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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.3 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 1987

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1987000400007 

PESQUISA RESEARCH

 

Ensino e pesquisa em saúde coletiva na Inglaterra: algumas observação de dois participantes

 

 

Mauricio L. BarretoI; Renato P. VerasII

IDepartamento de Medicina Preventiva — UFBA
IIInstituto de Medicina Social — UERJ

 

 


RESUMO

A oportunidade dos autores realizarem curso de doutoramento na Inglaterra permitiu um melhor conhecimento sobre o ensino e a pesquisa em saúde coletiva naquele país. Neste artigo são apresentados alguns destes aspectos, bem como sugestões que podem ser úteis no repensar o desenvolvimento desta área do conhecimento no Brasil.

Unitermos: Pós-graduação, Pesquisa, Saúde Coletiva.


ABSTRACT

The authors' opportunity to perform their Phd courses in England allowed a better understanding about Teaching and Research in Public Health in that country. In this paper, some of these aspects are considered as well as some suggestions in order to rethink the development of this field in Brazil are presented.


 

 

A experiência como pós-graduandos na área de saúde coletiva na Inglaterra, na condição de bolsistas de agências brasileiras (CNPq/CAPES), ao lado de nossa vinculação com núcleos dedicados ao ensino e pesquisa desta área do conhecimento no Brasil, nos levou a elaborar estes comentários. As bases de nossa reflexão estão fundamentadas em dois problemas básicos. Primeiro, o que leva as agências financiadoras de pesquisa e pós-graduação no Brasil investirem grandes somas na formação de especialistas na área de Saúde Coletiva no exterior, e do outro lado, o que nos estimula, enquanto indivíduos, a vir para a Inglaterra. Não sendo, entretanto, nosso objetivo formular respostas para tais problemas.

Nossos comentários limitam-se a experiência como aluno de doutorado na London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM). Este College1 é tido como o mais importante centro de ensino e pesquisa, na área de Saúde Coletiva neste país, destacando-se, em particular, no que se refere às atividades relacionadas aos developing countries Por estes motivos, este é o centro inglês que atrai o maior número de brasileiros da área em discussão.

O que mais impressiona um novo estudante na LSHTM é, sem dúvida, a constatação da existência de um ambiente acadêmico em seu interior. Neste College seus docentes e pesquisadores, mais de 100 alunos de doutorado, um número ainda maior de alunos em cursos de mestrado, especialização ou aperfeiçoamento, suas variadas atividades científicas, refletidas em cursos, seminários, workshops etc., além das atividades sociais, que incluem: refeitório, pub, cinemateca, festas etc., formam um cenário, o qual, sem dúvida, é bastante diferente do que estamos acostumados a ver nas universidades brasileiras.

Quando, após o impacto inicial, começamos a olhar atrás do cenário, duas importantes questões são produzidas: o que faz com que esta estrutura seja tão dinâmica, e qual a relevância do conhecimento produzido no seu interior.

Para nós, uma primeira e importante diferença na estrutura do ensino da pós-graduação deste país, se refere ao fato de que a quase totalidade dos mestrandos e a imensa maioria dos doutorandos são alunos de tempo integral e dedicação exclusiva. Isto somente é possível porque, no caso do estudante inglês, durante o período de curso, o salário deste profissional é mantido pelo Sistema Nacional de Saúde ou por parte de algum outro órgão de apoio à pesquisa. Não existe, em nenhuma hipótese, o que é regra em nosso país, o curso de mestrado prensado entre dois empregos e realizado em quatro ou cinco anos.

O conhecimento dos professores e a qualidade das aulas proferidas não são, em geral, superiores às do Brasil, entretanto a existência de uma maior quantidade de especialistas torna mais flexível a estruturação de cursos e seminários. Diferenças ficam mais evidentes, quando observamos a organização das secretarias. Estas são organizadas com o objetivo de possibilitar o fácil acesso dos professores e pesquisadores aos mais diversos tipos de serviços (fotocópias, datilografia, correio, telefone, audiovisuais etc.). Esta infra-estrutura, fundamental para as atividades de ensino e pesquisa, praticamente inexiste em nossas universidades. No entanto, nossa maior fragilidade se localiza na falta de suporte bibliográfico. As bibliotecas dos Colleges ingleses mantêm grandes e atualizados acervos de periódicos, onde constam publicações de todo o mundo, nas suas específicas áreas de interesse. Apenas para se ter um exemplo, as bibliotecas da LSHTM e da London School of Economics (LSE) possuem um maior número de assinaturas de revistas brasileiras, nos seus respectivos campos de conhecimento, do que muitas das bibliotecas de nossas universidades. Outra importante facilidade oferecida por estas bibliotecas são os modernos sistemas de comunicação e de informática, o que torna facilmente acessível ao leitor qualquer publicação catalogada.

A soma de todos estes fatores resulta em uma estrutura que é, sem nenhuma dúvida, produtiva. Este fato é refletido no grande número de atividades em desenvolvimento: projetos de pesquisa e serviços de consultoria, dos livros, artigos e relatórios de pesquisa publicados, nos vários cursos de mestrado, especialização e aperfeiçoamento ministrados e na grande quantidade de teses produzidas.

A fim de arcar com estes custos existe uma clara atividade de marketing no sentido de atrair os potenciais compradores dos serviços oferecidos pelo College, bem como manter ou ampliar os já existentes. Isto reflete-se na flexibilidade de criação de novos cursos, na reorganização de departamentos ou criação de núcleos especializados no seu interior, tudo isto na dependência dos interesses das agências financiadoras. A LSHTM, por exemplo, mantém convênios e é financiada por mais de 100 destes organismos. É interessante observar que uma grande parcela dos recursos deste College vem das organizações multinacionais (OMS, UNICEF, FAO, etc.) ou das organizações nacionais dos países desenvolvidos para a ajuda internacional (ODA/Britânica, CIDA/Canadense etc.). A relevância do aporte destes recursos pode ser observada no Report da LSHTM para o ano letivo de 84/852. Somente a OMS. entre auxílios de pesquisa e bolsas de estudo, contribuiu, neste período, com recursos da ordem de 900 mil dólares.

Uma das importantes conseqüências desta interação com os órgãos financiadores multinacionais, sem a qual o College não sobrevive, é a manutenção do processo de produção do conhecimento nos países do primeiro mundo. Este fato pode ser comprovado pela constatação de que grande parte dos recursos destes organismos, supostamente destinados a pesquisa de problemas dos países subdesenvolvidos, são quase que integralmente investidos nestes centros. Resta, quando muito para os países do terceiro mundo, a "pesquisa de campo" e/ou a aplicação de tecnologias desenvolvidas em centros do primeiro mundo. A LSHTM é um exemplo deste fato; inúmeros dos projetos atualmente em execução nas áreas de doenças infecto-parasitárias, avaliação de tecnologia simplificada de saúde, saúde materno-infantil, entre outros, são desenvolvidos com recursos das referidas agências. Aliás, não é por acaso que um expressivo número de consultores e experts destes organismos pertencem ou pertenceram ao staff deste College.

Este modelo de organização universitária, caracterizado pela eficiência e competitividade, é mantido por uma estrutura administrativa centralizada. O poder emana dos catedráticos (professores), que em geral confundem-se com os chefes dos departamentos. Eles são responsáveis pela elaboração de toda a política do College, definição das linhas de interesse dos departamentos, contratação de pessoal científico etc. A prática democrática de uma pessoa, um voto não existe. A própria manutenção de um membro do departamento está na dependência do interesse do chefe.

A indicação do professor não é somente baseada na capacitação acadêmica do escolhido, mas principalmente, no seu grau de relação com os órgãos de poder e de sua influência junto às agências nacionais e internacionais de financiamento de projetos. Um típico "professor" assemelha-se a um competente e dinâmico businessman.

O conhecimento produzido na LSHTM é de grande monta e inclui, sem nenhuma dúvida, aspectos de relevância. Porém, alguns comentários relativos a esta produção se fazem necessários. Como grande parte do conhecimento produzido é conseqüente da "venda de serviços", ele tem duas grandes características: primeiro, a de ser quase exclusivamente um conhecimento aplicado-tecnológico e segundo, de se adequar às necessidades definidas pelos compradores destes serviços (cursos, pesquisas, consultorias, etc.). Estes dois pontos têm importantes conseqüências, A tão propalada liberdade acadêmica é extremamente limitada — não se pode contestar o cliente. A produção do conhecimento tem que se adequar aos interesses dos que pagam para a sua produção. A crítica aceitável, aliás a única possível, é aquela feita à técnica de produção do conhecimento, mas não aos seus fundamentos.

Em resumo, podemos dizer que o College é estruturado como uma unidade empresarial e, como tal, precisa ser eficiente, ter alta produtividade, competir por espaços de vendas dos seus serviços e, evidentemente, ser sensível ao padrão de demandas. E, como qualquer outra empresa com estas características, sua estrutura de comando é organizada de modo vertical e autoritário.

Estes comentários, ainda que sumários, levam-nos a extrair algumas conclusões que, ao nosso ver, podem ser úteis no repensar a questão da pós-graduação na área de saúde coletiva no nosso país:

1. O ensino na Inglaterra deve ser compreendido pelas agências financiadoras brasileiras como um negócio e, como tal, sujeito a barganhas, principalmente, quando a compra se faz a atacado. Considerando o grande número de bolsistas brasileiros na Inglaterra (entre 300 e 400), e o grande volume de recursos despendidos pelo governo brasileiro para com as universidades inglesas, entendemos que nossas agências de fomento a pós-graduação e pesquisa deveriam ter uma relação mais comercial e uma postura mais agressiva no processo de negociação do valor das taxas escolares e do tipo de treinamento desejado. As taxas, por critérios não conhecidos, porém, bastante variáveis, podem chegar a cifras astronômicas de 14000 libras por ano. Estes valores ficam mais dramáticos, quando comparados com as taxas pagas pelos estudantes ingleses ou dos demais países pertencentes ao Mercado Comum Europeu. Estas são em torno de 25% dos valores pagos pelos overseas students, entre os quais estamos incluídos.

2. É de imediata constatação o fato de que as diferenças existentes entre o sistema inglês de ensino e pesquisa e o seu correspondente brasileiro, não se explicam pela existência de uma competência ou incompetência intrínsecas, mas sim, pela organização e objetivos. Os dirigentes dos Colleges ingleses sabem que, a expressiva produção científica destes somente é possível, devido ao suporte financeiro oriundo dos recursos das agências internacionais e das taxas, verdadeiramente extorsivas, pagas pelo grande número de alunos do terceiro mundo. Por outro lado as agências e os alunos procuram estas instituições pelo fato delas oferecerem as mais avançadas condições de produção científica. Cria-se, portanto, um ciclo vicioso, o qual permite aos Colleges a captação de mais recursos e devido a este fato tenham melhores condições de ampliar sua infra-estrutura e arrebanhar mais e mais suporte, possibilitando inclusive, em alguns casos, superar o déficit conseqüente aos cortes de verbas determinados pelo atual governo conservador inglês. Além do mais, não devemos esquecer que o aluno de doutorado pode ser também considerado como mão-de-obra, pois participa do processo de execução de projetos ou linhas de pesquisa dos departamentos. Este fato é bastante evidente nas unidades de ciências básicas. Nestas, o aluno tem que se enquadrar em algum dos projetos em curso, no laboratório a que está vinculado. Com tudo isto, é interessante observar que, as nossas agências financiadoras, ao mesmo tempo em que aceitam pagar as elevadas taxas das universidades estrangeiras, são extremamente contidas no repasse de recursos para instituições similares no Brasil, mesmo quando estas são consideradas de alto nível científico. Idêntica situação ocorre em relação ao valor das bolsas de estudo. Quando no exterior, o estudante recebe um auxílio, cujo valor permite, pelo menos, garantir a sua sobrevivência. O mesmo não ocorre com as bolsas pagas no Brasil, as quais têm seus valores abaixo do necessário para a sobrevivência no país, A constatação desta dupla face do sistema de financiamento do ensino de pós-graduação brasileira é, no mínimo, intrigante, quando não inaceitável. Será que um mestre ou doutor formado em uma universidade inglesa é melhor do que um similar nacional? Pelo menos em termos do custo de formação, aquele formado no exterior custou muito mais ao país. A constatação destes fatos nos leva a pensar na necessidade de uma drástica revisão da política de financiamento da pós-graduação e pesquisa no Brasil. Entendemos que os repasses de recursos deveriam ser em valores proporcionais aos que são efetuados com os treinamentos realizados no exterior. Tal medida levaria a uma signicativa ampliação dos investimentos nos núcleos que desenvolvem tais atividades no país.

3. Os órgãos vinculados às áreas de saúde coletiva e de pesquisa no país, deveriam assumir um papel mais ofensivo no processo de reafirmação nacional e de valorização do nosso desenvolvimento científico. Faz-se necessário que estas instituições entrem na arena internacional e lutem pelo redirecionamento daqueles fundos multinacionais de pesquisa que, por direito, pertencem aos países do terceiro mundo. As características antiuniversitárias e, de pouco interesse com questões do desenvolvimento científico nacional, do regime militar, precisam ser apagadas por definições claras dos atuais responsáveis pela administração pública brasileira.

 

 

1 College é uma unidade da universidade inglesa, de estrutura variável, que se diferencia do modelo de faculdade existente na universidade brasileira, pois pode congregar várias áreas do conhecimento no seu interior. Por exemplo, o University College of London, parte da Universidade de Londres, possui cursos em todas áreas do conhecimento: Astronomia, Medicina, Engenharia, História etc. Já a LSHTM é um College especializado na área de saúde pública voltada para pós-graduação e pesquisa.
2 London School of Hygiene and Tropical Medicine, University of London, Report for 1984-85. London, 1985.