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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.13 n.3 Rio de Janeiro Jul./Sep. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000300008 

DEBATE DEBATE

 

 

José Maria G. de Almeida Jr.

Instituto de Ciências Biológicas, Universidade de Brasília, Brasília, Brasil.


Debate sobre o artigo de Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm  

Debate on the paper by Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm

 


Sobreviver ou não sobreviver. Eis a questão! Mais do que uma mera paráfrase, essas são as alternativas ­ cruciais! ­ que se colocam para a humanidade nesta transição de século. Por quê?

Porque evidências cotidianas inquestionáveis do mundo contemporâneo mostram-nos o planeta no seu ponto crítico (Brown et al., 1984-86), o que nos leva a dois axiomas inexoráveis (Almeida Jr., 1994):

1) A Terra depende de certos arranjos nas condições físicas, biológicas e culturais, numa escala espaço-temporal, para sua conservação em equilíbrio dinâmico (sustentabilidade evolucionária). Assim, a prevalecerem os modelos de desenvolvimento da ordem mundial vigente, que se caracterizam por romper constantemente o equilíbrio dinâmico desses arranjos, o planeta é insustentável a longo prazo ­ tempo entre 100 e 1.000 anos aproximadamente.

2) Os modelos de desenvolvimento refletem os paradigmas de percepção, pensamento e ação (cosmologias) da humanidade como um todo e de cada sociedade e cultura humana em particular. Portanto, a sustentabilidade evolucionária futura da Terra depende de profundas mudanças nos paradigmas cosmológicos pós-industriais que levem a modelos de desenvolvimento ecologicamente auto-sustentáveis e, desse modo, a uma nova ordem mundial.

Assim, aceita-se como factual o estarmos diante do sobreviver ou não sobreviver ­ lembre-se aqui, nesse sentido, que no ano de 1996 morreram de fome, no planeta, 76 pessoas por minuto, 50% crianças, e que o homem extingue, direta ou indiretamente, 72 espécies de seres vivos por dia, três por hora (Myers, 1993) ­, não nos deve escapar o caráter moral inerente às escolhas suscitadas por essas alternativas; tampouco deve-nos escapar a natureza complexa, multidimensional, da questão.

De fato, a questão em pauta é ecológica, porque diz respeito às relações interdependentes da espécie humana e do planeta como um todo; é política e, como tal, estratégica, social, econômica e cultural, porque remete-nos ao compromisso com a ação visando à sobrevivência do homem e da Terra e é ética, porque encerra valores morais diante de um bem juridicamente protegido ­ a vida, em todas as suas formas, manifestações e relações.

Posto isso, quero dizer que concordo, de um modo geral, com os autores Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm no seu artigo A questão ecológica: entre a ciência e a ideologia/utopia de uma época. Mas desejo que essa concordância seja entendida à luz do que exponho nestes comentários.

É conservador ter e procurar passar uma percepção da questão ecológica como um elo comum entre ciência e ideologia, entre racionalismo e 'emocionalismo'.

Por outro lado, é revolucionário ter e passar uma percepção da questão ecológica como um elo singular entre os paradigmas cosmológicos da ordem mundial vigente e os que se pretende para uma nova ordem.

Creio ser esse ­ o segundo posicionamento ­ o que permite escolher o pensar e o agir a fim de tornar possível tudo aquilo que é necessário à sobrevivência humana e planetária, num mundo que seja marcado pela solidariedade, dignidade, eqüidade, paz e liberdade. Uma utopia de uma época ­ a do nosso tempo? Sim, uma utopia. E o que é mais humano do que sonhar, almejar, buscar e, quem sabe, alcançar o sublime?

 

ALMEIDA JR., J. M. G., 1994. Desenvolvimento ecologicamente auto-sustentável: conceitos, princípios e implicações. Humanidades 10(4/38):284-299.

BROWN, L. R. et al., 1984-86. State of the World (1984-96) ­ A Worldwatch Institute Report on Progress Toward a Sustainable Society. New York: W. W. Norton & Co.

MYERS, N., 1993. Gaia: An Atlas of Planet Management. New York: Anchor Books.