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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.13 n.3 Rio de Janeiro Jul./Sep. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000300006 

DEBATE DEBATE

 

 

Fernando Dias de Ávila-Pires

Departamento de Medicina Tropical, Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro.


Debate sobre o artigo de Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm  

Debate on the paper by Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm

 


Ecologia, meio ambiente, holismo e ética são palavras da moda. A chamada questão ecológica certamente é importante, mas, como bem definiu L. V. Bertalanffy, citado em outro contexto pelos autores do artigo aqui comentado, "... doubtless there is a new compass of thought but it is difficult to steer between the Scylla of the trivial and the Charybdis of mistaking neologisms for explanation".

A leitura do texto deixou-me frustrado e preocupado. Constitui um exemplo perfeito do estilo de certa literatura moderna sobre ambientalismo e ecologismo, temas de importância atual indiscutível, freqüentemente tratados de forma incorreta. Cobre um extenso leque de temas, que são abordados com uma superficialidade que contrasta com afirmativas generalizantes e categóricas, apoiadas em uma bibliografia parcial, insuficiente para permitir a discussão aprofundada dos assuntos tratados. Passa pela filosofia e pela história com o descuido de quem brinca ao lado de um poço cuja profundidade desconhece. Fala da filosofia ocidental como se fosse a única, da história medieval como se fosse a pródiga, passa pela ecologia como se fosse um pássaro, pela proposta de um desenvolvimento sustentável como se fosse sólida, para acabar vazio como um pacote flácido. Termina por reconhecer que: "Partindo das descobertas da termodinâmica, da física quântica, transportando-as para a biologia evolucionária dos sistemas vivos, as ciências encontram seus limites onde a relação entre o particular e o universal continua um desafio e, portanto, em aberto".

Deixo de lado algumas distorções factuais e cronológicas, como a de mencionar que Copérnico e Vesálio teriam utilizado o método experimental e indutivo. Dupla falta, primeiro porque a indução, em ciência, é devida a Francis Bacon, que tinha três anos quando morreu Vesálio, e as obras do astrônomo, como as do anatomista, são bons exemplos do exercício da observação e da dedução, mas não da experimentação.

Passo a analisar o texto em sua essência e não em seus detalhes.

Muito tem-se escrito sobre a eclosão, nas duas últimas décadas, do interesse popular pelas questões relativas ao uso racional dos recursos naturais e sobre o ambientalismo como movimento político. Boa parte dessa literatura pretende estabelecer uma ponte entre a ciência ecológica e as questões sociais e políticas relativas ao uso dos recursos, à poluição e às mudanças globais. A maior parte falha frente à falta de conhecimentos de ecologia, erradamente subordinada à biologia, e, em boa medida, devido à amplitude e generalidade dos objetivos temáticos pretendidos. Espera-se da ciência ecológica respostas que devem ser buscadas na ecologia política e a solução de problemas para os quais ela não dispõe de metodologia.

Alguns aspectos formais precisam ser avaliados para que se possam abordar tais problemas.

O modelo de ecossistema geralmente citado é um modelo didático, destinado a ilustrar a circulação de nutrientes e a transferência de energia nos sistemas ecológicos. Não se aplica literalmente às comunidades bióticas na natureza e, muito menos, àquelas caracterizadas pela presença humana, atualmente denominadas geossistemas. Existe uma extensa literatura sobre ecologia humana, usualmente ignorada nessas discussões.

Um longo caminho teve que ser percorrido antes que fosse possível chegarmos ao conceito de ecossistema, passando, por exemplo, pelas contribuições pioneiras à química de Lavoisier, à nutrição vegetal de Liebig, à fermentação, putrefação e decomposição de Pasteur, pela elucidação dos processos de síntese das substâncias orgânicas, pelas filosofias vitalistas, e pela natureza dos mecanismos da seleção, competição e evolução, de Darwin e Wallace.

A idéia de que a ecologia é um ramo da biologia constitui uma distorção comumente encontrada na literatura leiga. Se suas raízes pioneiras vêm da fitogeografia e da botânica, sua natureza complexa e multidisciplinar foi motivo de um comentário pertinente de Clements e Shelford em uma obra que marcou época (Bio-ecology, John Wiley, 1939): "... students of ecology will continue to be trained primarily as botanists, zoologists, sociologists, or economists for some time to come ­ probably indeed as long as university depertments are organized on the present basis". Solo, clima e os demais fatores do ambiente abiótico fazem parte das análises ecológicas, tanto quanto sua componente biótica. No caso da ecologia humana, métodos e conceitos das ciências sociais fazem parte do instrumental de pesquisa. Aliás, a 'formulação integrada' (p. 9) não ocorreu com os irmãos Odum, mas no início do século.

Entretanto, não reside apenas aí a fonte dos problemas detectados na literatura ecologicista atual. Reside também no tipo de confusão conceitual que se faz entre religião e igreja, educação e ensino, política e ação partidária, ciência econômica e economia política, ecologia e meio ambiente ou natureza. Freqüentemente confunde-se instituição com ação, a discussão teórica com a análise de casos, a norma estabelecida com a contravenção praticada, a regra com a distorção. Para muitos, a ecologia constitui a moderna encarnação da própria natureza e defender a ecologia é sinônimo de preservar o meio ambiente ­ como se defender a etnologia significasse a defesa das etnias minoritárias.

A ciência ecológica busca elucidar a trama de relações existentes entre organismos e os fatores bióticos e abióticos do meio. Seu conhecimento é indispensável à compreensão dos problemas da produção primária, da conservação dos recursos renováveis e não renováveis, do controle de pragas, parasitos vetores e hospedeiros não humanos de certas enfermidades. A análise da capacidade de resposta à exploração ou de absorção de resíduos deve ser feita à luz das teorias ecológicas e com o auxílio de metodologias desenvolvidas por ecólogos.

Mas as relações entre ciência ecológica e política ambiental, economia política, política conservacionista, desenvolvimento econômico e relações internacionais, envolvendo o uso compartido de recursos naturais, não são imediatas, nem diretas, nem singelas. Não é o ecólogo, como tal, que vai decidir sobre questões políticas, econômicas ou éticas. A ecologia não possui instrumental técnico ou metodológico que o permita.

Quem pretende entrar em uma discussão que se propõe a abordar as relações entre a ciência ecológica e a ideologia de uma época apoiado, apenas, nas obras (traduzidas) citadas (Acot, Lago & Padua e uma edição antiga do livro-texto de Odum), não pode esperar atingir seus objetivos. Seria o mesmo que enfrentar uma discussão sobre a crise religiosa no mundo moderno apoiado em um catecismo escolar, ou discutir o desenvolvimento da ciência e tecnologia em relação aos impactos ambientais nos países de primeiro e terceiro mundos sem o recurso da moderna historiografia e da perspectiva histórica, que não se encontram nos livros escolares.

Não acredito no resultado de discussões que não partam da definição exata dos objetivos, dos termos utilizados, da solidez e correção dos fundamentos históricos em que se apóiam os argumentos e da precisão dos fatos científicos alegados em suporte às idéias defendidas. E, nos escritos, impressiona-me mal o excesso de aspas, que significam que o autor não se deu ao trabalho de buscar uma palavra ou expressão que exprima exatamente o que pretende dizer.

Acredito, porém, que cabe-nos como pesquisadores e professores um papel importante no questionamento sério e na análise aprofundada de questões fundamentais. Questionamento baseado em bibliografia apropriada e no conhecimento aprofundado dos temas analisados, transmitido em terminologia precisa e com definições claras. Desta responsabilidade lembrou-nos Ruy Barbosa ao reconhecer que: "O vício essencial entre nós /é que/ o pouco de ciência que se ensina segue métodos que levam a decorar e repetir e nunca a desenvolver a capacidade de pensar e analisar. Estas faculdades vão produzir, então, doutores incapazes de ver a natureza presente, mas capazes de sustentar, com todas as pompas da retórica, as hipóteses mais inverificáveis sobre a existência do incognoscível" (Ruy Barbosa, 1882).