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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.13 n.3 Rio de Janeiro Jul./Sep. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000300002 

DEBATE DEBATE

 

Elmo Rodrigues da Silva 1
Fermin Roland Schramm 2
A questão ecológica: entre a ciência e a ideologia/utopia de uma época

The ecological issue: science and ideology, or the utopia of a time

 


1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rua São Francisco Xavier 524, 5o andar, bloco A, Rio de Janeiro, RJ 20559-900 Brasil.
2 Departamento de Ciências Sociais, Escola Nacional de Saúde Pública. Rua Leopoldo Bulhões 1480, Rio de Janeiro, RJ 21041-210 Brasil.

 

  Abstract Our modern concern over the environment brings us to the historical discussion of Scientific Rationalism, principally in contemporary western society, where the conflict between Man and the Natural World is at its greatest. In an attempt to solve this conflict, Ecology, a field of science, stands out riddled with problems, seeking to draw subjects from other fields into its own. Following an "ecologized world view" (Ecosystemics), some social currents denounce the environmental impact of, technological and industrial models, highly pollutant and dependent on natural resources, generating the contemporary disorder in our biosphere. These movements, following different schools of thought, demand changes in society, taking into consideration the present and future state of the environment.
Key words Ecology; Environment; Environmental Ethics  

Resumo A problemática atual da questão ambiental remete-nos à discussão histórica da racionalidade científica, sobretudo nas sociedades ocidentais contemporâneas, onde o conflito entre a relação homem/meio natural fica evidenciado. Pretendendo dar conta deste conflito, a ecologia constituída como disciplina científica destaca-se como um campo problemático da ciência que busca integrar diversas disciplinas em torno de si. Alguns movimentos sociais, orientando-se por uma "visão ecologizada" (ecossistêmica) de mundo, partem para denunciar os impactos ambientais oriundos, dentre outros, do modelo tecno-industrial altamente poluidor, consumidor dos recursos naturais e gerador da atual desordem global da biosfera. Esses movimentos, sendo orientados por éticas diferenciadas, reivindicam mudanças do quadro social e ambiental da sociedade atual a fim de garantir as necessidades das futuras gerações.
Palavras-chave Ecologia; Meio Ambiente; Ética Ambiental

 

 

Introdução

 

O debate em torno da questão ambiental deve ser compreendido através das relações e interpretações que se estabeleceram historicamente entre o homem e a natureza, ou seja, entre os processos artificial/cultural e o natural. Rosset (1989) argumenta que as filosofias (apesar de um certo arbítrio) são classificáveis em 'naturalistas' e 'artificialistas'. O autor considera que, na história da filosofia ocidental, este é o caso de dois breves períodos, nos quais o pensamento artificialista representou oficialmente a filosofia, na ausência momentânea de qualquer paisagem naturalista oferecida à crença dos homens pela imaginação filosófica. Deste modo, essas lacunas da paisagem naturalista seriam suficientemente possantes para engendrar filosofias artificialistas, ou seja, haveria um momento de 'depressão filosófica' intercalando-se entre a derrocada de uma representação naturalista e a reorganização de uma nova, a qual estaria encarregada de assegurar a importância dos temas naturalistas interrompidos temporariamente. A história da filosofia ocidental, segundo o autor, conheceu duas grandes depressões: a pré-socrática (após a ruína da representação animista e antes do naturalismo antigo de Platão e Aristóteles) e a pré-cartesiana (após a ruína do aristotelismo e antes da reconstituição de um naturalismo moderno por Descartes, Locke e Rosseau) (Rosset, 1989).

A partir deste esquema de raciocínio, poder-se-ia argumentar que o período atual estaria entrando em uma nova fase, também de depressão, entre concepções artificialistas e naturalistas. Isto é válido para o mundo ocidental, onde a racionalidade científica passou a intermediar a relação sociedade/natureza. Habermas considera que a racionalização progressiva da sociedade está ligada à institucionalização do progresso científico e técnico, através do qual as próprias instituições modificam-se e antigas legitimações desmontam-se. Portanto, 'secularização' e 'desenfeitiçamento' das imagens do mundo são a contrapartida de uma racionalidade crescente do agir social (Habermas, 1983).

Ao se referir à ciência contemporânea, Hottois prefere empregar o termo tecnociência pois este destaca a estreita ligação entre o técnico e o epistêmico, a ação e a cognição, assim como a ruptura com o antigo projeto logoteórico e filosófico do saber. A tecnociência, para o autor, produziu um mito evolucionista que vê a física, a biologia e as tecnologias da inteligência sob um ângulo sistemista e operacionalista, destacando que o mito tecnocientífico busca se desenvolver de "forma absolutizada ou autonomizada", fora de toda consideração antropológica e, bem entendida, ética (Hottois,1994).

Deste modo, para tentar melhor compreender todas as rápidas transformações ocorridas nas relações homem/natureza e suas implicações ético-filosóficas, sociais, ambientais e políticas, pode-se buscar na instauração do mundo moderno, ou seja, na passagem dos séculos XVI para o XVII, as bases do projeto atual de dominação da natureza pelo saber-fazer tecnocientífico.

Longe de pretendermos organizar uma cronologia histórica deste processo, apontaremos alguns momentos importantes na formação desta cultura tecnocientífica e de seus desdobramentos até os dias atuais, ao desembocar no campo da Ciência Ecológica e nos movimentos sociais a ele relacionado.

 

 

A ciência moderna: a natureza versus o artifício

 

Com as descobertas do século XVI, um período de transformações profundas surge no Ocidente. Como escreve Châtelet, "o recomeço da filosofia nos séculos XVI e XVII está ligado ao aparecimento de um outro contexto, o da ciência" (Châtelet, 1994:53). Discursos inovadores são elaborados então, num contexto científico incipiente, através de diversos pensadores, entre eles, Francis Bacon (1561-1626). Precocemente, Bacon registrou o que seria marcado pelo século do 'artificialismo' (da metade do século XVI à metade do XVII), ao afirmar que: "um preconceito (...) é olhar a arte como uma espécie de apêndice da natureza, supondo que só lhe resta completá-la (...) ou corrigi-la (...), e de forma alguma mudá-la (...), transformá-la e abalá-la em seus fundamentos: isso tornou, antes do tempo, os negócios humanos desesperados (...). As coisas artificiais não diferem das naturais nem pela forma nem pela essência, mas somente pela causa eficiente (...). E quando as coisas são dispostas para produzir um determinado efeito, pouco importa que isso se faça com ou sem o homem" (Bacon, 1852 apud Rosset, 1989: 64-65). Desta forma, estavam lançadas as bases científicas para a intervenção técnica sobre os processos naturais.

A experiência e os sentidos passaram a ser utilizados na validação de hipóteses, constituindo, deste modo, um marco na revolução científica que separa a Idade Medieval do Mundo Moderno. Nicolau Copérnico (1473-1543) e Andrès Vesalio (1514-1564), entre outros, ao utilizarem o método experimental e indutivo, estão entre os pioneiros na aplicação do novo método científico que irá revolucionar idéias e comportamentos. Giordano Bruno (1562-1600) demonstrou o significado que este método e a cosmologia copernicana representaram para a nova visão de mundo que se instaurava: "os deuses deram ao homem o intelecto e as mãos (...) outorgando-lhe poder sobre os demais animais. Eles supõem não só que o homem seja capaz de atuar conforme a sua própria natureza (...) mas que também possa operar à margem das leis naturais, para deste modo (...) triunfar mantendo-se como deus da terra" (Bruno, 1852 apud Edmunds & Letey, 1975:37).

É deste período 'revolucionário' que a imagem do mundo, tal como a conhecemos hoje, foi construída e deve-se, em grande parte, à Galileu Galilei (1564-1642). Para ele, a realidade sensível era inteligível, contanto que se realizassem as análises necessárias e se aperfeiçoasse o instrumento matemático, como ocorreu em seguida, principalmente com os trabalhos do físico Isaac Newton (1643-1727).

René Descartes (1596-1650) deu continuidade ao processo de mudanças iniciado por Copérnico e Galileu, sendo considerado o filósofo fundador da modernidade (Châtelet, 1994). A respeito do projeto moderno de dominação racional da natureza pelo homem, Descartes afirma: "... conhecendo a força e as ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão distintamente como conhecemos os diversos misteres de nossos artifícios, poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios, e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza" (Descartes, 1966:64). A partir do método cartesiano, a cisão entre homem/natureza, corpo/espírito passou a ser 'doutrinária', ou seja, a visão de separação e dominação tornou-se predominante no mundo ocidental.

Chatêlet diz que "caso se aceite a verdade da nova física, não se pode mais trabalhar com a mesma ontologia, com a mesma concepção do ser, do real (...). É preciso reformar (...) a representação do real, operar um deslocamento decisivo" (Chatêlet, 1994:63). Isto significa revolucionar os conceitos aceitos até então. Embora a pretensão de tornar o homem "senhor e possuidor da natureza" tivesse se mostrado, nos séculos seguintes, nem tão possível, nem tão boa, o pensamento cartesiano ficou profundamente enraizado na cultura ocidental, desde a sociedade iluminista até os tempos atuais.

Dois aspectos importantes destacam-se no pensamento cartesiano: a racionalidade e o antropocentrismo. Conseqüentemente, a natureza dessacralizada pela separação homem-sujeito de um lado e natureza-objeto do outro, resultou em 'novas' possibilidades científicas e tecnológicas, libertando definitivamente a ciência das concepções teológicas herdadas do mundo medieval. Abrem-se diferentes perspectivas no pensamento filosófico, político, econômico e surge a industrialização que deu origem a profundas transformações sociais na Europa.

A partir do século XVIII, elementos inovadores são introduzidos, dentre estes, a concentração de capitais, a apropriação das forças produtivas, as novas técnicas, máquinas e matérias-primas. As indústrias instalam-se, destruindo ou redefinindo o meio rural, produzindo ou ampliando as aglomerações urbanas, modificando as formas de apropriação dos recursos naturais e os modos de relacionamento com o ambiente natural original. Thomas afirma que "ao final do século XVIII (...) não havia precedentes para (...) as queixas (...) sobre o efeito desfigurador das novas edificações, estradas, canais; do turismo e da indústria" (Thomas, 1989:339). Deste modo, os impactos ambientais não devem ser associados exclusivamente com a grande indústria, dominante a partir das primeiras décadas deste século. Já no século XVIII, o seu modo de operar se fazia sentir, alterando a natureza, devido, principalmente, a dois elementos fundamentais do relacionamento entre atividades produtivas e meio ambiente: a escala e a intensidade dos impactos (Costa, 1989). É a partir deste período que ciência e tecnologia tornam-se inseparáveis.

No domínio específico da ciência, observa-se a continuidade da fragmentação do conhecimento científico. Com a valorização da filosofia positiva, no século XIX, a especialização disciplinar vai se estabelecendo como paradigma. Moscovici afirma que "a individualização dos atos, dos interesses e das relações humanas, deram vigoroso impulso à oposição sociedade e natureza (...). Em física, em biologia, em economia, em filosofia, em toda parte o indivíduo é a unidade de referência (...) [e] a sociedade só poderia ser um estado antagonista (...). O princípio das instituições e das leis políticas que hoje nos dirigem têm [aí], o seu firme alicerce" (Moscovici, 1977:75). Este constituiu o modelo do projeto racional para o mundo, em que a ciência e a técnica são identificadas como ideais de progresso e felicidade.

Apesar da crença progressista na ciência e na tecnologia, a exploração predatória dos recursos naturais era sentida e questionada por alguns grupos. O movimento romântico europeu, por exemplo, possibilitou o surgimento de 'novas sensibilidades' em relação ao mundo natural: "o início do período moderno de fato engendrou essa sensibilidade cindida, da qual sofremos até hoje" (Thomas, 1989:339).

De certa maneira condicionada a esta herança, surge, no século XX, a crítica ao projeto moderno de compreensão e dominação da natureza. As incertezas, os paradoxos e a dificuldade para explicar os novos fenômenos vão conduzindo a ciência a buscar novos rumos. A 'nova física', por exemplo, proposta por I. Prigogine, demonstra-nos que os fenômenos são dependentes da historicidade, que há imprecisão nos instrumentos e nas observações objetivas da ciência, causando perplexidades. Assim, Prigogine & Stengers consideram que "as descobertas experimentais inesperadas que marcaram a física nos anos 50 [tais como]: instabilidade das partículas elementares, estruturas de não-equilíbrio [e] evolução do universo (...) apontam para a necessidade de ultrapassar a negação do tempo irreversível (...), herança deixada pela física clássica para a relatividade e a mecânica quântica" (Prigogine & Stengers, 1992:13). Deste modo, busca-se compreender a emergência dos sistemas evolutivos e uma nova visão de mundo vai se delineando.

 

 

Ecologia: entre a ciência e a visão ambientalista de mundo

 

Antes de possuir caráter científico stricto sensu, a idéia de equilíbrio da natureza teve uma base teológica. Assim, a crença na perfeição do desígnio divino precedeu e sustentou o conceito de cadeia ecológica, o qual teve, inicialmente, forte conotação conservacionista. No século XVIII, a maior parte dos cientistas e teólogos defendia que todas as espécies da criação tinham um papel necessário a desempenhar na economia da natureza (Thomas, 1989). A visão mítica de natureza não abandonou totalmente as representações sociais e, ainda hoje, é adotada por alguns grupos do movimento ambientalista.

Pode-se admitir que a origem da ciência ecológica está associada ao estudo de história natural na Inglaterra do século XVI e, conforme McCormick, "o crescimento do interesse pela história natural revelou (...) as conseqüências da relação de exploração do homem com a natureza. Isso levou inicialmente a um movimento pela proteção da vida selvagem (...) [e] a primeira influência sobre o movimento ambientalista britânico [surgiu] do estudo da história natural" (McCormick, 1992:22). Os fundamentos da botânica e da zoologia modernas, além dos de outras ciências biológicas, foram estabelecidos pelos trabalhos de naturalistas amadores nos séculos XVI, XVII e XVIII. McCormick comenta ainda que as descobertas do naturalista John Ray e do botânico Carl von Linné (Linnaeus) ­ cujo trabalho em taxonomia botânica foi a infância da ecologia ­ estimularam as pesquisas em ciências naturais, culminando nas teorias de Darwin e Wallace.

Historicamente, a ecologia como disciplina científica tem seus primeiros fundamentos definidos no século XIX e Acot diz que o termo ecologia (Oekologie) foi citado em 1866, por Ernest Haeckel (1834-1919). Numa nota de rodapé de página de seu livro Generelle Morphologie der Organismen, a palavra biologia é substituída por ecologia, sendo esta definida por Haeckel como a "ciência da economia, do modo de vida, das relações externas do organismo ..." (Haeckel apud Acot, 1990:27). Contudo, somente na segunda metade do século XX é que a síntese completa da ecologia foi constituída coerentemente. No presente, define-se a ecologia como "o estudo das relações dos organismos vivos ao seu ambiente, ou a ciência das inter-relações que ligam os organismos vivos ao seu ambiente" (Odum, 1986:4).

O pensamento sistêmico tentava explicar a vida numa perspectiva holística, não reducionista e fragmentária, travando-se uma disputa entre as concepções vitalistas e organicistas, num sinal precursor do reconhecimento da complexidade (Fernandez, 1995). O biólogo Ludwig von Bertalanffy, nos anos 40, propôs a construção de uma espécie de 'metadisciplina': a Teoria Geral dos Sistemas. Segundo o autor, "somos forçados a tratar com complexos, com 'totalidades' ou 'sistemas' em todos os campos do conhecimento. Isto implica uma fundamental reorientação do pensamento científico" (Bertalanffy, 1977:19-20). Assim, a visão sistêmica influenciou o surgimento de novas áreas do conhecimento, dentre elas, a ciência ecológica. Odum (1986) assinala que o termo ecossistema teria sido proposto pelo ecologista inglês A. G. Tansley, em 1935. Posteriormente, o mecanismo ecossistêmico pôde ser compreendido através da associação entre as bases termodinâmicas do ser vivo lançadas em 1945 pelo físico Schrödinger e o modelo cibernético desenvolvido por Norbert Wiener.

A formulação integrada da ecologia ocorreu no decorrer dos anos 50 e 60 com os irmãos Odum. Através da publicação Fundamentals of Ecology (Odum, 1971), utilizaram a linguagem da termodinâmica a fim de descrever o funcionamento dos sistemas ecológicos. Desta forma, os autores afirmam que tanto os organismos vivos e os ecossistemas, bem como toda a biosfera teriam a característica termodinâmica essencial de serem capazes de criar e manter um estado de ordem interna ou de baixa entropia. No fim dos anos 60, as pesquisas estatísticas das dinâmicas das populações conduziram à elaboração de modelos matemáticos de evolução dos ecossistemas, estes vistos como sistemas complexos, onde o conjunto de equilibração (homeostase) pôde ser descrito por mecanismos de retroação (feedback), conceito central da cibernética proposto por Nobert Wiener, na década de 40.

Assim estavam dadas as bases para melhor explicar a inter-relação dos sistemas vivos com o ambiente. A partir destes modelos ecossistêmicos foi possível compreender melhor os impactos da poluição sobre os sistemas ecológicos,os quais, ao serem associados aos graves acidentes ambientais, tais como: a contaminação da Baía de Minamata e Nagata (Japão, década de 50); o vazamento de gases tóxicos (Seveso ­ Itália, 1976/Bhopal ­ Índia, 1984); os acidentes de usinas nucleares (Three Miles Island ­ USA, 1978; Tchernobyl ­ URSS, 1986); as mudanças climáticas; a destruição de florestas com a perda da biodiversidade; a poluição generalizada dos rios, mares, solos e atmosfera, e, ainda, ao serem agravados pelos níveis de pobreza e miséria da maior parte da população mundial, proporcionaram importantes argumentos para interrogar o poder e os rumos no uso da tecnociência e impulsionar os diversos movimentos contestatórios em todo o mundo.

Com base nos novos modelos científicos, tem-se uma visão integrada dos diversos ecossistemas terrestres, e a questão ambiental passa a ser tratada em nível global. Por questão ambiental pode-se entender a contradição fundamental que se estabeleceu entre os modelos de desenvolvimento adotados pelo homem, marcadamente a partir do século XVIII, e a sustentação deste desenvolvimento pela natureza. A partir da Revolução Industrial, a velocidade de produção de rejeitos da sociedade, o avanço do mundo urbanizado e a força poluidora das atividades bélicas e industriais superaram em muito a capacidade regenerativa dos ecossistemas e a reciclagem dos recursos naturais renováveis, colocando em níveis de exaustão os demais recursos naturais não renováveis (Toynbee, 1982).

Essa problemática ambiental apontaria para a 'crise da relação' (eco-lógica) ­ crise da moradia na qual a vida se faz, crise da racionalidade das relações que os seres estabelecem entre si, com outros seres vivos e com a própria moradia [oikos] e 'crise de valores', uma vez que, frente à situação de integração mundial de nosso tempo, a cooperação é imprescindível, mas seria necessário o estabelecimento de novos valores para o enfrentamento de tão rápida transformação. A questão ecológica refere-se, portanto, a uma crise de conceito e uma crise de projeto (Schramm, 1992).

A constatação da crise generalizada, identificada na ciência e refletida na sociedade, pode ser percebida como risco ou como oportunidade de se lançarem novas bases para mudanças. Deste modo, a própria ciência hoje é colocada em questão, e segundo Acot: "... na sua essência, [ela] é atravessada pelas ideologias e marcada pelas mentalidades (...) [,] governada por instituições e intervém em suas criações e transformações (...) [sendo] tanto oriunda, como inspiradora das demandas sociais" (Acot, 1990: 189), ou seja, ela dependeria de um novo 'quadro epistêmico' (Piaget & Garcia, 1987).

A ciência e, sobretudo, seu uso técnico-industrial pode tanto estar a serviço da melhoria das condições ambientais e conseqüentemente sociais, como ser utilizada para fins não tão nobres. Assim sendo, Hottois nos diz que "a ideologia do progresso valoriza o cientista e o técnico sem os responsabilizar, quer dizer, sem considerar a questão ética a propósito de suas atividades. A atividade científica (...) é julgada sempre boa (...) pois ela é [o] progresso do conhecimento (...). O risco de um mau uso da técnica, de uma má aplicação da ciência, está relacionado aos decisores políticos e sociais (...). Responsabilizar a ciência (...) é colocar em dúvida sua neutralidade (...) é exigir dos técnicos ­ os atores da tecnociência ­ mais do que a simples competência" (Hottois, 1994:72).

Seguindo este mesmo ponto de vista, Bornheim assinala que a técnica pode salvar, mas representa também o perigo, sendo ela necessária para a salvação da Humanidade, escondendo, entretanto, em seu bojo o perigo da destruição. De certo modo, ela passou a dominar e decidir, revelando uma margem de irracionalidade que a aproxima do incontrolável. A ambigüidade presente na tecnologia e na política terminam por entrecruzar-se, não significando necessariamente uma solução, mas a abertura para o processo de responsabilidade do empenho político (Bornheim, 1989).

Identificamos que o período de transição atual necessitaria de uma ampla operação de reconceituação onde o conhecimento deveria ser reestruturado através de instrumentos inovadores e transdisciplinares. De certa maneira, a ciência ecológica, além de opor-se ao modelo mecanicista/reducionista nas ciências, busca a integração de diversas disciplinas e propõe a problemática visão holística (aqui entendida como a impossibilidade de reduzir os fenômenos em suas partes constituintes). A este respeito Coutinho afirma que "inevitavelmente se impõe de novo a questão tão controversa de ser ou não, a Ecologia, uma disciplina que tenha transcendido as fronteiras da ciência moderna, sob o ponto de vista da sua racionalidade" (Coutinho, 1992:128).

Odum considera que o aumento da atenção pública às questões ambientais afetou profundamente a ecologia acadêmica. Antes dos anos 70, a ecologia era vista, em grande parte, como uma subdivisão da biologia e, embora permaneça radicada na biologia, ela teria ganho a maioridade como uma disciplina integradora essencialmente nova, que une os processos físicos e biológicos e serve de ponte de ligação com as ciências sociais (Odum, 1986). Por outro lado, Cramer & Daele afirmam que a Ecologia de Ecossistemas concebe a Natureza como um tipo de máquina, ainda que muito mais sofisticada do que o universo mecânico da física clássica (Cramer & Daele, 1985). Deste modo, a ecologia é vista como uma perspectiva que sugere uma atitude tecnológica sistêmica e portadora de valores em relação à natureza. Assim, a moralização do ecossistema ou de suas propriedades ­ sua valorização como bens éticos ­ seria algo acrescentado e não implicado pelo conhecimento ecológico. A causa ecológica busca, então, ultrapassar as incertezas e ambigüidades existentes, sendo entendida como um movimento mais profundo que coloca em questão o conjunto de valores da modernidade. Dupuy identifica que "as respostas que a ecologia não traz, é em outros lugares que devem ser procuradas, ou seja, na renovação da filosofia política, na emergência de uma nova filosofia da natureza, na eclosão de um novo paradigma científico" (Dupuy, 1980:89).

Diante da problemática ambiental vivenciada pelas sociedades pós-industriais modernas, surge a politização das questões incorporadas a partir dos conceitos e representações da ecologia. Desta forma, o 'ecologismo', visto como movimento político, surgiu, como sugerem Lago & Pádua, "da percepção que a atual crise ecológica não se deve a 'defeitos' setoriais e ocasionais no sistema dominante mas é conseqüência direta de um modelo de civilização insustentável do ponto de vista ecológico (...) e socialmente injusto ..." (Lago & Pádua, 1985:36). Para os autores, estamos diante de uma crise única na civilização e que exige a invenção de um novo caminho. Da mesma forma, Mori considera a "nossa época [como] de grande fermento intelectual ­ talvez uma daquelas 'fases críticas' da história em que muda-se a própria maneira de 'conceitualizar' os problemas ..." (Mori, 1994:2).

 

 

A ecologia em 'movimento'

 

Coutinho argumenta que o pensamento ambientalista da década de 60, apesar de toda a sua pluralidade, tomou a Ecologia como interlocutora, ou seja, adotou uma unidade discursiva onde o modelo de representação de natureza fosse compatível com sua consideração como algo singular e original, e sua valorização, como bem ético. Por outro lado, a importância atribuída à integração, às totalidades e ao holismo pavimentou o caminho para a ressacralização da natureza. Esta matriz disciplinar (ou paradigma) ­ a Ecologia dos Ecossistemas ­ propiciou a interação entre uma disciplina científica e um pensamento, cujo eixo seria uma crítica racional da modernidade (Coutinho, 1992).

Para isso, alguns grupos pacifistas/ecologistas europeus e norte-americanos propuseram uma profunda transformação nos valores sedimentados pela sociedade ocidental através de uma nova relação homem/natureza orientada por uma 'visão ecologizada de mundo'. Rosset critica esta idéia por considerá-la uma re-naturalização, seja ela conservadora ou revolucionária, que, desejando negar o presente (ou o artifício), recusa o fabricado (o que existe). Assim, o autor apresenta o artifício como 'verdade' da existência, e a idéia de natureza, como erro e fantasma ideológico (Rosset, 1989). Ao contrário, pensamos que seria possível estabelecer uma ponte entre passado e futuro, sem negar necessariamente o presente, nem o artifício. Como escreve Morin, "... a ecologia geral suscita o problema (...) homem/natureza no seu conjunto, na sua amplitude, na sua atualidade" (Morin, 1977:45).

O movimento ecológico foi bastante influenciado, entre outros, pelo pensamento de Aldo Leopold (1949). Este argumentava que a ética a qual havia regulamentado as relações entre os humanos e, em seguida, aquelas entre o humano e as várias instituições sociais, por fim abriu-se a uma terceira relação envolvendo toda a biosfera, denominando-a como a Ética da Terra (The Land Ethic). Assim sendo, Mori diz ser Leopold o 'patrono da ética ambiental' (Mori, 1994:4). Impulsionados pela gravidade dos problemas sociais e ambientais contemporâneos, os ecologistas partiram, nos anos 70, para uma estratégia de ações locais e globais. Neste período, as pesquisas ambientais delineavam um perfil catastrófico sobre os ecossistemas terrestres e os estudos ecológicos passaram a orientar os discursos, baseados, entre outros, nos conceitos prescritivos da Ecologia Aplicada. Posteriormente, observou-se a assimilação ampla nos discursos dos setores políticos convencionais, em escala mundial.

A Conferência Científica da Onu sobre Conservação e Utilização de Recursos Naturais (UNSCCUR-USA, em 1949) foi "o primeiro marco importante na ascensão do movimento ambientalista internacional" (McCormick, 1992: 53). O relatório do Clube de Roma, sobre os 'limites do crescimento' (Meadows, 1978), causou uma grande controvérsia ao defender a paralisação do crescimento populacional, econômico e tecnológico. Com base em modelos computacionais que deram origem ao Relatório Meadows, previa-se um futuro de catástrofes ambientais, caso o processo de crescimento não fosse revertido. Embora o relatório tenha sido muito criticado por sua inconsistência e excessos nas previsões, isto é, pelo seu caráter malthusiano ou neo-malthusiano, diversas questões foram trazidas para o debate posterior, como na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo (1972), sendo esta, sem dúvida, um marco fundamental no crescimento do ambientalismo internacional que determinou uma transição do novo ambientalismo emocional e ocasionalmente ingênuo dos anos 60, para uma perspectiva mais racional, política e global dos anos 70 (McCormick, 1992).

Na década de 80, foi dada continuidade às questões anteriores por meio do relatório Nosso Futuro Comum (Brundtland, 1991), que resultou na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento ­ CNUMAD ­ (Rio de Janeiro, 1992). Com uma visão crítica deste documento, Coutinho afirma que a ciência seria a grande redentora, segundo o relatório Brundtland, pois dependeria dela a realização do potencial tecnológico na solução dos problemas ambientais. Na visão crítica da autora, o relatório apontava o papel que a comunidade científica e as organizações não governamentais tiveram num passado recente, recomendando manter esta aliança para a transição do desenvolvimento insustentável ao sustentável. Assim, a Ecologia Aplicada tornar-se-ia a base do discurso tecnocrático que diferenciar-se-ia conceitualmente do discurso de denúncia da década de 70 (Coutinho, 1992).

Por outro lado, Viola & Leis argumentam que a complexa dinâmica do ambientalismo em nível global torna este movimento histórico/ideológico não apenas um ator multidimensional, mas um ator ético-prático com capacidades sinérgico-sincréticas. O ambientalismo seria, para os autores, o único movimento contemporâneo em condições de desenvolver valores e conhecimentos do novo tipo. Mais do que produzir meios para uma maior acomodação e/ou tolerância das diferenças, ele significa gerir meios sincréticos para uma ativa cooperação sinérgica entre atores com interesses e perspectivas diferentes, e até mesmo contraditórias (Viola & Leis, 1995).

No campo filosófico, Mori constata que a novidade do debate ético contemporâneo seria a expansão do horizonte moral desenvolvido em três níveis: da bioética (iniciada no final dos anos 60); do movimento pela libertação animal e da ética ecologista, onde a natureza na sua totalidade, passa a ter um valor intrínseco, independente da valoração humana, reivindicando uma visão não antropocêntrica de mundo (Mori, 1994).

Ferry (1994) classifica as diversas correntes ambientalistas como: a) movimento de libertação animal, onde há uma expansão do universo moral para os seres sencientes, sendo esta uma ética baseada em interesses utilitaristas, como a defendida por Singer (1994); b) a ecologia superficial, de cunho instrumental, segundo o qual a natureza possui caráter humanista, não é considerada sujeito de direito e sua preservação constitui-se um meio para conseguir o bem-estar do homem; c) a ecologia profunda, defendida por Naess (1973), a qual adota uma nova ética baseada em princípios preconizadores de que: a valorização ética da natureza independe da sua utilidade quanto às demandas práticas da sociedade; os limites objetivos de qualquer ser vivo devem ser respeitados; os valores humanos devem ser equivalentes aos dos demais seres da natureza; os homens não têm nenhum direito que lhes assegure dominação sobre as outras espécies (a relação deve ser baseada no respeito e solidariedade com os demais); a riqueza e a diversidade da vida devem ser garantidas às gerações futuras.

Oriundos das próprias contradições da época atual, os posicionamentos ideológicos no interior do próprio movimento ambientalista são bastante divergentes. Schwarz & Schwarz dizem que os ambientalistas (vistos como ecologistas superficiais) aceitam, em princípio, a estrutura intelectual da sociedade industrial, tentando resolver os problemas ambientais neste contexto; os ecologistas ditos profundos acreditam não ser possível resolver tais problemas, caso não se mude radicalmente o sistema de valores atuais com profundas substituições nos códigos culturais (Schwarz & Schwarz, 1990). Na prática, verifica-se (como mostra Coutinho) ser muito difícil analisar as diferenças dos discursos no interior dos movimentos ambientalistas.

Neste contexto, o setor empresarial estaria assumindo um papel de destaque nesta nova fase do debate ambientalista. Schmidheiny ­ o principal conselheiro para Negócios e Indústria do secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para Meio Ambiente e Desenvolvimento ­ defende que "parte da 'sanidade ambiental' só será alcançada através da modernização dos meios de produção, sob uma ótica de custo/benefício" (Schmidheiny, 1992:35). Ao criticar tal argumento, Tauk-Tornisielo afirma que ele é "motivado (...) mais pela necessidade de racionalizar custos do que desenvolver cuidados com o ambiente, [refletindo ...] o novo posicionamento das indústrias diante da (...) nova ordem econômica mundial, onde o aumento sensível da competitividade passa (...) pela redução de custos, sem a qual as empresas estarão à margem dos mercados" (Tauk-Tornisielo, 1995:11).

Assim, a autora considera que a primeira fase ecológica foi caracterizada por um certo 'romantismo naturalista' que lutava pela intocabilidade da natureza. A segunda refletia um período de informação, onde a junção da mídia com a ecologia, por um lado, e a emergência de movimentos de defesa do meio ambiente, por outro, permitiram o surgimento do 'marketing ecológico', que causou transformações nas formas de percepção das questões ambientais pela população. Na terceira fase da ecologia (a da década de 90), a proteção ambiental passa a ser vista como 'sub-produto da racionalização de custos', garantindo, portanto, a 'oxigenação' dos processos produtivos (Tauk-Tornisielo, 1995).

Neste embate ressurgiu, a partir dos trabalhos em ecodesenvolvimento na década de 60, o conceito de 'desenvolvimento sustentável', visto como "um processo de transformação no qual a exploração dos recursos, a direção dos investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial presente e futuro, a fim de atender às necessidades e aspirações humanas" (Carvalho, 1991 apud Ribeiro, 1992:21). Assim, a idéia de sustentabilidade do ambiente e do desenvolvimento passou a ser fundamental no interior das discussões da CNUMAD/92.

Na visão economicista, diz Comune, "o ponto central da teoria econômica do meio ambiente [diz que] a maneira de [se] tratar as ineficiências do mercado para atingir o ponto ótimo de eficiência alocativa da economia, [define] as bases das políticas do meio ambiente" (Comune, 1994:51). Nas análises econômicas convencionais, as externalidades e os bens públicos nem sempre são levados em consideração e, para a eficiência de um mercado perfeitamente competitivo, não se contabilizam estes fenômenos por constituírem fontes de ineficiências.

Ainda sob o ponto de vista da economia, Anderson & Leal (1992) afirmam que a ecologia de livre mercado enfatiza a importância dos processos de mercado na determinação de quantidades ótimas da utilização de recursos. Somente quando os direitos forem bem definidos, garantidos e transferíveis, é que os indivíduos com interesses próprios irão confrontar as concessões mútuas inerentes a um mundo de escassez. Tais autores criticam os adeptos do desenvolvimento sustentável e consideram que este seria demasiadamente centrado na administração científica do ambiente e baseado em políticas coercitivo-disciplinadoras, sob o controle do Estado. Dizem, fazendo apologia ao mercado, que "ao contrário das soluções por regulamentações para os problemas do meio ambiente, [as quais exigem dos] especialistas uma postura onisciente e benévola, (...) o ambientalismo de livre mercado descentraliza o poder e atrela os interesses próprios através de incentivos de mercado" (Anderson & Leal, 1992: 167).

Como podemos observar, existem posicionamentos bastante controvertidos em relação à questão do desenvolvimento sustentável e Viola diferencia três posições divergentes neste debate: a) a estatista, que, através de mecanismos normativos, reguladores e promotores, vê no Estado o locus privilegiado do desenvolvimento social e ambientalmente sustentável; b) a comunitária, que, por meio dos movimentos sociais e das organizações não governamentais ­ vistos como promotores de um novo sistema de valores, fundado na solidariedade ­ identifica na comunidade esse lócus privilegiado; c) a do mercado, que, mediante taxas/tarifas, tanto da poluição, como do uso de recursos naturais e de concessões comercializáveis de taxas de poluição, prioriza o critério da eficiência sobre o da eqüidade (Viola, 1992).

Apesar dos confrontos entre as diferentes correntes de pensamento atual, Fucks argumenta que as grandes questões ambientais parecem tender a um posicionamento consensual entre os atores. Para o autor, este é o processo de todos os fenômenos sociais significativos em que, inicialmente, tem-se a pujança, a pura expressão das formas de ser emergentes, não codificáveis e, ao final, observa-se a assimilação pelas estruturas vigentes, com o arrefecimento e esforço de enquadramento institucional (e cognitivo) de aspectos do fenômeno (Fucks,1992). Contudo, consideramos que, a despeito da aparente acomodação dos posicionamentos divergentes, os problemas e conflitos continuam em aberto, provocando mudanças nas configurações e ações dos movimentos sociais.

De acordo com Viola & Leis, ao final da década de 80, o movimento ambientalista possuía duas posições distintas: a) uma minoritária, que não assumia nem as características, nem as regras da dimensão política, enfatizando atitudes éticas e espirituais de tendência biocêntrica; b) uma majoritária, que assumia plenamente a dimensão política, sendo esta subdividida em uma subclasse minoritária, a qual achava necessária uma rápida e intensa disseminação de valores ecológicos, com redistribuição do poder político-econômico em níveis local e global e em uma subclasse majoritária, de caráter reformista, que apontava para a necessidade da adoção gradual de um novo modelo de desenvolvimento o qual, baseado na racionalidade científica, interiorizasse a sustentabilidade social e ambiental (Viola & Leis (1992).

 

 

Considerações finais

 

A ciência se move do conhecido para o desconhecido, tentando revelar as regularidades, as leis, os processos que se acham escondidos nas aparências, em que o método significa o caminho a ser seguido. Atualmente, por meio das Ciências da Complexidade, buscam-se teorias que possibilitem decifrar a linguagem universal dos padrões evolutivos para os quais todos os sistemas se dirigem. Partindo das descobertas da termodinâmica, da física quântica, transportando-as para a biologia evolucionária dos sistemas vivos, as ciências encontram seus limites onde a relação entre o particular e o universal continua um desafio e, portanto, em aberto.

Deste modo, a complexidade poderia ser útil para uma melhor compreensão da realidade social e ambiental que vivenciamos, indicando a necessária integração, mediante uma Ecologia Complexa, dos pontos de vista que permaneceram durante tanto tempo fracionados e internalizados, tanto nos indivíduos, quanto nas instituições, sendo preciso buscar alternativas metodológicas, técnico-científicas, político-institucionais, industriais e comportamentais, incorporando todos os setores envolvidos com as questões sociais e ambientais emergentes. Para enfrentar tais desafios, concordamos com Jonas (1973) ao afirmar que não há uma receita única, mas somente muitos caminhos como compromissos que, caso a caso, deverão hoje e sempre ser procurados em uma vigilância a cada instante.

Quanto à viabilização de uma nova prática para o desenvolvimento, Brüseke indica a necessidade de aprimoramento das teorias, considerando-se a pluridimensionalidade da sociedade global no seu contexto natural. As propostas para um desenvolvimento sustentável, embora não consensual entre diversos autores, apontam nesta direção. Na visão do autor, a introdução de elementos das discussões sobre sistemas dinâmicos não lineares parece oportuna, pois, antes de antecipar a contribuição desta nova teoria (agora sustentável), há que se elaborar melhor a capacidade de interpretação, na tentativa de se preverem os riscos de fracasso de novas propostas de desenvolvimento, mesmo que estas levem em conta as limitações ecológicas e sociais em seu bojo (Brüseke, 1993). Dito de outra forma, teremos que realizar previsões e tomar decisões num contexto de incertezas, de riscos tecnológicos, ambientais estruturais e de proporções globais.

Quanto aos desdobramentos futuros para a humanidade de questões como a desordem global da biosfera, podem-se vislumbrar alguns cenários possíveis, tais como, continuidade desequilibrante; eco-autoritarismo; centralismo ecológico global com auto-organização democrática local e auto-eco-organização global (Viola & Leis, 1991). Contudo, para evitar que os embates produzam decisões autoritárias, faz-se mister a construção de uma ética que possibilite orientar os rumos da tecnociência e da política em nível mundial.

Neste sentido, Hottois propõe uma ética de solidariedade para a era da tecnociência, sendo baseada, entre outros, no diálogo aberto, que implica o confronto pluralista e interdisciplinar; na ética reguladora; no pragmatismo; na não-exclusão do sentimento ­ a expressão afetiva do julgamento ­ do conjunto de elementos que cooperam na tomada de decisão ética; na ética da ambivalência, no sentido de ser esta uma escolha, e não uma conclusão lógica, ou um resultado mecânico; na ética evolutiva e da reversibilidade dos princípios; na ética da co-responsabilidade (Hottois, 1994).

Para Ferry, à margem do cartesianismo, do utilitarismo, assim como da ecologia fundamentalista, é que se deveria elaborar uma teoria dos deveres com a natureza, sendo importante realizar uma fenomenologia dos sinais do humano na natureza para se ter acesso à consciência clara do que pode e deve ser nela valorizado. A partir de tal base e impondo limites ao intervencionismo da tecnociência, é que a ecologia democrática poderia responder ao desafio lançado, tanto na ordem política, quanto na esfera metafísica, à sua concorrente integrista/fundamentalista (Ferry, 1994).

Acreditamos que, no contexto transitório atual, há uma enorme tarefa para identificar corretamente os problemas (sem reduzir a complexidade), a saber: integrar os esforços, superar os conflitos, tomar consciência de nossas responsabilidades para que se possa agir conseqüentemente. A tecnociência opera saltos cada vez mais rápidos e, antes mesmo de ser absorvida, ela nos escapa. Vislumbram-se as seguintes questões: será possível indentificar e evitar os impactos dela resultantes? Será factível limitá-la, evitá-la, ou não? Este, concordamos com Ladrière, constitui um "apelo à inventividade ética, ao exercício da razão prática" (Ladrière, s/d:152).

 

 

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