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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910

Rev. Saúde Pública vol.46 n.5 São Paulo Oct. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102012000500008 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Adaptação transcultural Portugal-Brasil do Inventário de Burnout de Maslach para estudantes

 

Adaptación transcultural Portugal-Brasil del Inventario de Burnout de Maslach para estudiantes

 

 

Juliana Alvares Duarte Bonini CamposI; João MarocoII

IDepartamento de Odontologia Social. Faculdade de Odontologia de Araraquara. Universidade Estadual Paulista. Araraquara, SP, Brasil
IIUnidade de Investigação de Psicologia e Saúde. Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Lisboa, Portugal

Correspondência | Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Realizar a adaptação transcultural da versão em português do Inventário de Burnout de Maslach para estudantes e investigar sua confiabilidade, validade e invariância transcultural.
MÉTODOS: A validação de face envolveu participação de equipe multidisciplinar. Foi realizada validação de conteúdo. A versão em português foi preenchida em 2009, pela internet, por 958 estudantes universitários brasileiros e 556 portugueses da zona urbana. Realizou-se análise fatorial confirmatória utilizando-se como índices de ajustamento o
χ2/df, o comparative fit index (CFI), goodness of fit index (GFI) e o root mean square error of approximation (RMSEA). Para verificação da estabilidade da solução fatorial conforme a versão original em inglês, realizou-se validação cruzada em 2/3 da amostra total e replicada no 1/3 restante. A validade convergente foi estimada pela variância extraída média e confiabilidade composta. Avaliou-se a validade discriminante e a consistência interna foi estimada pelo coeficiente alfa de Cronbach. A validade concorrente foi estimada por análise correlacional da versão em português e dos escores médios do Inventário de Burnout de Copenhague; a divergente foi comparada à Escala de Depressão de Beck. Foi avaliada a invariância do modelo entre a amostra brasileira e a portuguesa.
RESULTADOS: O modelo trifatorial de Exaustão, Descrença e Eficácia apresentou ajustamento adequado (
χ2/df = 8,498; CFI = 0,916; GFI = 0,902; RMSEA = 0,086). A estrutura fatorial foi estável (λ: χ2dif = 11,383, p = 0,50; Cov: χ2dif = 6,479, p = 0,372; Resíduos: χ2dif = 21,514, p = 0,121). Observou-se adequada validade convergente (VEM = 0,45;0,64, CC = 0,82;0,88), discriminante (ρ2 = 0,06;0,33) e consistência interna (α = 0,83;0,88). A validade concorrente da versão em português com o Inventário de Copenhague foi adequada (r = 0,21;0,74). A avaliação da validade divergente do instrumento foi prejudicada pela aproximação do conceito teórico das dimensões Exaustão e Descrença da versão em português com a Escala de Beck. Não se observou invariância do instrumento entre as amostras brasileiras e portuguesas (λ:χ2dif = 84,768, p < 0,001; Cov: χ2dif = 129,206, p < 0,001; Resíduos: χ2dif = 518,760, p < 0,001).
CONCLUSÕES: A versão em português do Inventário de Burnout de Maslach para estudantes apresentou adequada confiabilidade e validade, mas sua estrutura fatorial não foi invariante entre os países, apontando ausência de estabilidade transcultural.

Descritores: Burnout; Estudantes. Adulto Jovem. Psicometria. Reprodutibilidade dos Testes. Estudos de Validação.


RESUMEN

OBJETIVO: Realizar la adaptación transcultural de la versión en portugués del Inventario de Burnout de Maslach para estudiantes e investigar su confiabilidad, validez e invariancia transcultural.
MÉTODOS: La validación del método involucró participación de equipo multidisciplinario. Se realizó validación de contenido. La versión en portugués fue completada en 2009, por internet, por 958 estudiantes universitarios brasileños y 556 portugueses de la zona urbana. Se realizó análisis factorial confirmatorio utilizándose como índices de ajuste el
χ2/df, el comparative fit index (CFI), goodness of fit index (GFI) y el root mean square error of approximation (RMSEA). Para verificación de la estabilidad de la solución factorial conforme a la versión original inglesa, se realizó validación cruzada en 2/3 de la muestra total y replicada en 1/3 restante. La validez convergente fue estimada por la varianza extraída promedio y confiabilidad compuesta. Se evaluó la validez discriminante, y la consistencia interna fue estimada por el coeficiente alfa de Cronbach. La validez concurrente fue estimada por análisis correlacional de los escores promedios del Inventario de Burnout de Copenhagen y de la versión en portugués, la divergente fue comparada con la Escala de Depresión de Beck. Se evaluó la invariancia del modelo entre la muestra brasileña y la portuguesa.
RESULTADOS: El modelo tri-factorial de Agotamiento, Incredulidad y Eficacia presentó ajuste adecuado (
χ2/df = 8,498; CFI = 0,916; GFI = 0,902; RMSEA = 0,086). La estructura factorial fue estable (λ:χ2dif = 11,383, p = 0,50; Cov: χ2dif = 6,479, p = 0,372; Resíduos: χ2dif = 21,514, p = 0,121). Se observó adecuada validez convergente (VEM = 0,45;0,64, CC = 0,82;0,88), discriminante (ρ2 = 0,06;0,33) y consistencia interna (α = 0,83;0,88). La validez concurrente de la versión en portugués con el Inventario de Copenhagen fue adecuada (r = 0,21;074). La evaluación de la validez divergente del instrumento fue perjudicada por la aproximación del concepto teórico de las dimensiones Agotamiento e Incredulidad de la versión en portugués con la Escala de Beck. No se observó invariancia del instrumento entre las muestras brasileñas y portuguesas (λ:χ2dif = 84,768, p < 0,001; Cov: χ2dif = 129,206, p < 0,001; Resíduos: χ2dif = 518,760, p < 0,001).
CONCLUSIONES: la versión en portugués del Inventario de Burnout de Maslach para estudiantes presentó adecuada confiabilidad y validez, pero su estructura factorial no fue invariante entre los países, señalando ausencia de estabilidad transcultural.

Descriptores: Burnout; Estudiantes. Adulto Joven. Psicometria. Reproductibilidad de las Pruebas. Estudios de Validación.


 

 

INTRODUÇÃO

O termo burnout no contexto da psicologia é referido como uma síndrome multifatorial constituída por exaustão emocional, desumanização e reduzida realização pessoal relacionada ao trabalho.20 Atualmente, a síndrome de burnout é considerada uma questão de saúde pública devido às repercussões na saúde física e mental de seus portadores, além das implicações socioeconômicas decorrentes dessa condição.27,28

Os primeiros trabalhos sobre burnout referiam-se exclusivamente a profissões do tipo assistencialista com grande contato humano. Hoje em dia, a investigação estende-se a todos os grupos ocupacionais, incluindo estudantes.16,21,24 Embora os estudantes não sejam formalmente considerados trabalhadores, de acordo com Schaufeli & Taris25 (2005) e Hu & Schaufeli10 (2009), o núcleo central de suas atividades, na perspectiva psicológica, pode ser considerado como trabalho, uma vez que eles estão envolvidos em uma estrutura organizacional com atividades obrigatórias.

Para avaliar a síndrome de burnout, o instrumento de medida mais utilizado é o Inventário de Burnout de Maslach (MBI),20 composto por três dimensões. Pode ser encontrado em quatro versões distintas, segundo o grupo ocupacional: MBI - Human Services Survey, MBI - Educators Survey, MBI - General Survey e MBI - Student Survey.

Apesar de alguns autores5,14 questionarem as características métricas do MBI, suas propriedades psicométricas têm sido amplamente testadas e aprovadas em diversos contextos ocupacionais. O MBI-SS apresentou adequada confiabilidade e validade na Holanda, Espanha, Portugal19,24 e na China,10 mas sua validade fatorial ainda não foi adequadamente estabelecida em estudantes brasileiros.

A necessidade de utilização de uma versão transculturamente adequada do Inventário de Burnout de Maslach para estudantes, o acordo ortográfico entre os países de língua oficial portuguesaª e a inexistência de estudos que avaliem a validade transcultural do MBI - SS em amostra brasileira e portuguesa justificam a realização de estudo de validação desse instrumento. Assim, o objetivo deste trabalho foi realizar a adaptação transcultural para o português do Inventário de Burnout de Maslach - para estudantes (MBI-SS) e investigar sua confiabilidade, validade e invariância entre Brasil e Portugal.

 

MÉTODOS

Participaram estudantes de ensino superior, voluntários, matriculados em instituições brasileiras e portuguesas em 2009. O convite para participação a cada instituição foi realizado pelos pesquisadores pessoalmente ou via e-mail encaminhado à direção das escolas. As informações para contato das instituições foram adquiridas em consulta à página do Ministério da Educação e Cultura no Brasil e do Ministério da Educação e Ciência em Portugal.

O cálculo de tamanho amostral foi realizado com fórmulas padrão para dimensionamento de amostras em análise de modelos estruturais.12 Foram considerados os graus de liberdade do modelo, a de 5% e um poder de pelo menos 80%, tendo-se obtido uma estimativa da dimensão da amostra de 177 sujeitos. Entretanto, dado que o objetivo do trabalho foi estudar as qualidades psicométricas do MBI-SS para a população estudantil de Portugal e Brasil, a amostra deve ser suficientemente grande para captar de forma conveniente a variabilidade populacional. Por esse motivo, optou-se por trabalhar com uma amostra representativa da população muito superior às recomendações usuais para realização dos testes estatísticos.

Os critérios de inclusão foram: ser estudante de ensino superior, ter 18 anos ou mais de idade, concordar em participar da pesquisa e preencher todos os itens componentes do MBI-SS.

Para caracterização da amostra foram levantadas informações sociodemográficas como sexo, idade, área do curso de graduação, tipo de instituição, turno das aulas, moradia, financiamento dos estudos, uso de medicação devido aos estudos e pensamento em desistir do curso.

O MBI-SS foi proposto por Schaufeli et al24 (2002) na língua inglesa e a validade da sua estrutura trifatorial foi aferida em amostras de estudantes de três países europeus.

A versão em português do MBI-SS utilizada foi elaborada por Carlotto et al4 (2006) com uma pequena adaptação para que ficasse em consonância com o novo acordo ortográfico fixado entre os países de língua portuguesa.

As equivalências idiomática, semântica, cultural e conceitual do instrumento foram verificadas por equipe multidisciplinar das áreas de psicologia e língua portuguesa, com oito integrantes. Após consenso, a versão do MBI-SS foi pré-testada em um grupo de 20 estudantes para estimar o índice de incompreensão de cada questão.

Para verificar a essencialidade de cada item do instrumento, 13 profissionais da área de psicologia (juízes) analisaram cada item e os classificaram em "essencial", "útil, mas não essencial" e "não necessário" e posteriormente foi calculada a razão de validade de conteúdo (RVC). Para decisão da significância de cada item utilizou-se a proposta de Laewshe15 (1975), com nível de 5% de significância.

O Inventário de Burnout de Copenhague para estudantes (CBI-S)3 foi utilizado para estimativa da validade concorrente e a Escala de Beck para Depressão (BDI), para a validade divergente.

Um sítio na internet foi criado para abrigar o questionário sociodemográfico e o MBI-SS na versão em português. Os questionários ficaram disponíveis online para preenchimento durante sete meses (maio - novembro). Cada página da internet abrigou um instrumento de modo que o respondente poderia visualizar todos os itens simultaneamente. Foram permitidas não respostas aos itens. Essa metodologia de preenchimento dos instrumentos (online) foi alvo de avaliação em estudo anterior.3

Inicialmente, avaliou-se a sensibilidade psicométrica por meio das medidas de tendência central e de forma. Itens com assimetria (Sk) superior a 3 e achatamento (ku) superior a 7, em valores absolutos, foram considerados como apresentando problemas de sensibilidade.13

Para verificar a adequação dos dados obtidos na versão em português do MBI-SS à estrutura trifatorial proposta por Schaufeli et al24 (2002) realizou-se análise fatorial confirmatória. Foram utilizados como índices de qualidade do ajustamento o χ2/df (razão qui-quadrado e graus de liberdade), CFI (confirmatory fit index), GFI (goodness of fit index) e RMSEA (root mean square error of approximation). O ajustamento do modelo foi considerado adequado para valores χ2/df inferiores a 5, CFI e GFI superiores a 0,9 e de RMSEA inferiores a 0,10.2,17 Utilizou-se o programa AMOS® 18.0 (IBM SPSS Inc, Chicago, IL) para realizar a análise fatorial confirmatória.

Para verificar a estabilidade da solução fatorial obtida, realizou-se validação cruzada do modelo para comparar os índices observados na amostra com outra amostra independente advinda da mesma população.9 Assim, a amostra global foi subdividida em três partes iguais, com duas partes denominadas "amostra de teste" e uma "amostra de validação". O teste de invariância foi realizado impondo-se restrições de igualdade aos pesos fatoriais dos dois grupos. A estatística de teste foi a da diferença entre o χ2 do modelo com pesos fatoriais fixos e o do modelo com pesos iguais. Quando a hipótese da invariância fatorial foi aceita, realizou-se a análise da invariância dos fatores específicos (covariâncias, resíduos).11 Esse procedimento também foi realizado para verificar a estabilidade transcultural da solução fatorial obtida, comparando-se os índices observados na amostra brasileira com os da amostra portuguesa.

A validade convergente foi estimada pela variância extraída média (VEM) e pela confiabilidade composta (CC).7,17 De acordo com Hair et al9 (2005) valores de VEMj 0,5 e CCj 0,7 indicam validade convergente e confiabilidade de construto.

A validade discriminante foi calculada segundo Fornell & Larcker7 (1981) e Maroco17 (2010): para dois fatores i e j, se VEMi e VEMj ρij2ij2: quadrado da correlação entre os fatores i e j) existe evidência de validade discriminante.

A validade relacionada com critério foi avaliada por meio da validade concorrente e divergente, utilizando-se correlação de Pearson. Para a primeira, correlacionou-se a média dos escores obtidos em cada dimensão do MBI-SS com aquela obtida em cada dimensão do CBI-S, e para a validade divergente, com a média dos escores obtidos com a BDI.

A consistência interna foi avaliada com o coeficiente alfa de Cronbach (α) padronizado para cada dimensão do MBI-SS.

Este estudo integra uma pesquisa mais ampla aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Luterana do Brasil, Canoas/RS (protocolo: 2010-188H).

 

RESULTADOS

No pré-teste observou-se que nenhum item apresentou índice de incompreensão 0,20. A estimativa da RVC pode ser observada na Tabela 1.

 

 

Na opinião dos juízes apenas oito itens componentes do MBI-SS são essenciais para investigação da síndrome de Burnout em estudantes.

No total, os instrumentos foram preenchidos por 1.052 estudantes brasileiros e 612 portugueses. Entretanto, apenas 958 estudantes brasileiros (taxa de resposta: TR = 91,1%) e 556 portugueses (TR = 90,9%) preencheram todos os itens do MBI e foram incluídos no estudo. As perdas amostrais ocorreram de forma aleatória e portanto não interferiram nas características da amostra efetivamente estudada. A média de idade dos brasileiros foi de 23,1 (dp = 5,1) anos e dos portugueses, 23,8 (dp = 7,6) anos (Tabela 2).

Todos os itens apresentaram valores de assimetria e curtose próximos dos valores da distribuição normal (Sk = 0, Ku = 0) tanto na amostra portuguesa quanto na brasileira. Apenas o item 6 mostrou-se ligeiramente leptocúrtico na amostra portuguesa, porém sem comprometimento da sensibilidade psicométrica.

A análise fatorial confirmatória apontou para um ajustamento adequado (χ2/df = 8,498; CFI = 0,916; GFI = 0,902; RMSEA = 0,086) do MBI-SS e todos os itens apresentaram pesos fatoriais maiores que 0,50. Observou-se ainda correlação de moderada a forte entre as escalas (r = 0,31-0,64).

A avaliação em simultâneo nas duas amostras (teste e validação) revelou bons índices de ajustamento (χ2/df = 5,325; CFI = 0,923; GFI = 0,904; RMSEA = 0,053). O ajustamento do modelo fatorial, as covariâncias entre fatores e os resíduos das amostras de validação e de teste revelaram a inexistência de diferenças significativas entre elas (λ:χ2(12)dif = 11,383, p = 0,496; Cov: χ2(6)dif = 6,479, p = 0,372; Resíduos: χ2(15)dif = 21,514, p = 0,121). Essas observações apontam invariância do modelo nas duas amostras independentes, confirmando a estabilidade da estrutura fatorial.

Atesta-se a adequada validade convergente (Exaustão: VEM = 0,606, CC = 0,823; Descrença: VEM = 0,644, CC = 0,876; Eficácia Profissional: VEM = 0,450, CC = 0,828) e discriminante (Exaustão: ρ2 = 0,06-0,33; Descrença: ρ2 = 0,15-0,33; Eficácia Profissional: ρ2 = 0,06-0,15) do MBI-SS. A validade convergente esteve prejudicada apenas para a dimensão Eficácia Profissional.

A consistência interna foi excelente para todas as dimensões do CBI-S (αEx = 0,884; αDesc = 0,868; αEf.Prof. = 0,827).

Nota-se forte correlação entre as dimensões BP e BRE do CBI-S com a dimensão Exaustão do MBI-SS, moderada entre BP, BRE e BRP com a dimensão Descrença do MBI-SS apontando para adequada validade concorrente do MBI-SS. Por outro lado, a correlação moderada verificada entre as dimensões Exaustão e Descrença do MBI-SS com o BDI denota que existe aproximação entre os construtos teóricos dos instrumentos, o que dificulta a avaliação quanto à validade divergente da escala (Tabela 3).

Os índices de ajustamento na avaliação em simultâneo das amostras brasileira e portuguesa foram adequados (χ2/df = 7,820; CFI: = 0,881; GFI = 0,882; RMSEA = 0,067). Entretanto, não se observou invariância dos modelos (λ:χ2(12)dif = 84,768, p < 0,001; Cov: χ2(18)dif = 129,206, p < 0,001; Resíduos: χ2(33)dif = 518,760, p < 0,001).

Os valores apresentados na Figura são as estimativas estandardizadas da covariância entre fatores, pesos fatoriais e variância explicada de cada item, respectivamente. Não há equivalência transcultural entre os países. Entretanto, chama a atenção a proximidade dos valores dos pesos fatoriais dos itens e das correlações entre as escalas do MBI-SS nas diferentes amostras. A diferença significativa entre os pesos fatoriais nos dois países ocorreu apenas em três itens (it2, it9 e it14).

 

DISCUSSÃO

Este estudo examinou as propriedades psicométricas da versão em português do MBI-SS, confirmou a estabilidade da estrutura tridimensional do instrumento em amostras independentes e atestou a importância das três dimensões na definição do construto burnout. Esse processo de análise é condição ímpar para coleta de dados com confiabilidade e validade adequadas e deve ser realizado previamente à execução de qualquer estudo.

A validade convergente e discriminante do MBI-SS foi adequada, com exceção da variância extraída média, que foi prejudicada para a dimensão Eficácia Profissional. Tal fato pode ter ocorrido devido à correlação entre o item 14 e as dimensões Exaustão e Descrença, apontada pelos índices de modificação. Assim, Maroco et al19 (2008) e Maroco & Tecedeiro18 (2009), em seus trabalhos, optaram pela remoção desse item. Porém, apesar dessa correlação, optamos por manter o item no MBI-SS, uma vez que este apresentou peso fatorial adequado na amostra portuguesa e bom na brasileira, tendo o ajustamento do modelo sido adequado em ambas.

A excelente consistência interna observada nas dimensões do MBI parece ser consenso na literatura, à exceção do trabalho de Poghosyan et al22 (2009). Esses autores encontraram um valor de α = 0,36 para a dimensão realização profissional em uma amostra de enfermeiros (n = 388) na Armênia.

A correlação moderada encontrada entre as dimensões Exaustão e Descrença MBI-SS e o BDI (Tabela 3) pode denotar aproximação dessas escalas com a depressão. Contudo, burnout e depressão são conceitos distintos. A metanálise conduzida por Glass & McKnight8 (1996) alerta que, apesar de os dois construtos apresentarem uma variância compartilhada de aproximadamente 20%, isso não significa isomorfismo entre os conceitos. Foram encontradas correlações mais fortes e significativas entre as dimensões Exaustão e Descrença do que com Eficácia Profissional (Figura), o que, geralmente, é relatado nos estudos que utilizaram o MBI em suas diferentes versões.6,22,23,26 Esse fato pode ser atribuído à configuração original do instrumento, que apresenta respostas invertidas nessa dimensão em relação às demais. Para testar essa suposição, Bresó et al1 (2007) inverteram os itens da proposta original, de modo que a dimensão foi denominada ineficácia profissional e passou a apresentar itens no mesmo sentido das demais dimensões. Comparada à escala original, a ineficácia esteve positiva e mais fortemente correlacionada com as outras dimensões do instrumento. Esse tipo de comportamento pode ser atribuído à criação de um padrão de resposta no qual os participantes podem ter marcado as respostas sem perceber que naquele item a escala estava invertida.

A rejeição da invariância fatorial do MBI-SS entre Portugal e Brasil pode ser atribuída às diferenças entre as características sociodemográficas das amostras (Tabela 2). Por outro lado, o único trabalho encontrado na literatura que estudou a invariância transcultural do MBI-SS foi o de Schaufeli et al24 (2002), que atribuem a ausência de invariância ao rigor do método estatístico utilizado (análise multigrupos: teste da diferença de qui-quadrado). Apesar de os pesos fatoriais diferirem entre os países, o ajustamento tridimensional do MBI-SS foi adequado em todos os modelos. Esse padrão parece ser constantemente verificado também nos estudos transculturais que utilizaram outras versões do MBI.1,6,22,23,26 Destaca-se que a diferença entre os pesos fatoriais obtidos para Brasil e Portugal foi significativa apenas para três itens. De acordo com Poghosyan et al22 (2009), essa é uma situação normal, uma vez que não seria realístico esperar que os pesos fatoriais fossem idênticos nos dois grupos. Deve-se ressaltar ainda que dois desses três itens foram apontados pelos especialistas como não essenciais para medir burnout em estudantes (Tabela 1). É possível que essas variações possam ser atribuídas às diferenças culturais entre os países.

Os resultados apresentados devem ser analisados considerando-se algumas limitações do estudo, como: 1) o corte transversal e correlacional, que inviabiliza estabelecer relações de causa e efeito; 2) o fato de a amostra ser composta por voluntários; e 3) de a amostra não possuir características sociodemográficas semelhantes nos dois países. Entretanto, essas limitações são encontradas na maior parte dos estudos transnacionais disponíveis na literatura.6,22,23,26 Apesar dessas limitações, os resultados atestam a confiabilidade e a validade da versão em português do MBI-SS, disponibilizando, assim, um instrumento para rastreamento da síndrome de burnout em estudantes. Apesar de sua estrutura fatorial não ter sido invariante entre as amostras brasileira e portuguesa, o ajustamento do modelo trifatorial foi adequado para ambas.

 

Agradecimentos

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, pelo auxílio à pesquisa e bolsa concedidos (processos: 2010/15062-3 e 2010/l09295-5).

À Prof. Dra. Mary Sandra Carlotto da Universidade Luterana do Brasil, pelo fornecimento da versão em português do Brasil do MBI-SS e pela contribuição para o estudo de validação do CBI-S, que foi utilizado neste estudo na validação concorrente.

 

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Correspondência | Correspondence:
Juliana Alvares Duarte Bonini Campos
Departamento de Odontologia Social
Faculdade de Odontologia de Araraquara
Universidade Estadual Paulista
Rua Humaitá, 1680 - Centro
14801-903 Araraquara, SP, Brasil
E-mail: jucampos@foar.unesp.br

Recebido: 1/3/2011
Aprovado: 16/4/2012

 

 

Os autores declaram não haver conflito de interesses.
a Instituto de Linguística Teórica e Computacional. Acordo ortográfico. Lisboa; 2008[citado 2008 out 27]. Disponível em: http://www.portaldalinguaportuguesa.org