SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 issue4Debate on the paper by Ana Maria C. AleksandrowiczDebate on the paper by Ana Maria C. Aleksandrowicz author indexsubject indexarticles search
Home Page  

Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.16 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2000000400007 

DEBATE DEBATE

 

 

Rita Barradas Barata

Departamento de Medicina Social, Faculdade de Ciências Médicas, Santa Casa de São Paulo


Debate sobre o artigo de Ana Maria C. Aleksandrowicz

Debate on the paper by Ana Maria C. Aleksandrowicz

 

 

O artigo A extensão da impostura de Ana Maria Aleksandrowicz traz à discussão a sempre renovada polêmica entre ciências naturais e as humanidades, recentemente atualizada pela paródia de Sokal. A autora, entretanto, pretende enfocar a velha polêmica articulando-a à questão da interdisciplinaridade e da filosofia da ação, visando suas aplicações no campo da Saúde Pública. O texto está organizado em três partes e pretendo apresentar meus comentários em relação a cada uma delas.

Quanto às "Imposturas Intelectuais", a autora parece privilegiar, em sua análise, a questão da recusa implícita à interdisciplinaridade que haveria na posição de Sokal & Bricmont, na medida em que estes autores criticam qualquer forma de cooperação ou interação entre ciências naturais e ciências humanas ou sociais. Certamente, esta é uma leitura possível da crítica desses autores; entretanto, parece-me que o foco da discussão está mais na negação de uma filosofia ou sociologia da ciência feita por historiadores, sociólogos e filósofos que não são cientistas e, portanto, teriam sua produção interditada pela incapacidade de conhecer realmente os processos e procedimentos dos cientistas.

Creio que o núcleo duro da crítica às posições de Sokal & Bricmont residiria em três pontos principais com implicações para a questão de interesse, ou seja, a interdisciplinaridade: a) os autores partilham uma teoria da ciência que poderia ser classificada como naïve (o que os mesmos jamais aceitariam, visto tratar-se da aplicação de uma categoria estética a uma formulação teórica de outro campo) calcada no realismo ingênuo; b) uma certa confusão entre Ciência e Filosofia, uma vez que os autores pretendem aplicar, ao pensamento filosófico, os mesmos critérios de demarcação aplicáveis ao pensamento científico; c) os autores não distinguem entre o conteúdo conceitual dos conceitos científicos e sua significação hermenêutica apontada pelas críticas históricas, sociológicas e filosóficas.

Entretanto, como bem salienta a autora, há uma série de aspectos pertinentes na crítica de Sokal & Bricmont. Aos aspectos apontados no artigo, eu acrescentaria a insistência dos autores no "recurso aos fatos", que poderia ser mais adequadamente traduzido pelo movimento dialético do trânsito entre concreto-abstrato e concreto pensado (Fernandes, 1980), como recurso de adequação entre teoria e mundo real, e a principal defesa face aos abusos identificados pelos autores na produção de importantes intelectuais europeus e norte-americanos, extensivamente classificados como pós-modernos.

No que concerne à "Guerra das Ciências", Gould (2000) apresenta posicionamento semelhante ao do presente artigo, considerando que a oposição entre realistas e relativistas é mais uma falsa questão produzida em parte por nossa tendência em formular modelos dicotômicos. Para ele, a maioria dos cientistas, embora sendo naïves com relação à história das ciências, são incapazes de ver o contexto social como inteiramente irrelevante da mesma forma que nenhum cientista social é completamente relativista.

No interesse da questão da transdiciplinaridade e da intersetorialidade talvez a pergunta a ser respondida seja: Por quê a Filosofia precisa se travestir de Ciência? Quais são os processos sócio-históricos que levaram intelectuais prestigiados a recorrerem à linguagem das ciências naturais em campos tão distintos quanto a crítica literária e a psicanálise? Esta démarche realmente propicia a inter/transdisciplinaridade?

Finalmente, a última questão tratada pela autora remete à relação entre pensamento e ação. A autora aponta o pragmatismo como uma solução para a superação da falsa oposição empirismo/racionalismo e para uma filosofia da ação, isto é, comprometida com a intervenção na realidade concreta. Estas características, entretanto, não são exclusivas do pragmatismo, estando mais ou menos presentes em todas as correntes filosóficas pós-kantianas. Praticamente, toda a teoria do conhecimento produzida nos séculos XIX e XX busca superar, através de diferentes formulações e com diferentes ênfases, as falsas dicotomias entre empirismo/racionalismo, indução/dedução, sujeito/objeto etc. O compromisso explícito com a práxis sofre maior modulação, permitindo identificar, segundo Samaja (1993), alguns conjuntos de escolas.

Sendo assim, e entendendo que a terceira parte representa a confluência da discussão anterior em direção ao campo da Saúde Pública, haveria necessidade de aprofundar a argumentação, no sentido de tornar mais explícita a possível contribuição da perspectiva pragmática. Há no texto algumas idéias bastante interessantes acerca da oposição possibilidade/potencialidade que estão apenas esboçadas, necessitando maior desenvolvimento. Ou será que, mais uma vez, estamos nos deixando levar pela irresistível atração da dualidade?

 

FERNANDES, F., 1980. Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica. São Paulo: T. A. Queiroz.

GOULD, S. J., 2000. Deconstructing the "science wars" by reconstructing an old mold. Science, 287:253-261.

SAMAJA, J., 1993. Epistemología y Metodología. Elementos para una Teoría de la Investigación Científica. Buenos Aires: EUDEBA.