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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.9 n.2 Rio de Janeiro Apr./Jun. 1993

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1993000200001 

EDITORIAL

 

Carlos E. A. Coimbra Jr.

 

 

O número crescente de autores assinando artigos científicos observado nas últimas décadas tem chamado a atenção de editores de revistas nacionais 1,2 e estrangeiras 3,4 preocupados com questões de ordem ética e operacional, particularmente no que se refere à sobrecarga verificada nos sistemas de documentação e informação bibliográfica. Esta questão voltou à tona recentemente, a partir de matéria publicada no Jornal de Ciência Hoje que veiculou o ponto de vista do editor do Jornal de Pneumologia, gerando reações por parte do público leitor em geral 5.

Especialmente no campo das ciências médicas e biológicas, a autoria múltipla passou a ser um fenômeno cada vez mais freqüente a partir da primeira metade dos anos 50. Por exemplo, no período de 1920 a 1980, o American Journal of Public Health experimentou uma diminuição da ordem de 90% de artigos assinados por um só autor 6. Esta tendência foi constatada em várias outras revistas da área 7,9, já sendo famosos, no meio editorial, alguns casos extremos como o artigo publicado pela revista japonesa Kansenshogaku Zasshi em 1986, que ostenta, pasmem, 193 autores! 10.

Em provocativo artigo intitulado "The Weight of Medical Knowledge" 11, D. Durack calculou que, entre 1955 e 1977, o peso médio de um exemplar do Index Medicus aumentou sete vezes, chegando a quase 30 kg! Segundo o autor, este ganho de peso se deu, em parte, pelo aumento expressivo do número de autores.

O fenômeno da autoria múltipla há de ser visto como conseqüência do processo de especialização na Ciência, na medida em que a crescente sofisticação dos procedimentos técnicos e metodológicos das ditas disciplinas da área da saúde implica, forçosamente, uma colaboração multiprofissional, resultando em publicações de autoria múltipla.

Talvez um dos maiores dilemas enfrentados por autores e editores seja justamente o de estabelecer qual(is) nível(eis) de participação em um trabalho de investigação justifica(m) uma co-autoria. Editores de diferentes revistas têm produzido farto material sobre esta questão12,14. Alguns editores têm sugerido o estabelecimento de um número máximo de autores, como, por exemplo, cinco12. Outros preferem deixar esta responsabilidade inteiramente a cargo do autor principal, chamando a atenção para que se observem as recomendações constantes em um documento produzido pelo International Committee of Medical Journal Editors a respeito dos critérios de autoria de trabalhos científicos. Estes critérios foram acatados por mais de 300 revistas e encontram-se publicados em espanhol no Bol Of Sanit Panam, vol. 107, pp. 422-37, 1989.

Segundo este documento, todos os autores devem ter participação intelectual substancial na concepção, execução e redação do trabalho, sendo, portanto, capazes de assumir publicamente responsabilidade pelo mesmo 7,15. O crédito aos demais colaboradores seria dado na seção de agradecimentos, ao final do trabalho.

Há também quem sugira a substituição do conceito de autoria pelo de crédito nas publicações científicas 16. Segundo esta idéia, seria atribuída uma lista de créditos aos trabalhos, indicando a participação específica de cada colaborador, a exemplo do que ocorre nas produções cinematográficas.

Como pode ser visto a partir desta breve discussão sobre autoria científica, há um intenso debate no meio editorial sobre esta questão e muita preocupação acerca do crescente número de casos de autoria irresponsável 1,2,7. É muito importante que os editores de revistas científicas brasileiras estejam atentos a este debate e busquem implementar as medidas necessárias para coibir os abusos observados neste campo.

 

Referências

(1) Rev Inst Med Trop S Paulo 29:191-93, 1982;

(2) Rev Assoc Med Brasil 32:183-84, 1986;

(3) Br Med J 287:1569-70, 1983;

(4) Can Med Assoc J 130:842, 1984;

(5) veja Jornal de Ciência Hoje, 1993, números 273, 276;

(6) Am J Public Health 76:809-15, 1986;

(7) Bol Of Sanit Panam 108:141-52, 1990;

(8) Lancet 2:1090-91, 1976;

(9) N Engl J Med 301:180-83, 1979;

(10) Science 241:1437, 1988;

(11) N Engl J Med 298:773-75, 1978;

(12) Lancet 2:815, 1984;

(13) Am J Public Health 77:271-73, 1987;

(14) Ann Intern Med 97:602-5, 1982,

(15) Br Med J 291:722-24, 1985;

(16) Ann Intern Med 100:592-594, 984.