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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.46 n.4 São Paulo Aug. 2012 Epub July 10, 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102012005000048 

Reprodução na juventude: perfis sociodemográficos, comportamentais e reprodutivos na PNDS 2006

 

Youth and reproduction: demograhic, behavioral and reproductive profiles in the PNDS-2006

 

Reproducción en la juventud: perfiles sociodemográficos, conductuales y reproductivos en la PNDS 2006

 

 

Elza Berquó; Sandra Garcia; Liliam Lima

Área de População e Sociedade. Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar características sociodemográficas e do comportamento sexual e reprodutivo de mulheres jovens.
MÉTODOS: Estudo populacional transversal com representatividade nacional sobre o comportamento sexual, contraceptivo e reprodutivo de 2.991 mulheres de 15 a 20 anos na Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher 2006. As jovens foram classificadas em três grupos: iniciaram a vida sexual e engravidaram antes dos 20 anos (grupo A); iniciaram a vida sexual e não engravidaram antes dos 20 (grupo B) e não iniciaram a vida sexual (grupo C). Mulheres de até 25 anos foram consideradas para o estudo das razões da gravidez e de suas implicações na vida. As análises estatísticas consideraram os pesos e o planejamento amostral complexo. A associação entre duas variáveis categóricas foi avaliada pelo teste tipo qui-quadrado. Quanto às comportamentais, utilizou-se modelo linear global.
RESULTADOS: Mulheres do grupo A eram principalmente negras, mais pobres e com menor escolaridade. Tiveram a primeira relação sexual mais precocemente, comportamento contraceptivo mais desprotegido e menor conhecimento da fisiologia da reprodução em relação ao grupo B; as jovens do grupo C caracterizaram-se por maior frequência à escola e a preservação da virgindade para o casamento foi alegada por um 1/3 desse grupo. Para as mulheres com até 25 anos, a gravidez antes dos 20 foi percebida como tendo implicações mais positivas que negativas na vida amorosa, conjugal, social e autoestima.
CONCLUSÕES: Há associação significativa entre gravidez antes dos 20 anos com maior pobreza e menor escolaridade. Na ausência de melhores condições de vida e de oportunidades, a gravidez, embora não prevista, configura-se como "projeto de vida" e não sua mera ausência.

Descritores: Comportamento Sexual. Comportamento Contraceptivo. Comportamento Reprodutivo. Gravidez. Fatores Socioeconômicos. Inquéritos Epidemiológicos.


ABSTRACT

OBJECTIVE: Analyze the sociodemographic characteristics and the sexual and reproductive behavior of young women.
METHODS: A cross-sectional nationally representative study was performed about sexual, contraceptive and reproductive behavior with 2,991 women age 15 to 20 years in the National Survey on Demography and Health of Women and Children, 2006. The women were classified into three groups: sexual initiation and pregnancy before the age of 20 (group A); sexual initiation but no pregnancy before the age of 20 (group B) and no sexual initiation (group C). Women until age 25 years were included in the study about reasons for becoming pregnant and the implications for their lives. Statistical analysis considered survey weights and the complex sample design. The association between two categorical variables was assessed by chi-square test. The behavior variables were assessed using a global linear model.
RESULTS: Women in group A were mainly black, poorer and with lower education level. These women had an early sexual initiation, less safe contraceptive behavior and less knowledge of reproduction physiology in comparison with group B; young women in group C were characterized by greater attendance at school and 1/3 of this group claimed to maintain their virginity until marriage. For women up to the age of 25, pregnancy before 20 years was perceived as having more positive than negative impacts upon their love life, spousal relationships, social lives and self-esteem.
CONCLUSIONS: There is a significant association between pregnancy before the age of 20 and higher poverty and lower educational level. In the absence of better living conditions and opportunities, pregnancy, although unplanned, becomes "a plan for life", and is not seen as a lack of life planning.

Descriptors: Sexual Behavior. Contraception Behavior. Reproductive Behavior. Pregnancy. Socioeconomic Factors. Health Surveys.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar características sociodemográficas y de conductas sexual y reproductiva de mujeres jóvenes.
MÉTODOS: Estudio poblacional transversal con representatividad nacional sobre el comportamiento sexual, anticonceptivo y reproductivo de 2.991 mujeres de 15 a 20 años en la Investigación Nacional de Demografía y Salud del Niño y de la Mujer (PNDS) 2006. Las jóvenes se clasificaron en tres grupos: iniciaron la vida sexual y se embarazaron antes de los 20 años (grupo A); iniciaron la vida sexual y no se embarazaron antes de los 20 (grupo B) y no iniciaron la vida sexual (grupo C). Mujeres de hasta 25 años se consideraron para el estudio de las tasas de embarazo y de sus consecuencias en la vida. Los análisis estadísticos consideraron los pesos y la planificación del muestreo complejo. La asociación entre dos variables categóricas fue evaluada por la prueba Chi-cuadrado. Para las conductuales, se utilizó el modelo linear global.
RESULTADOS: Mujeres del grupo A eran principalmente negras, más pobres y con menor escolaridad. Tuvieron la primera relación sexual más precozmente, comportamiento anticonceptivo más desprotegido y menor conocimiento de la fisiología de la reproducción con relación al grupo B; las jóvenes del grupo C se caracterizaron por frecuentar más la escuela, y la preservación de la virginidad para el matrimonio fue relatada por 1/3 del grupo. En las mujeres con hasta 25 años, el embarazo antes de los 20 fue percibido con más consecuencias positivas que negativas en la vida amorosa, conyugal, social y autoestima.
CONCLUSIONES: Hay asociación significativa entre embarazo antes de los 20 años con mayor pobreza y menor escolaridad. En ausencia de mejores condiciones de vida y de oportunidades, el embarazo, aunque no sea previsto, se establece como "proyecto de vida" en comparación con su inexistencia.

Descriptores: Conducta Sexual. Conducta Anticonceptiva. Conducta Reproductiva. Embarazo. Factores Socioeconómicos. Encuestas Epidemiológicas.


 

 

INTRODUÇÃO

A fecundidade específica dos 15 aos 19 anos, que apresentava crescimento de 25% entre 1991 e 2001 no Brasil, começou a declinar a partir de 2000.ª Ainda assim, há rejuvenescimento da fecundidade no País.b A contribuição da fecundidade específica do grupo de mulheres de 15 a 24 anos na fecundidade total (em todo o período reprodutivo) passou de 34% em 1980ª para 53% em 2006.c Esse crescimento decorreu principalmente do aumento da participação relativa da fecundidade de 15 a 19 anos, que ascendeu de 9% para 23% no período.

A literatura sobre os padrões de comportamento sexual e reprodutivo de adolescentes e jovens no País, embora rica e volumosa,6,8 carece de estudos de abrangência nacional e/ou referentes a inquéritos domiciliares. Além da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS) de 2006, realizada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), há a PNDS-1996, realizada pela organização não governamental Bem-Estar da Família (Bemfam) e duas edições da pesquisa Comportamento Sexual e Percepções da População Brasileira sobre o HIV/Aids, realizadas em 1998d e 2005 com representatividade nacional.2

Estudos relativos à reprodução de mulheres com até 20 anos de idade, parcela que representa cerca de 16% do total de mulheres em idade reprodutiva,e merecem a atenção de pesquisadores em diversos campos do conhecimento, em especial, nas áreas de sexualidade, gênero e saúde reprodutiva.

O presente artigo teve como objetivo analisar características sociodemográficas e do comportamento sexual e reprodutivo de mulheres jovens.

 

MÉTODOS

Pesquisa domiciliar de corte transversal com 2.991 mulheres de 15 a 20 anos completos. Os dados analisados são provenientes do banco de dados da PNDS 2006.

A PNDS 2006 é uma pesquisa domiciliar por amostragem probabilística complexa com representatividade nacional. As unidades amostrais são selecionadas em dois estágios: unidades primárias, compostas por setores censitários, e unidades secundárias, formadas pelas unidades domiciliares. O universo em estudo foi formado por domicílios particulares em setores comuns ou não especiais (inclusive favelas), selecionados em dez estratos amostrais independentes, compondo uma combinação das cinco macrorregiões geográficas brasileiras e as áreas urbanas e rurais. A PNDS 2006 descreve o perfil da população feminina em idade fértil e de menores de cinco anos no Brasil, bem como identifica as mudanças ocorridas na situação da saúde e da nutrição desses dois grupos nos últimos dez anos. O banco de dados está disponível na internet.f

Foram aplicados questionários face a face, a partir de amostragem probabilística complexa com representatividade nacional, para as cinco macrorregiões brasileiras e os contextos urbano e rural.g O universo estudado compreendeu 14.617 domicílios e 15.575 mulheres de 15 a 49 anos de idade. A cada mulher foi perguntada a história sexual e reprodutiva.

As jovens foram classificadas em três grupos: Grupo A: iniciaram a vida sexual e engravidaram antes dos 20 anos (n = 741); Grupo B: iniciaram a vida sexual e não engravidaram antes dos 20 anos (n = 928); e Grupo C: não iniciaram a vida sexual antes dos 20 anos (n = 1.314). Oito mulheres não puderam ser classificadas nesses grupos devido à falta de informações sobre o início da vida sexual.

Variáveis explanatórias socioeconômicas e demográficas foram: região (Norte; Nordeste; Centro-Oeste; Sudeste; Sul), local de residência (urbano; rural), cor da pele (branca; negra - parda + preta - e outras), situação conjugal (casada/unida; não), anos de estudo (0 a 4; 5 a 8; 9 ou mais), classe econômica (A+B; C; D+E), posse de convênio ou plano de saúde.

As idades (em anos) na primeira relação sexual (grupos A e B), na primeira gravidez (grupo A) e na primeira união (ao começar a viver com seu primeiro companheiro/marido, grupos A e B) compuseram as variáveis comportamentais.

Foi analisado o conhecimento sobre métodos contraceptivos (MAC), fontes de obtenção e tipo de MAC utilizados na primeira relação sexual e no momento da entrevista, os motivos de não uso atual de MAC e o conhecimento sobre a fisiologia da reprodução.

Mulheres de até 25 anos (n = 1.771) foram consideradas para o estudo das razões da gravidez e de suas implicações na vida. Foram abordados aspectos positivos e negativos das mudanças na vida amorosa, conjugal e social.

As análises estatísticas foram feitas considerando os pesos e o planejamento amostral complexo.g Entretanto, os números de casos foram apresentados na forma não ponderada/expandida para informar o número real no qual cada análise foi baseada.

A associação entre as variáveis-resposta e explanatórias foi avaliada por meio do teste qui-quadrado corrigido pelo planejamento amostral. A avaliação das variáveis comportamentais foi feita com base em um modelo linear geral (MLG) incorporando as informações dos pesos e do planejamento amostral. Os valores de p < 0,05 foram considerados significantes.

As análises foram realizadas com o auxílio dos programas Stata v.9 e/ou SPSS v.14.

A PNDS 2006 foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Centro de Referencia DST-Aids da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (3/10/2005, Protocolo número 029/05).

 

RESULTADOS

Do total de mulheres jovens de 15 a 20 anos de idade, 44,2% não haviam iniciado a vida sexual, 31,1% o haviam feito, mas não chegaram a engravidar, e 24,8% engravidaram antes dos 20 anos.

O Grupo A era constituído majoritariamente por jovens negras, de menor escolaridade e menor renda (Tabela 1).

 

 

A prevalência de não iniciadas sexualmente antes dos 20 anos variou de 47,4% no Nordeste a 29,9% no Norte. Maior percentual de mulheres que não engravidaram morava na região Sul (42,7%) e das que engravidam antes dos 20 anos a porcentagem foi maior no Norte (37,6%).

Embora a prevalência do início das relações sexuais antes dos 20 anos tenha sido a mesma entre brancas e negras (41%), estas apresentaram proporção estatisticamente superior de gravidez antes dos 20 anos.

Quanto maior a escolaridade, maior a proporção de mulheres que não iniciaram a vida sexual antes dos 20 anos (p < 0,001). A proporção das jovens que engravidaram antes dos 20 anos atingiu valor máximo (60,6%) para aquelas com zero a quatro anos de estudo, caindo para 17,3% para nove ou mais anos de escolaridade.

Quanto mais pobre, maior a chance de iniciar a vida sexual antes dos 20 anos (65,1%) para as classes D e E e 41% para as classes A e B (p < 0,001). O mesmo ocorreu quanto a engravidar antes dos 20 anos.

A cor da pele não interferiu na associação da escolaridade e classe econômica com o comportamento sexual e reprodutivo (Tabelas 2 e 3).

 

 

 

 

As mulheres que não engravidaram antes dos 20 anos (Grupo B) iniciaram a atividade sexual mais tarde: aos 15,8 anos, média estatisticamente superior (p < 0,001) aos 14,9 anos correspondentes às que tiveram alguma gravidez antes dos 20 anos de idade (Grupo A).

As jovens do grupo C apresentaram como razões para não terem tido relações sexuais falta de vontade (33,6%), pretensão de casar virgem (29,9%) e não ter encontrado o parceiro (25,2%). O temor de engravidar (9,2%) e o medo de aids (2,1%) fizeram parte do repertório de suas preocupações.

O conhecimento de métodos contraceptivos foi praticamente universal entre as jovens dos grupos, não diferindo do nível apresentado pelo total de mulheres em idade reprodutiva. A pílula e o preservativo masculino foram os mais conhecidos para todos os grupos.

O nível de conhecimento do grupo A quanto aos métodos diafragma, creme-óvulo e tabela alcançou percentuais inferiores quando comparado aos grupos B e C. As jovens sem experiência sexual apresentaram menor conhecimento sobre o coito interrompido (48,5%) do que as que tiveram relação sexual (78,0%). Isso não diferiu entre os grupos A e B (p = 0,840), e ambos diferiram do grupo C (p < 0,001).

A pílula do dia seguinte, embora pouco referida na resposta espontânea, esteve bastante difundida entre as jovens quando a pergunta foi estimulada, com maiores percentuais entre aquelas que nunca engravidaram (86,0%).

As jovens que declararam não estar usando contraceptivos mostraram baixo percentual de conhecimento quanto aos locais de obtenção (em torno de 38%), sem diferenças significativas entre os três grupos. O Sistema Único de Saúde (SUS) foi a principal fonte de obtenção (em torno de 90,0%), seguido pelas farmácias e planos de saúde.

Para as atuais usuárias, as farmácias foram mais procuradas pelas jovens de ambos os grupos (56,4%, grupo A; e 77,3%, grupo B), em detrimento do Sistema Único de Saúde (SUS) (39,6%, grupo A; 17,3%, grupo B). A parcela de mulheres que procuraram o SUS para obter contraceptivo foi relativamente maior no grupo A, o qual correspondeu às jovens mais pobres, menos escolarizadas e com menor acesso aos planos de saúde.

As jovens do grupo A apresentaram menor percentual de adoção de medidas contraceptivas na primeira relação sexual, com diferença significante de 18,5% em relação ao grupo B (p < 0,001) (Tabela 4). O mesmo ocorreu quanto ao uso isolado do preservativo: 61,7% das que nunca engravidaram fizeram uso do preservativo, percentual significantemente superior ao grupo A (49,8%; p = 0,013). O uso de contraceptivo alguma vez na vida foi universal. Houve diferenças estatísticas entre os grupos quanto ao uso atual (72,2% para o grupo B e 56,7% para o grupo A). Isso se repetiu para primeira relação sexual para o uso de algum contraceptivo ou para o uso isolado do preservativo.

 

 

Entre jovens do grupo A, 18,2% declararam uso de pílula do dia seguinte alguma vez na vida, percentual significantemente inferior (p = 0,036) àquelas do grupo B (29,7%).

As razões mais comuns para o não uso atual de MAC foram: "não tem relações sexuais/pouco frequentes" e "não está casada ou unida", para ambos os grupos. Quase 20% de jovens no grupo A não usavam devido à amamentação/puerpério, o que poderia expô-las a nova gravidez.

Entre as jovens, 77,3% do grupo B e 63,7% do grupo A afirmaram existir um período entre menstruações em que as mulheres podem engravidar. Tal conhecimento foi estatisticamente menor (p < 0,001) entre aquelas que nunca tiveram relação sexual (55%) (dados não apresentados em tabelas).

Baixo percentual de respostas corretas foi observado quanto às maiores probabilidades de engravidar no período fértil. Os percentuais de acerto quanto ao ciclo ovulatório foram 22,2%, 34,1% e 28,3% para os grupos A, B e C, respectivamente, valores que não diferem estatisticamente entre si. A adequada utilização dos métodos, sejam eles tradicionais, sejam modernos, foi dependente do conhecimento da fisiologia da reprodução.

A média de idade na primeira gravidez para as mulheres que engravidaram antes dos 20 anos foi de 16,3 anos (grupo A). Analisada por modelos univariados, mostrou efeitos estatisticamente significantes conforme região, residência, cor, anos de estudo, classe econômica, idade na primeira relação sexual, uso de métodos contraceptivos na primeira relação sexual, união conjugal e casou grávida, todos com p < 0,05. Quanto maior a escolaridade e melhor a situação econômica, maior a média de idade na primeira gravidez.

Anos de estudo, idade na primeira relação e casou grávida permaneceram estatisticamente significantes (p < 0,05) após ajuste do modelo múltiplo.

Uma em cada quatro mulheres engravidou na primeira relação sexual. Idade na primeira relação sexual e idade na primeira gravidez apresentam correlação elevada (0,67). Quando consideradas separadamente, mulheres unidas e não unidas tiveram correlação de 0,65 e 0,80, respectivamente.

Nenhuma diferença foi encontrada entre esse grupo de mulheres e o das que não engravidaram na primeira relação sexual, considerando a escolaridade, renda e cor da pele. O Nordeste apresentou a maior proporção de ocorrência de gravidez na primeira relação sexual (34,0%), prevalência também maior no meio rural.

Das mulheres que engravidaram antes dos 20 anos, 18% não se casaram até essa idade. Das que se uniram (82%), a união ocorreu depois da primeira gravidez em 18,5% e 35,5% casaram-se antes de engravidar. Nenhuma variável sociodemográfica apresentou associação significante com primeira gravidez antes ou depois da primeira união. As idades da primeira gravidez e da primeira união coincidiram para as 46% restantes. Uma vez que não se dispunha de informações sobre as idades detalhadas em meses e dias, não foi possível identificar como tendo ocorrido antes ou após a primeira união, de acordo com o critério adotado para os 54% mencionados.

A média de idade na primeira união foi de 15,9 anos para o grupo A, valor inferior aos 16,5 anos das mulheres do grupo B.

As jovens uniram-se mais cedo no meio rural e maior escolaridade, melhor situação econômica e ser da cor branca levaram a uniões mais tardias, segundo a análise univariada. Quanto mais cedo o início da vida sexual, mais cedo foram as uniões.

As razões que melhor explicam a gravidez antes dos 20 anos para jovens de até 25 anos foram diversas (Tabela 5).

Apesar de quase todas as mulheres de até 25 anos terem relatado conhecimento atual sobre métodos contraceptivos, 71% afirmaram ser a falha ou o desconhecimento da contracepção um dos motivos da gravidez antes dos 20 anos. Não houve associação entre essa variável resposta e características sociodemográficas.

O desejo parental alcançou o percentual de 52,6%, com diferenças estatisticamente significantes segundo classe econômica. Quanto mais baixo o status econômico e menor a escolaridade, maior o percentual daquelas que afirmaram ter sido o desejo de ser mãe/pai um dos motivos que melhor explicam a ocorrência da gravidez.

A união conjugal antes dos 20 anos foi o motivo da ocorrência da gravidez para 51,1% das jovens, percentual mais elevado entre jovens com menor nível de escolaridade (63,3%).

Desejo de se casar foi uma das razões da gravidez antes dos 20 anos para 38,1% das jovens com menos de 25 anos, razão influenciada pela escolaridade e situação econômica, estatisticamente superior para aquelas com até quatro anos de estudo (42,7%) e pertencentes às classes D e E (41,9%). As que não estudavam no momento da entrevista foram responsáveis pelos mais altos percentuais da resposta referida (40,9%), comparadas àquelas que prosseguiram seus estudos (26,9%; p = 0,005).

Dificuldade de acesso aos métodos contraceptivos foi relatado por 26,4% das mulheres e, quanto mais pobres e menos escolarizadas, maior a dificuldade de acesso.

Desejo de sair da casa dos pais foi apresentado por 23,4% das jovens e, quanto menos anos de estudo e mais baixa a classe econômica, maior o percentual de jovens que assinalaram essa explicação.

O percentual de jovens que responderam "sem outra opção" (16,4%) foi baixo, sem associação entre o motivo referido e as variáveis analisadas.

A percepção das jovens quanto às implicações da gravidez em sua vida amorosa e na sua autoestima, independentemente da classe econômica ou o grau de escolaridade, foi positiva. Quanto aos aspectos subjetivos (autoestima), 96,2% relataram visão positiva sobre essas implicações. Porém, vistos da perspectiva amorosa e conjugal, há maiores controvérsias; ou seja, enquanto 62,6% avaliam de forma bastante positiva, 23,8% atribuem pouca ou nenhuma implicação positiva (Tabela 6).

 

 

Quanto ao conjunto das situações consideradas negativas: "rejeição da família", "marido abandonou", "vida ficou mais difícil", "perdi minha turma" e "ficou mais difícil namorar", aqui denominadas dimensões da vida social, prevaleceu a percepção de baixo impacto negativo da gravidez. Embora as implicações consideradas negativas atinjam baixo percentual (7,6%), apresentaram-se significantemente maior para as mais pobres (9,9%) e menos escolarizadas (10,6%).

 

DISCUSSÃO

Os resultados do presente estudo confirmam a literatura nacional e internacional, i.e., o início da relação sexual cada vez mais precoce.8,10,13,h Ainda assim, há parcela considerável de jovens que não se iniciaram sexualmente (44,0%). Maior escolaridade e o melhor status econômico têm relevância significativa dentre os fatores que diferenciam essas jovens das que já tiveram relação sexual. Estudos que exploraram essa tendência observaram essa mesma relação.8,10,13

O comportamento sexual e reprodutivo parece ser moldado pelas oportunidades estruturais e pelas normas culturais. As mais pobres e menos escolarizadas apresentaram menor percentual de uso atual de contraceptivos e no primeiro intercurso sexual, mostrando comportamento mais desprotegido do que as jovens em melhores condições sociais. O uso do contraceptivo é um dos fatores explicativos para o fato de as jovens do grupo B não terem engravidado.

Os resultados quanto à fonte de obtenção dos contraceptivos refletem a maior dependência do segmento mais desfavorecido em relação ao SUS, para o atendimento de seus direitos reprodutivos. Da mesma forma, a diferença significante encontrada entre os grupos, quanto ao uso alguma vez na vida da pílula do dia seguinte, pode indicar maior dificuldade de acesso à contracepção de emergência por parte do grupo A.

Há associação significativa entre gravidez antes dos 20 anos e maior pobreza e menor escolaridade. Por outro lado, nem todas as jovens que iniciaram a vida sexual passaram pela experiência da gravidez. Entre as que engravidaram, a média de idade desse início foi inferior àquelas que nunca engravidaram.

São diversas as razões para a gravidez antes dos 20 anos. A maioria das jovens engravidou por desconhecimento ou falha da contracepção, independentemente da escolaridade e do status econômico. Tal resultado pode ser compreendido em função das especificidades do próprio momento de experimentação da sexualidade,4,9 que envolve negociações de gênero, além da dificuldade com o manejo apropriado dos métodos. Soma-se a isso o elevado desconhecimento da fisiologia da reprodução, como observado em outros estudos.5,7 Essa é uma lacuna no campo da pesquisa e da intervenção que merece atenção.

O fenômeno da gravidez é considerado ausência de projeto de vida. O acesso à melhor educação, melhores condições de vida e de oportunidades favorecem a multiplicidade de escolhas quanto às trajetórias juvenis.8,10,13 Na ausência dessas condições estruturais e condicionantes, a gravidez, embora não prevista, configura-se como um "projeto de vida" e não uma mera ausência deste, como no presente estudo.

Entre as implicações positivas e negativas da gravidez, a avaliação pendeu mais para o reconhecimento de vantagens sociais e pessoais dessa escolha reprodutiva. Estudos internacionais mostram resultados semelhantes.1,3 Alta percentagem de jovens relatou aumento da autoestima, independentemente da classe econômica e da escolaridade. Entretanto, ambiguidades aparecem quanto à relação amorosa e conjugal, possivelmente relativas à dimensão de poder das relações de gênero.

Houve significativos avanços nas políticas públicas dirigidas aos jovens nos últimos 20 anos, como a criação do Conselho Nacional da Criança e do Adolescente, o Programa de Atenção à Saúde do Adolescente, Programa de Prevenção e Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis, além da inserção da educação sexual nos parâmetros curriculares nacionais, dentre outros. Há vigoroso empenho de organizações não governamentais sobre saúde sexual e reprodutiva no desenvolvimento de ações informativas e de intervenção voltadas à educação sexual e prevenção da epidemia da aids.11

A despeito do grande avanço, é necessário mais para contemplar ações que considerem a diversidade da juventude brasileira. Devem-se considerar as determinações econômicas, sociais e culturais na prevenção da gravidez e das doenças sexualmente transmissíveis e aids para entender a dinâmica das trajetórias juvenis quanto à transição para a vida adulta e seus percalços.9

O nível de implementação dos programas de educação em sexualidade nas escolas públicas é reduzido.12 Além dos fatores estruturais e culturais que influenciam nas condutas reprodutivas, aqueles institucionais devem ser considerados. As escolhas contraceptivas e reprodutivas são feitas em contexto de ilegalidade do aborto e de pouca informação e provisão inadequada da contracepção de emergência no Brasil.12 Afinal, quais seriam os desenlaces para as trajetórias dessas jovens se as possibilidades tanto estruturais como institucionais pudessem de fato ser ampliadas?

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência | Correspondence:
Elza Berquó
R. Morgado de Mateus, 615
Vila Mariana
04015-902 São Paulo, SP, Brasil
E-mail: popu@cebrap.org.br

Recebido: 11/11/2010
Aprovado: 5/3/2012

 

 

Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Berquó E, Cavenaghi S. Increasing adolescent and youth fertility in Brazil: a new trend or a one-time event? In: Annual Meeting of the Population Association of America; 2005 Mar 30 to Apr 2, Philadelphia, EUA; 2005.
b Berquó E. Rejuvenescimento da fecundidade. In: Encontro Estadual de Políticas Públicas da Juventude, São Paulo: Associação de Apoio ao Programa de Capacitação Solidária; 2004. p.185.
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