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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.10  suppl.1 Rio de Janeiro Jan. 1994

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1994000500001 

EDITORIAL EDITORIAL

 

 

Maria Cecília de Souza Minayo

Coordenadora Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde

 

 

Este número temático tenta reunir uma amostra do esforço de reflexão e pesquisa sobre o tema da violência e sua articulação no campo da Saúde Pública, sobretudo na última década.

O incremento da violência na realidade social brasileira repercutiu intensamente no pensamento intelectual do país. Estudos bibliográficos já realizados por nós mostram que, em todas as áreas do conhecimento, cerca de 85% da produção acadêmica sobre o tema acontece a partir dos anos 80.

A reflexão sobre o impacto da violência na saúde, através da classificação "causas externas", também cresceu nos anos 80. Mas o tema tem uma história, uma tradição e nomes (vários deles comparecendo com artigos e/ou citações no presente periódico) que datam da década anterior, concentrando-se sobretudo, em São Paulo, na Universidade de São Paulo e na Universidade Estadual de Campinas. A Fundação Oswaldo Cruz comparecia com uma pequena participação e se incorporou aos esforços mencionados através da criação, na Escola Nacional de Saúde Pública, do Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde (Claves), em 1989. O fato de estar exclusivamente voltado para o tema da violência no campo da saúde tem propiciado tanto a dinamização de investigações quanto a sua articulação com pesquisadores nacionais e internacionais, bem como com os movimentos e serviços sociais e de saúde.

Em que pese todo o esforço dos pesquisadores, a reflexão brasileira sobre o impacto da violência sobre a saúde é incipiente. Os estudos se reduzem, na sua quase totalidade, a diagnósticos de situações, sem todavia atingirem, de forma operativa, os serviços de saúde e o planejamento de ações. Esta constatação, porém, não pode ser creditada apenas aos investigadores. Se o campo de pesquisa é recente, muito mais recente ainda é o interesse das organizações nacionais e internacionais de saúde de reconhecerem o tema, de discutirem-no e de colocá-lo como prioridade. Isto se dá apenas a partir de 1991, através da Organização Panamericana de Saúde e da Organização Mundial da Saúde, culminando agora, em 1994, com a I Conferência Interamericana sobre Sociedade, Violência e Saúde, a ser realizada de 16 a 18 de novembro, em Washington.

No Brasil, o Ministério da Saúde, através do Programa Materno-Infantil, a partir de 1993, passou a integrar a reflexão sobre violência contra crianças e adolescentes. Mas o tema necessita uma abrangência muito maior, que certamente só será alcançada a partir da consciência da gravidade da situação gerada para a saúde a partir da violência social.

Este número temático dos Cadernos de Saúde Pública tenta ser uma síntese dos esforços de reflexão dos últimos anos e, ao mesmo tempo, um dinamizador de debates e propostas. Por isso, os artigos e opiniões aqui expressos não apresentam uma unanimidade de pensamento. Constituem, ao contrário, um exemplo da controvérsia sobre o assunto, que perpassa a sociedade e o campo intelectual.

Este número temático está dedicado a Jorge Careli, que, a partir de agora, dará nome ao Claves. Este jovem trabalhador, funcionário da Fundação Oswaldo Cruz, foi ceifado pela morte violenta aos 32 anos de idade. Seqüestrado numa favela pela polícia, violentado, torturado e morto, tendo sido o corpo atirado em algum cemitério clandestino, ele jamais pôde receber o consolo do sepultamento. Seu caso é semelhante ao de muitos jovens pobres brasileiros que hoje saturam as estatísticas de mortes violentas, constituindo, assim, um grupo de risco preferencial: homem, jovem, pobre.

Para nós, ele é o patrono e o símbolo do que, na área da saúde, se quer exorcizar e exaltar. Exorcizar a banalização da vida e exaltar a integridade humana de quem, humildemente, vive o cotidiano, trabalha, ama, participa e, assim, constrói um país saudável.