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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.16 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2000000400004 

 

DEBATE DEBATE

 

 

Antonio J. S. M. Domingues

Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca


Debate sobre o artigo de Ana Maria C. Aleksandrowicz

Debate on the paper by Ana Maria C. Aleksandrowicz

 

 

As condições do diálogo

Ao ser convidado a participar do debate motivado pelo artigo A extensão da impostura, de Ana Maria Aleksandrowicz, vi-me não só diante da oportunidade de expressar algumas reflexões relativas ao diálogo interdisciplinar - tema maior tanto do livro de Sokal & Bricmont quanto do presente artigo -, mas também diante da necessidade de, sendo físico por formação e, portanto, oriundo de área distinta das dos demais debatedores - o que, oportunamente, faz deste um debate interdisciplinar -, ser cuidadoso com as palavras e idéias por mim aqui apresentadas. Este cuidado se faz necessário não por questões de prudência ou de auto-preservação, mas para que a qualidade da discussão não seja comprometida por alguma falta de clareza, já que, conforme é bem sabido, a não coincidência do universo vocabular vem a ser justamente uma das características principais do diálogo interdisciplinar.

Toda a problemática levantada por Sokal e Bricmont e aqui debatida por Aleksandrowicz envolve uma miríade de aspectos - da questão do pós-moderno à disputa de poder nos meios acadêmicos, da discussão acerca da real natureza do método utilizado nas ditas ciências naturais ao status epistemológico da hermenêutica gadameriana - defendida por várias áreas das chamadas humanidades -, ou ainda dos usos e abusos na transposição dos discursos das diferentes áreas ao debate sobre a natureza objetiva, subjetiva ou intersubjetiva do que chamamos de Realidade. Gostaria, contudo, de focar a atenção em alguns aspectos de um tópico aparentemente mais simples que os acima citados, mas que, devidamente considerado, traz alguma luz à discussão: o das condições de possibilidade do diálogo interdisciplinar.

Uma destas condições, já mencionada, é o cuidado com a terminologia. Quando dialogamos - mesmo no dia-a-dia - com alguém com quem não estamos habituados a dialogar, é conveniente estar atento para o fato de que alguma palavra utilizada pode não ter o mesmo significado para ambos os interlocutores. Se tal acontecer, não teremos nem a oportunidade de discordar, pois não estaremos sequer nos compreendendo. É possível, no entanto, que tal situação aconteça sem nos darmos conta - neste caso, estaremos na lamentável situação de acharmos que discordamos - ou concordamos(!) - com nosso interlocutor, quando, na verdade, sequer houve comunicação - no sentido pleno do termo. É justamente esta possibilidade que torna imperativo o cuidado com o significado dos termos empregados por ambas as partes. Este esforço, este cuidado em prol da maior clareza possível é justamente o que chamamos de rigor.

Alguns poderiam questionar esta última afirmação, discordando de que a noção de rigor possa ser (meramente) identificada com a de clareza terminológica. De fato, o termo também é utilizado com referência à correção de um raciocínio ou à coerência de determinada linha de argumentação com seus pressupostos metodológicos. Contudo, creio que a identificação permanece válida se nos referirmos à clareza em qualquer sentido, e não apenas clareza terminológica. Um texto rigoroso é, essencialmente, um texto claro.

Pois bem, se mesmo em um diálogo cotidiano este tipo de cuidado é bem-vindo, maior ainda será a necessidade de rigor - ou seja, de esforço em prol da mútua compreensão - quando se trata do diálogo interdisciplinar, pois neste caso estamos lidando não apenas com terminologias diferentes mas com escolas de pensamento verdadeiramente distintas, com história e cultura próprias, com tradições complexas e muitas vezes seculares. Cada um dos participantes de um debate interdisciplinar é um iniciado de uma destas escolas, na qual ingressou através de anos de convívio com seus pares, em um processo ao longo do qual - além da terminologia própria de cada área - uma enorme quantidade de pontos de vista é internalizada, adquirindo-se assim o modo de pensar e sentir o mundo típico daquela disciplina. (Uma das delícias do diálogo interdisciplinar vem a ser justamente a possibilidade de percebermos, em nós mesmos, esses pontos de vista - enquanto tais - uma vez que, ao dialogar com nossos pares, não nos damos conta da maioria deles).

Há aqui um ponto a ser abordado. Pessoalmente, não vejo por que deveríamos considerar como válidas para o diálogo interdisciplinar, entre as escolas de pensamento mencionadas no parágrafo anterior, apenas aquelas tradicionalmente tidas como acadêmicas. Seria, com certeza, um equívoco supor que sejam irracionais as linhagens que se apoiam na tradição ou em determinadas práticas e/ou experiências partilhadas por seus membros, ou em valores e/ou pressupostos coletivamente assumidos - cada uma dispõe de um corpo de saber internamente coerente e, portanto, é dotada de uma racionalidade que lhe é própria - que não somos obrigados a aceitar, mas com a qual podemos dialogar.

Mas, se não comungamos daquela visão de mundo, por que dialogaríamos? Mas este é justamente o cerne do conceito de diálogo interdisciplinar: queremos ouvir o que tem a dizer aquele que pensa diferente de nós. Por quê? Porque estamos interessados em ouvir, conhecer, compreender um pensamento outro, que nos enriquecerá - talvez fecundando nosso próprio pensamento, talvez não, mas sempre ampliando nossos horizontes conceituais. Quando Jung dialoga com a tradição do tarô, quando um psicólogo conversa com um monge zen sobre estados mentais, quando um médico busca compreender técnicas xamânicas, o que ocorre são diálogos interdisciplinares perfeitamente legítimos. Não há por que pensar que tais iniciativas sejam perigosas, inoportunas, de mau gosto ou empobrecedoras; antes, ao contrário - desde que ambos estejam, de fato, dispostos a dialogar.

A disposição para o diálogo se faz necessária por uma razão simples: se o debate em questão for verdadeiramente interdisciplinar, o olhar de cada um sobre o objeto discutido será essencialmente diferente. Se, por exemplo, um espírita umbandista e um psicólogo profissional assistem em conjunto a uma sessão onde um médium vivencia um incorporação, do primeiro ouviremos então que a entidade incorporou, enquanto que o segundo opinará, talvez, tratar-se de manifestação do inconsciente. (É oportuno notar que ambos estão observando a mesma cena - ou não? -, da mesma forma que os antigos observavam, a olho nu, os mesmos fenômenos celestes que nós, e viam neles a comprovação de que a Terra é o centro do Universo, enquanto nós vemos, nestes mesmos fenômenos, a comprovação de que o Sol é o centro do Sistema Solar. Do mesmo modo, quando os cientistas do início do século XVIII contemplavam os fenômenos relacionados ao calor, eles viam o calórico - a substância do calor - fluir entre os corpos materiais. Hoje observamos os mesmos fenômenos e, ao mesmo tempo, afirmamos que tal substância não existe).

A tarefa é, portanto, mais delicada - mas também mais fascinante - quando os interlocutores são representantes de diferentes disciplinas ou campos conceituais. O desafio para que a comunicação verdadeiramente ocorra, inclui não somente o cuidado com os termos utilizados, mas também um esforço para compreender - para adquirir, de fato - o olhar do nosso interlocutor sobre o objeto em questão. Se tal não se der, correremos o risco de, mesmo dominando todos os termos utilizados - no sentido dicionaresco da palavra -, estarmos novamente na situação de achar que discordamos - ou concordamos - com nosso interlocutor, sem que o tenhamos sequer compreendido.

Enfim, ao debater o tema das condições do diálogo interdisciplinar, convém lembrar que o esforço em prol da mútua compreensão, que tão bem o caracteriza, é contudo freqüentemente minado por diversas circunstâncias, bastante familiares a quem tem, no meio acadêmico, o seu cotidiano. Muitas vezes estamos por demais interessados em defender nossos interesses paroquiais, nosso prestígio junto aos pares; ou buscamos, mesmo que inconscientemente, proteger - atavicamente, como quem protege um bem precioso de uma grande ameaça - as idéias e visões de mundo sobre as quais se apoiam nossa própria trajetória - seja esta uma opção religiosa, a carreira acadêmica que porventura abraçamos, ou as crenças que norteiam nossa maneira de viver -; ou, ainda, não dispomos de tempo para desperdiçar com idéias evidentemente fantasiosas e/ou supersticiosas e/ou equivocadas e/ou mal intencionadas, a não ser que seja para desmitificá-las, ou denunciá-las, ou para, bem intencionados, esclarecer o equívoco de seus proponentes.

Contudo, se optarmos por desconsiderar circunstâncias intrinsecamente estranhas ao legítimo diálogo interdisciplinar, tais como as citadas no parágrafo anterior - ou ainda pura e simples má fé, motivada por disputas de poder, vaidade ou oportunismo acadêmicos - é possível colocar a situação analisada por Sokal & Bricmont e Aleksandrowicz nos seguintes termos: os autores e pensadores apontados por Sokal & Bricmont não teriam feito o dever-de-casa de compreender adequadamente as idéias propostas pelas Ciências Naturais - ou seja, da maneira como estas mesmas ciências as vêem. Assim, poderíamos dizer que o problema está não na transposição em si de termos e conceitos das ciências naturais para outros contextos - como Sokal & Bricmont e outros críticos parecem sugerir -, uma vez que a fecundação mútua dos saberes tem sido, ao longo dos tempos, uma das principais fontes de enriquecimento das diversas disciplinas. O problema estaria antes no simples fato de que não é possível transpor ou dialogar com idéias que não foram verdadeiramente compreendidas, sejam estas oriundas de outra área do saber ou não. (Isto não implica, contudo, necessariamente em má fé, pois é possível, conforme vimos, acreditar que compreendemos adequadamente as idéias em questão - sem que na realidade o tenhamos feito - e portanto acharmo-nos em condições de transpô-las para outros contextos, ou de com elas debater).

Ocorre que, se de fato é essa a natureza da situação analisada, é preciso então chamar a atenção para um aspecto quase nunca mencionado: o da responsabilidade da comunidade científica de Ciências Naturais, especialmente dos físicos, para com este estado de coisas. Nos últimos vinte e cinco anos, principalmente a partir da publicação de O Tao da Física, de Fritjof Capra (1975), o grande público teve sua atenção atraída para o fascínio que certas áreas da Física Moderna exercem, notadamente a Física Quântica. A isto seguiu-se um grande número de títulos que se propunham a apresentar, de modo acessível a leigos, a natureza destas novas idéias. Embora muitos deles apresentassem um cunho algo sensacionalista, diversos vieram a público pelas mãos de cientistas renomados - Uma Breve História do Tempo, de Stephen Hawking (1988), é apenas um entre muitos exemplos.

Estes autores, contudo - salvo rara exceção - não lograram atingir o objetivo proposto. Talvez seja possível atribuir, em larga medida, a situação descrita por Sokal & Bricmont a este fato: os representantes da comunidade científica fracassaram - sem perceber! - em sua tentativa de esclarecer, junto ao grande público - bem como junto aos acadêmicos das demais áreas - as idéias da nova Física. Paralelamente, grande parte do conjunto de leitores não percebeu que de fato não as havia compreendido. Não há paradoxo algum no que acabou de ser dito, nem acusações de má fé ou incompetência a quem quer que seja: simplesmente a grande maioria de nós, acadêmicos ou não, não está consciente das sutilezas do diálogo interdisciplinar.

Esta situação - escrever livros para público leigo - pode ser pensada como um tipo de diálogo interdisciplinar, no qual falamos para um interlocutor que sabemos não ser de nossa área, mas de quem não ouvimos nenhuma resposta (perdendo assim não somente o melhor da festa, como também a possibilidade de verificar se de fato nos fizemos entender). O livro de Stephen Hawking é, neste caso, um bom exemplo. O autor considera que, por não utilizar equações matemáticas e por fazer uso freqüente de analogias ao longo do texto, este se torna compreensível ao público não especialista. Ocorre que a Física está repleta de termos técnicos que também estão presentes na linguagem coloquial, porém com significado bastante distinto, tais como energia, onda, interferência, superposição, limite, crítico (como em massa crítica) etc. Além disso, para o especialista que há muitos anos vive naquele ambiente, diversas noções - muitas vezes extremamente sutis - tornaram-se, ao longo dos anos, tão familiares que já não é natural dar-se conta de que houve um dia em que não pensávamos desta forma, de que para um leigo este olhar não é natural. Esta percepção, este aprendizado da diferença, vem justamente do contato direto e continuado com interlocutores de outras áreas, o que freqüentemente o acadêmico altamente especializado não tem (Não obstante, convém ressaltar que, para quem tem formação na área, o livro de Stephen Hawking é ótimo).

Como vemos, são demais os perigos desta vida. Lembrei-me agora dos debatedores mencionados acima, o espírita e o psicólogo, que estavam para iniciar um diálogo interdisciplinar, com todas os desafios inerentes a este. Supondo, porém, que nossos dois personagens consigam evitar todas essas circunstâncias, resta ainda uma pergunta: por que debateriam? Para atingir, em algum momento, a certeza absoluta a respeito da natureza do transe mediúnico? Não, certamente que não. Tal coisa - a certeza absoluta - não existe, pois não há critério absoluto de verdade (disto não se segue necessariamente, convém observar, que a noção de verdade - e por conseguinte a de realidade - seja por natureza a de algo construído, e não descoberto, por carecer de qualquer objetividade. Afirmações nessa direção, normalmente associadas ao pós-modernismo, são objeto de intensa polêmica). Por que, então, debateriam eles? Porque é isso que nos move. Porque nos interessa a opinião que é distinta da nossa. Porque esse foi o nosso movimento desde o princípio, por isso nos tornamos investigadores. Porque essa sempre foi - pelo menos quando começamos - a natureza da busca, do nosso interesse pelo mundo e pelas idéias. Quem investiga algo, o faz como quem quer descobrir a verdade a respeito desse algo. Conseguiremos? No sentido de ter certeza absoluta, jamais. Valerá então a pena? Todos nós sabemos que sim. A jornada do conhecimento é uma das maiores fontes de alegria da vida humana. Não é a única, nem a mais importante. É trabalhosa e cheia de armadilhas, mas é linda - e é por isso que estamos todos nela.

 

CAPRA, F., 1975. O Tao da Física. São Paulo: Editora Cultrix.

HAWKING, S., 1988. Uma Breve História do Tempo. Lisboa: Gradiva.