SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 issue4Debate on the paper by Ana Maria C. AleksandrowiczDebate on the paper by Ana Maria C. Aleksandrowicz author indexsubject indexarticles search
Home Page  

Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.16 n.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2000000400010 

DEBATE DEBATE

 

 

Ubiratan D'Ambrosio

Universidade Estadual de Campinas


Debate sobre o artigo de Ana Maria C. Aleksandrowicz

Debate on the paper by Ana Maria C. Aleksandrowicz

 

 

Muito oportuna a discussão sobre o importante conflito que vem sendo focalizado nos últimos anos por importantes setores da vida acadêmica. As partes envolvidas vão se polarizando em ataques e defesas que - muitas vezes carregados de conotações corporativistas - têm tido como efeito uma intimidação à crítica salutar e necessária para se fazer avançar o conjunto de explicações próprios de uma civilização. Aleksandrowicz faz uma revisão parcial da literatura recente sobre o que vem sendo chamado a "Guerra das Ciências", uma extensão óbvia do que C. P. Snow denominou, há quase quarenta anos, as "Duas Culturas". A discussão não pode deixar de considerar aspectos históricos e geopolíticos.

A história nos mostra que tais conflitos acompanham a evolução do conhecimento. Particularmente, na cultura ocidental, o conhecimento desenvolvido nas academias (héka = distante + demos = povo) e no isolamento dos mosteiros é assimilado pela população em geral, tornando-se parte do cotidiano e alterando comportamentos.

Comportamento e conhecimento estão intimamente associados, em uma relação que poderíamos chamar simbiótica. São a resposta às pulsões de sobrevivência e de transcendência que distinguem a espécie humana e que dão origem a sistemas de explicações e maneiras de lidar com o cotidiano, organizadas como mitos, tradições, artes e tecnologias, e ciências. Todas as respostas às pulsões de sobrevivência e de transcendência originam-se e se organizam em determinado ambiente espacial e temporal. Em outros tempos e em outras regiões, as respostas são obviamente distintas. Um processo de dinâmica cultural que se dá nos encontros de indivíduos com outros, de comunidades com outras, de povos com outros, é responsável pelas transformações dessas respostas. Essas transformações ocorrem lentamente e estão incorporadas à história de cada indivíduo, da comunidade e do povo, como discuto amplamente no meu livro Etnomatemática (D'Ambrosio, 1990). Nesse livro, tomo, como foco das minhas reflexões, o conhecimento matemático, que é central na civilização moderna. É interessante notar que um argumento importante de Sokal & Bricmont é a apropriação de linguagem e resultados da matemática pelos intelectuais que são alvo dos ataques. Recentemente, Sokal (1999) retoma a centralidade do conhecimento matemático na sociedade moderna em editorial pago, no qual ataca programas inovadores de educação matemática nos Estados Unidos.

A partir das grandes navegações, caminha-se para uma civilização planetária. Por um lado, a cultura ocidental, levada pelos conquistadores e colonizadores a todo planeta, perturbou os princípios básicos da dinâmica cultural, dando origem aos culturalmente excluídos e subordinados. Por outro lado, a reorganização política e econômica, que veio com o fim do regime colonial, abalou a hegemonia dos sistemas de explicações e de maneiras de lidar com o cotidiano, organizadas como mitos, tradições, artes e tecnologias, e ciências. São freqüentemente notadas e denunciadas as inadequações do sistema hegemônico nas áreas da política, da economia, das religiões, da saúde, da agricultura, da tecnologia e das ciências em geral. As diferentes culturas, há tantos anos reprimidas e subordinadas, começam a manifestar-se. A chamada pós-modernidade - no meu entender, uma denominação muito infeliz - é uma forma de reação à hegemonia associada à modernidade. "A transdisciplinaridade repousa sobre uma atitude aberta, de respeito mútuo e mesmo de humildade com relação a mitos, religiões e sistemas de explicações e de conhecimentos, rejeitando qualquer tipo de arrogância ou prepotência. A transdisciplinaridade é transcultural na sua essência" (D'Ambrosio, 1997: 80). A defesa de posições hegemônicas, tais como os fundamentalismos, manifesta-se nas Ciências em uma forma de arrogância da academia tão bem notada na chamada "Guerra das Ciências".

 

D'AMBROSIO, U., 1990. Etnomatemática. São Paulo: Editora Ática.

D'AMBROSIO, U., 1997. Transdisciplinaridade. São Paulo: Editora Palas Athena.

SOKAL, A., 1999. Open letter to the U. S. Secretary of Education Richard Riley. Washington Post, Washington, D.C., 18 nov.