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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.13 n.3 Rio de Janeiro Jul./Sep. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000300004 

DEBATE DEBATE

 

 

Ana Amélia Boischio

Departamento de Ciências Biomédicas, Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho, Brasil.


Debate sobre o artigo de Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm

Debate on the paper by Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm

 


Os autores abordam primeiramente uma perspectiva histórica das várias etapas do pensamento acadêmico, especialmente o filosófico, sobre as relações sociedade-natureza. A abrangência do tema permite-nos acrescentar inúmeros desdobramentos e discussões. Por exemplo, vale lembrar que o arcabouço institucional contextualiza a racionalidade científica, que varia de acordo com os cenários. Podemos considerar o cenário acadêmico (através da ecologia enquanto ciência), o ambientalista (através dos movimentos contestatórios, associações comunitárias) e o de políticas públicas (via ações governamentais). Dentro de cada cenário existem várias formas de agrupar as diferentes tendências e muitas ligações. Os autores citam esses agrupamentos tanto para as correntes ambientalistas, como também para os tópicos relacionados ao desenvolvimento sustentável.

No cenário ambientalista, convém lembrar o impacto do livro Primavera Silenciosa, no qual Rachel Carson (1987), na década de 60, fez um longo ensaio em linguagem acessível para amplo público sobre os possíveis percursos e danos de alguns dos milhares de produtos químicos produzidos, utilizados e despejados no ambiente. Um grande público foi atingido com esse livro, apesar de alguns erros e exageros nele contidos. A toxicologia ambiental, uma relevante disciplina da ciência ambiental, pode ser considerada a versão acadêmica do conteúdo desse livro de cunho ambientalista.

No cenário acadêmico, os autores citam os modelos ecológicos propostos por Odum (1985) na década de 70, como forma de entender a nossa casa. Nesse caso, a entropia (tendência ao caos, dispersão) deve ser considerada nos modelos propostos. Utilizar modelos para entender e predizer tendências foi um avanço significativo em ciência. Em momento posterior, Lovelock (1989) propõe um modelo globalizado na forma de Terra viva. A hipótese de Gaia trata o planeta Terra como um único organismo, possuindo, desta forma, vários mecanismos de homeostase, resiliência, ou também o caos, que regulam as muitas taxas metabólicas, importantes aspectos da vida, também mérito de discussão. A idéia de Gaia é controversa quanto à questão capacidade de suporte de poluição no planeta. Alguns grupos ambientalistas consideraram "que a idéia de Gaia dá à indústria o direito de poluir o quanto quiser ..." (Lovelock, 1989), o que obviamente o autor defende como sem fundamento, enfatizando justamente a perspectiva contrária.

Nas políticas públicas pode-se discutir a questão do desenvolvimento sustentável, que, no contexto democrático, deve convergir ciência (enquanto ecologia) e qualidade de vida das populações humanas. O desenvolvimento sustentável é um termo amplo que abriga várias definições em torno de "...garantir a disponibilidade de recursos para gerações futuras...". No entanto, tal desenvolvimento impõe políticas públicas de questionável praticabilidade nas circunstâncias vigentes, especialmente nos países do Terceiro Mundo. Mais recentemente, as ações comunitárias têm ganho significativa atenção. A sociedade civil mobilizada através de organizações não governamentais (ONGs) é um encaminhamento para a democratização dos processos decisórios pelas comunidades habitantes das muitas aldeias do mundo. Muitos dos caminhos percorridos pela questão ambiental, via quaisquer dos cenários considerados, deve ser associado ao papel da mídia na projeção dessas questões sobre o público.

Em todos esses cenários apontados, prevalece o privilégio da nossa geração: podemos gerenciar uma enorme quantidade de informações, que permitem desenvolver uma ciência complexa de aspecto interdisciplinar, sem comprometer a profundidade necessária da mesma. A quantidade de arquivos que podem ser ativados para redesenhar modelos e utilizar os mesmos como base para análises, discussões e decisões torna a questão ambiental, como também muitas outras, objeto de uma época informatizada, que possibilita o desenvolvimento de uma Ecologia Complexa, como a sugerida pelos autores.

É também importante incluir a questão ética como parte da proposta de Ecologia Complexa. A ética da solidariedade, diferente da ética competitiva, deve permanecer. A qualidade de vida eqüitativa atual e futura em todas as aldeias deve ser a prioridade do percurso humano na Terra. Alguns autores (Katz & Oechsli, 1993) discutem também a perspectiva da ética antropocêntrica. Esses autores sugerem que existe uma obrigação moral à natureza e aos ecossistemas, propondo portanto uma visão não antropocêntrica nas ações ambientais, o que não combina muito com a questão de desenvolvimento sustentável por parte das políticas públicas.

O texto manifesta a utopia mencionada no título ao indicar alguns aspectos da impraticabilidade do paraíso!

 

CARSON, R., 1987. Silent Spring. Boston: Houghton Mifflin Company.

LOVELOCK, J., 1989. The Ages of Gaia. Oxford: Oxford University Press.

KATZ, E. & OECHSLI, L., 1993. Moving beyond anthropocentrism: environmental, ethics, development, and the Amazon. Environmental Ethics, 15: 49-59.