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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.4 n.2 Rio de Janeiro Apr./Jun. 1988

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1988000200010 

TEMA

 

Joaquim Venancio

 

 

W. Lobato Paraense

 

 

A evolução de Manguinhos pode ser entendida, em sua essência, numa contextura muito simples. Organizou-se aqui um modesto Instituto, destinado à fabricação de soro e de vacina contra a peste e às campanhas contra essa endemia e a febre amarela. No desempenho dessa tarefa, que foi rapidamente cumprida, formou-se um pequeno grupo de pessoas que absorveram e ampliaram os conhecimentos científicos e tecnológicos necessários ao sucesso da empresa. De posse desse know-how, uma estrutura medíocre limitar-se-ia a uma produtividade rotineira, de grande utilidade social mas confinada à sua finalidade imediata. Quis o acaso, porém, que à frente desse empreendimento estivesse alguém preparado para entender que esse bem-sucedido primórdio científico e tecnológico podia ser ampliado para abranger outros campos da patologia nacional. E que depois, atingido um nível de conhecimento acima da cota geral do país, esse conhecimento deveria ser difundido pelo Instituto, através do ensino organizado na primeira escola brasileira de pós-graduação.

Muito se tem escrito sobre a pléiade de talentos que povoou os primeiros tempos de Manguinhos. Avesso a exageros ufanistas, vejo nessa constelação estrelas de várias grandezas. O que importa é que cada uma delas brilhou no grau de luminosidade de que era capaz e o efeito global foi radioso. Mas não se deve esquecer a contribuição para esse efeito do também importante grupo de técnicos e colaboradores administrativos escolhidos e treinados com o melhor apuro, tendo em vista suas tarefas específicas.

Por isso é com grande satisfação que atendo a sugestão de nosso Vice-Presidente de Recursos Humanos, Professor Luiz Fernando Ferreira, para aqui fazer alguns comentários sobre a pessoa de nosso homenageado, Joaquim Venâncio Fernandes.

Realmente não seria eu a pessoa mais apta a traçar um retrato razoavelmente fiel do homem modesto mas de tão rica personalidade que foi Joaquim Venâncio. Acontece, porém, que o tempo passa, levando pouco a pouco aqueles que com ele conviveram de perto e o conheceram mais intimamente.

Quando vim para Manguinhos logo percebi que um dos personagens mais destacados do imenso anedotário institucional era Adolpho Lutz. E como era natural, o nome de Joaquim VenÂncio aparecia em várias dessas estórias.

Durante alguns anos não tive assunto ou oportunidade que dele me aproximasse. Comentando certa vez com Bertha Lutz sua competência e dedicação ao trabalho e também sua espontânea afabilidade, contou-me ela que Venâncio ingressara no Instituto como servente, e uma de suas tarefas era fazer a limpeza do laboratório de Adolpho Lutz. Observador sagaz apesar de aparentemente desatento às banalidades ao seu redor, Lutz um dia disse a Bertha que procurasse ensinar algumas práticas de laboratório àquele jovem porque ele deveria tornar-se um técnico de qualidade. Não sei quando isso aconteceu, mas deve ter sido ao redor de 1910, visto como Venâncio acompanhou e conhecia em detalhes as pesquisas de Lutz sobre os planorbídeos brasileiros e a xistosomose, feitos de 1915 a 1918.

Meu relacionamento pessoal com Joaquim Venâncio iniciou-se em torno de 1945, em circunstâncias dramáticas. Tinha meu laboratório no pavimento térreo do atual Hospital Evandro Chagas, e morando nessa época em Petrópolis, tomava em frente ao Instituto o ônibus que pouco depois das 5 da tarde passava pela Avenida Brasil. Um dia atrasei-me alguns minutos e perdi o ônibus, voltando para o hospital. Pelas 7 da noite, depois do jantar, entrou esbaforida no laboratório uma auxiliar de enfermagem gritando-me que fosse depressa atender um paciente que estava morrendo. Ainda pensei: se está morrendo não adianta correr, porque não posso fazer nada. O paciente estava em um dos quartos, deitado na cama, o quarto cheio de outros pacientes e o piso alagado de sangue. Tendo de usar de rispidez para conseguir evacuar o quarto, pude ver que o homem tinha feito um corte profundo no pescoço e estava com as roupas de corpo e de cama encharcadas de sangue. A muito custo consegui pinçar uma artéria e tamponar o profundo ferimento, mandando logo chamar o socorro urgente, que demorou duas horas a chegar. Passei todo esse tempo sem poder afastar-me do paciente, comprimindo o tampão e evitando que ele arrancasse a pinça hemostática, porque estava disposto a morrer. Devia haver passado uma hora nessa luta quando me disseram que o Joaquim Venancio pedia permissão para ver o quase suicida, que era seu irmão. Depois eu soube que o paciente, internado por doença sem gravidade, recebera uma carta de casa relatando um "mau passo" dado por uma filha, e acabrunhado resolvera pôr fim à vida. Venancio já soubera da notícia e, depois de admoestar o irmão por esse ato de fraqueza, disse baixo para mim: "Desculpe, doutor, mas esta raça negra é cheia de sentimentalismo".

Daí em diante, sempre que nos víamos, conversávamos um pouco. Raramente uma dessas conversas não trazia alguma novidade interessante, um esclarecimento, ou pelo menos a apreensão de um traço de seu caráter.

Uma questão me intrigava desde a infância. Acostumado desde cedo a ler jornais, muito me impressionou a notícia, publicada mais ou menos em 1928, da lei que concedia o direito de voto às mulheres no Rio Grande do Norte, proposta pelo governador Juvenal Lamartine e aprovada pelo Congresso daquele Estado. Quando depois de 1930 o voto feminino foi instituído no Brasil, mais ainda me ardia a curiosidade: qual a razão do pioneirismo do Rio Grande do Norte, e não do Rio de Janeiro ou de São Paulo? Conversando um dia com Venâncio, que devotava grande afeição a Bertha Lutz, combativa líder feminista que chegou a eleger-se deputada federal, contou-me que um dos maiores amigos de Bertha tinha sido o governador Lamartine.

Após o término da guerra um visitante francês procurou-me com um pedido do Professor Émile Brumpt para que lhe enviasse planorbídeos vivos a fim de reconstituir suas colônias de moluscos perdidas durante a ocupação de Paris. Nessa época eu quase nada entendia de planorbídeos, mas como tinha visto alguns em um córrego existente nos terrenos do Instituto e atualmente muito alterado, colhi um bom número e, examinando-os antes de empacotar, encontrei alguns, eliminando cercárias de Schistosoma mansoni. Utilizei esses moluscos infectados em um trabalho experimental sobre o sexo do parasito nas infecções por cercárias isoladas de um único molusco. Alguns anos depois de publicado esse trabalho virei malacologista e verifiquei que os caramujos desse córrego pertenciam à espécie Biomphalaria glabrata e que esta espécie, em toda a região do Grande Rio, só existia nesse córrego de Manguinhos. A espécie encontrada em todos os demais criadouros da área é a Biomphalaria lenagophila. A explicação surgiu numa conversa com Venâncio. Contou-me que Adolpho Lutz, não conseguindo infectar com Schistosoma mansoni os planorbídeos locais, mandou trazer a Biomphalaria glabrata de Aracaju para seus estudos experimentais em 1916, mantendo uma colônia em um grande tanque ao lado do córrego. Apesar de haver grande espaço entre a superfície da água e a borda do tanque, este transbordou numa noite de chuva intensa. Com base nesse dado imaginei que a Biomphalaria glabrata invasora teria iniciado um processo de competição com a Biomphalaria tenegophila nativa, terminando por substituí-la total ou parcialmente. Sugeri e orientei uma pesquisa sobre esse tema ao Dr. Luiz Augusto Magalhães, atualmente Professor Titular da Universidade de Campinas, sendo verificada uma exclusão quase total da espécie nativa.

Acompanhando como técnico de laboratório e de campo as pesquisas de Lutz, chegou Venâncio até os batráquios, cujas espécies distinguia muito bem pela morfologia e pela voz. Nos últimos anos em que Lutz, apesar da idade avançada e das forças diminuídas, ainda realizava trabalhos de campo sobre sapos e rãs, era freqüentemente carregado dentro d'água pelos robustos ombros de Venâncio para observar de perto os animais nos habitats naturais.

Durante estudos feitos pela herpetóloga Doris Cochran, do Museu Nacional dos Estados Unidos, em 1935, e dos quais resultou importante monografia sobre as rãs do sudeste do Brasil, Joaquim Venâncio acompanhou-a por Belo Horizonte, Lassance, Pirapora, Ouro Preto, São Paulo, Alto da Serra e Santos. Tão impressionada ficou aquela presquisadora com sua competência, que tudo fez para levá-lo para sua instituição. Um dia perguntei-lhe se não tinha tido vontade de ir trabalhar nos Estados Unidos. Respondeu-me que sabia que lá iria ganhar muito mais, porém que preferia ser um negro com dignidade no Brasil.

Sua fidelidade aos Lutz era retribuída com respeito, amizade e desvelo. Como legado de Adolpho Lutz, recebeu não me lembro se um terreno ou uma casa.

Mas não foi só no laboratório e no lar dos Lutz que Venâncio fez bons amigos. Em Manguinhos todos seus contemporâneos o conheciam e admiravam. Residia no morro aqui ao lado, cuja área pertencia ao Instituto e foi sendo gradualmente ocupada por estranhos, até que se tornou impossível recuperá-la, sendo preciso correr um muro da Avenida Brasil à Leopoldo Bulhões para deter a invasão. Para a população do morro, Joaquim Venâncio era uma espécie de juiz de paz ou de patriarca, o que hoje se chama líder comunitário, mas sua influência derivava apenas de sua força moral e de suas boas qualidades humanas, nunca de qualquer traço de demagogia. Era procurado para aconselhamento, para dirimir pendências e para proteger os fracos. Parece que em casos extremos precisava, forte como era, baixar o braço.

É claro que uma personalidade assim vigorosa, simpática e dotada de boa conversa, não estaria imune a certas contingências previsíveis. De tempos a tempos circulavam rumores sobre certos sucessos creditados à conta do charme de Venâncio. Se verdadeiros ou não, seria impossível afirmar. São fatos que quase nunca se podem testemunhar com segurança. A maioria divertia-se com esses comentários e tacitamente ou abertamente aprovava o herói da estória. Alguns mais radicais, talvez movidos por uma ponta de despeito, talvez excedendo a realidade, murmuravam que Venâncio era o que a gíria de hoje chama de paquera. Prefiro simplesmente acreditar que, em circunstâncias favoráveis e muito especiais, ele simplesmente não dormia no ponto.

Nesta homenagem a Joaquim Venâncio a comunidade de Manguinhos dignifica o Técnico que aqui labutou e aqui labuta, e de cujo trabalho sempre dependeu o bom êxito das pesquisas em nossa Instituição. Ele teve o privilégio de ser descoberto e orientado por um homem que, abstraídas as condições peculiares a cada época, foi sem dúvida o mais completo biólogo que este país viu nascer. Nem todos, antes e depois dele, puderam ter idêntico privilégio, Em qualquer situação, porém, a pesquisa científica depende, como sempre, do esforço integrado do cientista, do técnico e do administrador. Nossa Instituição já deu um grande passo quando criou o curso de Auxiliar-Técnico de Pesquisa. Outro passo importante é a implantação, que agora se faz, deste "Politécnico da Saúde Joaquim Venâncio". O nome de seu patrono é o símbolo do trabalho consciencioso e competente a ser cultivado por aqueles que neste ambiente venham buscar a formação adequada à realização de suas vocações.