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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.13 n.2 Rio de Janeiro Apr. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000200007 

DEBATE DEBATE


Luiz Fernando Dias Duarte

Departamento de Antropologia, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.


Debate sobre o artigo de Regina Cele de A. Bodstein

Debate on the paper by Regina Cele de A. Bodstein

 

 

Este fim de século certamente haverá de estar marcado por um renovado questionamento das relações entre 'cidadania' e 'questão social', como oportunamente nos propõe Regina Bodstein.

Muitos anos de esmorecimento do ideal da igualdade sucederam à desmoralização ideológica e sucessivo desmoronamento interno dos regimes socialistas da Europa do Leste e à opaca mistura de pragmatismo econômico e intolerância política dos seus congêneres do Oriente; assim, acabaram coincidindo com o retorno fanfarrão e generalizado de um liberalismo sem peias e sem pejo. Já se percebe hoje, porém, a renovada reação à tirania da liberdade econômica, que sufoca as liberdades sociais, aprofunda a desigualdade e o desamparo social – enfim faz reavivar a antiga 'questão social' – alimentada agora, inclusive, com os tons apocalípticos da ruptura do equilíbrio da biosfera, da relação global da Humanidade com a Terra.

É, assim, muito conveniente que o pensamento social retorne à clássica oposição entre liberalismo e marxismo para lhe reinstilar novas dimensões e horizontes, reavivando o potencial de saber e discernimento a propósito do futuro da cultura ocidental moderna e de sua planetária irradiação.

A segunda grande qualidade do texto de Regina Bodstein é a de se dispor a esse empreendimento pela utilização da análise antropológica do 'individualismo' de Louis Dumont em cruzamento com diversas propostas de cientistas (ou filósofos) políticos como Hannah Arendt, Claude Lefort, Norberto Bobbio ou Cornelius Castoriadis – num confronto que eu nunca vira sistematicamente realizado. O sistema analítico de Louis Dumont influenciou intensamente o desenvolvimento da antropologia aplicada à sociedade nacional brasileira nas últimas décadas, mas sempre suscitou suspeita ou desprezo aos olhos da maior parte dos pensadores mais imediatamente políticos. Continuo acreditando, porém, como a autora, que sua obra é chave para qualquer interpretação do mundo moderno, no mesmo sentido em que ele considera que o individualismo seja – como ela evoca – "a chave da ruptura radical da época moderna".

Dentro desse horizonte, Regina Bodstein procede ao necessário esclarecimento da relação do conceito de individualismo com as noções de liberalismo e marxismo, distinguindoa da acepção de senso comum. o marxismo não se opõe (como um coletivismo) a um individualismo empírico, mas, na verdade, dele se origina e nutre. O que distinguiria assim os pólos do liberalismo e do marxismo seria o caminho, a estratégia ou o meio histórico de atingir os ideais culturais individualistas de liberdade e igualdade. E, na realidade, o marxismo se constituiu historicamente como uma espécie de'correção de rumos' em relação àquela grande transformação econômica e cultural de que Marx tentou produzir a redução analítica, sub-sumindo-a na figura do modo de produção capitalista. Como bem lembra a autora, evocando Hannah Arendt: " ... a igualdade política faz emergir para o cenário público a desigualdade social, a pobreza, enfim, tudo que está de uma forma ou de outra relacionado com o domínio da necessidade, dá produção material e do universo do trabalhador".

O próprio Marx era muito claro a esse respeito: a possibilidade de superação da alienação imemorial do homem dependia da emergência de uma consciência dessa alienação, que só era propiciada pela forma específica e pela intensidade radical que assumia com o advento do capitalismo. Se descontarmos de sua teoria o pressuposto da determinação pelo econômico e da sua evolução histórica linear, já temos em mãos a essencial do ponto em que conflui a análise de Regina Bodstein: a 'questão social' não é analiticamente o outro da cidadania e das liberdades civis. Trata-se de valores irmãos, nutridos pela fonte comum da ideologia do individualismo – ainda que empírica e historicamente separados. É nesse sentido, aliás, que discordaria da autora quanto à ausência de "um lugar para o indivíduo na concepção materialista da história". Se é notório que o economicismo ou o estruturalismo prevaleceram em tantos momentos, não se pode esquecer que eles estiveram sempre lutando contra os voluntarismos e humanismos, que teimaram sempre em repontar dentro do mais interno pensamento marxista. Mas o papel principal do indivíduo nessa visão de mundo me parece residir menos na maior ou menor condição de ator, e mais na sua condição de unidade de valor, na construção da representação dessa sociedade ideal, desse mundo libertado da necessidade, onde todos os indivíduos serão iguais e livres.

Mas – em outra direção – a autora avança ainda ao permitir a inquietação com as razões pelas quais se produziu aquela separação entre os 'dois caminhos. Nesse ponto, ela não acompanha L. Dumont e sua explicitação de dois nódulos essenciais para compreender as vicissitudes dos nossos mais caros ideais. O primeiro é o da relação complexa entre individualismo e hierarquia (no sentido muito específico em que a define a teoria dumontiana) e o segundo é a também complexa relação entre os valores da liberdade e da igualdade dentro da própria configuração cultural montada com base no individualismo.

Este último ponto foi explicitado com toda clareza pelo clarividente Tocqueville (bem lembrado por Regina Bodstein), ao se inquietar com os riscos 'totalitários' da 'empreitada de alto risco' em que a construção do mundo livre e igualitário se comprometia. Muitos outros autores se ocuparam desse dilema – e sempre me parecem particularmente esciarecedoras as demonstrações bem concretas de Alhert Hirschman em seu livro Os Interesses e as Paixões: o contraponto longuíssimo entre 'livre cambista' e 'dirigistas' que construiu a poderosa Grã-Bretanha, com toda a sua grandeza e miséria.

O ponto anterior – aquele relativo à hierarquia - teria muitos momentos de proximidade com uma outra questão crucial levantada pela autora – a idéia de que: "Sem dúvida, essa distância abissal entrefato e norma, aliada à perplexidade diante dos paradoxos e contradições da época moderna, contribuíram decisivamente para a formação de um pensamento propriamente sociológico". Tanto o marxismo, quanto as demais e subseqüentes propostas de um pensamento sociológico (mas também algumas das que o antecedem, como a de Russeau) podem ser vistos certamente como decorrentes da percepção da necessidade da tal correção de rumos. Essa percepção, por outro lado, quase sempre se confunde com uma perspectiva que se tem de chamar de romântica – no sentido filosófico e não sentimental do termo; – ou seja, no sentido de atenta à totalidade. Na verdade, o que o pensamento social – sob as suas mais diversas formas – vem observar é não apenas que a contradição e o sofrimento campelam pelo mundo 'libertando", mas também, sobretudo, que essas contradições e sofrimentos concernem a todos nós, irmanados por nossa condição social, por pertencermos a totalidades que ultrapassam a mera existência individual.

É nesse sentido que se poderia augurar que o argumento de Regina Bodstein ainda venha a avançar muito mais na trilha fecunda e essencialmente lúcida que ela abre, de recolocação das condições de afirmação desses "nossos mais caros ideais" – tão complexos e contraditórios.