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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.16 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2000000400003 

DEBATE DEBATE

 

 

Maria Cecília de Souza Minayo

Centro Latino-Americano de Estudos de Violência em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz


Debate sobre o artigo de Ana Maria C. Aleksandrowicz

Debate on the paper by Ana Maria C. Aleksandrowicz

 

 

A propósito de imposturas e arrogâncias intelectuais

Peço licença a Ana Maria Aleksandrowicz para limitar-me, no comentário de seu artigo, apenas ao campo das Ciências Sociais, onde caminho com um pouco mais de segurança. Entendo que, ao discutir as recentes publicações de Sokal e de Sokal & Bricmont, a autora nos permite entrar em várias possibilidades de reflexão, porém, deter-me-ei em três delas, na medida em que as considero centrais no debate lançado pelos físicos em questão: (a) o status das Ciências Sociais e Humanas no campo científico e, por conseqüência, as relações entre as chamadas Ciências Naturais e as Ciências da Cultura; (b) os problemas de trans e interdisciplinaridade; (c) e, por fim, a questão da linguagem científica. Sobre cada um desses temas farei algumas considerações, a partir de minha própria experiência enquanto pesquisadora, orientadora, professora e leitora.

Partindo do princípio de que a origem da crítica e da confrontação entre campos científicos veio de um físico (que depois se associou a outro) em direção às Ciências Humanas e Sociais, poderia começar esse debate dizendo que não há novidade nesse confronto. Apenas esse ataque foi um pouco mais barulhento. Uma das maiores controvérsias que há no meio acadêmico é a cientificidade das Ciências Sociais em comparação com as Ciências da Natureza, para os que consideram a uniformidade de procedimentos e métodos, essencial na atribuição do estatuto de ciência a determinada área. A interrogação enorme em torno da cientificidade das Ciências Sociais tem várias razões. A primeira é se existe possibilidade concreta de tratarmos cientificamente de uma realidade, da qual, nós próprios, enquanto seres humanos, somos agentes. Essa ordem de conhecimento não escaparia radicalmente a toda a possibilidade de objetivação? A segunda, ao contrário, vindo dos que a praticam, se refere a que, buscando-se a objetivação própria das Ciências Naturais, não estaríamos descaracterizando o que há de essencial nos fenômenos e processos sociais, ou seja, negando o sentido profundo dado pela subjetividade? Em terceiro lugar, há os que interrogam sobre que método geral poderia explorar uma realidade tão marcada pela especificidade e pela diferenciação. Dizendo de outra forma, o dilema das ciências sociais frente ao campo científico hard seria seguir os caminhos das ciências estabelecidas e empobrecer seu próprio objeto, ou encontrar seu núcleo mais profundo e abandonar a idéia de cientificidade. A meu ver, é a proposta de cientificidade que tem que ser pensada como uma idéia reguladora de alta abstração e não como sinônimo de modelos e normas a serem seguidos. O labor científico, em qualquer área de conhecimento, caminha sempre em duas direções: em uma, elabora suas teorias, seus métodos, seus princípios e estabelece seus resultados; na outra, inventa, ratifica seu caminho, abandona certas vias e encontra outras. Sendo assim, há sempre um caráter de historicidade no conhecimento que também é construído e aproximado, como ensina Bachelard (1980).

Embora Sokal & Bricmont não questionem o status das Ciências Humanas e Sociais, é claro o sentido de provocação que assumem seus textos, generalizando a crítica sobre a erudição superficial das Humanidades e das Ciências Sociais e, sobretudo, quanto ao uso apressado e banalizado de termos, conceitos e categorias das Ciências Exatas e Naturais, extrapolados para outros contextos. Nisso, os autores têm toda a razão e creio que devemos sempre tomar como bem-vindo o desvelamento das imposturas ditas acadêmicas, que têm produzido tantos intelectuais imbecis, inclusive diplomados. Por outro lado, será que não haveria um uso indevido, também por parte dos cientistas naturais, da linguagem utilizada para se referirem ao campo específico das humanidades e do social? Os próprios Sokal & Bricmont se denunciam ao usarem o conceito histórico (e polêmico) de pós-modernidade como senso comum; e confundem os campos dos astrônomos com o da astrologia. Para não ir muito longe do nosso âmbito doméstico, basta olhar como se desconhecem, se estranham e se utilizam de forma banalizada, a epidemiologia e as ciências sociais no campo da saúde pública.

A epidemiologia, reconhecida ou exigindo para si o status de disciplina hegemônica da área em sua produção científica, freqüentemente utiliza os conceitos históricos mais caros às Ciências Sociais como se fossem "dados", ou seja, de forma reducionista e reificada. E, com certeza, as Ciências Sociais em saúde também se apropriam das descobertas e conceitos epidemiológicos superficialmente. Ousaria dizer, portanto, que essa produção simultânea de conhecimento e lixo acadêmico não é privilégio das Ciências Humanas e Sociais, mas sim de todo o universo denominado por Popper (1975) Terceiro Mundo (não se trata da classificação sócio-econômica e política que assim nomeia os países subdesenvolvidos) para se referir à autonomia da sociedade científica com suas leis, normas, regras, formas de comunicação e de legitimação próprias. Assim caminha a ciência.

Estamos, portanto, frente a uma enorme questão da economia interna de cada uma e das relações entre as Duas Culturas, como denomina Aleksandrowicz, em referência ao termo utilizado pelo físico e romancista Snow. De um lado, cada campo tem seu lixo, sua impostura e sua compulsão à repetição. Vivencia também todos os embates e conflitos humanos e sociais relacionados ao poder, à concorrência e à legitimação: esses assuntos tão pouco científicos! De outro lado, mesmo em relação a nossas áreas de conhecimento, sabemos muito mal e pouco, pois quanto mais estudamos, mais perguntas e dúvidas nos assolam. Além disso, como nos ensina Shutz (1982), além de sabermos pouco, vivemos mesmo é com o senso comum. Tirando aquele pequeno espaço de saber científico, com exceção dos grandes sábios e gênios, nós nos movemos com o conhecimento que nos dá a experiência, aliás suficiente para vivermos em sociedade.

O segundo ponto que quero discutir é a questão da trans e da interdisciplinaridade. Sempre tive e tenho um problema para aceitar, na prática de pesquisa, o conceito acadêmico de transdisciplinaridade, pois seu sentido supõe a capacidade de ir além, transcender as disciplinas. Esse vôo remonta ao sábios da Biblioteca de Alexandria, quando propugnavam que a formação ideal do ser humano teria que juntar a Matemática (as ciências exatas), a Filosofia (que então ocupava o papel do conhecimento do homem e da sociedade) e as Artes. Era a idéia do múltiplo e do uno, ou do múltiplo no uno, tantas vezes tentada seja na concepção das universidades, seja por investigadores individuais, seja em grupos de pesquisa.

Essa verdadeira utopia do campo científico, tal como está constituído na modernidade, porém, tem sido cada vez mais postergada em sua realização, talvez por falta de investimento suficiente, fruto da mentalidade cartesiana e da fragmentação da ciência, ou talvez pela pequenez de nossa capacidade de aprender e apreender o todo. Na verdade há conceitos, há categorias, há temas transdisciplinares na medida em que atravessam áreas específicas. Porém significariam a mesma coisa em cada área? Por isso, repito, tenho muita dificuldade de trabalhar com o conceito de transdisciplinaridade, porque não consegui até hoje perceber os resultados frutíferos dessa proposta.

Ao contrário, valorizo e acho que o trabalho mais sério que podemos fazer em áreas como a da saúde pública, necessita fundamentar-se e se organizar de forma interdisciplinar. Qual é a diferença? Neste caso, os investigadores acreditam na especificidade das disciplinas, em sua construção histórica de conceitos, categorias e princípios e buscam uma forma de cooperação que supere as limitações disciplinares e permita conhecer temas e objetos de forma mais abrangente, juntando - por exemplo, no caso da Epidemiologia e das Ciências Sociais - a magnitude dos problemas e a sua compreensividade. Colaboram também na triangulação de métodos, respeitando a contribuição de cada um. Habermas (1987) nos fala que, nesse diálogo, são fragmentos disciplinares que se encontram, e Kant (1980) nos lembra que é no tema, no objeto, no fenômeno, que a síntese se realiza. Sinaceur (1977) comenta que só os grandes cientistas e sábios conseguiram dominar as dimensões do que Snow denomina as Duas Culturas. Sendo assim, considerar a possibilidade e a necessidade de construir e praticar a interdisciplinaridade (o que exige o reconhecimento das disciplinas e dos investigadores de ambas as áreas), parece-me ser um exercício de realismo e de reconhecimento de limites. Por isso, creio que procede a crítica de Sokal & Bricmont quando se referem ao uso apressado, arrogante e mitificado de conceitos da física por parte de cientistas humanos e sociais, desconhecendo o sentido preciso e a adequação dos mesmos, construídos que foram por uma comunidade científica de longa historicidade. No entanto, faço a ressalva de que esse cuidado tem que existir de ambos os lados.

O terceiro ponto é a questão da linguagem científica. Em última instância, toda área científica se transforma em campo simbólico. Cada campo se legitima na medida em que consegue estabelecer uma linguagem fundamentada em conceitos, métodos e técnicas para compreensão do mundo, das coisas, dos fenômenos, dos processos e das relações. Essa linguagem, para ser reconhecida, tem que ser usada de forma coerente, precisa e instituída por uma comunidade que a controla e administra sua reprodução e suas mudanças. Deste modo, como veículo das descobertas e de todas as ações empreendidas para realizá-las, cada área tem o seu jargão, que não pode impunemente ser apropriado por outra. A historicidade das atividades científicas expressa-se nos produtos-objetos e no discurso teórico que descreve, compreende e explica. A Ciência é, na verdade, uma construção humana - inclusive, historicamente datada - e uma construção social, porque é feita pelo coro de muitas vozes, pelo labor de muitas mãos e pelo encontro espiritual de muitos cérebros. Porém, sua tradição se expressa na linguagem que conta seus acúmulos, suas repetições, suas superações e suas mudanças de paradigma. Procedem, portanto, as críticas de Sokal & Bricmont quando mostram os exageros da fenomenologia sociológica - que considera a realidade como mero fruto de representações sociais - e o construtivismo radical - que só percebe a realidade como uma narrativa, desconhecendo a substância dos fenômenos. Tais exageros tiveram sua forma de expressão muito forte nos primeiros discursos construtivistas sobre AIDS, em nossa área. Muitos analisavam essa síndrome como mera construção social, um novo mito, exacerbando o sentido do estigma que certamente contribuiu e contribui para o agravamento desse fenômeno primeiramente biológico. Talvez, os termos corretos para se apresentar o problema teriam sido os de Latour (1994) quando fala no híbrido biológico-social.

Mas há um outro sentido na crítica da linguagem, feita por Sokal & Bricmont. É o caso da ostentação e da erudição superficial, segundo eles, motivadas por todos os problemas que comentamos acima. Neste ponto creio também que têm razão. Infelizmente, também nas Ciências Sociais é muito comum a divulgação de textos cuja construção parece ter o propósito de marcar a diferença com os não iniciados. Usando um rebuscamento desnecessário para dizer coisas muito simples, alguns buscam impressionar os leitores cientistas e não cientistas incautos. Sobre isso, gostaria de comentar que, desde a faculdade, tomei como rumo em minha vida acadêmica, cultivar a linguagem clara e o mais possível, acessível. Por experiência e convívio no meio científico, cheguei à conclusão de que o rebuscamento, o jogo de linguagem, a manipulação de frases, freqüentemente (para não dizer sempre) escondem problemas dos próprios autores que, ou não dominam o assunto e se escondem atrás de citações (alguns são incapazes de construir uma frase sem a conclusão de citar autores), das palavras e dos jargões; ou têm dificuldade de síntese. Mas também aqui, eu não sei se o vício é só dos humanistas e cientistas sociais. Parece-me que os cientistas naturais são mais econômicos em seus trabalhos. De qualquer forma é preciso lembrar que a comunicação científica necessita da retórica para poder circular e repercutir. A medida certa dessa linguagem deve ser preocupação de todas as disciplinas.

Enfim, concluindo, quero agradecer a oportunidade que Ana Aleksandrowicz me deu de poder discutir, a partir dela, os textos de Sokal e Sokal & Bricmont. Considero que quem está no campo acadêmico, na verdade, necessita de um constante e duradouro exercício de humildade. Perdoem-me pelo uso da categoria religiosa, mas não tenho outra palavra. Necessitamos estar abertos para ouvir críticas e perceber onde elas nos atingem e são pertinentes. Na verdade, nós, das Ciências Sociais, temos sido freqüentes autores e leitores de propostas com baixa qualidade e sentido, transvestidas de cientificidade. Temos abusado da linguagem erudita para esconder trabalhos repetitivos e exegéticos apenas (como nos chama atenção a frase de Montaigne usada por Ana Maria como epígrafe de seu trabalho).

Por um lado, o trabalho de campo, o contato com a realidade que pretendemos conhecer e compreender, nos ajudariam a melhorar nossa qualidade intelectual e a definir melhor nosso papel social. Por outro, além de humildes, temos que repudiar todas as imposturas e arrogâncias, inclusive essa que autores como Sokal e Sokal & Bricmont, sob o pretexto de estabelecerem a ordem científica, nos impigem. Não é necessário tentar destruir com o discurso de um campo do conhecimento, as conquistas realizadas por outro. Também os cientistas naturais necessitam de humildade, ao se aproximarem do patrimônio histórico e acadêmico construído a duras penas tanto por clássicos como por laboriosos estudiosos do campo da Filosofia, das Ciências Humanas e Sociais. Que bom se a linguagem usada para diferenciar e distinguir, pudesse ser usada também cooperar e construir! Creio que a sociedade sinceramente agradeceria.

 

BACHELARD, G., 1980. O Novo Espírito Científico. Rio de Janeiro: Tempo Universitário.

HABERMAS, J., 1987. Teoría de la Acción Comunicativa. Madrid: Taurus Ediciones.

KANT, I., 1980. Crítica à Razão Pura. Coleção Pensadores. Rio de Janeiro: Editora Abril.

LATOUR, B., 1994. Jamais Fomos Tão Modernos. Rio de Janeiro: Editora 34/Literatura SC.

POPPER, K., 1975. Conhecimento Objetivo. Belo Horizonte: Editora Itatiaia.

SHUTZ, A., 1982. A common sense and scientific interpretation of human actions. In: Collected Papers I (A. Brodersen, ed.), pp. 29-63, 2nd Ed., New York: Martines Niphoff Editions.

SINACEUR, M. A., 1997. Qu'est ce que l'interdisciplinarité. Révue Internationale de Sciences Sociales, 29:617-626.