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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.9 n.2 Rio de Janeiro Apr./Jun. 1993

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1993000200018 

RESENHA REVIEW

 

Sheila Maria F. Mendonça de Souza

Departamento de Ciências Biológicas
Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz

 

 

Black Mesa Anasazi Health: Reconstructing Life from Patterns of Death and Disease . Martin, D. L.; Goodman, A. H.; Armelagos, G. J. & Magennis, A.L. Carbondale, Illinois: Southern Illinois University at Carbondale Center for Archaeological Investigations, Occasional Paper # 14, 1991, 314 p.
(Paper)
ISBN 0-88104-073-8.npg

Os estudos de paleopatologia são conduzidos há pelo menos 200 anos, mas apenas nas últimas décadas, com a retomada dos enfoques paleoepidemiológicos, tais estudos ganharam destaque como elementos informativos para a reconstituição das formas de vida de populações passadas. Buscando saber como e por que os problemas de saúde deixam de ser problemas individuais e passam a afetar os grupos humanos, ganhando sentido nas coletividades, a paleoepidemiologia, aliando a perspectiva demográfica ao perfil de distribuição das doenças ou a indícios de estresse biológico nas amostras populacionais arqueológicas, busca nexos entre as condições ambientais, os padrões culturais e a morbi-mortalidade, de modo a explicar modos de vida através de padrões de morte e doença.

Na medida em que a condição de saúde dos grupos indígenas atuais torna-se cada vez mais comprometida pelas interferências das sociedades envolventes, o estudo adequadamente contextualizado de amostras populacionais arqueológicas ganha mais importância, por possibilitar a análise de uma situação primordial onde o número de variáveis a serem consideradas é relativamente reduzido e onde o sistema em que se insere o processo saúde/doença pode ser considerado relativamente mais fechado. Nesta situação, pode-se ainda estender a observação, em muitos casos, ao longo de hiatos temporais e geográficos, registrando variações decorrentes de processos de adaptação, evolução cultural, etc., através do acompanhamento das mudanças socioculturais e ambientais, bem como do seu reflexo nas mudanças da biologia humana. Podem ser testados modelos explicativos para as condições de estresse e doença, reforçando, com isso, a perspectiva moderna, que busca entender a doença não apenas através do enfoque biológico, mas, principalmente, através do enfoque social.

É nesta perspectiva que se insere o estudo de Martin e colaboradores sobre a amostra de esqueletos humanos pré-históricos de Black Mesa. Buscando confrontar diferentes aspectos da saúde deste grupo humano, este é um trabalho de grande abrangência, que rompe com os estudos pontuais, temáticos ou de enfoque específico, os quais, embora menos úteis à reconstituição do estilo de vida, ainda predomi-nam entre os trabalhos de paleopatologia.

Vale lembrar, ainda, que este livro apresenta dados de grande interesse para o conhecimento das chamadas populações dos Pueblos, que ocuparam e desenvolveram, por milênios, uma sofisticada modalidade de vida adaptada a áreas desérticas do Sudoeste dos Estados Unidos. Tais grupos pré-históricos, ao estruturarem um sistema de comércio e de contatos distantes, oss quais incluem a Mesoamérica, deixaram numerosos sítios arqueológicos ricos em sepultamentos e em evidências culturais de todos os tipos que, estando freqüentemente bem-conservadas pelo clima seco e quente, oferecem farto material de estudo sobre a saúde e a vida na pré-história.

O projeto arqueológico de Black Mesa desenvolve-se há mais de 15 anos, com trabalhos de pesquisa arqueológica ininterruptos, tendo-se caracterizado, desde o início, por uma marcada interdisciplinaridade. Um grande volume de publicações em diferentes áreas especializadas deve-se a este projeto, que também tem como características a longevidade, a continuidade e a permanente abertura para a reavaliação de abordagens teórico-metodológicas, proporcionando uma revigoração continuada dos dados originalmente recuperados, tal como se dá agora com relação à biologia esqueletal apresentada pelos autores deste livro.

Ao agrupar e rediscutir os conhecimentos produzidos a partir dos esqueletos humanos de Black Mesa, além de introduzir mais informações sobre a saúde dos 172 indivíduos ali sepultados, o livro discute dados sobre a mortalidade, a morbidade e a dieta desta amostra populacional, buscando explicar aquela ocupação pré-histórica como um momento específico da estratégia adaptativa desses grupos Anasazi, que procuravam ampliar sua área de ocupação territorial sobre o platô dispersando-se sob a forma de pequenas unidades populacionais, a fim de mais eficientemente explorar o ambiente árido e de recursos econômicos dispersos. Os dados paleopatológicos apresentados no livro, além de instrumentarem a discussão desta estratégia adaptativa, permitiram uma comparação com as amostras esqueletais dos Pueblos propriamente ditos, que representam fases economicamente estáveis e de grandes assentamentos das mesmas populações Anasazi.

A ocupação pré-histórica de Black Mesa, datada de 800 a 1150 da nossa era, representa, portanto, um momento de expansão populacional, de inovação cultural, de tentativa de exploração de um ambiente mais adverso e, conseqüentemente, de transição na saúde. É um momento no qual se supunha um estresse biológico maior; conseqüentemente, um momento com maiores reflexos sobre a saúde do grupo. Mas, no presente caso, verificou-se que, embora sujeitos a uma maior solicitação, os Anasazi daquela ocupação pré-histórica, tendo desenvolvido formas diversificadas e versáteis de exploração do ambiente, lograram atenuar o impacto adaptativo desta transição econômica, não apresentando a prevalência esperada dos indicadores de estresse ósseo e dentário, que, para os autores, em que pese a complexidade do tema, são os elementos que permitem aferir com mais sensibilidade o impacto do modo de vida sobre as populações humanas antigas.

O plano do livro apresenta capítulos temáticos sobre os diferentes tópicos escolhidos para o estudo paleoepidemiológico, uma rápida síntese final e quatro anexos com aspectos metodológicos e informações adicionais ao texto.

Após uma apresentação geral sobre as possibilidades de se estudar a saúde através de amostras esqueletais, o livro discute os resultados da paleodemografia de Black Mesa, buscando explicar a vida a partir dos padrões de morte.

No capítulo seguinte são descritas as disponibilidades de alimento na região, os restos de cozinha encontrados nos sítios Anasazi e informações sobre aspectos paleonutricionais.

Passando-se aos sinais esqueletais e dentários de estresse, são inicialmente discutidos os indicadores de tipo cumulativo, traduzidos pelo crescimento e desenvolvimento físico de crianças e adultos, sendo fornecidos os valores médios de todos os dados osteométricos utilizados.

Os capítulos que se seguem — os mais bem-apresentados — oferecem farta documentação sobre os indicadores episódicos de estresse, sobre defeitos de esmalte dentário e sobre as infecções do esqueleto em geral. São discutidos o significado e os problemas da interpretação das hipoplasias de esmalte enquanto indicadores de problemas da infância, sendo comparadas a sua incidência nas dentições permanente e temporária e sua distribuição por idade na amostra. Em relação aos indicadores inespecíficos de infecções, é documentada a distribuição dos sinais de periostites, osteomielites e osteítes, discutindo-se os riscos individuais de adoecer e seu incremento na fase tardia de ocupação de Black Mesa.

No capítulo seguinte é estabelecida uma relação entre dieta e sinais de doença carencial, sendo quantificados e interpretados os sinais de ferroprivação, que são pouco graves e episódicos na amostra.

Finalmente, são descritas as patologias dentárias, não sendo observadas características peculiares neste grupo, quando comparado a outros da região. Neste capítulo é também oferecida farta documentação primária.

Ao final do livro é feita uma discussão sobre a saúde dos grupos Anasazi e o custo adaptativo de sua permanência em Black Mesa.

Não são discutidos aspectos detalhados de outras patologias cujo significado epidemiológico é reduzido. Não chega a ser delineada uma patocenose para o grupo, ou mesmo um panorama completo das doenças observadas. Outro tipo de dado que não é utilizado aqui é um indicador classicamente considerado em estudos paleoepidemiológicos: as linhas de crescimento arrastado, ou linhas de Harris.

Os apêndices, ao final do livro, contêm os tipos de base de dados empregados em estudos paleopatológicos, uma descrição dos ancestrais dos Anasazi, através da amostra II de Black Mesa; e um estudo que mede a distância biológica entre a população de Black Mesa e outros grupos do Sudoeste norte-americano.

Cada um dos capítulos inicia-se com uma ampla discussão teórica e de revisão sobre o item a ser estudado, suas possibilidades e problemas metodológicos, de modo que, além de informar sobre a questão específica dos Anasazi, torna-se útil como material didático, mesmo para estudantes ou iniciantes no tema. No entanto, a multiplicidade de autorias é notada pela ausência de uniformidade do volume, variando os capítulos quanto ao estilo e à forma de apresentação.

Numa primeira avaliação, pode haver uma tendência a criticar a falta de uma costura maior dos textos, talvez sob a forma de uma síntese final mais abrangente, que arrematasse a rica soma de contribuições que compõem o livro. Porém, ao nos reportarmos de volta ao espírito da pesquisa, que é colocado pelos autores no início do livro, e retornarmos ao volume, folheando sua riqueza de informações primárias, sob a forma de tabelas, gráficos e dados de toda ordem, torna-se possível reavaliar esta forma aberta do texto, considerando-a coerente com a proposta de uma pesquisa que, por vocação, tem permanecido aberta a novas contribuições e revisões que possam continuamente trazer luz sobre áreas ainda não desveladas da pré-história.

Em Black Mesa, o estudo paleoepidemiológico, à semelhança de toda a pesquisa arqueológica, não se encerra no livro de Martin e colaboradores. Mas, a partir dele, é dado mais um grande passo para inserção da paleoepidemiologia como ferramenta essencial à reconstituição da vida a partir dos estudos da morte.