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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.13 n.3 Rio de Janeiro Jul./Sep. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000300010 

DEBATE DEBATE

 

Wilmar do Valle Barbosa

Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.


Debate sobre o artigo de Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm  

Debate on the paper by Elmo Rodrigues da Silva & Fermin Roland Schramm

 


Não resta a menor dúvida de que a chamada questão ecológica, bem como a crise ecológica constituem um dos problemas teóricos e práticos mais agudos deste século. E quando falamos em questão ecológica, estamos necessariamente referindo-nos, de modo implícito ou não, à nossa relação com a natureza, que, como bem indicam Silva & Schramm, dá-se sob o signo da história. Da mesma forma como a questão política foi, digamos, uma espécie de epicentro do século XVIII ­ século das resoluções ­ e a questão social, epicentro do século XIX ­ século da discussão sobre direitos políticos, sobre reforma e justiça social ­, o nosso século parece ter elegido o problema da natureza como a sua questão. E com ela, os problemas referentes ao que os autores do artigo em discussão chamam de "projeto atual de dominação da natureza pelo saber técnico científico". Mas o que é que se pretende dizer com esta proposição? Dito de outra maneira: o que é a natureza que se pretende dominar quando se fala em 'projeto atual de dominação'?

Na nossa avaliação, se as culturas humanas conseguiram elaborar um termo, um conceito, uma representação, em nada unívoco, completamente polissêmico, este é o de natureza. No âmbito mesmo da cultura ocidental antiga, por exemplo, os termos physis (grego) e natura (latino) possuíam significados diferentes e, conseqüentemente, sugeriam relações diferenciadas ­ inclusive as cognitivas ­ com o que gregos e romanos entendiam ser a natureza. Igualmente, a natureza, tal como concebida pelos filósofos e teólogos medievais, difere substantivamente daquela concebida pelos modernos, e esta última, por sua vez, já não mais corresponde às demandas da sensibilidade contemporânea. Se estas rapidíssimas observações forem consistentes, poderemos então afirmar que a implicação fundamental de toda a questão ambiental deverá advir de uma renovada relação com a natureza; deveremos também nos perguntar (e tentar responder!) "com que natureza?" É nesse sentido que entendemos a demanda de François Chatêlet por uma nova ontologia, uma nova representação do real, compreendendo, ao mesmo tempo, que o deslocamento decisivo que ele busca encontra-se na renovação da filosofia política e na emergência de uma nova filosofia da natureza, tal como sugere J. P. Dupuy.

Quais poderiam ser as eventuais características desta nova filosofia da natureza, parece-nos algo ainda difícil de se estabelecer com segurança. Uma coisa, porém, afigura-se-nos como certa. Se é correto afirmar que as tendências naturalistas pautaram-se tradicionalmente pela elaboração de uma representação da natureza que constituísse uma verdade absoluta e universal, esta nova filosofia deve abandonar de vez este propósito. A polissemia e a plurivocidade do termo natureza e daquilo que ele designa não estariam a indicar a impossibilidade do naturalismo enquanto verdade da existência humana? Impõe-se, assim, compreender que a natureza precisa ser pensada como uma extensão do humano artifício, como uma construção; impõe-se compreender que ela, tal como a experimentamos, é sempre construída no âmbito de nossas referências simbólico-culturais, é, rigorosamente falando, inventada. Só assim poderemos superar a polêmica entre naturalistas e artificialistas, quase tão antiga quanto a filosofia.

Do nosso ponto de vista, a questão ecológica está processando a invenção de um novo sentido de natureza. E a invenção de um novo sentido é invenção de uma nova relação, onde os elementos relacionados são também resignificados. Por isto é que a sensibilidade contemporânea permite que se comece a reinventar o homem, concebendo-o, desta feita, como fator de continuidade da natureza e redefinindo a essência da própria responsabilidade humana relativamente ao não humano. Da mesma forma, permite que se reinvente a natureza, na medida em que deixa de vê-la predominantemente como máquina. Porém, se por um lado a questão ecológica constitui um dos elementos que definem os contornos desta sensibilidade, por outro a tecnociência é um dos elementos que a desafiam. Por quê? Porque a tecnociência é a reinvenção em ato da natureza e do homem, e assim sendo faz-nos perceber a potência que talvez sejamos, bem como a fragilidade e a fugacidade daquilo que constituímos. Ao tentar reinventar o naturalismo, a sensibilidade contemporânea procura reeditar a 'verdade absoluta' que ela mesma contribuiu para destronar. E o faz porque na dialética que se instaura entre sentimentos e idéias, normalmente aqueles tendem a não progredir com a mesma rapidez destas. Neste sentido, o cabo-de-guerra entre naturalistas e artificialistas talvez nos impeça de ver a real dimensão do mundo que se descortina para as gerações futuras: mundo transitório, feito de transitoriedades, onde, porém, os deuses não transitarão, nem tampouco servirão para consolar.