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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.13 n.2 Rio de Janeiro Apr. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000200021 

NOTA RESEARCH NOTE


Carlos Tito Guimarães1
Marilza Antunes de Souza1
Delza de Moura Soares1
Cecília Pereira de Souza1

Levantamento malacológico em parques urbanos de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil

A malacological survey in city parks in Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil 


1Centro de Pesquisas René Rachou, Fundação Oswaldo Cruz. Av. Augusto de Lima 1715, C. P. 1743, Belo Horizonte, MG 30190-002, Brasil.   Abstract The Greater Metropolitan Area of Belo Horizonte currently contains 18 city parks (also known as "ecological parks") with various bodies of water (lakes, springs, streams, etc). Initial research in 17 of these parks showed the occurrence of intermediate mollusk hosts for Schistosoma mansoni in at least 4. Monthly captures done from August 1994 to February 1996 showed the following results for these planorbids: Julien Rien Park: 1,145 specimens of Biomphalaria glabrata (2 to 13 mm); Betânia Park: 149 specimens of B. glabrata (4 to 13 mm); Santa Lúcia Park: 2,431 specimens of B. straminea (3 to 9 mm); and Lagoa do Nado Park: 3 specimens of B. tenagophila (3 to 10 mm). Visits to the parks will continue, and after a diagnosis of each park's situation, control and/or eradication measures suitable for each one will be proposed to the municipal authorities.
Key words Schistosomiasis; City Parks; Planorbidae; Biomphalaria; Epidemiology

Resumo Existem atualmente na região metropolitana de Belo Horizonte 18 parques urbanos (também denominados "parques ecológicos") com coleções hídricas (lagoas, nascentes, córregos etc). Pesquisas iniciais em 17 destes parques mostraram a ocorrência de moluscos hospedeiros intermediários do Schistosoma mansoni em pelo menos quatro deles. Capturas mensais nestes parques, de agosto/94 a fevereiro/96, mostraram os seguintes resultados em relação aos planorbíneos: Parque Julien Rien: 1.145 exemplares de Biomphalaria glabrata (2 mm a 13 mm); Parque Betânia: 149 exemplares de B. glabrata (4 mm a 13 mm); Parque Santa Lúcia: 2.431 exemplares de B. straminea (3 mm a 9 mm) e Parque Lagoa do Nado: três exemplares de B. tenagophila (3 mm a 10 mm). As visitas aos parques terão prosseguimento e, após um diagnóstico sobre a situação de cada parque, serão sugeridas às autoridades municipais medidas de controle e/ou erradicação adequadas a cada área.
Palavras-chave Esquistossomose; Parques Urbanos; Planorbidae; Biomphalaria; Epidemiologia

 

 

Introdução

 

A esquistossomose mansoni, considerada por muito tempo uma "endemia rural", é encontrada hoje na periferia e mesmo dentro das grandes cidades,como nos casos de Salvador, Fortaleza e Belo Horizonte.

A necessidade da adoção de medidas urgentes de combate a esta helmintose fica clara ao se considerar que, em 17 dos estados braisleiros, existem áreas de transmissão desta doença (Amaral & Porto, 1994).

Dentre os locais dentro das cidades que podem favorecer o aparecimento de focos de transmissão de esquistossomose, os parques urbanos, notadamente aqueles que se caracterizam pela riqueza hídrica, oferecem ambientes favoráveis para o estabelecimento de criadouros de moluscos, que, via contaminação fecal, podem se transformar em focos de transmissão desta parasitose.

Em Belo Horizonte, existem atualmente 18 parques urbanos com coleções hídricas. Pesquisas iniciais em 17 deles mostraram a ocorrência de planorbíneos hospedeiros intermediários do Schistosoma mansoni em pelo menos quatro, além de outros moluscos. O objetivo deste trabalho é verificar a ocorrência daqueles planorbíneos nas coleções hídricas destes parques e sugerir às autoridades municipais medidas que, se corretamente aplicadas, possam dificultar ou impedir o aparecimento de focos de esquistossomose nestes locais, como ocorreu no Parque Julien Rien em Belo Horizonte (Guimarães et al., 1993).

 

 

Material e métodos

 

Durante 19 meses (agosto/1994 a fevereiro/1996), 17 parques urbanos de Belo Horizonte, com coleções hídricas, foram pesquisados visando verificar a ocorrência de moluscos nas mesmas. As capturas foram feitas com conchas metálicas (18 cm de altura, 16 cm de diâmetro superior e 12 cm de diâmetro inferior com perfurações de 3 mm no fundo e nas paredes) adaptadas a cabos de madeira com 1 m de comprimentos, conforme técnica descrita por Thiengo (1995). Os moluscos capturados foram encaminhados ao laboratório, onde foram contados, mensurados e identificados. Posteriormente, foram examinados por exposição à luz e por esmagamento para verificar se estavam infectados pelo S. mansoni.

 

 

Resultados

 

A Tabela 1 mostra que, em seis (35,3%) dos 17 parques pesquisados, ocorreram moluscos, e em quatro (23,5%) foram capturados 3.728 exemplares do gênero Biomphalaria. A espécie B. glabrata foi encontrada em dois parques (Julien Rien e Betânia), enquanto B. straminea e B. tenagophila ocorreram em dois outros (Santa Lúcia e Lagoa do Nado, respectivamente). O diâmetro dos exemplares de B. glabrata variou de 2 mm a 13 mm; o de B. straminea de 3 mm a 9 mm e o de B. tenagophila de 3 mm a 10 mm. Nenhum planorbíneo albergava cercárias de S. mansoni. Além dos planorbíneos, foi capturado um total de 5.251 moluscos não hospedeiros daquele helminto.

 

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Discussão e conclusão

 

Os primeiros casos comprovadamente autóctones de esquistossomose mansoni em Belo Horizonte foram descritos em 1919 por Teixeira (1920). Paralelamente, este mesmo autor relata pela primeira vez a ocorrência do planorbíneo Planorbis centimetralis (atualmente Biomphalaria straminea) na capital mineira, responsabilizando esta espécie pela transmissão da helmintose.

Cerca de 18 anos mais tarde, Martins & Versiani (1938) afirmaram que "praticamente todos os cursos e coleções d'água da cidade e de seus arredores albergavam, em grande número, os moluscos hospedeiros intermediários de Schistosoma mansoni...". Entretanto, o primeiro levantamento malacológico em Belo Horizonte foi feito por Martins et al. (1953), quando foram capturados 20.434 planorbíneos, dos quais 20.332 (99,2%) eram da espécie B. glabrata, sendo que 1.055 (5,2%) eliminavam cercarias de S. mansoni. De 1.447 locais pesquisados (córregos, valas de irrigação, lagoas, brejos, poços etc.), 641 (46,7%) albergavam moluscos.

Ao longo dos anos, diversos autores (Paraense & Santos, 1949; Milward-de-Andrade, 1962b, Cotta & Milward-de-Andrade, 1967; Souza et al., 1981; Guimarães et al., 1993) relataram a ocorrência de focos de esquistossomose em Belo Horizonte. É importante ressaltar que, segundo estes autores, à exceção de Paraense & Santos (1949) e Guimarães et al. (1993), os planorbíneos foram sempre encontrados nos criadouros clássicos, ou seja, córregos, lagoas e valas de irrigação localizados na periferia de Belo Horizonte, onde a urbanização era insuficiente ou mesmo inexistente. Todavia, a partir de 1983, Guimarães et al. (1990) começaram a capturar moluscos em locais que fugiam dos padrões clássicos dos criadouros. Foram coletados planorbíneos hospedeiros intermediários do S. mansoni em pequenos lagos artificiais de parques urbanos, jardins e prédios públicos, assim como em aquários de residências e de lojas que vendiam peixes ornamentais nos chamados "criadouros do asfalto" (Guimarães et al., 1990). A partir destes achados, diversos destes locais começaram a ser estudados e, em um deles (Parque Julien Rien), foi identificado um foco de transmissão de esquistossomose (Guimarães et al., 1993).

Localizado na zona sul de Belo Horizonte (Figura 1), em uma região totalmente urbanizada, o Parque Julien Rien ocupa uma área de 48.000 m2 e possui uma nascente principal e algumas secundárias (olhos d'água). Durante dez anos (1983 a 1992), foram feitas 28 capturas neste  parque, tendo sido coletados 3.361 exemplares de B. glabrata, dos quais 23 (0,7%) estavam infectados pelo S. mansoni. O Parque Julien Rien é uma área de lazer freqüentada por crianças e adolescentes moradores das proximidades e por menores carentes oriundos da periferia da cidade, sendo que estes últimos usam o local para dormir, lavar roupas e fazer suas necessidades fisiológicas. Em conseqüência, é comum o encontro de fezes humanas no local, o que explicaria a presença de exemplares de B. glabrata infectados pelo S. mansoni.

 

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Paralelamente, é importante relatar que o Parque Santa Lúcia, também localizado na zona sul de Belo Horizonte (Figura 1) e ocupando uma área de 98.000 m2, albergava, em 1960, uma população de B. glabrata em processo de extinção (Milward-de-Andrade, 1962a). Todavia, em fevereiro de 1995, foram capturados neste parque 64 exemplares de B. straminea. A partir daí, todas as capturas feitas no local apontaram a ocorrência deste planorbíneo em altas densidades (Tabela 1), mostrando ter ocorrido a introdução desta espécie naquele parque. Souza et al. (1996), em infecções expe- rimentais de trezentos exemplares destes planorbíneos e de seus descendentes (F1) com cepas LE e VGS (a segunda obtida de ovos encontrados em fezes de estudante de Belo Horizonte), conseguiram taxas de infecção experimental variando de 10,3% a 12%.

À exceção do parque Julien Rien, onde a presença de exemplares de B. glabrata infectados pelo S. mansoni já foi comprovada, a importância epidemiológica da ocorrência de planorbíneos nos outros parques ainda não está bem determinada. Estes parques continuarão sendo acompanhados e, de acordo com os dados obtidos ao longo do tempo, medidas que possam dificultar ou, se possível, impedir o aparecimento de focos de transmissão de esquistossomose nos mesmos serão encaminhadas às autoridades municipais responsáveis por esta área.

 

 

Referências

 

AMARAL, R. S. & PORTO, M. A. S., 1994. Evolução e situação atual do controle da esquistossomose no Brasil. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 27:73-90.         [ Links ]

COTTA, E. & MILWARD-DE-ANDRADE, R., 1967. A esquistossomose mansoni em Belo Horizonte, MG (Brasil). Situação antiga e atual do problema. Revista Brasileira de Malariologia e Doenças Tropicais, 19:161-184.        [ Links ]

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