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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.13 n.2 Rio de Janeiro Apr. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000200004 

DEBATE DEBATE


Antônio Abrantes

Departamento de Filosofia, Pontífica Universidade Católica, Rio de Janeiro


Debate sobre o artigo de Regina Cele de A. Bodstein

Debate on the paper by Regina Cele de A. Bodstein

 

 

" Uma questão decisiva para mim, hoje, é a seguinte: como pode um sistema político acomodar-se à era tecnológica e que sistema político seria este? Não tenho resposta para essa questão, mas não estou convencido que seja a democracia." (Martin Heidegger, em entrevista a Der Spiegel - 1966)

Restrinjo-me aqui, a título de colaboração lateral e não de crítica frontal, a um esclarecimento da posição de Hannah Arendt perante a questão da emergência ou ascensão do social. Como se sabe, o 'social' ou a 'sociedade' para Arendt não é um conceito universal indiscriminadamente aplicável a quaisquer grupamentos humanos, mas uma formação tipicamente ocidental (européia) e moderna que irá disseminar-se ao longo de quatro séculos e recobrir o planeta. A emergência do social, tal como descrita pela primeira vez por J. J. Rousseau, em 1750, consiste, para Arendt, na destruição da rígida delimitação entre o público (o que é para aparecer) e o privado (o que não é para aparecer) reinante nos mundos grego e romano. Herdeira do pensamento de Martin Heidegger sobre a verdade como desvelamento (alétheia), o tema do 'aparecer' e das 'aparências' sempre esteve presente, e de várias formas, em sua obra. No Discurso sobre as Ciências e as Artes, Rousseau afirma que o que caracteriza "este rebanho chamado sociedade" (grifo meu) é o fato de que "não se ousa mais [a] parecer tal qual se é", de onde se segue um rosário dos vícios modernos que atingem perversamente o conjunto das relações inter-humanas (Rousseau cita explicitamente a destruição da philia). Perante a perversidade do social Rousseau, refugia-se na 'intimidade' do coração, substituindo, assim, a antiga oposição entre o público e o privado pela nova oposição entre o 'social' e o 'íntimo' (vide o tom confessional justamente das Confissões de Rousseau que iria determinar o tom geral do 'romance' de Proust). O interesse de Arendt pela emergência do social (que ela pôde conhecer desde muito cedo em suas pesquisas para a redação de Rahel Varnhagen, uma judia alemã que encarnou por excelência, nos salões berlinenses do início do século XVIII e na correspondência íntima, as ambigüidades do social) tem por objetivo o que se poderia chamar de uma genealogia da 'sociedade de massas'. De fato, para Arendt, a 'sociedade de massas' é o legítimo produto da sociedade, ou seja, a generalização inclusiva da sociedade.

Mas é importante notar que, para Arendt, a ascensão da sociedade é acompanhada, de forma decisiva, pela descoberta e subseqüente disseminação da 'subjetividade' ou do 'sujeito' no sentido moderno, cartesiano, do termo. Ou seja, a constituição da sociedade como ruptura histórica (Heidegger diria historial) tem como contrapartida e complemento a constituição da subjetividade como ruptura historial. A invenção ou a descoberta do sujeito (não do indivíduo) é o fato que irá determinar, sobretudo, o desdobramento do social e das questões a ele relacionadas, tais como o equacionamento entre propriedade e riqueza, a assimilação do político pelo econômico, a inédita e radical valorização do labor, o filisteísmo burguês e a cultura de massas e mesmo a implosão do Estado nacional. Para Arendt, a descoberta da subjetividade é, para empregar uma expressão há muito em desuso, o que determina, em última instância, as desventuras do mundo moderno. Isto se dá justamente porque se trata cada vez mais de um mundo que perdeu sua qualidade própria de 'mundanidade', de 'mundo comum', que, como uma mesa em torno da qual nos reunimos, ao mesmo tempo reunia e separava a existência plural dos homens na Terra e que fazia as vezes de um anteparo que protegia tal existência da voracidade destruidora e niveladora dos processos naturais. A noção de 'mundanidade' (também herdada de Heidegger, mas reelaborada em termos puramente ônticos) e o 'sentido de realidade' (sensus communis) que lhe correspondem são sacrificados progressivamente por uma 'subjetividade' cuja última figura, a mais recente, está dita na expressão 'era tecnológica'. A sociedade (da era da técnica) é a expressão suprema da ego-idade (que não se resume ao egoísmo ou individualismo, meros derivativos) de uma subjetividade pretensamente certa de si, que em seu encapsulamento se afirma soberana e, portanto, livre. Para Arendt, o projeto de uma "sociedade como artefato" (para me utilizar de uma expressão de R. Mangabeira Unger) é o resultado da ascensão da subjetividade e da concomitante ilusão de soberania e liberdade ao máximo (o 'mito do dado' é a expressão preferida de R. Rorty, admirador confesso das filosofias políticas de Unger e Castoriadis) a ela associada. A subjetividade (e a tecnologia, compreendida como gramática do mundo contemporâneo) é uma potência alienada que, longe de ser livre, é o resultado de um acordo fáustico como afirma Kafka (em palavras citadas por Arendt): "Ele descobriu o ponto arquimediano [o locus da subjetividade] mas aplicou-o contra si mesmo; ao que parece esta era a condição para que Ele o descobrisse".

Este sujeito genérico e justamente anônimo (Ele), em sua ânsia (a hybris moderna, o espírito da impaciência) de assaltar os céus, fez um pacto que não pode mais descumprir e cuja cláusula única e deveras estranha reza que o suposto benefício só pode ser aplicado contra o beneficiário. Em Arendt, a 'questão da técnica' tem precedência, por ser mais ampla e originária, sobre a 'questão social', mas aprofunda sua compreensão, creio, para muito além do que até aqui puderam fazer seja o marxismo, seja o liberalismo (o neo-liberalismo não pensa, apenas, como se fosse pouco, faz coisas no mundo). Por último, é a 'questão da técnica' que libera o pensamento para a compreensão da 'demoeracia planetária' em que vivemos como a forma suave e mais insidiosa, ou inclusiva, da dominação totalitária (algo que justamente havia sido intuído por Tocqueville), a forma mais autêntica dos transes de nossos tempos.