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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.13 n.3 Rio de Janeiro Jul./Sep. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000300005 

DEBATE DEBATE

 

 

Dennis Werner

Departamento de Antropologia, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil.


Debate sobre o artigo de Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm  

Debate on the paper by Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm

 


O ensaio de Silva e Schramm apresenta muitos temas interessantes e importantes para debate: história da ciência, critérios para definir ética, características de movimentos sociais, relações do ser humano com o seu meio ambiente. Poderia questionar alguns detalhes na argumentação, como, por exemplo, a afirmação citada pelos autores de que "estamos diante de uma crise única na civilização", que se deve ao modelo de civilização insustentável do ponto de vista ecológico (em outro trabalho ­ Werner, 1987 ­ argumentei que a queda de muitas civilizações antigas na Mesopotâmia, Egito, México e Estados Unidos deviam-se a crises ecológicas decorrentes dos modelos insustentáveis destas sociedades). Mas gostaria de dedicar estes comentários a algumas questões que permeiam a discussão e que, ao meu ver, merecem uma reconsideração.

É quase automático hoje em dia reclamar-se de três características dos trabalhos científicos dos nossos antepassados, que agora são consideradas ultrapassadas ­ o determinismo, o reducionismo e o simplismo. Gostaria de adotar o papel do advogado do diabo aqui e argumentar que ainda precisamos destas três maneiras de pensar.

Os autores deste ensaio não reclamam do determinismo, mas os seus questionamentos a respeito do mecanicismo talvez não sejam tão distantes. Por determinismo podemos adotar a definição mais ampla de Bunge (Bunge, 1979: 13) ­ a manutenção da "hipótese de que eventos ocorrem em uma ou mais maneiras definidas, que as maneiras de vir a ser não são arbitrárias, mas obedecem a leis, e que os processos pelos quais o objeto adquire as suas características se desenvolvem a partir de condições pré-existentes". Desde que obedecesse a algumas leis, até o acaso poderia ser considerado determinado. Neste sentido, não importa muito se God plays dice (ou talvez, melhor, se Dice play God) para as nossas noções de determinismo. Mesmo se aceitamos um 'indeterminismo' (ou casualidade) no nível quântico, podemos continuar a trabalhar com determinismos probabilísticos. De toda maneira, o comportamento dos quanta não implica um indeterminismo em outros níveis de análise (tal conclusão seria reducionista). Hoje, com as revelações da matemática do caos, muitos duvidam até do indeterminismo quântico (Davies & Brown, 1993). É possível, por exemplo, que o que vemos como indeterminismo seja simplesmente a nossa impossibilidade em conhecer suficientemente bem as condições iniciais de um processo (Stewart, 1995). Mas, mesmo se nós nunca podemos ter certeza das coisas, isto não implica necessariamente que a própria realidade seja casuística, e o fato de precisarmos lidar com incertezas não invalida a procura para regularidades.

Os autores são mais enfáticos quanto ao problema do reducionismo, vendo com bons olhos uma diminuição nesta questão nas últimas décadas. Reducionismo geralmente refere-se à explicação de um fenômeno em termos de outros fenômenos num nível mais baixo. Por exemplo, descobertas químicas são explicadas em termos da física (o que marcou muito da história da química ­ Atkins, 1995); fenômenos biológicos são exemplificados em termos da química (os avanços atuais na área de biologia molecular são neste sentido). Embora os autores afirmem que o reducionismo está diminuindo na ciência, há muita evidência de que está acontecendo o contrário. Como argumenta Dennett (Dennett, 1991:455), sólidos, líquidos e gases podem ser explicados em termos de coisas que não são conscientes.

Esta observação não nega a importância de análises independentes feitas em diferentes níveis. Podemos explicar muitos aspectos de programas de computador, como o Word, independentemente de funcionarem num Apple ou num IBM, embora saibamos que no nível da programação de máquina os programas são diferentes. Da mesma maneira, Durkheim argumentou (e Radcliffe-Brown e Murdock demostraram) que alguns aspectos de uma sociedade podem ser analisados sem referência à psicologia ou simbologia dos indivíduos que a compõem. Nem a análise logística do trânsito precisa levar em conta as particularidades de todos os veículos. No entanto, uma análise verdadeiramente holística teria que pensar nos diferentes níveis da realidade e lidar com as conexões entre eles. No mínimo, a análise de um nível deve evitar pressupostos claramente errados quanto ao nível imediatamente abaixo. Uma análise do trânsito não deve pressupor que veículos podem parar num segundo, e uma análise de sociedades humanas não deve pressupor que as pessoas obedecem cegamente às autoridades ou aos apelos à solidariedade.

A atitude dos autores quanto ao simplismo vê-se no seu endosso entusiasta para as teorias da complexidade, atribuindo a estas idéias uma ressacralização da natureza. Suspeito que há várias reflexões metafísicas envolvidas aqui. Uma é o pressuposto de que "tudo está relacionado com tudo", uma idéia que filósofos como Bunge (1979) rejeitam, preferindo imaginar a realidade como existindo em módulos de nexos causais relativamente independentes. Outra é a idéia de uma "linguagem universal dos padrões evolutivos para os quais todos os sistemas se dirigem". Esta maneira de pensar lembra muito a teologia natural da Inglaterra dos séculos passados. "For there is a language of flowers, and the flowers are peculiarly the poetry of Christ", escrevia o letrista louco dos hinos anglicanos, Christopher Smart. Naquela época, a perfeição das adaptações de plantas e animais servia para demonstrar a existência de um desenhista maior ­ Deus. Tenho a impressão que alguns matemáticos querem ressuscitar o Deus de Spinoza (Deus = leis da Natureza), ou outras filosofias idealistas. Respeito o empenho dos matemáticos em tentar entender o desenvolvimento de conjunturas complexas estáveis, mas questiono o alcance destas teorias em explicar tudo que precisamos saber sobre o ser humano e os ecossistemas. O problema é que a seleção natural é oportunista. Junta peças disponíveis num ato de 'bricolagem' para construir algo que funciona no momento. Isto implica imperfeições. Com efeito, Darwin teve que passar muito tempo demonstrando a imperfeição das adaptações para se defender contra os teólogos naturais.

Os adeptos da teoria da complexidade podem achar que vestígios desta 'bricolagem' (como o nosso apêndice, ou ponto cego dos nossos olhos) são 'meros detalhes' sem importância no caminho "para os padrões evolutivos para os quais todos os sistemas se dirigem". No entanto, nós precisamos conviver com estes e outros 'acidentes' que encontramos neste caminho. Em outro trabalho (Werner, no prelo), argumentei que uma visão da realidade mais darwinista ajudaria a evitar os problemas do idealismo e o desespero dos fenomenalistas. Uma maior atenção à idéia de seleção natural já tem ajudado a entender processos tão variados como a imunologia, a computação (Cziko, 1995), a psicologia e a aprendizagem (Cziko, 1995; Barkow et al., 1992), a moralidade (Wright, 1996; Rachels, 1991), a cooperação (Axelrod, 1990) e a própria origem das leis do universo (Dennett, 1995). Acho que reflexões sobre as relações entre o ser humano e seu meio ambiente beneficiam-se muito destas idéias. Talvez os movimentos percam um pouco o seu sabor místico. Ou, quem sabe, talvez, aprenda-se melhor a direcionar este misticismo para fins mais justos e ecológicos.

 

ATKINS, P. W., 1995. The Periodic Kingdom: A Journey into the Chemical Elements. New York: Basic Books.

AXELROD, R., 1990. The Evolution of Cooperation. New York: Penguin.

BARKOW, J.; COSMIDES, L. & TOOBY, J., 1992. The Adapted Mind: Evolutionary Psychology and the Generation of Culture. New York: Oxford University Press.

BUNGE, M., 1979. Casuality and Modern Science. New York: Dover Publications.

CZIKO, G., 1995. Without Miracles: Universal Selection Theory and the Second Darwinian Revolution. Cambridge: MIT Press.

DAVIES, P. C. W. & BROWN, J. R., 1986. The Ghost in the Atom. New York: Cambridge University Press.

DENNETT, D., 1991. Consciousness Explained. Boston: Little Brown and Co.

DENNETT, D., 1995. Darwin's Dangerous Idea: Evolution and the Meaning of Life. New York: Simon and Scuster.

RACHELS, J., 1991. Created from Animals: The Moral Implications of Darwinism. New York: Oxford University Press.

STEWART, I., 1995. Nature's Numbers: The Unreal Reality of Mathematical Imagination. New York: Basic Books.

WERNER, D., 1987. Uma Introdução às Culturas Humanas: Comida, Sexo, Magia e Outros Assuntos Antropológicos. Petrópolis: Vozes

WERNER, D. Epistemologia Darwinista: Evolução e o Pensamento de Animais, Humanos, Intelectuais e Antropólogos. Florianópolis: Editora da UFSC, (no prelo).

WRIGHT, R., 1996. O Animal Moral: Porque Somos como Somos. A Nova Ciência da Psicologia Evolucionista. Rio de Janeiro: Campus.