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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.45 n.3 São Paulo Jun. 2011 Epub Apr 20, 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102011005000026 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Custo do tratamento de pacientes com histórico de tabagismo em hospital especializado em câncer

 

Costo del tratamiento de pacientes con historia de tabaquismo en hospital especializado en cáncer

 

 

Márcia PintoI; Maria Alicia Domínguez UgáII

INúcleo de Avaliação de Tecnologias em Saúde. Instituto Fernandes Figueira. Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIDepartamento de Administração e Planejamento em Saúde. Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca. Fiocruz. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever o custo do tratamento dos cânceres de pulmão, laringe e esôfago de pacientes com histórico de tabagismo.
MÉTODOS: Estudo longitudinal não-concorrente de três coortes com histórico de tabagismo em um hospital especializado na cidade do Rio de Janeiro, RJ, entre 2000 e 2006. A amostra foi composta por 127 casos de câncer de pulmão, 80 de câncer de laringe e 35 de câncer de esôfago. A seleção dos cânceres foi realizada por meio da análise da freqüência e do valor monetário das hospitalizações, ponderados pela fração atribuível ao fumo na população. Os dados foram coletados dos prontuários. Os pacientes foram classificados conforme o perfil de tabagismo, o diagnóstico principal, o estádio e as comorbidades. A análise estatística incluiu a distribuição log-normal para ajustar os valores do custo e a correlação de Spearman.
RESULTADOS: Os pacientes eram fumantes pesados e foram diagnosticados em estádios avançados. A carga tabágica foi elevada e 92% dos pacientes com câncer de pulmão, 72% com câncer de laringe e 94% com câncer de esôfago foram diagnosticados em estádios avançados. As comorbidades mais freqüentes foram as doenças cardíacas e as respiratórias. O custo médio foi de R$ 28.901, R$ 37.529 e R$ 33.164 para câncer de pulmão, laringe e esôfago, respectivamente. Os principais direcionadores do custo foram a radioterapia e a hospitalização. Observou-se associação entre estádios avançados e menor custo para câncer de pulmão e de esôfago.
CONCLUSÕES: Sendo radioterapia e hospitalização os principais direcionadores do custo total, pacientes em estádios mais graves apresentaram custos menores provavelmente pela redução das opções terapêuticas.

Descritores: Tabagismo. Neoplasias. Custos de Cuidados de Saúde. Estudos de Coortes.


RESUMEN

OBJETIVO: Describir el costo del tratamiento de los cánceres de pulmón, laringe y esófago de pacientes con historia de tabaquismo.
MÉTODOS: Estudio longitudinal no concurrente de tres cohortes con historia de tabaquismo en un hospital especializado en la ciudad de Rio de Janeiro, Sureste de Brasil, entre 2000 y 2006. La muestra fue compuesta por 127 casos de cáncer de pulmón, 80 de cáncer de laringe y 35 de cáncer de esófago. La selección de los cánceres fue realizada por medio del análisis de la frecuencia y del valor monetario de las hospitalizaciones, ponderados por la fracción atribuible al tabaco en la población. Los datos fueron colectados de los prontuarios. Los pacientes fueron clasificados conforme el perfil de tabaquismo, el diagnóstico principal, la fase y las comorbilidades. El análisis estadístico incluyó la distribución log-normal para ajustar los valores del costo y la correlación de Spearman.
RESULTADOS: Los pacientes eran fumadores pesados y fueron diagnosticados en fases avanzadas. La carga tabáquica fue elevada y 92% de los pacientes con cáncer de pulmón, 72% con cáncer de laringe y 94% con cáncer de esófago fueron diagnosticados en fases avanzadas. Las comorbilidades más frecuentes fueron las enfermedades cardíacas y las respiratorias. El costo promedio fue de R$ 28.901, R$ 37.529 y R$ 33.164 para cáncer de pulmón, laringe y esófago, respectivamente. Los principales responsables por el costo fueron la radioterapia y la hospitalización. Se observó asociación entre fases avanzadas y menor costo para cáncer de pulmón y de esófago.
CONCLUSIONES: Siendo la radioterapia y hospitalización los principales responsables por el costo total, los pacientes en fases más graves presentaron costos menores probablemente por la reducción de las opciones terapéuticas.

Descriptores: Tabaquismo. Neoplasias. Costos de la Atención en Salud. Estudios de Cohortes.


 

 

INTRODUÇÃO

O tabagismo é a principal causa global prevenível de morbidade e mortalidade. Estimativas apontam que, em 2015, o tabaco será responsável por 10% dos óbitos globais e projeta-se mais de oito milhões de óbitos para 2030, dos quais 83% ocorrerão nos países emergentes.11,15 Dados recentes indicam que os custos atribuíveis ao tabagismo são responsáveis por perdas de US$ 500 bilhões ao ano devido à redução da produtividade, adoecimento e mortes prematuras.15

A evidência epidemiológica disponível aponta relação de causalidade entre o tabagismo e cerca de 50 doenças, das quais se destacam as cardiovasculares, cânceres e respiratórias.11,15,21 O fumo também é responsável por 29% e 18% das mortes por câncer em países desenvolvidos e emergentes, respectivamente.5 Dentre os tipos de câncer cuja associação é bem estabelecida com o tabagismo, destacam-se os cânceres de pulmão, laringe e esôfago.15,21

No Brasil, desses três cânceres relacionados ao tabaco, as neoplasias de pulmão e de esôfago estão entre as mais incidentesª e as que apresentam significativa letalidade. O câncer de laringe representa 2% de todos os cânceres, o que corresponde a cerca de nove mil casos ao ano.24 A assistência médica a essas três neoplasias é intensiva em tecnologias e exige abordagem multidisciplinar no diagnóstico, tratamento e reabilitação. Em um cenário de recursos finitos na área da saúde, o tabagismo gera importante custo de oportunidade para os hospitais públicos brasileiros em relação à oferta de recursos na assistência oncológica, como consultas, hospitalizações, exames, procedimentos de alta complexidade e recursos humanos, que poderiam ser destinados ao tratamento de outras doenças.

O objetivo do presente estudo foi descrever o custo do tratamento dos cânceres de pulmão, laringe e esôfago em pacientes com histórico de tabagismo.

 

MÉTODOS

Estudo longitudinal não-concorrente de três coortes de pacientes com histórico de tabagismo, diagnosticados com câncer de pulmão, câncer de laringe ou câncer de esôfago tratados em hospital especializado no município do Rio de Janeiro, RJ. A escolha dessa unidade teve como critérios: 1) importância regional na prestação da assistência oncológica e 2) inserção na estrutura do Instituto Nacional do Câncer (Inca), órgão do Ministério da Saúde responsável por desenvolver e coordenar ações integradas para a prevenção e o controle do câncer, e por abrigar a estrutura e o gerenciamento do Programa Nacional de Controle do Tabagismo.

Os tipos de câncer foram selecionados segundo associação com o tabagismo bem estabelecida na literatura.3,5,15,21,24 A base de dados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) foi utilizada para obter a freqüência e o valor monetário das hospitalizações por essas doenças no hospital em 2003, conforme as categorias de três dígitos da Classificação Internacional de Doenças, Décima Revisão (CID-10).

Os resultados encontrados foram ponderados pela fração atribuível ao fumo na população (population attributable fraction - PAF) apresentada no relatório World Cancer Report,17 que se baseia nos dados do Cancer Prevention Study II (CPS II)21 e tem sido utilizado para mensurar a carga e os custos do tabagismo em vários países.13,14 Foram selecionados os principais cânceres relacionados ao tabaco e cujo tratamento era realizado no hospital para análise de custo: i) câncer de pulmão não-pequenas células (C34.0 a C34.9); ii) câncer de laringe (C32.0 a C32.9); e iii) câncer de esôfago (C15.0 a C15.9).

Para a seleção das comorbidades associadas ao tabagismo nas três coortes, assumimos como proxy doenças tabaco-relacionadas que possuem impacto significativo na mortalidade e morbidade, como doenças cardíacas e respiratórias, de acordo com estimativas internacionais.15,21 Também consideramos a pesquisa realizada em capitais brasileiras que estimou cerca de 14% dos óbitos ocorridos (aproximadamente 24 mil mortes) em indivíduos com idade igual ou superior a 35 anos atribuíveis ao tabaco em 2003.4 As doenças mais representativas foram as cardíacas, o câncer de pulmão e as doenças pulmonares obstrutivas crônicas.4

Estudo piloto realizado no hospital mostrou que as comorbidades mais freqüentes na população estudada foram hipertensão arterial e o infarto agudo do miocárdio, agrupadas como doença cardíaca; e asma, bronquite crônica e enfisema pulmonar, agrupadas como doença respiratória. Observou-se número importante de casos de diabetes com relato no prontuário durante o estudo piloto. Em razão disso e pela sua associação com o tabagismo,7 o diabetes também foi incluído como comorbidade associada ao diagnóstico principal e é apresentado na análise como doença metabólica.

Os estádios clínicos de cada câncer foram reunidos em dois grupos devido ao reduzido número de casos nos estádios I e II. O grupo 1 incluiu os estádios de I a II e o grupo 2 os estádios de III a IV. Foram adotados os critérios da TNM Classificação de Tumores Malignos da União Internacional Contra o Câncer, de 1998.

Foram incluídos no estudo os pacientes diagnosticados em 2000 no hospital e que atenderam aos seguintes critérios: 1) indivíduos que se declararam fumantes ou ex-fumantes; 2) confirmação do câncer no primeiro diagnóstico; 3) estádio informado no prontuário médico durante a fase diagnóstica; e 4) assistência médica realizada somente no hospital. Para avaliar a carga tabágica dos pacientes, utilizou-se o Índice de Brinkman,2 calculado pelo produto do número diário de cigarros fumados e tempo de exposição em anos, e que categoriza os fumantes como moderados (1 a 399) ou pesados (> 400).

Do total de 850 pacientes dos três tipos de câncer em tratamento em 2000, 289 casos de câncer de pulmão, 188 de laringe e 70 de esôfago atenderam aos critérios de inclusão da amostra. Essa população foi dividida em subpopulações conforme os preditores clínicos (grupos de estádios clínicos e comorbidades) e foi aplicada a amostragem aleatória sistemática. A amostra final consistiu de 242 pacientes, dos quais 127 (53%) casos de câncer de pulmão, 80 (33%) de laringe e 35 (14%) de esôfago. Os pacientes com câncer de pulmão e de laringe foram acompanhados retrospectivamente entre 2000 e 2006 e os pacientes com câncer de esôfago entre 2000 e 2003. O diagnóstico, tratamento e seguimento foram considerados como etapas da assistência médica.

As informações clínicas e para a identificação e quantificação dos insumos foram coletadas no prontuário médico e nos sistemas de informações gerenciais do hospital. Dois instrumentos de coleta foram elaborados e aplicados por um profissional treinado: ficha clínica, que incluiu dados relacionados à exposição ao tabagismo, confirmação do diagnóstico, estádio e presença de comorbidades, e ficha de coleta de insumos para a etapa de cálculo do custo.

A estimativa descritiva dos custos seguiu o método de custo por paciente,12 a partir do acompanhamento da trajetória pelos distintos serviços e com base no sistema de custo por absorção (centro de custos) do Inca para 2002. Os valores correntes de 2002 foram ajustados pela inflação geral ocorrida entre 2002 e 2006, pelo Índice Geral de Preços - Disponibilização Interna, com custos expressos em reais de 2006.

Foi calculado o custo unitário total do tratamento de cada paciente, considerando os procedimentos ambulatoriais e hospitalares. O horizonte de tempo refere-se ao período de acompanhamento das três coortes, correspondendo a seis anos para câncer de pulmão e de laringe e três anos para câncer de esôfago. Foram apresentados o custo médio, mediano, o desvio-padrão e os custos totais dos seguintes eventos assistenciais: consultas, exames, quimioterapia, radioterapia e hospitalizações. Na análise estatística, os histogramas da distribuição de custo das amostras de câncer de pulmão, laringe e esôfago mostraram assimetria positiva. Foi feito ajuste da distribuição log-normal. A correlação de Spearman foi utilizada para analisar a relação entre o custo total unitário e o estádio. Os dados foram analisados utilizando-se os programas R 2.11.1 e Stata 11.

O projeto de estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa do Inca (Prot. nº 75/05), em 26 de setembro de 2005, e da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Parecer nº 31/06), em 5 de abril de 2006.

 

RESULTADOS

A idade média dos pacientes foi de 62 anos (câncer de pulmão), 61 anos (câncer de laringe) e 57 anos (câncer de esôfago) e a maior parcela foi a óbito no período de acompanhamento do estudo. Conforme o critério do Índice de Brinkman, a população foi classificada como de fumantes pesados. A maioria desses pacientes foi diagnosticada nos estádios III e IV, com câncer de pulmão e de esôfago.

Maior parte dos pacientes com câncer de esôfago (20 casos) não apresentou comorbidades associadas ao diagnóstico principal. Uma parcela dos pacientes com câncer de pulmão (42 casos) e de laringe (33 casos) também não foi diagnosticada com essas condições clínicas. No grupo 1, cinco casos com câncer de pulmão, 11 com câncer de laringe e um com câncer de esôfago relataram presença de comorbidades. Para indivíduos diagnosticados com essas condições no grupo 2, houve predominância da doença respiratória e da doença cardíaca, e pacientes com câncer de pulmão (17 casos) e de laringe (8 casos) apresentaram as duas condições (Tabela 1).

 

 

A média do custo total por paciente com câncer de pulmão foi de R$ 28.901 (DP R$ 19.297) e a mediana de R$ 26.029 para um horizonte de seis anos. O tratamento de 105 pacientes teve a duração média de um ano, custo médio de R$ 25.317 (DP R$ 17.473) e mediana de R$ 19.112. A média do custo total por paciente com câncer de laringe em seis anos foi de R$ 37.529 (DP R$ 31.538) e a mediana de R$ 38.767. O custo médio do tratamento de 35 pacientes no período de até um ano foi de R$ 27.667 (DP R$ 17.253), mediana R$ 30.576. A média do custo total da amostra de câncer de esôfago foi de R$ 33.164 (DP R$ 24.468) e mediana de R$ 31.882 para um horizonte de tempo de três anos; esses valores de custo de 27 pacientes para o período médio de um ano foram, respectivamente: R$ 28.722 (DP R$ 22.835), R$ 30.369 (Tabela 2).

 

 

A distribuição ajustada pela log-normal para as três coortes permitiu reduzir a dispersão dos valores absolutos do custo total unitário de tratamento. Os resultados da correlação entre estádio e custo total unitário do tratamento indicaram associação moderada entre estádios avançados e menor custo para a amostra de câncer de pulmão (-0,48) e fraca para a amostra de câncer de esôfago (-0,22). A correlação para os pacientes com câncer de laringe aponta que estádios tardios estão relacionados com custos mais elevados (0,07).

A radioterapia e a hospitalização foram os principais direcionadores de custos, responsáveis por 77%, 84% e 82% do custo total das amostras de câncer de pulmão, laringe e esôfago, respectivamente (Tabela 3). Todos os pacientes realizaram consultas e exames e a maioria se submeteu à radioterapia. Poucos pacientes com diagnóstico de câncer de laringe e câncer de esôfago realizaram tratamento quimioterápico e não geraram custos significativos. Cerca de 32% dos casos (41 pacientes) com câncer de pulmão se submeteram à quimioterapia, porém a participação desse evento foi a menor (3%) na composição do custo total.

 

DISCUSSÃO

A assistência médica aos tipos de câncer analisados no presente estudo alterou-se ao longo da década devido à incorporação ou substituição de tecnologias no setor saúde. O padrão da assistência oncológica vem se alterando de forma dinâmica com a introdução de procedimentos, equipamentos diagnósticos e medicamentos que contribuem, juntamente com outros fatores, para o aumento dos custos.

A população de pacientes com histórico de tabagismo sugere a existência de uma carga de doença significativa, expressa na gravidade dos casos. A duração média do tratamento de uma parcela significativa dos pacientes com câncer de pulmão (105 casos), câncer de laringe (35 casos) e câncer de esôfago (27 casos) foi de um ano.

Quanto ao estádio clínico, 94% dos pacientes com câncer de esôfago, 92% com câncer de pulmão e 72% com câncer de laringe foram diagnosticados no grupo 2 (estádios III e IV). Cersosimo3 aponta que 75% dos tumores de pulmão são classificados nos estádios III e IV no momento do diagnóstico e que esse tipo de câncer figura entre aqueles de pior sobrevida; o mesmo se observa para o câncer de laringe, em que mais de 60% dos casos são diagnosticados em estádios III e IV.1 O câncer de esôfago possui relação de incidência/mortalidade próxima à unidade (0,89 para sexo masculino e 0,96 para o sexo feminino), o diagnóstico tardio é um dos fatores responsáveis por esse cenário e, portanto, a maioria dos pacientes é submetida à terapêutica paliativa.18

A presença de comorbidades é considerada um importante fator prognóstico em câncer, bem como a avaliação e evolução dessas condições e de sua gravidade. Alguns autores apontam que estudos baseados em coortes retrospectivas de base hospitalar possuem limitações significativas para associar essas condições clínicas relacionadas ao tabagismo a determinados desfechos, como concluíram Tho et al.19 Ainda que os dados de freqüência de comorbidades do presente trabalho não permitam associar a presença dessas condições à maior utilização de recursos de saúde, uma parcela importante dos pacientes apresentou comorbidades associadas ao diagnóstico de câncer, notadamente a doença cardíaca e a doença pulmonar. Nossos achados corroboram os de Janssen-Heinjen et al,10 que investigaram a prevalência de comorbidades associadas ao câncer de pulmão na Holanda, e de Tomasich et al20 no Brasil em relação ao câncer de esôfago.

Cabe apontar outras limitações do presente estudo. Houve perda de informações do consumo de recursos, pois a coleta de dados foi realizada principalmente no prontuário, ainda que os sistemas gerenciais do hospital tenham sido acessados na tentativa de minimizar tais perdas. Deve-se considerar a possibilidade de viés de memória por parte dos pacientes ao informarem o consumo de cigarros e o tempo de exposição, que pode ter influenciado nos resultados da carga tabágica, conforme o Índice de Brinkman. No entanto, os anos de exposição e a quantidade consumida foram muito próximos entre os três tipos de câncer, o que sugere que não tenha havido interferência significativa nos resultados.

Reconhece-se que a utilização da PAF internacional como método de ponderação é limitada, pois os riscos relativos deveriam ser estimados para cada população, incorporando suas características biológicas, culturais e econômicas. As limitações da PAF internacional referem-se à utilização dos Riscos Relativos provenientes do estudo CPS II, cuja amostra não é representativa da população, pois incluiu um número maior de indivíduos casados, de cor branca e com níveis elevados de escolaridade e renda. Ademais, as estimativas foram ajustadas somente pela idade e não foram consideradas variáveis de confusão importantes, como uso de álcool, hipertensão arterial e diabetes mellitus. No entanto, devido à ausência de riscos relativos nacionais que permitissem o cálculo da PAF para o Brasil, as estimativas disponíveis foram aplicadas neste estudo.

Em nossa análise, foi observado que o custo foi menor quando associado aos estádios mais tardios nas populações com câncer de pulmão e esôfago. Possivelmente esses resultados relacionam-se com o fato de mais de 90% dos pacientes com câncer de pulmão e esôfago terem sido diagnosticados em estádios avançados, o que reduz as opções terapêuticas, bem como a sobrevida. A associação entre os casos de câncer de laringe em estádios tardios e custos mais elevados concorda com os achados de Arnold et al,1 nos quais o custo médio do tratamento em dois anos aumenta conforme o estádio.

Ainda que o tabagismo seja responsável por uma carga de morbidade e mortalidade mensurável pela utilização de recursos nos serviços de saúde, não podemos afirmar que o custo hospitalar dos cânceres de pulmão, de laringe e de esôfago observado neste trabalho seja atribuível ao tabagismo. Nesse sentido, seria necessária a realização de estudos de coorte de base populacional para quantificar a utilização adicional de recursos de saúde por pacientes fumantes em comparação com não-fumantes. Essa análise foi realizada no Japão, onde o custo da assistência médica de homens fumantes foi superior em 11% ao estimado para pacientes que se declararam nunca fumantes. A diferença foi atribuída principalmente ao aumento da utilização de serviços hospitalares, cujo custo mensal foi 33% superior para a população de fumantes.9

Pesquisas estimaram o custo hospitalar do câncer de pulmão, laringe e esôfago em países desenvolvidos, como Holanda, Suíça, Canadá, Estados Unidos e Reino Unido.1,6,8,16,22,23 A comparação direta dos resultados do presente estudo com essas pesquisas é possível, ainda que limitações relacionadas à heterogeneidade dos métodos adotados e das especificidades da assistência hospitalar dos sistemas de saúde devam ser consideradas. Os valores em euro e libra dos estudos europeus foram transformados em dólar, conforme a paridade da taxa de câmbio em 2006.

A radioterapia e a hospitalização foram os principais componentes do custo total da assistência ao câncer de pulmão. Esses resultados coincidem com os estudos de coortes retrospectivas realizados em hospitais na Suíça6 e no Reino Unido,23 onde esses dois eventos assistenciais também foram os principais direcionadores de custos da assistência ao câncer de pulmão não-pequenas células. O custo médio do tratamento de 89 pacientes na pesquisa realizada na Suíça por Dedes et al6 para o período de 2,5 anos foi de US$ 25.286 (mediana = US$ 19.099), enquanto os resultados de Wolstenholme & Whynes23 no Reino Unido alcançaram US$ 12.070 durante um período de seguimento de quatro anos para 227 pacientes. Nos Estados Unidos, em uma coorte de uma empresa de medicina de grupo, o custo médio de pacientes com câncer de pulmão não-pequenas células para um horizonte de tempo de até 12 meses foi de US$ 40.485.8

Com relação ao câncer de laringe, a radioterapia e a hospitalização foram os principais direcionadores dos custos no hospital. A análise de Van Agthoven et al22 na Holanda também identificou que a hospitalização foi importante direcionador de custos e o tratamento de pacientes com tumor primário alcançou em média US$ 28.769 em uma coorte de pacientes acompanhados por dois anos.

Os resultados encontrados no presente estudo para a assistência aos pacientes com câncer de esôfago mostram o mesmo comportamento observado para as neoplasias de pulmão e laringe em relação à radioterapia e à hospitalização. Estudo norte-americano que acompanhou o perfil de utilização de 29 pacientes com adenocarcinoma de esôfago, entre 1992 e 1997, também apurou que o tratamento radioterápico foi um dos principais itens de custo. A assistência a essa população custou em média US$ 48.127, com variação de cerca de dez vezes entre os valores máximo e mínimo (US$ 13.454 e US$ 139.721).16

Em conclusão, este trabalho apresentou dados descritivos do consumo de recursos de saúde de pacientes com elevada carga tabágica, embora não possamos afirmar que o custo das neoplasias tabaco-relacionadas seja atribuível ao tabagismo. A epidemia do tabagismo se expressa principalmente nos serviços de saúde, incluindo os hospitais. A realização de mais pesquisas que identifiquem a real magnitude econômica das doenças associadas ao tabaco é oportuna, a fim de fornecer subsídios aos gestores para a introdução e fortalecimento de ações e estratégias para o controle do tabagismo.

 

AGRADECIMENTOS

À equipe do Núcleo de Avaliação de Tecnologias em Saúde do Instituto Nacional de Cardiologia pelo apoio na análise estatística.

 

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24. Wünsch Filho V. The epidemiology of laryngeal cancer in Brazil. Sao Paulo Med J. 2004;122(5):188-94. DOI:10.1590/S1516-31802004000500002        [ Links ]

 

 

Correspondência | Correspondence:
Márcia Pinto
Fundação Oswaldo Cruz
Av. Rui Barbosa, 716 - Flamengo
22250-020 Rio de Janeiro, RJ, Brasil
E-mail: mpinto@iff.fiocruz.br

Recebido: 26/2/2010
Aprovado: 21/10/2010
Pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde (CNPq e DECIT/MS Nº Processo: 400972/2005-0).

 

 

Trabalho apresentado no 14th World Conference on Tobacco or Health, realizado em Mumbai, Índia, 2009.
Artigo baseado na tese de doutorado de Pinto M, apresentada à Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz, em 2007.
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
a Ministério da Saúde. Instituto Nacional do Câncer. Estimativa 2010: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2009.