setores censitários, domicílios particulares e moradores de 16 a 65 anos. Em 1998, foram definidos os estratos geográficos: regiões Norte e Nordeste; Centro-Oeste mais Minas Gerais e Espírito Santo; região Sul mais Rio de Janeiro e São Paulo. Em 2005, os estratos foram: regiões Norte e Nordeste; Centro-Oeste e Sudeste, exceto São Paulo, região Sul, e São Paulo. Foram feitas adaptações nos agrupamentos para garantir a comparabilidade entre as pesquisas. Os tamanhos amostrais foram de 3.324 e 5.040 indivíduos, respectivamente, em 1998 e 2005. Detalhes sobre a metodologia da pesquisa e delineamento amostral encontram-se em Berquó et al1 Bussab & GEPSAIDS.3

O estudo da prevalência do uso do preservativo em ambas as pesquisas baseou-se em informações sobre esta conduta na primeira relação sexual e nos 12 meses anteriores à entrevista, face a face. No presente artigo considerou-se apenas o uso nos últimos 12 meses, delimitando, respectivamente, sub-amostras de 2.578 e 3.960 pessoas, em 1998 e 2005, que representam 77,6% e 78,6% das respectivas amostras totais. Foram analisados dados sobre pessoas que referiram relações sexuais: apenas com parceiros estáveis, apenas com parceiros eventuais, e com ambas as parcerias. Parceria estável foi definida como casamento, união, noivado, namoro ou amante, que implique envolvimento ou compromisso, e parceria eventual como relação sexual sem qualquer vínculo ou compromisso de continuidade. Considerou-se como uso do preservativo, as declarações afirmativas sobre uso e as de que passaram a usar o preservativo em pelo menos uma relação sexual nos 12 meses anteriores à entrevista. O uso consistente, incorporado apenas na pesquisa de 2005, foi definido pelo uso do preservativo em todas as relações sexuais ocorridas nos últimos 12 meses ou, se passou a ser usado sempre. O uso e uso consistente do preservativo foram definidos para relações sexuais com parceiros estáveis ou eventuais.

A análise do uso do preservativo na última relação sexual, possível apenas em 2005, baseou-se na amostra de todos os sexualmente ativos, e foi avaliada segundo o tipo de prática sexual: "só vaginal" e "vaginal e anal na mesma relação", com parceiro estável ou eventual.

De forma geral, as variáveis independentes analisadas corresponderam às características sociodemográficas das pessoas entrevistadas: sexo, idade, raça/cor, escolaridade, situação conjugal, religião atual e região de residência, além do ano calendário do estudo, para informações disponíveis nas duas pesquisas. Sobre escolaridade, as categorias fundamental, médio e superior referem-se a ensino completo ou incompleto. Pessoas que responderam "não sabe ler nem escrever" foram desconsideradas da análise, devido ao pequeno número de casos. Utilizou-se o critério de auto-identificação para raça/cor, adotado pelo IBGE: brancos, pretos, pardos, indígenas e amarelos, porém, o reduzido número de indígenas ou amarelas justificou a não inclusão dessas categorias na análise. A categoria "negros" refere-se a pretos e pardos. A denominação "outras" no quesito religião atual refere-se principalmente à espírita, afro-brasileira e budista.

Os números totais apresentados nas tabelas podem não ser necessariamente iguais às somas dos casos das diferentes categorias de uma variável, devido à ponderação dos dados e/ou dados faltantes ("não lembra" ou "recusou-se a responder"). A referida ponderação visou corrigir as probabilidades de inclusão dos domicílios nas amostras.

O tratamento estatístico dos dados baseou-se em testes qui-quadrado, corrigidos pelo planejamento amostral, e cálculos de odds ratios obtidos de modelos logísticos univariados. Com o objetivo de investigar variáveis mais associadas ao uso do preservativo, a análise multivariada envolveu o ajuste de modelos de regressão logística, controlando-se as demais variáveis de interesse. Para construção desses modelos considerou-se, inicialmente, um modelo com todos os efeitos principais correspondentes às variáveis independentes descritas anteriormente. Em seguida, cada interação de primeira ordem foi incluída (uma de cada vez) no modelo, com efeitos principais. Apenas aquelas que apresentaram valor de p<0,05, foram incorporadas no modelo final. Todos os modelos logísticos foram ajustados considerando o planejamento amostral. Os cálculos foram feitos em SPSS v.15 e Stata v.9.

O projeto da pesquisa "Comportamento Sexual e Percepções da População Brasileira Sobre HIV/Aids" foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

 

RESULTADOS

Os resultados da análise univariada referente ao uso do preservativo nos 12 meses anteriores à entrevista, para pessoas somente com parceria estável, somente com parcerias eventuais e para aquelas com parcerias estáveis e eventuais no período referido são apresentados na Tabela 1. Para as pessoas com parceria estável nos 12 meses anteriores à entrevista, a proporção de uso do preservativo aumentou de 19,1% em 1998 para 33,1%, em 2005 (p<0,001). Em 2005, o uso de preservativo não esteve associado ao sexo e à raça/cor, variando de forma significativa quanto à idade, escolaridade, situação conjugal, religião atual e região. Aos jovens de 16 a 24 anos coube o maior percentual de uso do preservativo (59,2%), declinante com a idade. Pessoas com escolaridade até o ensino fundamental usaram menos o preservativo (26,2%) que aquelas com maior escolaridade (mais de 40%). Um gradiente estatístico caracterizou a situação conjugal, cabendo às pessoas solteiras maior freqüência de uso do preservativo (70,3%). A não filiação religiosa e outras religiões menos freqüentes no País responderam por aproximadamente 41% dos que usaram o preservativo. Finalmente, as maiores proporções de uso do preservativo ocorreram nas regiões Norte/Nordeste e Sul.

A comparação entre resultados de 1998 e 2005 revela efeitos significantes da religião atual e da região apenas em 2005.

A regressão logística reafirmou achados da análise univariada e mostrou existência de interação entre ano e situação conjugal. Na Figura 1 observa-se maior aumento no uso do preservativo entre os casados ou unidos, de 11,6% em 1998 para 25,0% em 2005.

 

 

O aumento de 63,5% para 78,6% no uso do preservativo nos 12 meses anteriores à entrevista entre pessoas somente com parcerias eventuais, entre 1998 e 2005, não foi estatisticamente significante (p=0,065). Entretanto, essas pessoas usaram mais o preservativo do que aquelas que viviam relações estáveis. (Tabela 1)

Em 2005, o uso do preservativo por pessoas somente com parcerias eventuais não esteve associado à raça/cor, situação conjugal ou religião, mas associou-se ao sexo, idade, escolaridade e região. O uso do preservativo entre homens foi 81,6%, e entre mulheres, 66,0%; atingiu 92,0% entre os jovens de 16 a 24 anos, valor estatisticamente superior aos correspondentes às demais idades, mas iguais entre si. Quanto à escolaridade, valor significativamente mais baixo (69,9%) referiu-se às pessoas com ensino fundamental, sem diferenças entre os demais níveis de escolaridade quanto ao uso do preservativo. A região Centro-Oeste/Sudeste apresentou a menor proporção (64,0%) de uso do preservativo, estatisticamente inferior às demais, que não diferem entre si. (Tabela 1)

A comparação dos resultados de 2005 com os de 1998 (Tabela 1) revela um quadro semelhante quanto às variáveis associadas ao uso do preservativo. As exceções referem-se ao sexo e região de residência, que em 1998, não apresentaram associações significantes com o uso do preservativo.

Devido ao pequeno número de mulheres com parceria eventual (nove em 1998 e 53 em 2005), a análise de regressão logística considerou apenas os homens solteiros (98,3% do total de homens) e nas faixas etárias 16-24 e 25-34 anos. Além disso, para esta sub-amostra, a escolaridade e a religião foram avaliadas considerando-se apenas duas categorias: fundamental e médio mais superior, e católicos e demais religiões.

Assim, em 1998, entre solteiros de 16 a 34 anos, o preservativo foi mais usado entre os mais jovens e aqueles com maior escolaridade. Em 2005, o preservativo foi mais usado entre os mais jovens e entre residentes na região Sul e no estado de São Paulo. (Tabela 2)

A análise de regressão logística indicou interação entre escolaridade e faixa etária (p=0,004) e efeito principal de ano calendário (p=0,015). A chance de uso do preservativo em relação ao não uso, em 2005, foi 1,2 vezes aquela registrada em 1998. Em 1998, o preservativo foi mais usado entre solteiros com ensino médio ou superior nas duas faixas etárias. Em 2005, os solteiros de 16-24 anos apresentaram diferença significativa quanto ao nível de escolaridade, o que não se verificou na faixa de 25 a 34 anos. (Figura 2)

 

 

Para pessoas em relações estáveis, mas que tiveram também parcerias eventuais nos 12 meses anteriores à entrevista, o uso do preservativo cresceu de 24,5%, em 1998, para 46,3%, em 2005 (p=0,001). Para os dois anos, esses percentuais foram mais próximos daqueles correspondentes às parcerias estáveis do que aos referentes às parcerias eventuais.

A análise mostrou que, em 2005, o uso do preservativo esteve associado à idade, escolaridade, situação conjugal e religião. Comparados aos resultados de 1998, mantiveram-se as associações com escolaridade e situação conjugal. Quanto à escolaridade, a associação negativa observada em 1998 perde significância (p=0,051) quando a categoria fundamental é comparada com a que reúne ensino médio e superior, cuja proporção de uso é igual a 15,6%. (dado não apresentado em Tabela)

Entre pessoas somente com parcerias estáveis, 17,1% declararam usar o preservativo de forma consistente. Esse uso não se associou ao sexo, cor/raça ou região de residência, mas sim à idade, escolaridade, situação conjugal e religião. Aos jovens de 16 a 24 anos correspondeu a maior freqüência do uso consistente do preservativo, 31,9%, valor declinante com a idade. Pessoas com no máximo ensino fundamental apresentaram a menor proporção de uso, quando contrastadas com aquelas de maior escolaridade, com proporção em torno de 22% entre as que possuíam ensino médio ou superior. Observou-se gradiente estatístico, com maior valor para uso consistente do preservativo entre pessoas solteiras, e menor para casadas ou unidas. Quanto à religião, o maior uso correspondeu às categorias "nenhuma" e "outras", que não diferiram entre si, e as menores proporções de uso corresponderam às religiões protestantes e pentecostais. (Tabela 3)

O modelo de regressão logística mostrou interação de situação conjugal com faixa etária (p=0,005) e sexo (p=0,002). Enquanto para casados/unidos o uso consistente do preservativo diminuiu com a idade, de 17,3% na faixa etária 16-24 anos para 7,1% na faixa 45-65 anos, entre os solteiros essa queda se observa a partir da faixa dos 35-44 anos. Entre viúvos, separados ou divorciados, o uso consistente do preservativo declinou a partir dos 44 anos. Este último resultado deve ser visto com cautela, dado o pequeno número de casos. (Figura 3)

 

 

O uso consistente do preservativo entre homens foi de 9,1% entre casados/unidos, 27,3% entre viúvo/separado/divorciado e 52,8% entre solteiros. As mulheres apresentaram a mesma tendência, com magnitude maior para as solteiras (quando comparada à dos solteiros): 11,7%, 33,4% e 37,2%, respectivamente.

Para o total de pessoas somente com parcerias eventuais, o uso consistente do preservativo nos 12 meses anteriores à entrevista foi de 65,0%.

Dado o pequeno número (n=279) e a concentração de solteiros nessa categoria (84,2%), a análise dessa sub-amostra revelou percentual 67,4% referente ao uso consistente de preservativo, sendo maior entre homens (70,6%) e entre pessoas mais jovens (77,1%) (Tabela 3).

O ajuste do modelo logístico para pessoas solteiras considerando efeito de sexo, faixa etária e interação entre esses, não indicou efeito de interação (p=0,591). A análise do uso consistente do preservativo por faixa etária, controlando-se pela variável sexo, mostrou significância (p=0,020). O mesmo não ocorreu na avaliação do fator sexo controlando-se por faixa etária (p=0,107).

Para pessoas com parcerias estáveis e eventuais nos 12 meses anteriores à entrevista, o uso consistente do preservativo foi de 28,0%, influenciado pela faixa etária, situação conjugal e cor. Para que efeitos de interação pudessem ser avaliados no modelo multivariado, a análise foi realizada considerando as categorias etárias: 16-24, 25-34 e 35-65 anos. Considerando-se os resultados da análise univariada, religião e situação conjugal foram agrupadas em "católicos" versus "demais religiões", e "não unidos" (solteiros, viúvos, separados e divorciados) versus "unidos".

O modelo multivariado indicou interação entre sexo e faixa etária (p=0,045), além de efeitos significantes de cor (p=0,025) e situação conjugal (p=0,008). Como na análise univariada, religião e escolaridade não se mostraram significantemente associados ao uso consistente de preservativo para pessoas com relações estáveis e eventuais (ambos com p>0,57). Os resultados mostraram que o uso consistente do preservativo por homens passou de 42,6%, na faixa etária 16-24 anos, a 7,8% para aqueles com idades entre 35 e 65 anos. Tanto na faixa 16-24 anos quanto na de 25-34 anos, cerca de 24% das mulheres declararam uso consistente do preservativo, crescendo a 36,0%, para as mais velhas.

Para as 3.814 pessoas que praticaram apenas sexo vaginal na última relação sexual, 28,1% relataram uso do preservativo. A análise univariada mostrou que todas as variáveis estiveram associadas ao uso do preservativo, exceto raça/cor. Mais homens e pessoas mais jovens relataram o uso do preservativo na última relação sexual. Maior escolaridade aumentou a chance de uso do preservativo, maior também entre pessoas solteiras e aquelas com parceria eventual. Aos pentecostais coube o menor percentual de uso do preservativo. Residentes nas regiões Centro-Oeste e Sudeste apresentaram o mais baixo percentual de uso (23,7%). (Tabela 4)

 

 

A análise multivariada mostrou que o uso do preservativo esteve associado às combinações entre sexo e faixa etária (p=0,003), e entre religião e tipo de parceria (p=0,020). A Figura 4 ilustra a interação entre sexo e faixa etária, com grande diferença de uso do preservativo entre homens e mulheres, com idades entre 16 e 24 anos.

 

 

Quanto à interação religião-tipo de parceria, os pentecostais com parceiros estáveis representaram 17,8% dos que usaram preservativo na última relação sexual,contra 24,0% (valor médio) de católicos e protestantes, e 29,0% para pessoas de outras filiações ou sem religião. Isso não ocorreu quando a relação sexual se deu com parceiro eventual.

A prática de sexo vaginal e anal na mesma relação sexual foi declarada por 122 pessoas, e somente de sexo anal, por cinco. Analisando a prática de sexo vaginal e anal na mesma relação sexual, verificou-se que 41,8% usaram preservativo em ambas, 4,9% usaram em apenas uma delas e 53,3% não usaram em ambas as práticas. As condutas diferiram quanto ao tipo de parceria, sendo mais freqüente (59,5%) o uso do preservativo em ambas as práticas quando a relação sexual foi com parceiro eventual, em contraste com 32,6%, referentes à relação com parceiro estável.

A análise univariada do uso do preservativo em ambas as práticas na mesma relação sexual revelou que escolaridade e situação conjugal apresentaram efeitos estatisticamente significantes, sendo maior a freqüência do uso de preservativo entre os solteiros e pessoas com maior nível de escolaridade.

O reduzido número de casos não permitiu a análise de regressão logística para o estudo conjunto dos efeitos principais e interações.

 

DISCUSSÃO

Observou-se um aumento substantivo no uso de preservativos nos 12 meses anteriores à entrevista, entre 1998 e 2005 em todos os tipos de parceria analisados: aproximadamente 14% entre homens e mulheres somente com parcerias estáveis, 15% entre aqueles apenas com parcerias eventuais e 22% nas parcerias estáveis e eventuais.

Na ausência de dados de 1998 sobre uso de preservativo na última relação sexual, os dados de 2005 foram confrontados com os da PNDS-96.d Verificou-se que o percentual de uso do preservativo na última relação sexual passou de 11,4%, em 1996,f para 28,1%, em 2005, com maior aumento entre jovens de 16 a 24 anos, de 19,5%dpara 55,5%. Não foram encontrados dados publicados que permitam uma análise temporal dessa modalidade de uso por tipo de parceria, ou de uso consistente do preservativo.

De outro lado, evidenciou-se a manutenção de gradiente de uso segundo tipo de parceria. Pessoas apenas com parcerias eventuais continuaram a se proteger mais do que aquelas com ambos os tipos de parceria, as quais, por sua vez, se protegeram mais do que aquelas com apenas parcerias estáveis.

Esse gradiente foi igualmente constatado com relação ao uso consistente do preservativo, analisado apenas em 2005. Similarmente, o uso de preservativo na última relação sexual foi muito mais freqüente em parcerias eventuais em 2005.

De um ponto de vista comparativo com outras pesquisas conduzidas no país, a discussão dos resultados, encontrados em nosso estudo sobre o uso do preservativo, fica bastante dificultada devido, em parte, ao reduzido número de estudos de abrangência nacional, em parte pelas características de cada estudo e, finalmente, pela inexistência de análises de tendência temporal.

Assim, é possível observar que a tendência de aumento no uso do preservativo, observada no presente trabalho, é corroborada pelos dados de Szwarcwald et al,hque estudaram pessoas de 15 a 54 anos domiciliadas em áreas urbanas e rurais das cinco macro-regiões brasileiras quanto ao uso do preservativo por meio de questões auto-aplicadas. E, portanto, não corroboram a tendência de diminuição no uso de preservativo identificada por Paiva et al,i ao analisarem dados produzidos pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) em 2003. Uma possível explicação para essas diferenças é que Paiva et ali utilizaram informações referentes à população sexualmente ativa nos últimos seis meses, recorte pouco usual em pesquisas sobre comportamento sexual.

No presente trabalho, a freqüência média do uso consistente do preservativo foi de 21,0%, independentemente do tipo de parceria, enquanto Szwarcwald et alh registraram 25,3%.

Quanto ao uso do preservativo na última relação sexual, Szwarcwald et alh relataram percentual de 38,4%, valor superior ao verificado em 2005, de 30,9%. Para essa comparação, foram desconsideradas em 2005 as pessoas de 55 a 65 anos. Contudo, variações no plano amostral, na definição das variáveis e na forma de aplicação do questionário entre os dois estudos podem explicar essas diferenças.

De outro lado, o uso de preservativo na última relação sexual entre jovens de 15 a 24 anos foi de 55,5% em 2005, semelhante ao encontrado por Szwarcwald et al,h de 57,3%, também com tendência declinante com a idade. Em estudo com jovens de 18 a 24 anos realizado em 2002 em três capitais brasileiras,8 observou-se 51% de uso de preservativo na última relação sexual.

No presente estudo, em 2005, idade, escolaridade, situação conjugal e tipo de parceria estiveram associados ao uso do preservativo nos últimos 12 meses, ao seu uso consistente e ao seu uso na última relação sexual, confirmando a tendência verificada em 1998.

A população jovem é a que mais se protege nas relações sexuais, para as três modalidades de uso estudadas, assim como a população mais escolarizada apresenta maiores níveis de uso do preservativo. Quanto à situação conjugal, solteiros, divorciados/separados/viúvos e casados/unidos estabelecem um gradiente, com maiores proporções de uso entre solteiros.

O mesmo fenômeno é observado quando se considera o tipo de parceria, conforme já salientado: o uso de preservativo é sempre maior nas relações sexuais com parceiros(as) eventuais do que com estáveis. Tais achados são similares aos observados por Szwarcwald et al,h Paiva et ali e em pesquisas semelhantes realizadas no Chile e Argentina.k,l

Nas relações com parceiros eventuais, os homens referem mais uso e mais uso consistente de preservativo do que as mulheres, achados também observados por Szwarcwald et alh e Paiva et al,i embora não se tenha informações sobre a significância estatística dessas diferenças. Entretanto, no modelo logístico, as associações referentes às parcerias eventuais não mantiveram significância, e não foram encontrados artigos na literatura nacional que permitissem comparação com esses resultados.

Diferenças entre homens e mulheres se confirmaram apenas com relação ao uso do preservativo na última relação sexual. Homens tendem a usar mais o preservativo do que as mulheres, resultado similar aos 44,2% entre os homens e 32,5% entre as mulheres encontrados por Szwarcwald et al.hPorém, no modelo logístico, a diferença encontrada limita-se à população na faixa etária 16-24 anos, ou seja, os homens jovens tendem a usar mais o preservativo que as mulheres. Similarmente, segundo Teixeira et al,8 56,0% de homens e 38,8% de mulheres jovens referiram uso de preservativo na última relação sexual.

A compreensão das diferenças encontradas entre homens e mulheres quanto ao uso de preservativo requer análises específicas para cada um dos sexos, pois as escolhas realizadas por homens e mulheres ao longo de suas trajetórias sexuais estão intimamente conectadas à existência de diferenças de gênero no que se refere às concepções de vínculo afetivo-sexual. Essas, por sua vez, se vinculam a percepções acerca da necessidade de proteção,8,m desdobrando-se na maior dificuldade das mulheres em negociar o uso do preservativo e o estatuto do relacionamento.

A filiação religiosa influenciou o uso consistente do preservativo nas relações estáveis, cabendo aos protestantes e pentecostais o menor uso, o que se repetiu entre os pentecostais com referência à última relação sexual. Os maiores índices de proteção corresponderam sempre aos "sem religião" ou adeptos de "outras" religiões. Não foram encontrados na literatura dados de abrangência nacional comparáveis aos do presente trabalho. Teixeira et al8 não encontraram entre os jovens associação entre uso de preservativo e filiação a alguma religião, categoria que agrupou todos os credos religiosos, não comparável à presente pesquisa. Porém, em pesquisa com amostra de 800 jovens no Rio de Janeiro, observaram-se proporções maiores de uso de preservativo entre jovens sem filiação religiosa, aproximadamente 66%, e menores, 28%, entre os pentecostais e protestantes.n

A cor autodeclarada, se mostrou associada ao uso consistente do preservativo somente nas relações estáveis e eventuais. Também não foram encontrados dados de abrangência nacional comparáveis aos aqui apresentados. Uma hipótese a ser testada em futuras análises é a de que o poder de negociação sofra variações em função da presença ou ausência de homogamia racial.

Em relação às diferenças regionais, a região Centro-Oeste/Sudeste (que não inclui o estado de São Paulo) tende a apresentar menores níveis de uso do preservativo. Do ponto de vista regional, Pascon et alº encontraram, em análise não ajustada por outras variáveis, diferença significante no uso consistente do preservativo com qualquer parceiro, cabendo o menor percentual ao Norte/Nordeste, o que não se verificou na pesquisa de 2005.

Para concluir, os resultados do presente estudo mostram aumento significativo no uso do preservativo nos últimos anos, resultado do esforço de programas oficiais de prevenção de DST/Aids. De outro lado, o sistemático diferencial por escolaridade no uso do preservativo revela a necessidade de reflexões sobre políticas de acesso a informações e ações de prevenção voltadas para a população com menor nível de instrução. De maneira similar, é necessário aprofundar a discussão em torno de ações que visem aumentar o uso consistente de preservativo, especialmente entre populações mais vulneráveis, como mulheres jovens ou em parcerias estáveis.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Elza Berquó
CEBRAP- Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
R. Morgado de Mateus, 615
04015-902 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: popu@cebrap.org.br

Recebido: 11/12/2007
Revisado: 15/4/2008
Aprovado: 30/5/2008

 

 

Artigo baseado em dados da pesquisa "Comportamento sexual e percepções da população brasileira sobre HIV/Aids", realizada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), com o apoio do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde (Processo n.º ED 213427/2004).
Este artigo seguiu o mesmo processo de revisão por pares de qualquer outro manuscrito submetido a este periódico, sendo garantido o anonimato entre autores e revisores. Editores e revisores declaram não haver conflito de interesses que pudessem afetar o processo de julgamento dos artigos.
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
* Integrantes: Elza Berquó, Francisco Inácio Pinkusfeld Bastos, Ivan França Junior, Regina Barbosa, Sandra Garcia, Vera Paiva, Wilton Bussab.
a ANRS/INSERM/INED. Dossier de presse - Premiers résultats de l’enquête "Contexte de la sexualité en France" (CSF). Disponível em: http://www.anrs.fr/index.php/anrs/rubriques _transversales/presse [Acesso em 21/08/2007].
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