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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.15 n.4 Rio de Janeiro Oct. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1999000400027 

TESES THESIS

ESCOREL, S., 1998. Vidas ao Léu: Uma Etnografia da Exclusão Social (Elimar Pinheiro do Nascimento, orientador). Tese de Doutorado, Brasília: Departamento de Sociologia, Universidade de Brasília. 320pp.

 

"Vidas ao Léu: Uma Etnografia da Exclusão Social" pretende integrar-se aos esforços de análise da realidade social brasileira contemporânea, na qual convivem um regime político democrático e graus acentuados de desigualdades sociais. Discute-se a pertinência, o valor e a potência analítica do conceito de exclusão social, de origem francesa, na compreensão da pobreza urbana na sociedade brasileira contemporânea. O campo da exclusão social como categoria de análise é estudado com base nas trajetórias históricas das noções e conceitos utilizados para estudar a pobreza urbana em contextos sociais diversificados e em processos concretos de exclusão social nas condições de vida de moradores de rua de bairros da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. O fenômeno da exclusão social, constituído por processos de vulnerabilidade, fragilização, precariedade e ruptura dos vínculos sociais, é abordado através de cinco dimensões constituintes da vida social: econômica-ocupacional, sócio-familiar, da cidadania, das representações sociais e da vida humana. A materialidade desses processos é estudada através das trajetórias de vida de moradores de rua em seus pilares fundacionais: família, trabalho, rua e movimento. Observa-se o isolamento e a solidão oriundos da ruptura dos vínculos familiares e sociais primários, reconstituídos de maneira efêmera nos agrupamentos; a caracterização desses grupos como "supérfluos e desnecessários" na esfera produtiva; a preponderância da atividade do animal laborans sobre a do homo faber; a constituição de um estatuto de "não-cidadania" ou um território de "infracidadania"; a existência limitada à sobrevivência singular e diária, realizada em público; o cotidiano revestido de indiferença e hostilidade; ou seja, a constituição de um ser sem lugar no mundo.

 

 

MARTINEZ, E. M., 1998. Suscetibilidade Experimental de Nectomys squamipes (Brants, 1827), Possível Reservatório Silvestre de Esquistossomíase, a Cepas de Schistosoma mansoni Sambon, 1907: Avaliação Parasitológica (Luís Rey e José Roberto Machado e Silva, orientadores). Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz. 66 pp.

 

Quatro cepas de Schistosoma mansoni (BE, SJ, CMO e CM), provenientes, respectivamente, de Belém do Pará (Pará), de São José dos Campos (São Paulo), de Ceará-Mirim (Rio Grande do Norte) e de São Lourenço da Mata (Pernambuco), foram utilizadas para infectar os roedores murídeos, Nectomys squamipes e Mus musculus a fim de avaliar a suscetibilidade do roedor silvestre às cepas testadas. Analisamos parâmetros como: o período pré-patente, a dinâmica de eliminação de ovos nas fezes, a viabilidade dos ovos eliminados, a infectividade e o número de ovos retidos no intestino (oograma). Procedeu-se à infecção dorsal subcutânea, com carga de 250 cercárias para N. squamipes e 80 para M. musculus. Do 35o ao 54o dia de infecção, foram realizados exames de fezes, três vezes por semana, pelas técnicas de Kato-Katz e de sedimentação espontânea quantitativa. Os animais foram sacrificados, necropsiados e perfundidos para a recuperação de vermes adultos, e os intestinos foram digeridos em KOH a 4%. O período pré-patente médio foi de 40 e 42 dias em N. squamipes e 44 e 46 em M. musculus. O número total de ovos eliminados nas fezes variou entre 1.512 (cepa BE) e 3.576 (cepa CM) para N. squamipes, e 1.872 (cepa CMO) e 6.408 (cepa CM) para M. musculus. Observou-se maior percentual de ovos inviáveis do que viáveis nas fezes de N. squamipes, variando entre 89% (cepa CMO) e 99,5% (cepa BE). Em M. musculus, a cepa BE apresentou menor contagem de ovos inviáveis (32%) e, nas demais, a variação foi entre 62% (CMO) e 98% (CM). O percentual de vermes adultos recuperados em N. squamipes foi de 7% (CMO), 8% (BE) e 12% (SJ e CM). Em M. musculus, observaram-se percentuais de 26% (CMO e BE), 28% (SJ) e 29% (CM). Não houve diferenças significativas entre as cepas em ambos hospedeiros. Quanto ao oograma, percebeu-se maior concentração de ovos no intestino delgado do que no intestino grosso, havendo diferença significativa entre as cepas em ambos hospedeiros. Tal diferença foi evidenciada no segmento grosso, onde a variação foi entre 1% (CMO) e 10% (BE) em N. squamipes, e 2% (CMO) e 12% (SJ) em M. musculus.

Confirmamos a importância epidemiológica do N. squamipes como reservatório do S. mansoni, considerando-se que tal roedor é suscetível às diferentes cepas do parasito, elimina ovos viáveis e vive junto aos cursos de água, construindo seus ninhos na vegetação vertical às margens de coleções d'água.

 

 

FERREIRA, L. O. C., 1998. A Ação do Sulfato Ferroso Administrado em Doses Diárias e Semanais em Escolares da Mata Sul de Pernambuco: Um Ensaio Terapêutico (Malaquias Batista Filho e Marília de Carvalho Lima, orientadores). Tese de Doutorado, Recife: Departamento de Nutrição, Universidade Federal de Pernambuco. 176 pp.

 

Com o propósito de testar a ação do sulfato ferroso, mediante modelos simplificados de combate às anemias em escolares, e a possível repercussão em indicadores antropométricos, realizou-se, em educandários públicos de duas cidades da Zona da Mata Sul de Pernambuco (Catende e Água Preta), um ensaio terapêutico, cego, com 659 alunos de 6 a 11 anos, distribuídos aleatoriamente em 32 salas de aulas, consideradas como unidades de referência para a randomização. Com esse critério, os escolares foram alocados em cinco grupos: a) tratamento diário e b) tratamento semanal por 28 semanas; c) tratamento diário e d) tratamento semanal por 14 semanas; e) controle. Aos grupos experimentais (a, b, c, d) administrou-se a dose de 200 mg de sulfato ferroso heptahidratado, correspondente a 40 mg de ferro elementar por aplicação diária ou semanal. Segundo as relações altura para idade e peso para idade, 11,5% dos alunos apresentavam déficit estatural, e 3,6%, déficit ponderal, situando-se abaixo de -2 desvios-padrão dos valores de referência antropométrica do NCHS. As medidas corporais não foram influenciadas significativamente pelos tratamentos administrados, ocorrendo apenas diferença entre os esquemas diário e semanal por 28 semanas, quando comparados ao controle (p = 0,001) na posição escore "z" do índice altura para idade. No tratamento semanal por 28 semanas, as médias de hemoglobina no final do experimento (12,4 g/dl) foram estatisticamente superiores aos resultados do tratamento diário e do grupo controle (ambos com 11,6 g/dl). Ademais, a freqüência de anemia no final do tratamento semanal de 28 semanas (23,2%) foi bem menor que a registrada no tratamento diário (68,7%) e no grupo-controle (70,7%). Em termos de duração, o grupo semanal tratado por 28 semanas mostrou-se com os valores hematimétricos mais elevados que o grupo tratado por 14 semanas. O tamanho das hemácias, expresso em médias de volume corpuscular médio (VCM), não foi afetado pelos tratamentos ministrados; no entanto, no fim da experimentação, nos casos remanescentes de anemia, prevaleceram percentuais menores de microcitose (VCM < 80 fl) entre os escolares suplementados semanalmente, quando comparados com os de tratamento diário. Em termos de estoque orgânico de ferro, representados pela ferritina, observaram-se médias mais elevadas nos escolares suplementados semanalmente, principalmente nos submetidos ao tratamento mais longo. Na realidade, no que diz respeito ao grupo-controle, o uso diário de ferro medicamentoso não apresentou vantagens em relação aos níveis de hemoglobina e prevalência residual de anemias no fim do tratamento. Levanta-se, assim, um questionamento crucial sobre a efetividade do modelo convencional de terapêutica como conduta válida para o enfrentamento extensivo do problema das anemias em escolares.

 

 

SOUZA, W. V., 1998. O Uso de Informações Sócio-Econômicas na Construção de Indicadores de Situação Coletiva de Risco para a Ocorrência da Tuberculose em Olinda, Estado de Pernambuco (Maria de Fátima P. Militão de Albuquerque, orientadora; Ricardo A. A. Ximenes, co-orientador). Dissertação de Mestrado, Recife: Departamento de Estudos em Saúde Coletiva, Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, Fundação Oswaldo Cruz. 74 pp. Anexos.

 

O processo de urbanização verificado no Brasil nas últimas décadas faz emergir o desafio de atender grupos populacionais que vivem nas periferias e aglomerados subnormais das cidades em suas demandas sociais, entre as quais incluem-se as de atenção à saúde. Uma análise do quadro sanitário das cidades revela que existem sérios problemas de saúde relacionados com o ambiente urbano, sendo o processo de produção e reprodução das doenças conseqüentemente interpretado à luz do entendimento da ocupação do espaço urbano. O espaço é conceituado como paisagem acrescida dos processos sociais, tendo obviamente como elemento estrutural o modelo de desenvolvimento econômico praticado nessas últimas décadas. Tal processo resultou em situação epidemiológica de superposição de quadros sanitários, onde se verifica a ocorrência concomitante das doenças da pobreza e daquelas ligadas a estilos de vida e ao estresse, próprias dos países desenvolvidos, que experimentaram uma real transição epidemiológica. Essas questões levam à discussão da necessidade de se superar o atual modelo de vigilância epidemiológica, substituindo-o por um sistema integrado de vigilância à saúde pública que supere os tradicionais enfoques sobre indivíduos de risco, passando a identificar áreas/populações de risco, e que esteja primordialmente voltado para subsidiar o planejamento de intervenções no nível dos serviços locais de saúde, atendendo à diretriz de descentralização do Sistema Único de Saúde. Num momento em que se discutem doenças emergentes e reemergentes, verifica-se, no caso brasileiro, que a tuberculose é, na realidade, um grave problema de saúde pública, que permanece como um desafio no País como um todo e particularmente no Estado de Pernambuco. Trabalha-se então uma proposta de integração de base de dados (Sistema de Informações sobre Agravos de Notificação - SINAN - e Censo Demográfico), construindo, com base em informações sócio-econômicas deste último e com auxílio de técnicas de geoprocessamento, indicador de situação coletiva de risco para a ocorrência da tuberculose em Olinda. Empregam-se duas diferentes metodologias (indicador de carência social por formação de escores e análise de componentes principais seguida de análise de cluster), objetivando estratificar o espaço urbano e verificar a associação e o gradiente de risco resultantes desta estratificação, bem como a incidência da doença, no período de 1991 a 1996. Os resultados obtidos mostram haver associação entre carência social e a ocorrência da doença, além de apontar grupos/áreas de risco prioritárias para intervenção, sugerindo um efetivo controle de comunicantes mediante busca ativa, investigação de surgimento de casos de resistência às drogas usadas para o tratamento da doença e até mesmo o monitoramento, dentro de uma lógica territorial, compatível com a organização dos Serviços em Distritos Sanitários.

 

 

CARVALHO, R. W., 1999. Aspectos Ecológicos das Faunas de Pequenos Roedores Sinantrópicos e de seus Sifonápteros (Relação Parasito - Hospedeiro) do Foco de Peste Bubônica da Serra dos Órgãos, Municípios de Nova Friburgo, Sumidouro e Teresópolis - Rio de Janeiro, Brasil (Nicolau Maués da Serra Freire e Pedro Marcos Linardi, orientadores). Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: Departamento de Entomologia, Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz. 154 pp. ilust.

 

Entre novembro de 1995 e outubro de 1997, desenvolveram-se estudos em um foco natural de peste bubônica na Serra dos Órgãos, entre os Municípios de Nova Friburgo, Sumidouro e Teresópolis, no Rio de Janeiro, cujos objetivos eram identificar as faunas de pulgas e de roedores, bem como analisar as interações ecológicas, a relação parasito - hospedeiro, índices pulicidianos globais e específicos. A fauna peridomiciliar de roedores está representada por: Akodon cursor, Cavia aperea, Delomys sublineatus, Nectomys squamipes, Oligoryzomys nigripes, Oxymycterus judex, Thaptomys nigrita, Oryzomys ratticeps, Mus musculus, Rattus rattus. A de sifonápteros, por: Adoratopsylla antiquorum, Craneopsylla minerva, Ctenocephalides felis felis, Polygenis atopus, Polygenis pygaerus, Polygenis pradoi, Polygenis rimatus, Polygenis roberti, Pulex irritans, Xenopsylla cheopis. O coeficiente de prevalência foi de 59,57%, sendo T. nigrita o roedor que apresentou o maior coeficiente, apesar de a freqüência de pulgas ter sido baixa (1,95%), seguida por O. ratticeps (83,33%), O. judex (80,95%) e A. cursor (78,32%). Esta última foi a espécie com maior intensidade de infestação (47,94%), seguida por O. judex (19,16%) e R. rattus (12,45%). Para C. minerva, as espécies A. cursor, N. squamipes e O. nigripes são seus hospedeiros reais, enquanto O. judex é o secundário. Em relação a P. atopus, as espécies A. cursor, N. squamipes e R. rattus são seus hospedeiros reais, e O. nigripes, O. judex e O. ratticeps, os secundários. Para P. pygaerus, O. judex e T. nigrita, sendo R. rattus o secundário. P. pradoi tem como hospedeiros reais A. cursor, N. squamipes, O. nigripes e R. rattus, tendo O. judex e T. nigrita como acidentais. P. rimatus tem O. nigripes, O. judex e R. rattus como hospedeiro reais, enquanto A. cursor, N. squamipes, O. ratticeps e T. nigrita são os acidentais. O índice pulicidiano geral foi de 1,04. O índice para X. cheopis não foi significativo, indicando que a população humana está temporariamente livre de epidemias. O ecletismo das principais espécies capturadas, e o intercâmbio delas entre os roedores silvestres e domiciliares podem aumentar o risco de epizootias alcançarem o homem.

 

 

DINIZ, D., 1999. Da Impossibilidade do Trágico: Conflitos Morais e Bioética (Rita Laura Segato, orientadora). Tese de Doutorado, Brasília: Universidade de Brasília. 227 pp.

 

Da Impossibilidade do Trágico: Conflitos Morais e Bioética baseia-se na idéia de que o conflito moral é a condição de existência dos seres humanos moralizados. Partindo do pressuposto de que a humanidade dos seres humanos é definida pelas moralidades que lhes são agregadas e que estas não são as mesmas para todos os indivíduos, o conflito moral deve ter visto como uma condição inerente ao encontro de diferentes moralidades. Nesse contexto de pluralismo moral e dos conflitos que o acompanham, a bioética deve ser entendida como um dos discursos mais tolerantes e democráticos que pretende mediar os conflitos morais no campo da saúde e da doença. Mas, para tanto, a bioética precisa resgatar o espírito trágico da tradição filosófica nietzschiana, isto é, é preciso reconhecer a inexistência de natureza nas crenças morais. Somente pela desnaturalização de todas as crenças morais será possível o exercício da proposta trágica de tolerância tão almejada pelos bioeticistas. Apesar de todas as limitações inerentes à proposta da tolerância moral, a bioética é, ainda, o projeto mais intensamente trágico já feito no campo da teoria moral aplicada.

 

 

NOGUEIRA, V. A., 1999. Reestruturação do Setor Elétrico: Um Estudo Qualitativo das Condições de Trabalho e Saúde dos Eletricitários Frente à Privatização da CERJ (Marcelo Firpo de Souza Porto, orientador). Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz. 107 pp. Anexos.

 

A dissertação ora delineada tem como objetivo geral estudar o processo de privatização da CERJ detectando, nesse contexto de reestruturação da empresa, as possíveis conseqüências sobre as condições de vida e trabalho dos ainda efetivos e dos seus ex-trabalhadores, que, por contingência, vieram a se realocar em empresas terceirizadas que prestam serviços para aquela companhia. A partir desse objetivo maior, pretende-se esboçar, junto aos trabalhadores entrevistados, as eventuais diferenças entre a realidade da CERJ estatal e da atual CERJ, privatizada, priorizando aspectos relacionados às condições de trabalho nos diferentes momentos do processo. Partindo desses diferentes momentos, busca-se levantar as atuais condições de trabalho, segundo suas diferentes inserções, ou seja, quanto aos remanescentes na empresa e quanto aos que se realocaram em empresas terceirizadas, cooperativas e empreiteiras prestadoras de serviços à CERJ. Buscamos levantar as reais condições de trabalho dos almoxarifes, eletricistas e encarregados, em termos de equipamentos de segurança, ferramental necessário, instalações e quanto à qualidade da prestação de serviço. Junto aos trabalhadores realocados em empresas terceirizadas, buscamos averiguar as principais diferenças do atual processo de trabalho, em contraposição ao da antiga CERJ, no que se refere ao ritmo, jornada, treinamento de ritmo, treinamento e qualificação profissional e condições salariais. Por fim, diante de todas essas contingências circunstanciais, pretende-se observar se essa reestruturação trouxe algum tipo de conseqüência sobre a vida dos trabalhadores em termos pessoais, buscando averiguar, num primeiro nível, como esse processo de transformações foi vivenciado por eles. Num segundo nível, buscamos resgatar como tais modificações se deram no âmbito sócio-familiar, trazendo à realidade sua atual condição de vida.