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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.4 n.2 Rio de Janeiro Apr./Jun. 1988

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1988000200009 

TEMA

 

Termofosfato magnesiano no controle da esquistossomose mansoni, em áreas de irrigação

 

 

Roberto Milward-de-Andrade

 

 

A esquistossomose mansoni constitui um dos mais sérios problemas de saúde pública no país, estando presente em quase todos os estados da Federação, estimando-se que de 4 a 7% da população encontra-se infectada. No Nordeste, por exemplo, são conhecidas comunidades com mais de 90% de indivíduos parasitados. A doença reduz fortemente a capacidade de trabalho individual, e, direta ou indiretamente, pode levar à morte o indivíduo parasitado. O saneamento básico (água e esgoto) e a quimioterapia, aliados à educação sanitária constituem importantes medidas de combate. Em certas circunstâncias, a utilização de moluscicidas é recomendável, malgrado dizime a flora e a fauna (peixes, etc) do ambiente aquático, residência habitual do molusco planorbíneo (Biomphalaria glabrata, etc), hospedeiro intermediário do trematódeo Schistosoma mansoni, agente etiológico da doença.

Experimentos preliminares, conduzidos na Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), mostraram que o adubo e corretivo do solo denominado Termofosfato Magnesiano (Tfm) é capaz de, quando ingerido pelo molusco planorbíneo, provocar o bloqueio da ovogênese, impedindo assim a reprodução do molusco hospedeiro do parasita. Foi também verificado que há uma aparente redução na liberação de cercárias de caramujos anteriormente infectados. Outros experimentos e estudos de laboratório demonstraram que o bloqueio da reprodução deriva do desequilíbrio entre o Cálcio e o Magnésio ingeridos pelo molusco, e contidos no Tfm que, como se sabe, pode ser composto através do processamento industrial das rochas apatita e dolomita, associadas.

Como hipótese de trabalho, foi levantada a possibilidade de que a utilização do Tfm na agricultura poderá, adicionalmente, concorrer para o controle ou redução das populações naturais de caramujos — quando arrastado pelas chuvas para os ambientes aquáticos — sem ocasionar danos a flora e a fauna aquáticas, como já foi verificado, e para a conseqüente redução de infecções com Schistosoma mansoni entre trabalhadores agrícolas.

É de se salientar, entretanto, a necessidade imperiosa do prosseguimento dos estudos, a fim de esclarecer questões ainda obscuras relacionadas a essa constatação. É necessário a ampliação dos estudos de campo, considerando em particular a diversidade dos tipos de solos de áreas irrigadas e a qualidade das águas nas quais se desenvolvem os planorbíneos. Investigações biológicas mais refinadas em laboratório são também necessárias.

Acrescente-se, por outro lado, que, segundo dados empíricos, o Tfm é capaz de controlar as populações de Bradybaena similaris ("caramujo de jardim"), que provocam em certas áreas grandes danos e devastações às culturas de produtos hortigranjeiros. Aplicado como adubo, o Tfm poderá, também adicionalmente, minimizar ou eliminar aquela praga agrícola. Até aqui, o combate aos "caramujos de jardim" é realizado através da aspersão de substâncias químicas comercializadas por empresas multinacionais.

Vale também mencionar a possibilidade de o Tfm atuar decisivamente no controle de moluscos ("lesmas") Veronicelideos, responsáveis pela transmissão de um helminto comum em roedores e denominado Angiostrongylus costaricensis, mas que também infecta o homem, no Brasil e outros países.

Associadamente aos órgãos nacionais de pesquisa científica, poderá a Indústria Mineradora, produtora de insumos para a agricultura, incentivar e participar de projetos de pesquisa destinados ao aprofundamento desse conhecimento, que, em última análise, se traduzirá em melhores condições de vida para o homem do campo dedicado à agricultura.

 

 

(1) Sumário de apresentação feita no "Seminário de Integração entre a Indústria de Mineração e o Setor Agrícola", em Fortaleza, CE (4 e 5/maio/1988), com apoio da Federação da Agricultura do Estado do Ceará, da Federação das Industrias do Estado do Ceará e realizado pelo Sindicato da Industria de Minerais não-Metálicos e Gemas do Estado do Ceará.