SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.5 issue2A propósito de "As duas parasitologias"A importância da abordagem antropológica em estudos na área de saúde author indexsubject indexarticles search
Home Page  

Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.5 n.2 Rio de Janeiro Apr. 1989

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1989000200012 

ANÁLISE

 

A memória de um "cabra da peste"

 

 

Mario B. Aragão

Pesquisador titular da Escola Nacional de Saúde Pública

 

 

História da peste e de outras endemias. Celso Arcoverde de Freitas. Rio de Janeiro, PEC/ENSP, 1988, 214 p.

O Prof. Avila-Pires foi muito feliz ao apresentar Celso Arcoverde como um verdadeiro "cabra da peste". Além dele ser um autêntico representante daqueles nordestinos obstinados que, contra todos os obstáculos, abriram o sertão de São Paulo; no antigo Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu), era o mais importante "cabra da peste". Designação, nem sempre muito amigável, dada aos médicos originários do Serviço Nacional da Peste (SNP).

Sintomaticamente o livro se inicia com sua vivência entre os nordestinos levados, praticamente como escravos, para a zona chamada de Alta Paulista.

Colocamos a palavra memória no título desta resenha porque, ou o Dr. Celso tem uma memória prodigiosa ou este livro foi escrito há cincoenta anos.

A evolução da terapêutica da peste é mencionada várias vezes, e estávamos tristes por não ver nada sobre os inseticidas, quando apareceu a emulsão de sabão e querosene, preparada no local de aplicação e com a qual ainda chegamos a trabalhar. Era eficiente, mas tinha que ser muito bem aplicada.

Apesar de sabermos da admiração que o Dr. Celso tem pelo Dr. Almir de Castro, ex-diretor do SNP, a descrição dada é mais de um burocrata do que de um sanitarista. A bem da verdade deve-se dizer que o SNP era mais um serviço de assistência médica do que de saúde pública. Isso, alias, ficou provado com a análise de sua atuação, feita pelo Prof. Baltazard (Rev.Bras. Malar. D. Tro., 20 (3/4): 335-389, 1963).

Uma coisa que marcou fortemente o SNP foi a recomendação de manter o terreno em torno da casa completamente limpo, para dificultar o trânsito dos roedores. Isso está referido muito ligeiramente no livro mas, em qualquer lugar do Brasil, quando se encontra uma casa com o terreno completamente limpo em volta, certamente se está diante da moradia de um nordestino.

Muito sugestivos são os casos do emprego do sulfeto de carbono, como pulicida e raticida, e da sulfa, como medicamento. Produtos adotados pelo chefe do serviço regional, sem precisar consultar ninguém. Essa liberdade de iniciativa é a grande diferença entre a saúde pública daquela época e a de hoje. Atualmente, os médicos da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM) não têm liberdade para nada. Diante de qualquer problema, têm que esperar que venha um consultor da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) indicar a solução. É por esse motivo que os médicos da SUCAM não evoluíram.

Muito justa a revolta do Dr. Celso contra a espoliação de técnicos feita pela OPAS que, nas décadas de 50 e 60, levou para outros países os melhores elementos da nossa saúde pública. Aproveito, entretanto, para retificar um ponto: nunca trabalhei para a OPAS e sim para a Universidade de El Salvador.

A grande mudança no pensamento e na atuação do Dr. Celso se dá com a criação do DNERU, quando ele passa a ser dirigido pelo grande sanitarista da nossa geração, Dr. Mario Pinoti. Na campanha contra o tracoma, passa a atuar de casa em casa e risca essa doença dos problemas de saúde pública do Brasil.

O capítulo sobre doença de Chagas é extenso e cheio de planos detalhados para o controle dos triatomíneos. Como triatomíneo é praga de pobre, logicamente, tais planos nunca saíram das salas de reunião e do papel. Acontece que, nas duas últimas décadas, o governo, via crédito subsidiado, promoveu a modernização da agricultura, principalmente no centro-sul. Com isso, a lavoura passou a usar largamente inseticidas, o que facilitou a obtenção desses produtos pela população, que passou a usa-los dentro de casa. Essa prática atingiu outros estados, como Goiás e Bahia, e hoje é muito difícil encontrar uma localidade infestada por barbeiros. O que tem sido constatado por nós e por outros pesquisadores.

Ao terminar o livro do Dr. Celso, sentimos uma grande tristeza, diante da situação da saúde pública atual e uma grande pena dos seus profissionais de nível universitário. Médicos da SUCAM transformados em burocratas devido à atuação da OPAS, jovens recém-formados que, para sobreviver com uma bolsa, ficam fazendo cursos na Escola de Saúde Pública, onde podem até atingir o grau de Doutor, sem nunca terem trabalhado na profissão.

É preciso mudar tudo. Um país que deu um Oswaldo Cruz, um Mario Pinoti e um Mario Magalhães da Silveira não pode continuar sem saúde pública.