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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.14 n.1 Rio de Janeiro Jan. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1998000100008 

Ceres Víctora

Debate sobre o artigo de Everardo Duarte Nunes

Debate on the paper by Everardo Duarte Nunes

Departamento de Antropologia, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil.

 

 

 

 

O artigo apresentado cumpre, no meu entender, dois importantes papéis: o primeiro é o de prestar uma homenagem aos cem anos da publicação do trabalho de Durkheim O Suicídio: Um Estudo Sociológico; e o segundo, colocar na pauta do dia a especificidade da metodologia de pesquisa em saúde.

Com relação ao primeiro, creio ser extremamente oportuna a homenagem, não apenas pelo fato de Durkheim ter encontrado no suicídio "um exemplo suficientemente significante para estabelecer a compreensão científica da sociologia como uma disciplina independente", como também porque sua obra estabelece as bases para as ciências sociais da saúde, ao legitimar o estudo de fenômeno aparentemente individual de origens psicológicas pelas Ciências Sociais. Assim, é significativo para nós, antropólogos e sociólogos, que trabalhamos com temas relacionados à saúde, que Durkheim torne-se conhecido não só como um dos fundadores da sociologia moderna, mas também como um dos fundadores do que se convencionou chamar de ciências sociais da saúde, que engloba desde a sociologia da saúde até a antropologia médica. Além disso, a atualidade deste clássico de Durkheim merece ser reconhecida, pois, um século após a sua publicação, levanta questões extremamente atuais como, por exemplo, o processo de individuação crescente da sociedade ocidental contemporânea e sua relação com as questões de saúde.

O segundo ponto, relativo à especificidade da metodologia de pesquisa em saúde, no entanto, é o que apresenta os maiores desafios. A própria controvérsia sobre a metodologia utilizada por Durkheim ­ criticada por epidemiologistas, pelas imprecisões estatísticas; por psiquiatras, pelas distorções da história das idéias psiquiátricas e por antropólogos, pela carência de uma dimensão mais qualitativa que elucide os significados do suicídio ­ aponta fundamentalmente para o caráter multidisciplinar dos problemas de saúde. Pode-se dizer que, muito antes das críticas por parte de outras disciplinas, Durkheim, ao propor que o suicídio, até então considerado um problema da medicina e da psicologia, ou pelo menos relacionado a uma desordem mental, fosse considerado um problema de natureza social, já estabelece, desde o princípio, um diálogo com outras disciplinas. Mas, se por um lado, os fatores culturais, religiosos, de organização política, ambientais e biológicos são reconhecidamente integrantes das questões de saúde, sabemos que a sociologia, a psicologia, a ecologia, a antropologia, a epidemiologia, a biologia e a medicina diferem marcadamente no que se refere a pressupostos teóricos, o que conseqüentemente se reflete na metodologia de pesquisa utilizada ­ tipos de coleta de dados, procedimentos de sistematização e de análise de dados. Mesmo dentro de um texto considerado "um exemplo de integração de teoria e dados", como este clássico de Durkheim, importa ressaltar que o tipo de dado que é coletado está sempre vinculado ao tipo de teoria na qual o pesquisador se baseia. Assim, não é de surpreender que, baseado no pressuposto de solidariedade social e na marcada preocupação com a conservação das sociedades, Durkheim calcule para o fenômeno suicídio um coeficiente de preservação. Isso é contrastante, por exemplo, com uma perspectiva mais médica ou psicológica que, em geral preocupada com patologias individuais, trabalha muito mais freqüentemente, dentro da Epidemiologia, com um coeficiente de risco.

É nesse sentido que se coloca no meu entender o maior desafio, ou seja, de que a pesquisa em saúde precisa ultrapassar o reconhecimento de que as questões de saúde são multidisciplinares, e apostar na sua especificidade. Para tanto precisa inovar em termos teóricos e metodológicos para, cada vez mais, abrir espaços para a interdisciplinaridade.