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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.43 n.3 São Paulo May./Jun. 2009 Epub Apr 17, 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102009005000024 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Cobertura de linhas telefônicas residenciais e vícios potenciais em estudos epidemiológicos

 

Cobertura de líneas telefónicas residenciales y vicios potenciales en estudios epidemiológicos

 

 

Regina BernalI; Nilza Nunes da SilvaII

IPrograma de Pós-Graduação em Saúde Pública. Faculdade de Saúde Pública. Universidade de São Paulo (FSP-USP). São Paulo, SP, Brasil
IIDepartamento de Epidemiologia. FSP-USP. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estimar o efeito da taxa de cobertura de linhas telefônicas residenciais em potenciais vícios de informação em inquéritos epidemiológicos.
MÉTODOS:Foram utilizadas as bases de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios no período de 1998 a 2003 para a estimativa das taxas de cobertura de linhas telefônicas residenciais nas cinco regiões geográficas brasileiras. Utilizou-se a regressão logística múltipla para identificar os fatores associados à posse de linha telefônica fixa. O impacto do vício nos intervalos com 95% de confiança foi avaliado em função da precisão alcançada em cada situação.
RESULTADOS: Nas regiões metropolitanas Sudeste, Sul e Centro-Oeste com 70% e mais de cobertura, os vícios associados foram considerados desprezíveis. Nas demais regiões, os vícios relativos estavam acima do limite aceitável (0,4), indicando possíveis erros nas inferências construídas sob intervalo com 95% de confiança. A chance de acesso à linha telefônica residencial foi maior para população com cor da pele branca e maior escolaridade.
CONCLUSÕES: Os achados mostram que o uso de cadastro de linhas telefônicas residenciais é indicado para a realização de inquéritos epidemiológicos apenas para estados com cobertura acima de 70%. Metodologias específicas para o tratamento de estimativas obtidas em localidades com taxas inferiores, precisam ser estudadas e divulgadas.

Descritores: Levantamentos Epidemiológicos. Vícios de cobertura. Vigitel. Entrevistas por telefone.


RESUMEN

OBJETIVO: Estimar el efecto de la tasa de cobertura de líneas telefónicas residenciales en potenciales vicios de información en investigaciones epidemiológicas.
MÉTODOS: Fueron utilizadas las bases de datos de la Pesquisa Nacional por Muestra de Domicilios en el período de 1998 a 2003 para la estimación de las tasas de cobertura de líneas telefónicas residenciales en las cinco regiones geográficas brasileras. Se utilizó la regresión logística múltiple para identificar los factores asociados al poseer línea telefónica fija. El impacto del vicio en los intervalos con 95% de confianza fue evaluado en función de la precisión alcanzada en cada situación.
RESULTADOS: En la regiones metropolitanas Sureste, Sur y Centro-Oeste con 70% y más de cobertura, los vicios asociados fueron considerados despreciables. En las demás regiones, los vicios relativos estaban por encima del límite aceptable (0,4), indicando posibles errores en las inferencias construidas bajo el intervalo con 95% de confianza. La probabilidad de acceso a la línea telefónica residencial fue mayor para la población con color de piel blanca y mayor escolaridad.
CONCLUSIONES: Los resultados muestran que el uso de registro de líneas telefónicas residenciales es indicado para la realización de investigaciones epidemiológicas apenas para estados con cobertura por encima de 70%. Metodologías específicas para el tratamiento de estimativas obtenidas en localidades con tasas inferiores, precisan ser estudiadas y divulgadas.

Descriptores: Encuestas Epidemiológicas. Sesgo de la cobertura. Vigitel. Entrevistas por teléfono.


 

 

INTRODUÇÃO

No Brasil, é crescente o interesse de pesquisadores brasileiros no uso de linhas telefônicas residenciais (LTR) para realização de inquéritos epidemiológicos. A produção científica existente expõe a definição do cadastro como uma das principais questões relacionadas ao plano de amostragem.2,3,4,ª Em geral, os inquéritos com base populacional utilizam as listas telefônicas de assinante para sortear amostras de domicílios que possuem telefones residenciais. Entre os problemas decorrentes desta prática está a desatualização das informações disponíveis, exigindo, na maioria dos trabalhos, a necessidade de compensá-la por meio da busca de telefones via internet, disponíveis no site da empresa telefônica responsável. Contudo, as taxas de resposta alcançadas (acima de 60%) estimulam o uso dessa estratégia para a realização de inquéritos mais ágeis e econômicos, proporcionando redução de custos e prazos de realização de entrevistas.

No Brasil, a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS) vem desenvolvendo o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL) desde 2003.5,b Esta pesquisa é realizada anualmente, o que permite acompanhar a evolução dos hábitos e comportamentos da população brasileira. No entanto, há necessidade de examinar metodologias específicas para as questões como: cobertura, taxa de resposta e eficiência (relativa aos pesos de pós-estratificação para corrigir vícios nas estimativas das variáveis de interesse).

O objetivo do presente estudo foi estimar o efeito da taxa de cobertura de linhas telefônicas residenciais em potenciais vícios de informação em inquéritos epidemiológicos.

 

MÉTODOS

Para estimar as taxas de cobertura de domicílios com LTR no Brasil foram utilizadas as bases de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no período de 1998-9 e 2001-3.c Essa pesquisa é realizada anualmente pelo processo de sorteio de amostragem probabilística de domicílios com abrangência nacional, exceto a área rural da região Norte. A população-alvo é composta pelos domicílios e pessoas residentes em domicílios nas áreas pesquisadas. A PNAD adota o Plano Complexo de Amostragem (PCA) que envolve a estratificação geográfica de conglomerados com um, dois ou três estágios de seleção.7 O território brasileiro foi dividido em 36 estratos, constituídos por: 17 nas unidades da federação (RO, AC, AM, RR, AP, TO, MA, PI, RN, PB, AL, SE, ES, SC, MT, MS, GO) e o Distrito Federal, definidos como estratos independentes; e 18 nas demais unidades da federação (PA, CE, PE, BA, MG, RJ, SP, PR e RS) formaram-se estratos: um com região metropolitana e outro com os municípios restantes. Foram consideradas nas análises as variáveis que definiam a estrutura do plano amostral, denominadas estrato, a unidade primária de amostragem (UPA) e o peso amostral. As análises estatísticas foram realizadas com o software Stata versão 8.0, do qual se utilizou o módulo "svy" adequado para obtenção de estimativas não viciadas quando os dados são provenientes de planos de amostragem complexos.

A taxa de cobertura de LTR para cada ano fixado foi estimada por uso da expressão onde: yhαβ é o valor observado da variável (1 se possui telefone fixo, e 0 se não) do domicílio β, da UPA α do estrato h; xhαβ igual a 1, para todos os domicílios β observados na UPA α, do estrato h; peso de cada domicílio é dado pelo inverso da fração de amostragem de cada estrato h.

Os intervalos de confiança para taxas de cobertura foram estimados pela expressão r ± t0,95,d[var(r)]1/2 sendo a .4

Quanto ao perfil de usuário de LTR, em cada região geográfica, os entrevistados com 18 anos ou mais foram previamente divididos em dois grupos mutuamente exclusivos, contendo aqueles que residiam em domicílios com ou sem LTR. Mediante uso do modelo de regressão logística múltiplad em que π(x) é a probabilidade de acesso a LTR em função das variáveis (xi), foram definidas oitos características sociodemográficas (Tabela 1). O critério da inclusão final dessas variáveis no modelo seguiu a técnica stepwise, considerando o nível de significância de 5%.

 

 

Para estimar o vício potencial associado à não cobertura de LTR, os dados da PNAD 2003, a qual trouxe como tema suplementar as características de saúde, foram usados para obter estimativas da prevalência de doenças crônicas para a população maior de 40 anos residentes nas áreas estudadas. Assim, os entrevistados foram separados em dois estratos: os que possuem e os que não possuem LTR. Foram considerados portadores de doenças crônicas os indivíduos que confirmaram o diagnóstico, referido por médico ou profissional de saúde, de pelo menos uma das doenças entre: doença da coluna ou das costas, artrite ou reumatismo, diabetes, bronquite ou asma, doença do coração ou hipertensão.

O vício potencial devido a baixas taxas de cobertura foi estimado pela expressão Vicio Relativo em que o numerador é o valor absoluto calculado para o vício decorrente da diferença entre as prevalências dos dois estratos, ponderada pela proporção de pessoas residentes em domicílios sem acesso a LTR que formaram o segundo estrato. Valores acima de 0,40 para o vício relativo (VR) alteram o nível de 95% inicialmente fixado para os intervalos de confiança (Cochran 1997),1 podendo levar à construção de inferências equivocadas.

 

RESULTADOS

Os resultados alcançados mostraram crescimento de 50% dos domicílios cobertos por LTR no período de 1998 a 2003 no Brasil (Figura 1). No entanto, essa evolução não ocorreu de maneira uniforme no País. Nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, as proporções de linhas telefônicas residenciais cresceram 26%, 36% e 22%, respectivamente, enquanto nas regiões Sudeste e Sul cresceram 58% e 56%, respectivamente. Apesar desse aumento, em 2003, a taxa média de domicílios brasileiros cobertos por LTR foi de 50,3%, registrando-se que as regiões Norte (41%) e Nordeste (39%) estiveram abaixo dessa média, ao contrário das regiões Sudeste (60%), Sul (63%) e Centro-Oeste (55%).

 

 

Além disso, a proporção de adultos residentes em domicílios sem LTR foi maior nas áreas rurais e nas regiões não metropolitanas (Tabela 1). Os adultos declarados como tendo cor da pele não-branca apresentaram maior proporção de não-acesso à LTR do que os de cor da pele branca. A quantidade de adultos sem LTR foi inversamente proporcional aos anos de escolaridade.

As estimativas obtidas pelo modelo de regressão ajustado apontaram associações entre probabilidade de acesso a LTR, características sociodemográficas e região geográfica (Tabela 2). A constante do modelo negativa significou probabilidade muito baixa de o indivíduo possuir LTR. Entretanto, fatores como escolaridade, cor, posse de pelo menos um plano de saúde, região metropolitana e área urbana ou rural do domicílio estiveram positivamente associados com o acesso a LTR. A Figura 2 apresenta os gráficos das probabilidades de possuir uma LTR segundo as variáveis cor da pele e escolaridade. Observou-se que a probabilidade de possuir LTR entre adultos com cor da pele branca e menos de cinco anos de estudo foi inferior a 50%, enquanto os adultos declarados como não-brancos necessitaria de pelo menos dez anos de estudo para alcançarem esta mesma probabilidade de acesso a LTR.

As estimativas de prevalências de doenças crônicas, para indivíduos com 40 anos e mais, apresentaram vícios relativos considerados não-desprezíveis. Os vícios relativos introduzidos por baixas taxas de cobertura segundo região mostraram diferentes comportamentos, apresentados na Tabela 3. As regiões Norte, não metropolitanas do Centro-Oeste, do Nordeste e do Sudeste, com taxas de cobertura de LTR abaixo de 60%, apresentaram vícios relativos acima de 1, o que reduz o nível de confiança pré-fixado (95%) para 83%. Na região metropolitana do Nordeste, registrou-se alteração para aproximadamente 90%. Nas regiões metropolitanas do Sudeste, Sul e do Centro-Oeste, com taxas de cobertura acima de 70%, os vícios associados foram considerados desprezíveis.

 

 

DISCUSSÃO

No período estudado, registrou-se evolução crescente das taxas de cobertura de linhas telefônicas residenciais no Brasil, com maiores índices para as regiões metropolitanas das regiões Sul e Sudeste, mas atingindo cobertura média inferior a 60% em 2003. Dessa maneira, o Brasil encontra-se inferiormente distante das coberturas praticadas nos países desenvolvidos que usam linhas telefônicas residenciais para realizar inquéritos epidemiológicos.2,3

Problemas relacionados à exclusão de domicílios sem acesso a linha telefônica são objeto de estudo de publicações e de reuniões científicas internacionais voltadas à área de metodologia estatística desde 1987. Segundo Groves et al2 (2001), erros devidos à exclusão de domicílios sem linha telefônica ou com número do telefone não disponível no cadastro da empresa não são desprezíveis. Para compensar a exclusão dessa população, tornou-se usual ajustar a distribuição da amostra com telefone à composição da população total segundo características associadas à posse de linha telefônica por meio de processos de ponderação. Dessa maneira, espera-se reduzir vícios potencialmente associados às inferências construídas. No presente estudo, após os procedimentos de ponderação das proporções, observou-se que, na região Norte urbana, escolaridade, cor da pele e posse de plano de saúde do chefe do domicílio foram associadas à posse de linha telefônica. Na região Nordeste foram observadas as mesmas características anteriormente citadas e a variável área urbana. Nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, todas essas características estiveram presentes, mas diferenciaram-se pela variável região metropolitana.

No entanto, a região não metropolitana do Sul com 60% dos domicílios atendidos por linha telefônica apresentou o menor vício relativo. Esse resultado decorre das pequenas diferenças entre as prevalências de doenças crônicas estimadas para os estratos com e sem linha telefônica residencial. Esse resultado reforça a importância de que metodologias específicas para o tratamento de estimativas obtidas em localidades com índices inferiores precisam ser estudadas e divulgadas preferencialmente em periódicos científicos brasileiros.

A existência de um subgrupo da população residente em domicílio não atendido por uma linha telefônica, assim como suas características sociodemográficas e localidade geográfica é uma fonte de erro associado à exclusão desses domicílios, o que pode alterar o nível de confiança pré-fixado para as estimativas a serem alcançadas. Assim, baixas taxas de cobertura de linhas telefônicas residenciais podem levar a obtenção de estimativas viciadas não correspondentes às realidades estudadas.

Os resultados do presente estudo indicam que o uso de cadastro de linhas telefônicas residenciais para a realização das entrevistas em inquéritos por amostragem é confiável apenas para as unidades da federação com taxas de cobertura de domicílios com LTR acima de 70%.

Estudos brasileiros de metodologias alternativas para o uso de inquérito por telefone em regiões de baixa cobertura de linha telefônica residencial devem constituir objeto de pesquisas epidemiológicas.

 

REFERÊNCIAS

1. Cochran WG. Sampling Techiques. 3. ed. New York: John Wiley & Sons; 1977. p.14.

2. Groves RM, Biemer PP, Lyberg LE, Massey JT, Nicholls II WL, Waksberg J. Telephone Survey Methodology. New York: John Wiley & Sons; 2001.         [ Links ]

3. Kalton G. Introduction to Survey Sampling. Newbury Park: SAGE Publications Inc; 1987.         [ Links ]

4. Kish L. Survey sampling. New York: John Wiley & Sons; 1965.         [ Links ]

5. Monteiro CA, Moura EC, Jaime PC, Lucca A, Florindo AA, Figueiredo ICR, et al. Monitoramento de fatores de risco para doenças crônicas por entrevistas telefônicas. Rev Saude Publica. 2005;39(1):47-57. DOI: 10.1590/S0034-89102005000100007        [ Links ]

6. Silva NN. Amostragem Probabilística. 2. ed. São Paulo: EDUSP; 2000.         [ Links ]

7. Silva PLN, Pessoa DGC, Lila MF. Análise estatística de dados da PNAD: incorporando a estrutura do plano amostral. Cienc Saude Coletiva. 2002;7(4):639-70. DOI: 10.1590/S1413-81232002000400005        [ Links ]

 

 

Correspondência | Correspondence:
Regina Tomie Ivata Bernal
R. Geraldo Amorim, 257
05594-110 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: rbernal@usp.br

Recebido: 20/04/2008
Revisado: 22/08/2008
Aprovado: 23/09/2008

 

 

Artigo baseado na dissertação de mestrado de Bernal R, apresentada à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, em 2006.
a Scheuren F. What is a survey? American Statistical Association. Washington D.C.; 2004 [citado 2009 mar 20]. Disponível em: http://www.whatisasurvey.info
b Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2006: Vigilância de fatores de risco e proteção de doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre freqüência e distribuição sócio-demográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2006. Brasília; 2007.
c Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios-1998 a 2003. Rio de Janeiro; 2003.
d Paula GA. Modelos de Regressão com apoio computacional [tese de doutorado]. São Paulo: Instituto de Matemática e Estatística da USP; 2004.