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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.4 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 1988

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1988000400001 

EDITORIAL

 

Angelo Moreira da Costa Lima - De candidato a cirurgião a entomologista maior

 

 

Mario B. Aragão

 

 

Nunca pensei em escrever nada sobre o Prof. Costa Lima. Também, nunca imaginei que a fábrica de soro antipestoso, que Oswaldo Cruz transformou numa importante instituição de pesquisa, sob a ação de políticos inescrupulosos, chegasse ao ponto de não comemorar o centenário de nascimento desse grande sábio. Sábio é a palavra exata para esse homem que, trabalhou com quase todos os grupos de insetos e, na palavra abalizada do Prof. Hugo Souza Lopes, nunca fez nada errado. Fui seu aluno e pude perceber que ele dominava muitos outros campos de conhecimento.

Parecia tudo menos um cientista. Gostava de andar de macacão, era robusto e tinha fortes traços da raça lusitana. Um dos seus discípulos diletos, Jalmirez Gomes, me contou que, quando foi se inscrever para o vestibular da Escola de Agronomia, ao vê-lo passar, ficou espantado pensando: "que será que esse carroceiro anda fazendo aqui com tanta desenvoltura?"

Suas aulas não eram brilhantes como as do Prof. Melo Leitão, mas dadas com a familiaridade que só pode ter quem trabalhou no assunto. Era o verdadeiro professor pesquisador. Ensinava o que havia feito. Quando a minha turma passou por ele, só havia sido publicado o 1º volume do "Insetos do Brasil". Enquanto estava dando as ordens incluídas nesse volume, tinha sempre o livro aberto em cima da mesa. Acredito que, a medida que os outros volumes foram saindo, fazia o mesmo. Era assim um professor livresco "sui-generis", seguia os seus próprios livros.

Uma das coisas que me impressionou muito, foi a sua finíssima educação. Tinha a língua um pouco solta, isto é, gostava de um palavrão bem empregado. Tínhamos duas moças na turma e, em aula, ele nunca pronunciou uma palavra menos civilizada. Era comum, depois da aula, ficar mostrando bichos e conversando com os alunos. De repente, olhava e se não via as colegas perguntava: "as meninas já saíram?" Se a resposta fosse afirmativa, o palavreado mudava totalmente.

Ainda estudante, precisando ganhar a vida, passou de interno de uma enfermaria de cirurgia para auxiliar acadêmico da campanha de Oswaldo Cruz, contra a febre amarela. Entretanto esse ideal de ser cirurgião, nunca foi esquecido. Quando o seu filho Luiz dedicou-se a essa especialidade, dizia aos amigos: "o Lulu vai ser o cirurgião que eu pretendi ser."

Depois de diplomado em medicina, continuou na saúde pública, tendo feito parte da "embaixada sanitária", de 87 pessoas levadas por Oswaldo Cruz para combater a febre amarela no Pará. Aí também trabalhou no controle da malária e amou o povo e a terra da Amazônia, hoje tratada com tanto desamor.

Certa vez em que levei o entomologista paraense Reinaldo Damaceno para conhecê-lo, ele se entusiasmou contando peripécias do seu tempo de trabalho no Pará. Com muito orgulho lembrou a cerimônia em que colocaram uma placa com o nome de Igarapé Dr. Costa Lima, num riacho que ele havia retificado. Essa placa deve ter desaparecido mas, Damaceno o imortalizou na Amazônia, dando o nome de Museu Costa Lima, ao museu que criou em Macapá, no Amapá. Também, nesse dia, relembrou a amputação de uma perna de um caboclo, que um jacaré tinha dilacerado. Os instrumentos foram as ferramentas existentes no local e a anestesia, um charuto que o caboclo mordeu durante toda a operação, sem dar um grito. Não duvido que essa tenha sido a única intervenção cirúrgica feita pelo médico Costa Lima.

Ainda no Pará, incentivado por Jacques Huber, então diretor do Museu Goeldi, iniciou suas pesquisas entomológicas, que só terminaram quando a vista não mais permitiu continuar.

Regressando ao Rio de Janeiro, nada mais natural do que ser atraído para Manguinhos, por Oswaldo Cruz. Aqui, no laboratório de Lutz se preparou para fazer concurso para a cadeira de entomologia agrícola da Escola Superior de Agricultura, depois Escola Nacional de Agronomia e, hoje, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Dessa forma, passou a fazer pesquisa no Instituto e a ensinar na Escola, sistema que sempre deu tão certo.

Com a lei da desacumulação, optou pela Escola. Escolha muito acertada, pois, se optasse pelo Instituto, a sua vaga na Escola seria ocupada por outro professor e os estudantes ficariam privados de suas aulas. Além do mais, foi o diretor Heitor Grillo que se esforçou para conseguir a publicação dos 12 volumes do "Insetos do Brasil", obra admirada no mundo todo.

Sempre se referia com muita gratidão ao diretor Carlos Chagas que, apesar de ele ter deixado de ser funcionário do Instituto, o manteve na sala que sempre ocupou. Isso era fundamental, pois, em Manguinhos estava a biblioteca, coisa tão rara no Brasil.

Se vivo estivesse, teria completado 100 anos em 1987. Soubemos disso, há poucos dias, num livro publicado por discípulos de discípulos seus. Hoje, tanto os de primeira como os de segunda geração, estão espalhados por todo o Brasil. Há, entretanto, um discípulo todo especial, chama-se Carlos Alberto Santos Seabra. Foi colega do seu filho Luiz e tornou-se amigo do pai. A palavra amigo aqui é pouco. Do meio para o fim da vida, Carlos Alberto era amigo e pai de Costa Lima.

A esse extraordinário milionário e amigo da ciência, que mantém uma fabulosa coleção de insetos em sua casa, onde hospeda os cientistas que vão estudá-la, dedico essas reminiscências do velho Prof. Costa Lima.