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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.46 n.3 São Paulo Jun. 2012 Epub Apr 03, 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102012005000026 

Atividade física e percepção do ambiente em idosos: estudo populacional em Florianópolis

 

Actividad física y percepción del ambiente en ancianos: estudio poblacional en Florianópolis, Sur de Brasil

 

 

Maruí Weber Corseuil GiehlI; Ione Jayce Ceola SchneiderI; Herton Xavier CorseuilII; Tânia Rosane Bertoldo BenedettiII; Eleonora d'OrsiI

IPrograma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Departamento de Saúde Pública. Centro de Ciências da Saúde. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Florianópolis, SC, Brasil
IIPrograma de Pós-Graduação em Educação Física. Departamento de Educação Física. Centro de Desportos. UFSC. Florianópolis, SC, Brasil

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estimar a prevalência da prática de atividade física de lazer em idosos e analisar sua associação com a percepção do ambiente.
MÉTODOS: Estudo de base populacional, transversal, conduzido com 1.656 indivíduos com 60 anos ou mais residentes na zona urbana de Florianópolis, SC, de setembro de 2009 a junho de 2010. A atividade física de lazer foi mensurada utilizando-se a versão longa do Questionário Internacional de Atividade Física. Variáveis de percepção do ambiente foram mensuradas por meio de uma versão modificada da Neighborhood Environment Walkability Scale. Análises brutas e ajustadas foram realizadas utilizando-se regressão de Poisson com nível de 5% de significância.
RESULTADOS: A prevalência de atividade física no lazer foi de 29,7% (IC95% 26,0; 33,3); 35,6% (IC95% 29,7; 41,6) entre os homens e 26,3% (IC95% 23,1; 29,4) entre as mulheres. Idosos que relataram a existência de calçadas, de ciclovias, vias e trilhas para pedestre no bairro, bem como aqueles que disseram receber o apoio de amigos ou vizinhos para realizar atividades físicas foram mais ativos no lazer. Quanto à influência do clima, idosos que relataram ser este uma barreira, foram classificados como mais ativos.
CONCLUSÕES: A prática de atividade física de lazer ainda é pouco prevalente na população idosa de Florianópolis. Espaços públicos para a prática de atividade física e o incentivo a atividades em grupo podem desempenhar papel significativo na promoção da atividade física de lazer em idosos.

Descritores: Idoso. Atividade motora. Atividades de Lazer. Percepção. Meio ambiente. Meio Social. Estudos transversais.


RESUMEN

OBJETIVO: Estimar la prevalencia de la práctica de actividad física en ocio en ancianos y analizar su asociación con la percepción del ambiente.
MÉTODOS: Estudio de base poblacional, transversal fue conducido con 1.656 individuos con 60 años o más residentes en la zona urbana de Florianópolis, Sur de Brasil, de septiembre de 2009 a junio de 2010. La actividad física en ocio fue medida utilizándose la versión larga del Cuestionario Internacional de Actividad Física. Variables de percepción del ambiente se midieron por medio de una versión modificada de la Neighborhood Environment Walkability Scale. Análisis brutos y ajustados se realizaron utilizándose regresión de Poisson con nivel de 5% de significancia.
RESULTADOS: La prevalencia de actividad física como placer fue de 29,7% (IC95% 26,0;33,3); 35,6% (IC95% 29,7;41,6) entre los hombres y 26,3% (IC95% 23,1;29,4) entre las mujeres. Ancianos que manifestaron la existencia de aceras, de ciclovías, vías y caminerías para peatones en la urbanización, así como aquellos que dijeron recibir el apoyo de amigos o vecinos para realizar actividades físicas fueron más activos en los momentos de ocio. Con relación al clima, ancianos que relataron ser éste una barrera, eran clasificados como más activos.
CONCLUSIONES: La práctica de actividad física como placer aún es poco prevaleciente en la población de la tercera edad en Florianópolis. Espacios públicos para la práctica de actividad física y el incentivo en actividades en grupo pueden desempeñar papel significativo en la promoción de la actividad física en ocio en ancianos.

Descriptores: Anciano. Actividad Motora. Actividades Recreativas. Percepción. Ambiente. Medio Social. Estudios Transversales.


 

 

INTRODUÇÃO

A atividade física regular pode reduzir os fatores de risco associados à morbidade e mortalidade entre idosos. Ser fisicamente ativo pode alterar o curso de muitas doenças prevalentes nessa população.12,18,22

Sabe-se que a prática de atividade física diminui com o avançar da idade, fazendo com que grande parte da população idosa seja fisicamente inativa, principalmente no lazer.1,13,25 Esse grupo populacional possui maior disponibilidade de tempo em decorrência da aposentadoria; portanto, a avaliação das atividades nesse domínio mostra-se importante indicador de seu nível de atividade física.25

Esse tema tem sido abordado principalmente em investigações sobre a associação entre os níveis de atividade física com fatores sociodemográficos13,25 e de saúde,22 deixando uma lacuna na compreensão das variáveis ambientais que melhor explicam esse comportamento na população idosa.

Estudos internacionais recentes7,11,15 têm mostrado associações consistentes entre comportamento ativo com ambientes facilitadores para a prática de atividade física. Entretanto, encontrou-se somente um estudo no Brasil sobre o tema com a população idosa.21

Dessa forma, o objetivo do presente estudo foi estimar a prevalência de atividade física no lazer em idosos e analisar sua associação com a percepção do ambiente.

 

MÉTODOS

Estudo transversal populacional de base domiciliar, realizado de setembro de 2009 a junho de 2010, com amostra composta por idosos de 60 anos ou mais residentes na zona urbana de Florianópolis. O estudo faz parte de um inquérito abrangenteª sobre as condições de saúde das pessoas idosas de Florianópolis, realizado em 2009/2010, denominado EpiFloripa Idoso.

O município de Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina, em 2009b possuía uma população estimada de 408.163 habitantes, sendo 44.460 pertencentes à faixa etária com idade igual ou superior a 60 anos (10,8% da população total). O município apresentava um índice de desenvolvimento humano municipal de 0,88 em 2000, colocando o município na quarta posição dentre os municípios brasileiros, e a esperança de vida ao nascer era de 72,8 anos.c

A estimativa do tamanho de amostra considerou o tamanho da população de 44.460,b estimativa de prevalência de atividade física no lazer de 26%,6 erro amostral de 4 pontos percentuais, intervalo de 95% de confiança, efeito de delineamento de 2,6, acréscimo de 20% para eventuais perdas e recusas e 15% para controle de fatores de confusão em estudos de associação, sendo necessária uma amostra de 1.604 indivíduos. Foi utilizada a amostra total do EpiFloripa Idoso, calculada em 1.599 indivíduos. Os cálculos foram realizados no programa EpiInfo, versão 6.04.

A seleção da amostra foi realizada por conglomerados em dois estágios. No primeiro estágio, os 420 setores censitários urbanos foram estratificados segundo decis de renda do chefe da família, sendo sorteados oito setores em cada decil (total de 80 setores). As unidades amostrais do segundo estágio foram os domicílios, sorteados de forma sistemática. Foi necessário realizar uma etapa de atualização do número de domicílios habitados em cada setor (arrolamento), uma vez que o censo mais recente havia sido realizado em 2000. O número de domicílios habitados variou de 61 a 725. Para diminuir o coeficiente de variação entre o número de domicílios das unidades amostrais foi realizada a fusão e a divisão dos setores, respeitando o decil de renda correspondente. Assim, o coeficiente de variação inicial passou de 52,7% (n = 80 setores) para de 35,2% (n = 83 setores). Estimou-se que deveriam ser visitados 60 domicílios por setor, para se encontrarem 20 idosos. Todos os idosos residentes nos domicílios sorteados foram considerados elegíveis para o estudo.

Idosos institucionalizados foram excluídos. Consideraram-se perdas as entrevistas não realizadas após quatro tentativas (inclusive no período noturno e final de semana) e recusa de sujeitos que negaram responder o questionário por opção pessoal. Não foram feitas substituições.

A coleta de dados foi realizada por entrevistadoras treinadas, com ensino médio completo e disponibilidade integral para a realização do trabalho de campo. Foi aplicado questionário estruturado com questões pré-codificadas na forma de entrevistas face a face, utilizando-se o personal digital assistants, o que eliminou a digitação manual dos dados. Anteriormente à coleta de dados, foi realizado um pré-teste com 30 idosos e um estudo piloto com aproximadamente 100 idosos, em setores não amostrados para a pesquisa.

A consistência dos dados foi verificada semanalmente e informações incompletas ou inconsistentes foram corrigidas em segunda entrevista, quando necessário. O controle de qualidade foi realizado semanalmente por meio de aplicação de um questionário reduzido por telefone, em 10% das entrevistas aleatoriamente selecionadas.

A variável desfecho do presente estudo consistiu do nível de atividade física no lazer, mensurado pela versão longa do Questionário Internacional de Atividades Físicas (IPAQ) adaptado e validado para idosos do Brasil.5 Indivíduos que praticavam 150 minutos por semana ou mais de atividade física de lazer foram classificados como fisicamente ativos nesse domínio.18

A variável exploratória foi percepção do ambiente, coletada por meio de versão adaptada21 da escala Neighborhood Environmental Walkability Scale (NEWS) validada para o Brasil.16 As alternativas de respostas da versão adaptada da escala NEWS foram padronizadas em dicotômicas (sim ou não). A percepção do ambiente foi composta por 22 questões relacionadas à percepção do indivíduo em relação às estruturas físicas e ambientais próximas de sua residência, como a presença e qualidade das calçadas; presença de áreas verdes, parques, praças; segurança no tráfego e segurança no bairro. As oportunidades para prática de atividades físicas, como a presença de ciclovias, trilhas, pistas de caminhadas, quadras de esportes, e sobre a ocorrência de eventos esportivos e de caminhadas orientadas no bairro, bem como o suporte social para a prática de atividades físicas e aspectos climáticos também foram obtidos. Os idosos foram orientados para considerar como "perto de suas residências" os locais que conseguissem chegar em até 15 minutos por meio de caminhada.

As variáveis de controle incluídas foram: sexo; faixa etária; cor da pele autorreferida, excluídas amarela e indígena por apresentarem poucas observações (n = 12, 0,73%; n = 16, 0,97%); situação conjugal; escolaridade; renda familiar per capita (1º quartil: < R$ 327,50; 2º quartil: entre R$ 327,50 e R$ 700,00; 3º quartil: entre R$ 700,00 e R$1.500,00; e 4º quartil: > R$ 1.500,00); estado cognitivo investigado pelo Miniexame do Estado Mental (MEEM), dicotomizado em ausência ou provável déficit cognitivo, utilizando pontos de corte que levam em consideração o nível de escolaridade.10 A capacidade funcional foi determinada pela escala de atividades básicas e instrumentais da vida diária (AVD) com 15 itens, e categorizada em: ausência de dependência, dependência leve (incapacidade/dificuldade para realizar 1-3 atividades) e dependência moderada/grave (incapacidade/ dificuldade em quatro ou mais atividades).19

Foram realizadas análises descritivas (cálculos de médias, medianas e desvio-padrão [dp]) para variáveis numéricas e cálculos de proporções e intervalos de 95% de confiança para variáveis categóricas.

Para verificar a associação entre o desfecho e as variáveis independentes de percepção do ambiente utilizou-se a regressão de Poisson para estimar razões de prevalência (RP) nas análises bivariada e múltipla, e intervalo de 95% de confiança (IC95%).4 A partir dos resultados da regressão bivariada foram incluídas na análise múltipla todas as variáveis que apresentaram p < 0,20, permanecendo no modelo final aquelas com p < 0,05 e/ou ajustassem o modelo. O modelo de regressão de Poisson foi construído com a entrada das variáveis passo a passo, ordenadas do menor para o maior valor de p.

O efeito de cada variável de percepção do ambiente sobre a atividade física de lazer foi ajustado por variáveis demográficas (sexo e faixa etária), socioeconômicas (escolaridade e renda per capita) e condição de saúde (capacidade funcional).

Todas as análises foram conduzidas no pacote estatístico Stata 9.0, utilizando o comando svy, que considera o efeito do desenho amostral por conglomerados.

O projeto foi aprovado pelo comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, sob protocolo de nº 352/2008, em 23 de dezembro de 2008. Os sujeitos foram informados sobre os objetivos do estudo e foi solicitada a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

Nos domicílios sorteados foram encontrados 1.911 idosos elegíveis, sendo entrevistados 1.705, resultando em uma taxa de resposta de 89,2% (206 perdas e/ou recusas). Houve 49 entrevistas respondidas por cuidadores (para idosos incapacitados de responder por comprometimento cognitivo severo) e optou-se por excluí-las da análise, pois o objetivo do estudo foi analisar a percepção individual em relação aos fatores do ambiente. A reprodutibilidade de algumas questões utilizadas no estudo apresentaram valores de kappa entre 0,3 e 0,9.

A amostra incluiu mais mulheres do que homens (63,9%). Mais de 86% dos idosos referiram cor da pele branca e 58,8% declararam estar casados ou vivendo com companheiros. Quanto às demais características sociodemográficas, mais da metade dos idosos tinham idade entre 60 e 69 anos, com variação de 60 e 102 anos (média de 70,4; dp = 7,8 e mediana de 69 anos), cerca de 40% declarou baixa escolaridade (< 4 anos de estudo), com média de 7,6 anos de estudo (dp = 5,8). A renda per capita média foi de R$ 1.348,97 (dp = R$ 2.596,28; mediana de R$ 700,00). Com relação às condições de saúde, a proporção de idosos com ausência de déficit cognitivo foi de 53,2%, enquanto 72,3% dos sujeitos da amostra referiram alguma dependência para a realização de atividades da vida diária (Tabela 1).

 

 

A prevalência de idosos fisicamente ativos no lazer (> 150 minutos de atividade física de lazer por semana) foi de 29,7% (IC95% 26,0;33,3), sendo superior nos homens (35,6% [IC95% 29,7;41,6]) comparados com as mulheres (26,3% [IC95% 23,1;29,4] (Figura). A média de minutos/semana de atividade física de lazer dos idosos foi de 131,8 minutos (dp = 216), sendo 161,5 minutos (dp = 240,3) para homens e 115,0 minutos (dp = 199,2) para mulheres.

 

 

Quanto à percepção do ambiente, a existência de iluminação pública à noite (90,4%), sensação de segurança durante o dia (77,5%), existência de calçadas (77,3%) e de aéreas verdes (67,0%) e a presença de faixas para pedestres (62,4%) foram os fatores do ambiente percebidos mais relatados pelos idosos. Cerca de 70% consideraram a qualidade das calçadas como regulares ou ruins (Tabela 2).

 

 

Ainda na Tabela 2, a atividade física no lazer foi mais prevalente entre os idosos que perceberam a existência de calçadas (32,1%), de faixas para pedestres (32,0%), de ciclovias, vias e trilhas (38,7%) e ausência de terrenos íngremes (32,0%) no bairro; também foi mais expressiva entre aqueles que relataram receber convite de amigos ou parentes para praticar atividades físicas (34,9% e 35,3%, respectivamente) e nos que perceberam o clima como uma barreira para a prática de atividade física (33,3%).

A Tabela 3 apresenta os valores brutos e ajustados das RP do desfecho. Na análise bruta observaram-se razões de prevalência significativamente superiores para idosos que relataram a existência de calçadas (RP = 1,48 [IC95%: 1,20; 1,84]), faixas de pedestres (RP = 1,23 [IC95% 1,00; 1,50]), sensação de segurança durante o dia (RP = 1,24 [IC95% 1,04; 1,49]), convite de amigos e vizinhos (RP = 1,24 [IC95% 1,07; 1,44]) ou de parentes (RP = 1,27 [IC95% 1,04; 1,56]) para prática de atividade física, existência de ciclovias, vias ou trilhas para pedestre (RP = 1,44 [IC95% 1,19; 1,73]) e influência do clima (RP = 1,23 [IC95% 1,01; 1,51]).

Após análise ajustada, mantiveram-se associados positivamente ao desfecho receber o convite de amigos ou vizinhos para realizar atividades físicas (RP = 1,26 [IC95% 1,03; 1,43]), a existência de ciclovias, vias ou trilhas para pedestre no bairro (RP = 1,25 [IC95% 1,03; 1,43]) e a influência do clima (RP = 1,26 [IC95% 1,05; 1,52]) (Tabela 3).

 

DISCUSSÃO

Os principais achados do presente estudo mostram importantes associações entre fatores do ambiente percebido e a atividade física de lazer, independentemente dos efeitos de variáveis sociodemográficas e de saúde. A presença de infraestrutura no bairro e de suporte social aumentaram a prevalência de prática de atividade física no lazer. Especificamente, a existência de ciclovias, vias ou trilhas para pedestres próximas às residências e receber o convite de amigos ou vizinhos para realizar atividades físicas foram positivamente associadas ao maior nível de atividade física nesse domínio. Da mesma forma, embora o clima tenha sido referido como uma barreira para a prática de atividades físicas, o grupo que relatou essa situação apresentou-se mais ativo.

A proporção de idosos fisicamente ativos no lazer foi de 29,7%, ligeiramente superior ao observado em estudo anterior (25,7%) realizado na mesma cidade, instrumento e ponto de corte.6

Em estudo1 realizado no Nordeste do Brasil, utilizando a versão curta do IPAQ, os autores encontraram proporções semelhantes de idosos ativos. No contexto internacional a prevalência de atividade física no lazer em idosos também foi semelhante, de 26,9% nos EUA e 30,2% no Canadá.2,13 Porém, a utilização de diferentes instrumentos ou critérios para a classificação dos níveis de atividade física entre os estudos dificulta a comparação entre os resultados.

Achado interessante foi a associação entre existência de calçadas com a prática de atividade física no lazer, informação que corrobora os resultados da literatura existente;11,23 contudo, essa variável perdeu associação na análise ajustada. É possível que a qualidade regular ou ruim das calçadas nos bairros, relatada por cerca de 70% dos idosos, tenha influenciado esse resultado.

A principal atividade física relatada por essa população é a caminhada13,21 e os locais frequentemente escolhidos para essa atividade são ruas e calçadas do entorno próximo e demais espaços públicos. Essas constatações ilustram a importância da presença de calçadas e ruas de boa qualidade como um ambiente facilitador da atividade física, bem como a relevância de focalizar pesquisas e intervenções sobre as características dos espaços urbanos que favoreçam as atividades de lazer.9,14,20

Nesta pesquisa, evidenciou-se que a proximidade a instalações de lazer, como ciclovias, vias ou trilhas para pedestres, foi significativamente associada a maior nível de atividade física de lazer, consonante com a literatura.8,14,15 Esses espaços urbanos que ofereçam estruturas de lazer para a prática de atividade física e de fácil acesso também podem desempenhar um papel importante nos padrões de comportamento ativo da população idosa.

Estudos prévios14,15 identificaram associações positivas entre a acessibilidade a instalações de lazer, como parques, áreas verdes, trilhas e ciclovias, bem como a qualidade desses ambientes na vizinhança, com um comportamento ativo. Por outro lado, Booth et al8 (2000) confirmam que as limitações estruturais no ambiente representam obstáculos para a prática de atividade física, constatando que idosos que não residem próximo a instalações e espaços de lazer tendem a ser menos ativos fisicamente.

O papel positivo do suporte social na prática de atividade física de idosos foi observado também em outros estudos.3,17,21 Segundo esses pesquisadores, a atividade física torna-se mais agradável quando se tem companhia, e o suporte social atua intrinsecamente por meio do incentivo e de parcerias entre amigos e vizinhos e, extrinsecamente, motivando outras pessoas a se exercitarem no ambiente do bairro.

Idosos do presente estudo que relataram o clima como uma barreira à prática de atividades físicas apresentaram maior prevalência do desfecho. Possivelmente idosos ativos se expõem mais frequentemente a condições climáticas adversas e assim relataram esse fato como uma barreira, porém não um impedimento para a prática de atividade física. Ainda, Florianópolis apresenta estações climáticas bem definidas, com uma temperatura média anual bastante agradável, o que pode não representar um obstáculo para a prática de atividade física.

De modo oposto, recente revisão sistemática sobre o tema24 mostrou que o clima tem um impacto significativo sobre esse desfecho e que o clima ruim ou extremo é reconhecido como uma barreira para a prática de atividade física.

Algumas limitações metodológicas do presente estudo devem ser consideradas, sobretudo o delineamento transversal, que não permite definir relações de causalidade entre a atividade física no lazer e os fatores do ambiente. Não foram coletadas informações objetivas do ambiente, limitando-se a informações sobre a percepção individual. Contudo, essa forma de questionamento tem sido bastante difundida em estudos dessa natureza, com o objetivo de observar informações relatadas pelos idosos a partir das percepções do ambiente em que estão inseridos. Ainda, o instrumento de avaliação de atividade física empregado (IPAQ) é recomendado para indivíduos de 18 a 64 anos de idade, apesar de ter sido validado e aplicado com frequência em populações de idosos brasileiros.1,5,6,21

Dentre os pontos positivos, o estudo foi realizado em uma amostra ampla e representativa de idosos de uma capital brasileira, reproduzindo a estrutura populacional do município,d segundo sexo e faixa etária, garantindo a extrapolação dos resultados para a população como um todo. Também se destaca a elevada taxa de resposta em todos os estratos de renda, que contribuiu para a validade interna do estudo, diminuindo a chance de ocorrência de erros sistemáticos.

A constatação de que ambientes adequados e propícios para a prática de atividade física de lazer nos bairros contribuem para um comportamento mais ativo representa um importante achado, que poderá subsidiar políticas de planejamento urbano e de saúde pública. Essas políticas incluem elaboração de intervenções para a construção e manutenção de espaços públicos de lazer, bem como suporte social, por meio de atividades em grupo.

Considerando-se a relevância dessa temática, sugere-se a realização de estudos longitudinais visando a uma melhor compreensão dos fatores ambientais, por meio de informações objetivas e da percepção individual dos idosos, e a sua relação com a prática de atividade física no lazer e em outros contextos.

 

AGRADECIMENTOS

À Profa. Dra. Nilza Nunes de Souza, do Departamento de Epidemiologia, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, pelas contribuições sobre os procedimentos de amostragem.

Aos técnicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e à Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis, pelo apoio logístico.

 

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Correspondência | Correspondence:
Maruí Weber Corseuil Giehl
Departamento de Saúde Pública
Universidade Federal de Santa Catarina
Campus Universitário Trindade
88040-970 Florianópolis, SC, Brasil
E-mail: mwcorseuil@gmail.com

Recebido: 7/10/2010
Aprovado: 20/11/2011
Giehl MWC foi apoiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes - bolsa de mestrado).
Pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - Processo nº 569834/2008-2).

 

 

Artigo baseado na dissertação de mestrado de Giehl MWC apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Catarina em 2010.
Os autores declaram não haver conflitos de interesses.
a Pesquisa "Condições de saúde da população idosa do município de Florianópolis-SC: estudo de base populacional" financiada pelo Conselho nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico.
b Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estimativas populacionais residentes, em 1º de julho de 2009, segundo os municípios. Brasília; 2009[citado 2010 ago 8]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/estimativa2009/POP2009_DOU.pdf
c Organização das Nações Unidas. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2003. Brasília; 2003[citado 2010 ago 8]. Disponível em: http://www.pnud.org.br/atlas/
d Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Perfil dos idosos responsáveis pelos domicílios no Brasil 2000. Rio de Janeiro; 2002.