SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.13 issue3Debate on the paper by Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland SchrammDebate on the paper by Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm author indexsubject indexarticles search
Home Page  

Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.13 n.3 Rio de Janeiro Jul./Sep. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000300009 

DEBATE DEBATE

 

Thomas Michael Lewinsohn

Laboratório de Interações Insetos-Plantas, Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, São Paulo.


Debate sobre o artigo de Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm  

Debate on the paper by Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm

 


Comentar o artigo de Silva & Schramm (doravante S & S) em três laudas é uma tarefa espinhosa. Em seu breve texto, os autores vão da evolução da filosofia à história da técnica, da lógica da produção industrial à história do movimento ambientalista, da ética ao utilitarismo, dos pré-socráticos aos reflexos da Eco-92. Nesta mistura, há idéias estimulantes e provocadoras, mas há muito mais a que objetar. Atenho-me a dois dos temas que demandam um comentário mais detalhado.

 

Racionalismo filosófico e tecnocientífico como origem da crise ambiental

 

"Os impactos ambientais não devem ser associados exclusivamente com a grande indústria [...]. Já no século XVIII, o seu modo de operar se fazia sentir ...". Para construir seu argumento, S & S postulam que racionalidade, antropocentrismo, industrialização etc. engendram a crise ambiental. Ora, problemas ambientais são um pouquinho anteriores a Descartes. Crises sérias de sobre exploração e salinização de solos cultivados ocorrem na Mesopotâmia (1700 a.C.); desflorestamento predatório leva a crises de construção e combustíveis na Babilônia (2000 a. C.); a demanda de lenha e carvão para metalurgia fazem de Creta e Grécia terras arrasadas; o cipreste, hoje árvore típica da paisagem do Mediterrâneo, torna-se dominante em função do desmatamento da região por uma sucessão de civilizações clássicas 'florescentes'; a substituição de florestas pela agricultura leva à erosão tão violenta que importantes portos da Ásia Menor e Grécia são perdidos por total assoreamento ­ alguns são abandonados por se tornarem zonas endêmicas de mosquitos e malária. Tudo isto entre 700 a.C. e 200 d.C. (Perlin, 1989). A poluição dos rios em cujas margens surgem as grandes cidades européias é tão séria que obrigam-nas a trazer água de longe para seu abastecimento: isto em Roma desde 300 a.C., em Londres desde 1236, em Breslau desde 1479 (Pontig, 1991).

Perante tais crises, a consciência ecológica antecede bastante Aldo Leopold e o século XX, seja como ética (desde os mitos de Gilgamesh, na Suméria), seja pela percepção crítica de conseqüência do desflorestamento, erosão e poluição, seja por inovações tecnológicas de baixo impacto. A arquitetura prioriza eficiência de aquecimento solar tanto em Roma como na Grécia antiga, onde cidades como Priene têm seu traçado inteiro dirigido para aumentar tal eficiência. Substituem-se materiais e técnicas de construção e metalurgia, para maior eficiência, e nem mesmo a reciclagem de lixo é tão recente ­ em Roma, coletava-se vidro para a reciclagem já no século I (Perlin, 1989).

Estes exemplos avulsos não significam que os problemas ambientais tenham sido inteiramente compreendidos a seu tempo, nem que as soluções tenham sido suficientes. O que espanta é que civilização após civilização caia em armadilhas semelhantes, experimente crises parecidas e tente lidar com elas tardiamente e por soluções técnicas parciais.

Entretanto, esta perspectiva extrapola o texto de S & S, que atrelam as crises de hoje à moderna industrialização, à ciência e à tecnologia contemporâneas, e estas, por sua vez, a uma filosofia racionalista e reducionista. Como tentei mostrar, tal esquema explicativo não dá conta de uma história ambiental muito mais longa, e mais complexa, do que apresentam.

Antes de prosseguir a outro tema, será que o próprio "projeto atual de dominação da natureza pelo saber-fazer tecnocientífico" começa de fato com a instauração do mundo moderno, quando se rompem as relações homem/natureza? Aqui parece-me haver igualmente uma visão ingênua do mundo antigo e medieval. Veja-se, a propósito, o trabalho clássico de White (1967), que encontra na teologia judaico-cristã bases para o distanciamento e dominação destrutiva da natureza pelo homem.

 

Ciência ecológica e programas holísticos

 

A origem e a construção da ciência ecológica são representados de maneira equivocada por S & S. As contribuições dos naturalistas ingleses e da sistemática de Lineu para o surgimento de uma ciência da Ecologia são reais, mas incluem-se entre muitos aportes importantes. A ciência ecológica tem outras raízes, em que sobressaem a geografia de organismos e comunidades de Humboldt; questões sobre relações organismo-meio, tratadas por cientistas como Lamark e de Candolle, desde o século XVIII; a demografia iniciada no século XVII (ver, entre outros, Hutchinson, 1978; Mcintosh, 1985; Drouin, 1991). Entretanto, destaca-se a contribuição de Darwin. A Origem das Espécies contém, entre outras coisas, um tratamento extenso de questões ecológicas, enfeixando dinâmica de populações, interações intra e interespecíficas, respostas a pressões e modificações do ambiente, e organização e dinâmica de comunidades (Darwin, 1859). O conhecimento evolutivo e ecológico não avançaram de forma concordante e mais de uma vez estiveram em oposição (McIntosh, 1985; Drouin, 1991), mas a influência darwiniana sobre o desenvolvimento conceitual da ecologia do século XX é nítida.

A ciência ecológica construiu-se por muitas vertentes. A caracterização e necessidade de explicar padrões de diversidade de espécies em diferentes ambientes e regiões geográficas é uma das primeiras (Lewinsohn et al., 1991). A ecologia vegetal de Warming (1895), entre outros, investigou respostas morfológicas e fisiológicas de plantas ao ambiente, tanto como processo adaptativo como em suas conseqüências biogeográficas. Warming representa um marco na organização da ecologia como campo de investigação (Goodland, 1975). A ecologia animal segue outros caminhos, centrados na formalização da dinâmica de populações, em modos de interações interespecíficas e na organização trófica de comunidades naturais (Elton, 1927). Dinâmicas de conjuntos interativos de populações são abordados em estudos de campo e em experimentos controlados nas décadas de 1930 a 1950.

A visão ecossistêmica toma forma na mesma época. O sistema dinâmico de organismos vivos e seu ambiente físico é chamado de ecossistema por Tansley em 1935. Seis anos depois, R. Lindeman desenvolve uma abordagem dinâmica para a questão da eficiência energética destes sistemas, apontada originalmente por Elton e delineada por Hutchinson (Lindeman, 1942). A estes trabalhos é que se agregam as pesquisas mais importantes dos irmãos Odum (Odum & Odum, 1955).

A ciência ecológica consolidou sua identidade institucional como área de pesquisa própria nas últimas quatro décadas, mas sempre conservou uma diversidade de linhas de pesquisa e aplicação tão grande como mostra o esboço acima. O interesse recente na história desta ciência tende a superar uma visão simplificada, que divide a ecologia simplesmente em ecologia de ecossistemas e ecologia de sistemas, por um lado, e em ecologia evolutiva e ecologia de populações, por outro. Na verdade, estas duas vertentes não são nem internamente homogêneas, nem tão autônomas entre si (McIntosh, 1985; Golley, 1993).

A ciência ecológica, portanto, antecede e vai além do programa ecossistêmico desenvolvido pelos irmãos Odum e seus colaboradores. Ao contrário do que indicam S & S, este programa está longe de ser a 'síntese completa da ecologia'. Mais que isto: embora E. e H. Odum definam sua abordagem como completamente holista, sob exame mais cuidadoso, a ecologia de ecossistemas mostra-se tão reducionista como outras abordagens da biologia e ecologia. Mesmo a historicidade da 'nova física' de Ilia Prigogine, que para S & S exemplifica os novos rumos que a ciência deve buscar, é objeto explícito de investigação da atual ecologia de populações e de comunidades, mas não cabe no quadro da ecologia de ecossistemas.

Há outras razões para reconsiderar criticamente a identificação da ciência holística odumiana com as reações sociais à ciência individualista e a soluções tecnocráticas. Duas delas merecem ao menos menção. As relações entre o trabalho dos irmãos Odum e o establishment governamental e militar norte-americano são bastante complexas; sua pesquisa teve uma nítida função validadora para o uso da energia nuclear após a Segunda Guerra (Hagen, 1992; Taylor, 1988) e os modelos de ecossistemas que produzem são a mais acabada representação da natureza ao modus da engenharia.

Não há espaço para abordar outros importantes temas de que S & S tratam, como os movimentos ambientalistas, a eventual cooptação de suas causas, ou as bases para uma ética ambiental. Porém, antes de erigir uma nova 'Ecologia Complexa', é necessário aprofundar-se e entender melhor sobre a efetiva construção, as limitações e, principalmente, o próprio conteúdo do conhecimento científico e sua inserção na sociedade. Para alicerçar um programa renovador e abrangente valendo-se da história ambiental e a ciência ecológica, há que conhecê-las a ambas mais de perto.

 

DARWIN, C. R., 1859. On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favored Races in the Struggle for Life. 6a ed., London: John Murray.

DROUIN, J. M., 1991. Réinventer la Nature; l'Écologie et son Historie. Paris: Desdrée de Brouwer.

ELTON, C., 1927. Animal Ecology. London: Sidgwick and Jackson.

GOLLEY, F. B., 1993. A History of the Ecosystem Concept in Ecology. New Heaven: Yale University.

GOODLAND, R. J., 1975. The tropical origins of ecology: Eugen Warming's jubilee. Oikos, 26:240-245.

HAGEN, J. B., 1992. An Entengled Bank; the Origins of Ecosystem Ecology. New Brunswick: Rutgers University Press.

HUTCHINSON, G. E., 1978. An Introduction to Population Ecology. New Heaven: Yale University Press.

LEWINSOHN, T. M.; FERNANDES, G. W.; BENSON, W. W. & PRICE, P. W., 1991. Introduction: historical roots and current issues in tropical evolutionary ecology. In: Plant-Animal Interaction; Evolutionary Ecologyin Tropical and Temperate Regions (P. W. Price; T. M. Lewinsohn; G. W. Fernandes & W. W. Benson, eds.), pp. 1-21, New York: John Wiley.

LINDEMAN, R. L., 1942. The trophic-dynamic aspect of ecology. Ecology, 23:399-418.

McINTOSH, R. P., 1985. The Background of Ecology. Cambridge: Cambridge University Press.

ODUM, H. T. & ODUM, E. P., 1955. Trophic structure and productivity of a windward coral reef community on Eniwetok Atoll. Ecological Monographs, 25:391-320.

PERLIN, J., 1989. A Forest Journey: The Role of Wood in the Development of Civilization. Cambridge: Harvard University Press.

PONTIG, C., 1991. A Green History of the World. London: Penguin.

TANSLEY, A. G., 1935. The use and abuse of vegetational concepts and terms. Ecology, 16:284-307.

TAYLOR, P. J., 1988. Technocratic optimism, H. T. Odum and the partial transformation of ecological metaphor after World War II. Journal of the History of Biology, 21:212-244.

WARMING, E., 1895. Plantesamfund: Grundtraes af den Oekologiska Plantegeografi. Copenhagen: Philipsen. (Tradução: 1909. Oecology of Plants. Oxford: Clarendon.)

WHITE JR, L., 1967. The historical roots of our ecological crisis. Science, 155:1203-1206.