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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.13 n.2 Rio de Janeiro Apr. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000200026 

TESES THESIS

 

 

BRICOLA FILHO, M., 1996. Descrição Ultra-Sonográfica dos Sistemas Coletares dos Rins em Gestantes e em Mulheres no Puerpério Imediato (Anibal Faúndes, orientador). Dissertação de Mestrado, Campinas: Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas. 69 pp. Anexos

 

A dilatação dos sistemas coletores dos rins é freqüente durante a gestação, tendo como fatores etiológicos mais prováveis a compressão do útero sobre os ureteres (teoria mecânica) e os níveis elevados de progesterona que promoveriam diminuição do peristaltismo e dilatação dos ureteres (teoria hormonal). Apesar de se considerar este fenômeno como fisiológico, não se tem determinado na literatura os limites sobre os quais esta dilatação passaria a ser interpretada como patológica. Com o objetivo de avaliar o comportamento do sistema coletor renal durante a gestação e no puerpério imediato, realizou-se um estudo descritivo e de corte transversal, onde 1.485 gestantes e 181 puérperas tiveram os sistemas coletores dos rins avaliados e graduados por ultra-sonografia de acordo com a medida do diâmetro calcar máximo. Para melhor visibilidade dos rins, as pacientes foram posicionadas em decúbito lateral, obtendo-se a imagem no sentido longitudinal do órgão. Utilizaram-se ecógrafos da marca Toshiba, modelos 140, 250 e 270, com sondas 3,5 e 3,7 MHz, calibrados para uma velocidade em tecidos moles de 1540 m/s. Somente gestantes e puérperas sem patologias foram incluídas no estudo. Foi considerada como variável dependente o diâmetro calicial máximo; como variáveis independentes as semanas da gestação, a paridade e o puerpério imediato; e como variáveis de controle a idade da mulher e o tipo de parto. A análise estatística foi realizada através do Teste Qui-Quadrado e Teste t de Student. Observou-se que 53 % das gestantes e 6 % das puérperas apresentaram algum grau de dilatação dos sistemas coletores renais. Foram criadas curvas utilizando-se o percentil 90 e associou-se o diâmetro calicial máximo com a idade gestacional, indicando que no rim direito, a dilatação vai aumentando com a evolução da gestação, até atingir aproximadamente 20 mrn entre a 31a e 33a semana, a partir da qual permanece estável até o termo. No rim esquerdo, o diâmetro calcar máximo atinge 9 mm entre a 22a e 24a semana, permanecendo neste patamar com leves oscilações, sem demonstrar qualquer tendência até o termo. Com a utilização desta curva, poderíamos interpretar como patológico quando o diâmetro calicial máximo estivesse acima do pecentil 90. Comparativamente, o rim direito foi mais acometida que o esquerdo, tanto na freqüência como na severidade. Detectou-se uma associação estatisticamente significativa entre o grau de dilatação e a paridade, sendo mais freqüente e mais severa nas primigestas.

 

 

ANDRADE, V., 1996. Evolução da hanseníase no Brasil e perspectivas para sua eliminação como um problema de saúde pública (Adauto José Gonçalves de Araújo & Paulo Chagastelles Sabroza, orientadores). Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz.

 

In Brazil the leprosy detection trend has been increased over the last years and this is often interpreted as a sign of spread of the disease. This work aims at analyzing indicators of leprosy morbidity in order to assess the magnitude of the problem of this endemie in Rio de Janeiro and in Brazil as a whole. In order to interpret data from various sources and to identify population and area at risk, indicators were standardized all over the country. Prevalence rates are used mainly for allocating resources to health services and are not decreasing as quickly as one could expect. This is partly because defaulters represent a significant part of the prevalence as they are kept for decades in the registers. The interpretation of detection rates should take into consideration the transmission of the disease, but also operational factors such as an increase in leprosy services coverage. As a result of various strategies initiated by the National Programme, more than 45 000 health workers have been trained for implementing WHO MDT over the last 8 years, and this explains increase in the sensitivity for the diagnosis of  leprosy. In this work, age-specific detection rates are used to define various leveis of endemicity and groups at risk. The analysis is based on child indicators allowing understanding of endemie patterns by regions. This approach could be used for planning specific interventions in each particular area. Applying this method to Rio de Janeiro enabled us to observe cohort effect: the increase in crude detection rates is mainly explained by an higher incidence in older age-groups, indicating that this group was infected many years ago and that the current transmission of the disease might be very low. It also confirms that treatrnent of all detected cases by MDT is the only avaliabie tool to decrease transmission of the disease.

 

 

MACHADO, J. M. H., 1996. A Heterogeneidade da Intervenção: Alternativas e Processos de Vigilância em Saúde do Trabalhador (Carlos Minayo Gomez, orientador). Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz.

 

O presente trabalho responde à necessidade de refletir sobre as bases teóricas e práticas de vigilância, realizadas habitualmente de forma empírica, em países como o Brasil. Parte-se do entendimento de que a vigilância em Saúde do Trabalhador, no âmbito da Saúde Pública, é uma campo de práticas, articulador das ações de intervenção na relação entre o processo de trabalho e a saúde. É descrito o cenário recente, relacionado às influências características formadoras do modelo de vigilância em Saúde do Trabalho, constituído por abordagens sociais, tecnológicas e epidemiológicas.

É enfatizada uma matriz de priorização e planejamento de ações de vigilância em Saúde do Trabalhador, segundo as conexões entre agravos, risco, território e atividade. Ressalta-se, ainda, o papel da epidemiologia na contextualização das avaliações de exposição e efeito dentro do modelo proposto.

São apresentados dois exemplos de processos de vigilância em saúde dos trabalhadores, um em um ramo de atividade, e outro em um complexo industrial de alto risco, destacando-se a relação entre a vigilância popular e a vigilância epidemiológica como elemento da vigilância em Saúde do Trabalhador, no primeiro exemplo, e os conflitos e as estratégias relacionados às concepções teóricas do campo da relação trabalho e saúde, no segundo.

 

 

FREITAS, C. M., 1996. Acidentes Químicos Ampliados - Incorporando a Dimensão Social nas Análises de Riscos (Carlos Minayo Gomez, orientador). Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz. 243 pp.

 

O objetivo deste estudo é demonstrar como os riscos de acidentes químicos ampliados constituem um problema para as sociedades contemporâneas e como as ciências sociais podem e devem contribuir para suas análises, desenvolvendo estratégias de gerenciamento. A partir dos anos 70, diversas transformações ocorridas nas sociedades contemporâneas contribuíram tanto para o aumento da freqüência e da gravidade desses acidentes, quanto para o desenvolvimento do campo de análises de riscos. Nos anos 80, consolidam-se o campo de análises de riscos e a globalização da economia com sua inerente divisão internacional do trabalho, dos riscos e dos benefícios, contribuindo para maior vulnerabilidade social nos países de economia periférica, resultando, na índia, no Brasil e no México, em alguns dos mais graves acidentes já registrados, com número oficial de óbitos de 2.500, 508 e 550, respectivamente.

Especificamente, objetiva-se trazer para o campo da Saúde Coletiva, em particular para o da Saúde do nabalhador, não só as questões relacionadas aos acidentes químicos ampliados, como também as análises de riscos baseadas nas abordagens das ciências sociais. Adotando-se uma perspectiva crítica, demonstra-se que os riscos não são constituídos apenas pelas dimensões físicas, químicas e biológicas, e que as análises de riscos não são respostas apenas técnicas ao problema, mas também políticas. A dimensão social, em processos micro e macro, inevitavelmente inter-relaciona-se com os riscos e suas análises técnicas, tornando necessária a incorporação das ciências sociais para o desenvolvimento de análises de riscos mais abrangentes em termos de escopo e de impactos nos gerenciamentos de riscos. Conclui-se que o atual momento das ciências sociais no campo de análises de riscos coloca três desafios para seu efetivo processo de incorporação: 1) o necessário diálogo entre as diversas abordagens das ciências sociais, sem que isso implique anular sua pluralidade e capacidade de crítica social; 2) o necessário diálogo entre as ciências sociais e as diversas disciplinas das áreas tecnológicas e biomédicas que compõem o campo de análises de riscos na busca de perspectivas multi e interdisciplinares; 3) a necessária incorporação daqueles que vivenciam no seu dia-a-dia os riscos de acidentes químicos ampliados, trabalhadores e comunidades.

 

 

GLINA, D. M. R., 1996. Da Possibilidade de Enfrentamento do Risco Ocupacional: A Produção de Sentido do Trabalho Exposto ao Mercúrio Metálico. (Mary Jane Paris Spink, orientadora). Tese de Doutorado, São Paulo: Faculdade de Psicologia, Pontifícia Universidade Católica.

 

Em face da existência de estudos amplos sobre o mercúrio em si, busca-se a compreensão da perspectiva do trabalhador: como ele percebe, pensa e sente o trabalho no qual o mercúrio é utilizado. O interesse principal é estudar o mercúrio através da vivência do sujeito trabalhador e o objetivo geral desta tese é, portanto, entender os processos de significação do trabalho que exige exposição ao mercúrio metálico e suas implicações no nível do enfrentamento e da possibilidade do surgimento do sofrimento mental. Visa-se entender as contingências externas que podem estar embasando a produção de sentido na perspectiva da natureza do trabalho, na da organização, na da atuação dos poderes públicos ou na da divulgação a respeito do mercúrio feita pela rnídia.

Foram feitas entrevistas individuais semi-estruturadas com trabalhadores de uma indústria produtora de lâmpadas expostos ao mercúrio. Além disso, foram feitas visitas aos setores nos quais o mercúrio metálico era utilizado a fim de se obter uma melhor compreensão do processo produtivo e verificação in loco das condições e organização do trabalho. A empresa em questão contava com 1.850 funcionários, sendo 230 alocados nas seções em que o mercúrio era empregado. Entre março e dezembro de 1992, foram entrevistados trinta trabalhadores pertencentes aos cargas de mecânico de manutenção, operador de produção, operador reserva, controlador de quebra e ajudante geral. A pesquisa de campo foi realizada poucos meses após os trabalhadores terem sido informados sobre o mercúrio. Obtiveram-se dados sobre monitoramento ambientar e biológico realizado pela empresa. Além disso, foram entrevistados profissionais de Recursos Humanos para obtenção de dados sobre as políticas de Recursos Humanos e visão de trabalhador existentes na empresa.

Os dados mostraram que os trabalhadores não tinham sido informados pelos empregadores a respeito do mercúrio metálico até o momento em que a fiscalização, por parte de uma médica da Delegacia Regional do Trabalho, iniciou-se. Até então, os trabalhadores entendiam que não existia uma preocupação da empresa com o mercúrio, já que o mesmo existia em grande quantidade no ambiente de trabalho e os trabalhadores tinham contato físico e chegavam a brincar com ele. As informações sobre o mercúrio foram obtidas de fontes variadas e referiram-se basicamente aos inúmeros danos à saúde que este pode causar, ao perigo que representa, ao desconhecimento dos médicos sobre os seus efeitos e sobre sua propriedade radioativa.

As representações sociais (RS) construídas com base nessas informações abrangem os mais diversos aspectos: o conceito de mercúrio, como este entra no organismo, possibilidades de danos à saúde, eliminação, possibilidade de cura e de resolução do problema da exposição. Entretanto, essas RS apareceram sempre envoltas em incertezas e o conhecimento possuído apresentou lacunas. As RS sobre o mercúrio proveram avaliações sobre a efetividade das medidas adoradas para controle da exposição, o trabalho, a empresa e suas políticas de RH, sendo estas, por sua vez, influenciadas pelas avaliações, bem como por novos conhecimentos provenientes da ciência e divulgados pela mídia, por observações do que se passa no cotidiano de trabalho e de conversas com colegas.

Apareceram estratégias de enfrentamento individuais enfocadas no problema e enfocadas na emoção. Essas formas de coping ocorreram simultânea ou seqüencialmente e mostraram estreita relação com as RS sobre o mercúrio, perspectivas para o futuro e situação familiar. Essas estratégias, entretanto, nem sempre foram eficazes na diminuição ou neutralização do sofrimento mental, que apareceu sob a forma de sentimentos como a tristeza, o medo, a revolta, a angústia. A existência de uma configuração ambiental ambígua pode ter contribuído para o surgimento do sofrimento mental.

 

 

ATHAYDE, M. R. C., 1996. Gestão de Coletivos de Trabalho e Modernidade (Mário César Rodriguez Vidal, orientador). Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção/Coppe, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 260 pp.

 

Diante das exigências do 'novo paradigma produtivo' (modernização), que marcas da modernidade nos imundos do trabalho podem ser encontradas? Ao lado da tendência para a dispensabilidade da força de trabalho, registra-se uma crescente (embora minoritária) demanda de mobilização da 'inteligência da prática' (envolvendo saúde psíquica) no trabalho. Assim, a pesquisa apontou para a presença da modernidade nas dimensões coletiva, comunicacional e imaterial, configurando-se em coletivos de trabalho. Nesta sociedade contemporânea, que se move em duas velocidades (de exclusão e inclusão), detectou-se que é através de redes de coletivos que a crise e a modernidade têm materializado seus perigos e possibilidades.

Para analisar a gestão de coletivos de trabalho, alguns instrumentos teórico-metodológicos mostraram-se imprescindíveis: a Ergonornia Situada, a Psicodinâmica do Trabalho e as abordagens da Complexidade. Fez-se necessário em seguida uma bricolagem, operando-se com tais instrumentos com vistas à renovação de propostas de gestão de coletivos de trabalho.

Na pesquisa empírica, a forma 'canteiro' (presente na indústria da construção civil) contribuiu para dar visibilidade à dimensão coletiva do trabalho. Entretanto, mais do que isto, para além da 'ideologia do atraso' que costuma servir para caracterizar este setor, a forma canteiro revelou-se em sua originalidade, pois estratégias mi(s)tificadas no novo paradigma produtivo – como a flexibilização, a terceirização, a inteligência da prática – são velhas conhecidas na construção. Procurou-se acompanhar o engendramento histórico destas estratégias, verificando-se a presença hegemônica de redes sociais arborescentes – antepondo-se aos rizomas, aos acontecimentos (conceitos trabalhados nos Capítulos 5 e 6 da Parte I) –, coletivos de rede montados historicamente, que têm garantido a produção, apesar das péssimas condições de trabalho e vida dos construtores no Brasil.

O estudo da forma canteiro revelou-se também em seu potencial para pensar formas de organização e gestão do trabalho (depuradas em seu caráter autoritário e arborescente). Operou-se entre as 'falhas' deste setor industrial, os 'problemas' de saúde e segurança (o acidente). A partir da detecção dos equívocos em uma prática de formação para a luta pela saúdelvida (a ideologia preventivista), encaminhados pelos trabalhadores do setor (via sindicato, em João Pessoa), aproveitando a descoberta de elementos novos que deveriam estar presentes em uma proposta de formação efetivamente fecunda, procurou-se, na tese, indicar os eixos para a renovação de propostas de formas de organização e gestão de coletivos de trabalho, com implicações positivas não só para a produção e a qualidade do produto, como também para a qualidade de vida entre nós.

 

 

BRITO, J. C., 1996. Trabalho e Saúde nas Indústrias de Processos Químicos: A Experiência das Trabalhadoras (Ubirajara Mattos, arientador). Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz. 239 p.

 

Esse estudo trata da saúde da mulher trabalhadora, tendo como eixo a invisibilidade do trabalho e dos problemas que afetam as operárias. Para enfrentar essa invisibilidade buscou-se resgatar a experiência do grupo operário feminino, especificamente de trabalhadoras das indústrias de processos químicos do Estado do Rio de janeiro.

A transversalidade das relações sociais de gênero é discutida a partir de uma concepção sexuada da classe operária e do redimensionamento das noções de saúde e de trabalho, implicando que o exame das situações de trabalho e de saúde seja focado conjuntamente nas esferas da produção e da reprodução. A experiência operária é colocada no centro da análise devido à sua importância para a conquista da saúde, sendo, porém, pensada como uma experiência de gênero e numa perspectiva de multiplicidade.

A pesquisa empírica, de caráter qualitativo, teve como universo trabalhadores e trabalhadoras de indústrias de produtos químicos, farmacêuticos, de material plástico e de cosméticos. Procurou-se mostrar como a invisibilidade das situações de risco é construída nos modos sexuados de viver e no trabalho concreto. A dissipação das experiências, em virtude da descontinuidade do tempo-espaço feminino, constitui-se num dos elementos evidenciados na análise. As pressões cotidianas do tempo são destacadas pela sua potencialidade invisível de agredir a integridade psico-física. As piores condições de vida das famílias chefiadas por mulheres operárias também foi ressaltada.

No que concerne ao trabalho na fábrica, mostrou-se que a invisibilidade dos riscos é construída, primeiramente, pela posição ocupada pelas mulheres no processo produtivo, pois à hierarquia do trabalho está associada uma hierarquia de riscos. Soma-se a isso sua dispersão nas pequenas unidades industriais e nos serviços terceirizados. As concepções teóricas sobre risco representam um outro obstáculo para assimilação dos fatos que as atingem coletivamente e que se relacionam principalmente às formas de organização do trabalho. As diversas formas de coerção e violência no trabalho – como ameaças e agressões verbais – são apontadas como questões a serem enfrentadas pela área de Saúde Coletiva e, particularmente, pela vigilância sanitária dos processos de trabalho.

 

 

DIAS, E. C., 1994. A Atenção à Saúde dos Trabalhadores no Setor Saúde (SUS), no Brasil: Realidade, Fantasia ou Utopia? (René Mendes, orientador). Tese de Doutorado, Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas.

 

Este estudo se propõe a contribuir para a compreensão do processo de construção da atenção à saúde dos trabalhadores no Sistema de Saúde da rede pública no Brasil, na perspectiva Saúde do Trabalhador, através do resgate de sua história e das relações estabelecidas entre os fenômenos em nível mais geral, mundial, e no interior do processo de mudança das práticas sanitárias ocorrido no País a partir de 1978.

Busca reunir, sistematizar e registrar a experiência acumulada pelos programas e centros de referência em Saúde do Trabalhador, organizados na rede de serviços de saúde (SUS), no Brasil, a fim de socializá-la na perspectiva de contribuir para a consolidação da proposta de que todos os trabalhadores, independente da sua forma de inserção no processo produtivo e capacidade de organização e articulação, tenham atendidas suas necessidades de saúde, dentro dos limites do sistema, compreendendo-a enquanto direito de cidadania.

Este trabalho pode ser considerado um fotograma, ou o registro de um movimento. Segundo a visão de História que o orienta, ela é compreendida enquanto um processo social, multiforme, contraditório, sujeito a avanços e recuos, em que o novo contém o velho, registrando alguns momentos de ruptura, em que o novo aparece mais forte e incontido.

Apesar da dificuldade para apreender a totalidade, estando incipientes ou em construção metodologias de estudo capazes de dissecar e reagrupar os fenômenos em uma perspectiva globalizante, este trabalho tenta reunir e organizar a experiência que está em curso, múltipla e dispersa geograficamente, revalorizando o vivido, contextualizando-a no cenário social mais geral. Confronta-se com a emergência da área temática Saúde do Trabalhador e aponta algumas relações que necessitam ser testadas em estudos mais aprofundados, com metodologia apropriada para sua comprovação. A metodologia utilizada foi construída, pari passu, em um processo comparado a uma brincadeira infantil chamada caça ao tesouro, onde cada etapa vencida significa o encontro das pistas que levarão a desvendar o trajeto seguinte. Este modo de trabalhar obriga a que o seu detalhamento se faça simultaneamente à apresentação e comentários dos resultados de cada etapa, modificando, um pouco, a sistemática clássica de elaboração de trabalho científico.

 

 

LACAZ, F. A. C., 1996. Saúde do Trabalhador: Um Estudo sobre as Formações Discursivas da Academia, dos Serviços o do Movimento Sindical (Everardo Duarte Nunes, orientador). Tese de Doutorado, Campinas: Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas. 432 pp.

 

A abordagem teórico-metodológica das relações entre saúde e trabalho tem tido predominância, entre nós, através da visão adotada pela Medicina do Trabalho e pela Saúde Ocupacional.

Ocorre que, a partir do final dos anos 70, com a consolidação do 'novo sindicalismo' ligado ao proletariado urbano, tal abordagem começa a ser questionada por um outro olhar, baseado nas formulações da Medicina Social Latino-Americana (MSL), através da idéia de determinação social do processo saúde/doença e da centralidade do trabalho nesta determinação.

Observa-se que os reflexos da contribuição da MSL são percebidos tanto na Academia que se abre para ela, quanto nos serviços de saúde, que passam então a incorporar a participação dos trabalhadores organizados em sindicatos. Concomitantemente, os trabalhadores aproximam-se dos serviços públicos de saúde, inaugurando um relacionamento democrático entre Estado-Sociedade, o que leva a criação dos Programas de Saúde do Trabalhador em meados dos anos 80.

Neste estudo, analisa-se a trajetória deste movimento, que contribui para a construção do campo de saberes e práticas aqui denominado Saúde do Trabalhador, a partir da História Arqueológica e da Genealogia de Michel Foucault.

Considerando-se, então, as práticas discursivas da Academia, dos últimos trinta anos, procurou-se investigar o grau de identidade que atingiu este campo, por referência à Medicina do Trabalho e à Saúde Ocupacional e seu nível de 'epistemologização'.

Tratou-se também de avaliar as perspectivas de seu desenvolvimento e limites, levando em conta a permeabilidade da produção acadêmica às formulações da MSL em Saúde e Trabalho e dos serviços na consolidação dos Programas de Saúde do Trabalhador na rede pública de saúde.

Ao lado disso, foi alvo de atenção o movimento sindical em conseqüência da luta que empreendeu desde o final da década de 70 pela melhoria das condições de trabalho e defesa da saúde, que impulsionou a trajetória.

Buscou-se, ainda, avaliar as repercussões que o campo trouxe para o ensino e a pesquisa acadêmica na área da Saúde Pública e da Medicina Preventiva e Social, bem como na formulação de propostas programáticas nos serviços da rede pública.

Conclui-se constatando-se um refluxo na atuação sindical após o boom dos anos 80, sendo que o momento atual marcaria um rearranjo de estratégias, aliado a um retrocesso nas experiências programáticas, mesmo com a municipalização da saúde.

No nível da Academia, nota-se uma maior permeabilidade, com conseqüente maior visibilidade do campo nas práticas acadêmicas de pesquisa em Saúde Pública, quando comparadas com as de Medicina Preventiva e Social dadas as temáticas abordadas e a sua atualidade. Isto faz pressupor ser este o espaço privilegiado, isto é, a Academia, no que diz respeito à perspectiva do crescimento teórico-metodológico do campo, o que não prescinde do estímulo da atuação sindical e dos serviços, que estariam atualmente em relativo descompasso quanto ao seu potencial de fazer avançar e crescer o campo da Saúde do Trabalhador.

 

 

DRUMOND Jr., M., 1996. Mortalidade evitável do adulto: desigualdades sócio-espaciais no Município de São Paulo (Marilisa Berti de Azevedo Barros, orientadora). Dissertação de Mestrado, Carnpinas: Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas. 145 pp.

 

A mortalidade evitável do adulto tem sido muito estudada nos países centrais. Na Europa, estudos têm mostrado o aumento das desigualdades sociais desta mortalidade segundo classes sociais. Nos países periféricos, apesar do crescimento da proporção de mortes de adultos, são observadas lacunas importantes no seu estudo. No Município de São Paulo, esta mortalidade apresenta altos níveis e tendência crescente. Este trabalho tem como objetivo o estudo da distribuição e determinantes sesta mortalidade, enfatizando sua evitabilidade e as desigualdades sociais na sua geração e manutenção. Os determinantes da mortalidade e sua relação com a industrialização e a urbanização são discutidos. Analisam-se estes processos no município de São Paulo, destacando-se a organização do seu espaço urbano e as conseqüências nas condições de vida, adoecirnento e morte da população em conjuntura recente, em especial na década de 80, que se caracteriza pelo aumento da concentração de renda e das desigualdades sociais. Utiliza-se a faixa etária potencialmente ativa entre 15 e 64 anos, avaliando-se sua relação com a reprodução social. São debatidos os conceitos de desigualdades e iniqüidades sociais e sua relação com a ética pública. O espaço urbano é utilizado como categoria analítica operacionalizada através da variável contextual área sócio-ambiental homogênea, sendo discutidos seus limites e potencialidades. Opta-se pelo uso de indicadores que estimem os diferenciais em relação a outros locais e em uma comparação das desigualdades sócio-espaciais intramunicipais. Busca-se relacionar as causas de morte estudadas com blocos de determinação relativos à qualidade da assistências à saúde, aos estilos de vida e comportamentos, aos aspectos ambientas urbanos e às condições econômicas e sociais de vida da população. Nos resultados empíricos, observa-se que as tendências de aumento dos coeficientes no sexo masculino e de queda discreta no feminino são diferentes do comportamento da mortalidade nas outras faixas etárias, mostrando que a aumento dos riscos ocorre principalmente pela Aids e por homicídios; mostram também que apenas doenças cerebrovasculares, da circulação pulmonar e outras formas de doenças do coração apresentam queda consistente em ambos os sexos. Comparações com outros países ressaltam os altos níveis da mortalidade do adulto no município, em todos os grupos de causas de morte. Na comparação com a cidade de Nova Iorque, sobressaem os altos índices em São Paulo, decorrentes de causas de morte relacionada a aspectos ambientas urbanos e à qualidade de assistência à saúde. Nas comparações intramunicipais, encontra-se que, para a maioria das causas de morte analisadas, os diferenciais ocorrem em prejuízo das populações vivendo em áreas de piores condições sócio-ambientais e que os diferenciais foram mais pronunciados no sexo feminino. Nas causas em que os riscos foram maiores em áreas de melhores condições ambientas, observa-se uma coerência com a comparação com a cidade de Nova Iorque. O padrão da mortalidade do adulto no Município de São Paulo mostra características de superposição e polarização cpidemiológica com forte componente de doenças crônicas não transmissíveis e das decorrentes de violência. São discutidos alguns blocos de determinantes em nível coletivo, ressaltando-se aspectos das condições de vida e desigualdades sociais nos padrões de consumo e comportamento, nos riscos do ambiente urbano, na miséria e na exclusão social. Por fim, discute-se a necessidade de transformação dos modelos de desenvolvimento e gestão do país e da cidade, passando-se a enfatizar as questões sociais excluídas na nova ordem mundial.