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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.46 n.1 São Paulo Feb. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102012000100010 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Resultados maternos e neonatais em centro de parto normal peri-hospitalar e hospital

 

Resultados maternos y neonatales en centro de parto normal peri hospitalario y hospital

 

 

Camilla Alexsandra SchneckI; Maria Luiza Gonzalez RiescoII; Isabel Cristina BonadioII; Carmem Simone Grilo DinizIII; Sonia Maria Junqueira Vasconcellos de OliveiraII

ICurso de Obstetrícia. Escola de Artes, Ciências e Humanidades. Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, SP, Brasil
IIDepartamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica. Escola de Enfermagem. USP. São Paulo, SP, Brasil
IIIDepartamento de Saúde Materno Infantil. Faculdade de Saúde Pública. USP. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Comparar os resultados maternos e neonatais em mulheres de baixo risco atendidas em centro de parto normal peri-hospitalar e hospital.
MÉTODOS: Estudo transversal com amostra representativa de mulheres de baixo risco atendidas em São Paulo, SP, de 2003 a 2006. Foram incluídas 991 mulheres que tiveram o parto no centro de parto normal e 325 que deram à luz no hospital. Os dados foram obtidos dos prontuários. A análise comparativa foi realizada para o total de mulheres e estratificada segundo a paridade. Foram aplicados os testes qui-quadrado e exato de Fisher.
RESULTADOS: Houve distribuição homogênea das mulheres segundo a paridade (45,4% nulíparas e 54,6% mulheres com um ou mais partos anteriores). Foram encontradas diferenças estatisticamente significantes em relação às seguintes intervenções: amniotomia (mais freqüente entre nulíparas do hospital); utilização de ocitocina no trabalho de parto e utilização de analgésico no pós-parto (mais freqüentes no hospital entre as mulheres de todas as paridades). A taxa de episiotomia foi maior entre as nulíparas, tanto no centro de parto como no hospital. Houve maior freqüência de intervenções com o neonato no hospital: aspiração das vias aéreas superiores, aspiração gástrica, lavagem gástrica, oxigênio por máscara aberta. Também ocorreram com mais freqüência no hospital bossa serossanguínea, desconforto respiratório e internação na unidade neonatal. Não houve diferença nos valores de Apgar no quinto minuto nem casos de morte materna ou perinatal.
CONCLUSÕES: A assistência no centro de parto normal foi realizada com menos intervenções e com resultados maternos e neonatais semelhantes aos do hospital.

Descritores: Parto Normal. Assistência Perinatal. Serviços de Saúde Materno-Infantil. Avaliação de Resultados (Cuidados de Saúde). Estudos Transversais. Centros Independentes de Assistência à Gravidez e ao Parto.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To compare maternal and neonatal outcomes in low-risk women assisited in an alongside birth center and at a hospital.
METHODS: A cross-sectional study was conducted with a representative sample of low-risk women in São Paulo (Southeastern Brazil), from 2003 to 2006. The study included 991 women who delivered a child at the alongside birth center and 325 who delivered a child at a hospital. Data were obtained from medical records. A comparative analysis was performed for all of the women, who were stratified according to parity. The chi-square test and Fisher's exact test were used to compare outcomes between women who delivered in alongside birth center and those who gave birth in the hospital.
RESULTS: There was a homogeneous distribution of women according to parity (45.4% were nulliparous, and 54.6% had one or more previous deliveries). Statistically significant differences were found in the frequency of amniotomy (more frequent in nulliparous women treated at the hospital), the use of oxytocin during labor, and the use of postpartum analgesia (both more frequent among women of any parity treated at the hospital). The rate of episiotomy was higher in nulliparous women, both in the alongside birth center and at the hospital. Neonatal interventions were more frequent at the hospital and included aspiration of the upper airways, gastric aspiration, gastric lavage, and the use of an open oxygen mask. Other events that occurred with greater frequency at the hospital included caput succedaneum, respiratory discomfort, and admittance to the neonatal unit. There was no difference in Apgar scores at the fifth minute or cases of maternal or perinatal death.
CONCLUSIONS: Care at the alongside birth center involved fewer interventions and had maternal and neonatal outcomes similar to those of the hospital setting.

Descriptors: Natural Childbirth. Perinatal Care. Maternal-Child Health Services. Outcome Assessment (Health Care). Cross-Sectional Studies. Birthing Centers.


RESUMEN

OBJETIVO: Comparar los resultados maternos y neonatales en mujeres de bajo riesgo atendidas en centro de parto normal peri hospitalario y hospital.
MÉTODOS: Estudio transversal con muestra representativa de mujeres de bajo riesgo atendidas en Sao Paulo, Sureste de Brasil, de 2003 a 2006. Se incluyeron 991 mujeres que realizaron el parto en el centro de parto normal y 325 que dieron a luz en el hospital. Los datos fueron obtenidos de los prontuarios. El análisis comparativo fue realizado para el total de mujeres y estratificado según la paridad. Se aplicaron las pruebas de chi-cuadrado y exacto de Fisher.
RESULTADOS: Hubo distribución homogénea de las mujeres según la paridad (45,4% de nulíparas y 54,6% de mujeres con uno o más partos anteriores). Se encontraron diferencias estadísticamente significativas con relación a las siguientes intervenciones: amniotomía (más frecuente entre nulíparas del hospital), utilización de ocitocina en el trabajo de parto y utilización de analgésico en el postparto (más frecuentes en el hospital entre las mujeres de todas las paridades). La tasa de episiotomía fue mayor entre las nulíparas, tanto en el centro de parto como en el hospital. Hubo mayor frecuencia de intervenciones con el neonato en el hospital: aspiración de las vías aéreas superiores, aspiración gástrica, lavado gástrico, oxígeno por máscara abierta. También ocurrieron con más frecuencia en el hospital bolsa serosanguínea, dificultad respiratoria e internación en la unidad neonatal. No hubo diferencia en los valores de Apgar en el quinto minuto ni en casos de muerte materna o perinatal.
CONCLUSIONES: La asistencia en el centro de parto normal fue realizada con menos intervenciones y con resultados maternos y neonatales semejantes a los del hospital.

Descriptores: Parto Normal. Atención Perinatal. Servicios de Salud Materno-Infantil. Evaluación de Resultado (Atención de Salud). Estudios Transversales. Centros Independientes de Asistencia al Embarazo y al Parto.


 

 

INTRODUÇÃO

Diversas práticas foram incorporadas à assistência ao nascimento e parto visando melhorar sua qualidade, porém sem a avaliação científica de efetividade ou segurança. Houve aumento de intervenções no processo de nascimento em hospitais a partir dos anos 1970, visando adequá-lo às rotinas institucionais, tendo como conseqüências altos índices de partos cirúrgicos, manejo ativo do trabalho de parto, realização rotineira de episiotomia e ausência de acompanhantes no parto.4

No Brasil, a partir da década de 1990, ampliou-se o questionamento ao modelo obstétrico hospitalar, em razão do aumento no número de cesarianas e da estagnação das elevadas taxas de mortalidade materna e perinatal. Apesar dos avanços do conhecimento e da aplicação crescente de tecnologia na assistência à parturiente e ao neonato, não houve impacto positivo na melhoria dos indicadores de saúde na mesma proporção.

Assim, os anos 1990 foram marcados pela formulação de políticas públicas para promover redução das taxas de cesariana, mudança nas práticas obstétricas e melhoria da assistência ao parto e nascimento no Sistema Único de Saúde (SUS).5,15 O atendimento ao parto em ambiente extra-hospitalar foi uma das medidas, por meio da criação do Centro de Parto Normal (CPN), de acordo com a Portaria nº 985/1999.ª

O CPN destina-se à assistência ao parto normal sem distocia, inserido no sistema de saúde local, que funciona de maneira intra ou extra-hospitalar. Quando localizado fora do ambiente hospitalar é conhecido como casa de parto e tem o hospital como referência para remoções em um período máximo de uma hora.

Os resultados da assistência em CPN têm apontado satisfação da mulher e sua família, além da redução de intervenções desnecessárias. Os dados disponíveis sobre morbidade e mortalidade materna e perinatal, comparando partos no hospital e fora dele, não mostram diferenças significativas.9,11,13,18,20

No Brasil, após cerca de dez anos de funcionamento de centros de parto independentes ou anexos a hospitais, estudos8,14,16 apresentam resultados maternos e neonatais descritivos desse modelo. A partir dessa fase preliminar, surgiu a necessidade de criar instrumentos e indicadores analíticos para avaliar a segurança e a viabilidade do CPN entre os diversos modelos de assistência ao parto.18

O objetivo do estudo foi comparar os resultados maternos e neonatais em mulheres de baixo risco atendidas em centro de parto normal peri-hospitalar e hospital.

 

MÉTODOS

Estudo transversal realizado em CPN anexo a um hospital geral. O hospital geral oferece assistência obstétrica em todos os níveis de complexidade e constitui referência para o CPN e para as unidades básicas de saúde (UBS) de sua área de abrangência. O CPN atende gestantes de baixo risco encaminhadas pelas UBS. Ambos integram a rede de serviços do SUS, pertencem à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e são geridos pela mesma organização social de saúde.

Os critérios definidos no protocolo para admissão no CPN são: gestação única com feto vivo; idade gestacional entre 37 e 41 semanas; ausência de intercorrências clínicas ou obstétricas e de cirurgias uterinas prévias, inclusive cesariana; resultados normais dos exames laboratoriais durante o pré-natal.

A população elegível foi composta pelas gestantes com parto no CPN (n = 2.977) e no hospital (n = 15.511), de 2003 a 2006, agrupadas segundo o local de atendimento, de forma mutuamente excludente. Os critérios para inclusão das mulheres do hospital foram os mesmos para admissão no CPN, i.e., também seriam elegíveis para admissão no CPN, visando obter mulheres com características de baixo risco provenientes dos dois locais.

Para o cálculo do tamanho da amostra, utilizou-se como parâmetro a diferença na proporção de mulheres com episiotomia nos dois serviços, estimada por meio de estudo piloto. A episiotomia foi escolhida por ser um indicador significativo das práticas obstétricas, registrada com precisão no prontuário. Dada a freqüência de episiotomia de 35% no hospital e de 25% no CPN, foi considerada possibilidade de redução de dez pontos percentuais na comparação entre o hospital e o CPN.

A detecção dessa diferença considerou uma precisão dada por α = 0,05, com poder do teste de 90% e proporção de 1:3 indivíduos entre os dois grupos. O cálculo do tamanho da amostra foi realizado por meio do software Power and Sample Size Calculation version 3.0®.7 Considerando os parâmetros indicados, o número mínimo (n) necessário de indivíduos foi 295 no hospital (nh) e 886 no CPN (nCPN). A esses valores, foram acrescentados 15%, considerando as perdas típicas de dados obtidos por meio de fontes secundárias, como prontuários não localizados no serviço de arquivo e registros não preenchidos nos prontuários. Assim, a amostra calculada foi de 339 no hospital e 1.018 no CPN.

Como a proporção de mulheres do hospital consideradas elegíveis para este estudo foi estimada em 33% do total das atendidas, houve necessidade de correção no número de prontuários a serem sorteados. O número corrigido foi nh = 1.027 (339/0,33), que correspondeu ao número necessário de unidades amostrais a serem consultadas no hospital, para se obter o n indicado no cálculo do tamanho da amostra. A opção pela proporção de 1:3 mulheres no hospital em relação ao CPN possibilitou a inclusão de menor número de mulheres provenientes do grupo do hospital. Desse modo, o tamanho da amostra inicial para o hospital foi definido em nh = 1.027 e da amostra final em nh = 339.

Dentre 1.027 prontuários do hospital consultados, 325 correspondiam a mulheres elegíveis para o estudo; do CPN, dentre 1.018, foram localizados 991. Finalmente, foram incluídas no estudo 325 mulheres do hospital e 991 do CPN, resultando no total de 1.316 mulheres.

Para a obtenção da amostra, foi elaborado um cadastro constituído pela seqüência de partos nos livros de parto do hospital e do CPN e as mulheres foram selecionadas por meio de amostragem sistemática, considerando a proporcionalidade de partos no período estudado.

A fonte de dados foram os registros dos prontuários das mulheres e seus respectivos recém-nascidos. Os dados foram coletados mediante um instrumento pré-testado e armazenados com digitação em dupla entrada no programa EpiInfo versão 2000®.

Foram incluídas variáveis relacionadas ao local do parto; características sociodemográficas e condições maternas na admissão; condições do recém-nascido; e utilização de intervenções no parto e nos primeiros cuidados com o bebê. A análise foi realizada considerando os registros nos prontuários e os dados não informados foram considerados como perdas de informação.

As variáveis foram analisadas segundo a paridade das mulheres por ser fator que pode interagir com os eventos e intervenções estudadas, considerando que há diferenças na fisiologia do parto entre as mulheres nulíparas e aquelas com um ou mais partos anteriores (multíparas).

A análise das diferenças entre as variáveis nos dois locais foi realizada por meio dos testes qui-quadrado e exato de Fisher, p < 0,05 foi estabelecido como estatisticamente significante. Os processamentos foram feitos com o software SAS System for Windows, Version 9.0.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Geral do Itaim Paulista, sob protocolo nº 50, em 19 de abril de 2006.

 

RESULTADOS

Os resultados referem-se a 1.316 mulheres e seus respectivos recém-nascidos, 991 atendidos no CPN e 325 no hospital. A paridade das mulheres segundo o local do parto mostra distribuição homogênea entre os grupos do CPN e do hospital, com proporção de 54,6% nulíparas e 45,4% multíparas (p = 0,2202) (Tabela 1).

A realização da amniotomia diferiu entre os locais, considerando o total de mulheres (p < 0,0001), as nulíparas (p = 0,0009) e multíparas (p = 0,0195), com taxas que variaram de 71,1% entre as nulíparas do CPN a 88% nas do hospital, respectivamente (Tabela 2).

A utilização da ocitocina no trabalho de parto foi mais freqüente entre as mulheres do hospital (p < 0,0001), para as mulheres de todas as paridades. Entre as nulíparas, a ocitocina foi administrada em 50,6% das mulheres do hospital e 26,7% do CPN. O analgésico foi utilizado em 97,1% das puérperas do hospital e 22,4% do CPN. O uso dessas medicações refere-se exclusivamente ao período de 2003 e 2004, pois, a partir de 2005, deixaram de ser utilizadas no CPN (Tabela 2).

Houve diferença estatisticamente significante nas condições perineais entre o CPN e o hospital para todas as mulheres (p = 0,0486) e entre as multíparas (p = 0,0109). A maior proporção de mulheres com episiotomia ocorreu no hospital, em comparação com o CPN (32,9% vs. 25,7%), considerando o total de mulheres e as multíparas (20,4% vs. 11,7%). A taxa de episiotomia foi maior entre as nulíparas, tanto no CPN como no hospital (41,9% e 49,7%, respectivamente). Em 33 prontuários não constavam os registros sobre as condições do períneo no parto (Tabela 3).

Todas as intervenções durante os primeiros cuidados com o recém-nascido apresentaram diferença estatisticamente significante entre o CPN e o hospital. Essa diferença foi observada na análise com todas as mulheres e, separadamente, por paridade, com exceção da lavagem gástrica, diferente apenas quando foi considerado o total de mulheres (p = 0,0317). No hospital, mais de 85% dos bebês receberam aspiração das vias aéreas superiores e no CPN essa proporção não ultrapassou 10,7% dos recém-nascidos. Em torno de 80% dos recém-nascidos do hospital sofreram aspiração gástrica, realizada em somente 1,8% dos nascidos no CPN. A administração de oxigênio por máscara aberta variou em torno de 20% dos nascidos no hospital e de 2,1% a 5% no CPN, considerando a paridade materna, diferenças estatisticamente significantes para essas variáveis, em todas as análises (Tabela 4).

Os resultados dos recém-nascidos relativos às condições do nascimento mostraram diferença estatisticamente significante no Apgar no primeiro minuto de vida e as proporções do escore menor que sete não ultrapassaram 5,8%, observadas entre os bebês das nulíparas do hospital. Em relação ao Apgar no quinto minuto, não houve diferença estatisticamente significante entre os recém-nascidos dos dois locais. Vale destacar, sobretudo, que o desconforto respiratório e a necessidade de internação na unidade neonatal (UN) foram mais freqüentes entre os recém-nascidos do hospital, considerando todas as mulheres e também as multíparas, com diferença estatisticamente significante (0,0001 < p-valor = 0,0069). Essas proporções variaram entre 0,8% (desconforto respiratório em bebês de multíparas do CPN) e 7,3% (internação de recém-nascidos de nulíparas do hospital na UN). A maior ocorrência de bossa serossanguínea foi entre os bebês das nulíparas do hospital (23,4%), em contraposição àqueles das multíparas do CPN (2,1%). Houve diferença estatisticamente significante na análise com todas as mulheres e separadamente (Tabela 5).

 

DISCUSSÃO

No hospital são realizadas mais intervenções na assistência à mulher e ao recém-nascido no parto, com resultados maternos e perinatais equivalentes em ambos os locais.

As características sociodemográficas podem mostrar diferenças no perfil das mulheres que optam por dar à luz em centro de parto daquelas que decidem parir em serviços tradicionais. No entanto, a população estudada mostrou homogeneidade das usuárias do SUS na região, com exceção da situação conjugal, do trabalho remunerado e do número de consultas de pré-natal.

As condições da internação mostraram maior proporção de gestantes admitidas com dilatação cervical entre cinco e nove centímetros no hospital, em comparação com o CPN. No entanto, seria esperado que a internação das mulheres no CPN fosse, sobretudo, durante a fase ativa do trabalho de parto.

O uso de ocitocina para corrigir ou acelerar o padrão da contratilidade uterina durante o primeiro estágio do parto foi excluído do protocolo assistencial do CPN a partir de 2005. No período de 2003 a 2004, a proporção do uso de ocitocina observada no presente estudo foi menor que a encontrada em um CPN extra-hospitalar (33,7%), em São Paulo,16 e semelhante àquela de um CPN extra-hospitalar (24%), em Juiz de Fora (MG).8 Em alguns CPN, a necessidade de aceleração do parto por meio do uso de ocitocina é considerada motivo para remover a mulher para o hospital de referência, a exemplo do CPN do presente estudo.

Revisão sistemática de nove ensaios clínicos com 10.684 mulheres sintetizou os resultados maternos e perinatais em CPN e em ambientes hospitalares tradicionais, porém não incluiu estudos em centros de parto extra-hospitalares. As mulheres alocadas para o CPN tiveram chance reduzida de receber intervenções, como aceleração do parto (RR = 0,78, IC95% 0,66;0,91), episiotomia (RR = 0,83, IC95% 0,77;0,90), parto instrumental (RR = 0,89, IC95% 0,79;1,00) e cesariana (RR = 0,89, IC95% 0,78;1,01); e de ter hemorragia uterina (RR = 0,98, IC95% 0,85;1,14).9

A proporção de episiotomia em todas as mulheres (nulíparas e multíparas) entre os dois locais (25,7% no CPN e 32,9% no hospital) é menor daquela estimada para o cálculo do tamanho da amostra, mas clinicamente importante.

A taxa de episiotomia no CPN deste estudo é semelhante à encontrada em CPN de Juiz de Fora (24,7%)8 e superior àquela praticada em CPN de São Paulo (15,2%), ambos extra-hospitalares.16 Considerando CPN intra-hospitalares, em São Paulo, foram descritas taxas de 26,6% em um serviço que atende mulheres de todos os níveis de risco19 e de 40,4%, em local que recebe mulheres por demanda espontânea, mas não é referência para alto risco.2

Na Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde 2006, com abrangência nacional feita com cerca de 15.000 mulheres, a episiotomia foi pela primeira vez investigada em um estudo de base populacional no País. A taxa de episiotomia foi 71,6%; as Regiões Sudeste (80,3%), Centro-Oeste (78,8%) e Sul (78,5%) apresentaram as maiores proporções.b

As mulheres do hospital receberam analgésico em proporções em torno de 97%, contra 16,9% entre as nulíparas e 27,6% entre as multíparas do CPN. Esses dados sugerem uma proporção de mulheres no CPN que necessitariam de alívio de dor no pós-parto e mulheres no hospital que receberam o analgésico rotineiramente. A dor decorrente do trauma perineal é um fator que influencia de modo negativo as atividades da mulher no pós-parto; pode afetar o bem-estar físico, psicológico e social das mulheres, interromper a amamentação e interferir na vida familiar e nas relações sexuais.

Valores de Apgar > 6 no quinto minuto de vida têm sido relatados em proporções maiores que 95% em vários estudos sobre assistência em diferentes tipos de CPN no País.2,3,8,19 Uma revisão sistemática não encontrou diferença significativa de Apgar < 7 no quinto minuto de vida (OR = 0,98, IC95% 0,69;1,40).9 Outros dois estudos em CPN relatam 1% de recém-nascidos com Apgar < 7 no quinto minuto e 93% e 98% dos bebês nascidos com Apgar de 7 a 10, no primeiro e quinto minutos de vida, respectivamente.6,17 No Brasil, um estudo mostrou redução de 2,1% de Apgar < 7 no quinto minuto de vida em ambiente tradicional, para 1,1% após a implantação de um CPN (OR = 0,55, IC95% 0,27;1,14).c

Na interpretação dos resultados deste estudo, é importante considerar as diferenças e semelhanças entre os modelos de assistência e as características próprias de cada local. Há ainda entre as limitações as inerentes ao delineamento observacional e aquelas que se relacionam com a utilização de dados provenientes de fontes secundárias.

Högberg10 (2008) destaca a fragilidade de estudos observacionais retrospectivos que comparam os resultados de partos realizados em domicílio e em hospital, referindo-se à possibilidade de introdução do viés de auto-seleção ou "efeito da mãe saudável". Esse efeito caracteriza-se pela possibilidade de que os resultados, nesses locais alternativos para o parto, sejam modificados pelo efeito de mulheres que se consideram mais saudáveis e, por isso, já existe uma seleção das mais aptas a melhores resultados nesses locais comparados ao ambiente hospitalar. A hipótese de que existem algumas diferenças no perfil de mulheres que optam por dar à luz em ambientes externos ao hospital ainda constitui uma questão a ser respondida.

Outro fator que deve ser considerado ao comparar centros de parto e ambientes hospitalares é a definição dos critérios estabelecidos para a admissão nesses locais, que pode variar muito entre os estudos ou, muitas vezes, não estão declarados.

Outra limitação do presente estudo é não ter incluído mulheres e recém-nascidos que necessitaram remoção para o hospital, o que possibilitaria entender a influência da remoção nas condições das mulheres e neonatos. Um estudo realizado na mesma instituição com os recém-nascidos removidos em 2006 e 2007 não mostrou nenhum caso de morte ou de seqüela.d Outro estudo em um CPN extra-hospitalar em São Paulo apontou mortalidade neonatal de 1:1.000 nascidos vivos e a necessidade de remoção foi de 1,1% de todos os recém-nascidos.12 A revisão sistemática de Hodnett et al9 (2010) mostrou RR = 1,67 (IC95% 0,93;3,00) para a mortalidade perinatal em CPN comparado a ambientes hospitalares, mas sem significância estatística. As intervenções desnecessárias realizadas em partos hospitalares são denominadas de "sobretratamento" (tradução livre do termo overtreatment) por Albers1 (2005). Albers1 argumenta que o sobretratamento não altera os resultados maternos e perinatais quando comparados com partos em ambientes extra-hospitalar. Ainda, ele questiona a finalidade dessas intervenções em estudo que compara resultados de partos hospitalares com os realizados em ambiente-extra-hospitalar.11 No estudo citado, e no presente estudo, as taxas de intervenção foram maiores em serviços tradicionais e os resultados maternos e perinatais, muito semelhantes.

É necessário realizar estudos longitudinais que incluam o acompanhamento das mulheres que deram à luz nesses locais, inclusive daquelas que foram removidas. Recomenda-se a realização de ensaios clínicos comparando modelos de assistência em que as enfermeiras obstétricas e obstetrizes têm a responsabilidade primária pelo cuidado de mulheres de baixo risco, desde o pré-natal até o pós-parto.18

Este estudo não se trata de uma avaliação de qualidade dos serviços, mas aponta se o CPN apresenta bons resultados, quando comparados ao hospital. A comparação é feita com a intenção de se avaliar a segurança do modelo para mulheres de baixo risco. A segurança certamente é o aspecto mais questionado entre profissionais, gestores e usuárias. Por outro lado, discute-se a possibilidade de os dois locais utilizarem intervenções de modo seguro e direcionadas ao acompanhamento do parto fisiológico, em uma população restrita às condições da gestação e parto de baixo risco.

Esse aspecto converge com o princípio da eqüidade do SUS, em que os recursos são destinados de acordo com a complexidade. O parto considerado como um evento fisiológico inverte a lógica da alocação de recursos. Isso não significa omissão de atendimento às mulheres; pelo contrário, aproxima o parto da comunidade e das práticas de promoção de saúde. Esse fato situa a resolução do parto no nível da atenção básica.

O isolamento das equipes nos diferentes locais dificulta o funcionamento do sistema de remoção. Os profissionais do CPN podem constituir uma equipe colaborativa e ampliada, funcionando de maneira mutuamente integrada. Esse conceito de ampliação da equipe fortalece o trabalho colaborativo entre os profissionais e favorece a segurança desse modelo. A possibilidade de interação entre a equipe de médicos neonatologistas e obstetras do hospital geral com as enfermeiras obstetras e obstetrizes do CPN em casos de urgência e emergência favorece o manejo das complicações.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Camilla Alexsandra Schneck
Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP
R. Dr. Arlindo Bettio, 1000
03828-000 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: camillaschneck@usp.br

Recebido: 24/4/2011
Aprovado: 20/9/2011

 

 

Artigo baseado na tese de doutorado de Schneck CA apresentada à Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo em 2009.
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Ministério da Saúde (BR). Portaria n. 985/GM, de 5 de agosto de 1999. Cria o Centro de Parto Normal-CPN, no âmbito do Sistema Único de Saúde. Brasília (DF); 1999 [citado 2009 ago 24]. Disponível em: http://pnass.datasus.gov.br/documentos/normas/45.pdf
b Lago TDG, Lima LP. Gestação, parto e puerpério: diferenciais regionais e desigualdades socioeconômicas. In: Ministério da Saúde (BR). Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher - PNDS 2006 [Internet]. Brasília; 2009 [citado 2009 ago 24]. cap. 8, p. 151-68. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pnds_crianca_mulher.pdf
c Georgetti JA. Repercussões da implantação de um centro de parto normal sobre a saúde do recém-nascido: uma experiência do hospital público [dissertação de mestrado]. São Paulo: Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo; 2009.
d Lima DM, Schneck CA, Riesco MLG. Remoções neonatais do centro de parto normal peri-hospitalar para o hospital. In: XIII Mostra de Monografias da EEUSP; 2009 dez. 02. São Paulo, BR. São Paulo: Comissão de Graduação da Escola de Enfermagem da USP; 2009. Resumo disponível em: http://www.ee.usp.br/ensino/monografia/exibe_detalhe_monografia.asp?VarCodMono=158