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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.17 n.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2001000600010 

Carlos Machado de Freitas

Debate sobre o artigo de Mary Jane P. Spink

Debate on the paper by Mary Jane P. Spink

Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil. cmfreitas@ensp.fiocruz.br

 

 

Diferentes atitudes frente ao risco e diferentes projetos de modernidade

 

 

O debate sobre o termo risco e seus discursos na modernidade são um tema atual e de grande importância para o campo da Saúde Pública, pois sempre nos remete à possibilidade de debatermos diferentes projetos de sociedade e de modernidade.

O termo risco surge com o próprio processo de constituição das sociedades contemporâneas a partir do final do Renascimento, quando ocorreram intensas transformações sociais e culturais associadas ao forte impulso nas ciências e nas técnicas, às grandes navegações e à ampliação e fortalecimento do poder político e econômico de uma nascente burguesia (Freitas, 1997). Constitui-se em uma das formas de expressão de um projeto de organização social, política, econômica e cultural que, tendo suas origens na nascente burguesia da Europa Ocidental, foi cada vez mais se estendendo sobre todo o planeta e se intensificando nas sociedades que atingiu. Neste projeto, o homem, através de ações racionais que objetivam ordenar o mundo em que vive, deve determinar seu próprio futuro, transformando-o em um território a ser conquistado ou colonizado e que lhe possibilitará alcançar a liberdade, a felicidade ou a satisfação das suas necessidades (Giddens, 2000; Toraine, 1994).

Neste processo histórico dois fundamentos moldaram o termo risco e suas aplicações na modernidade, sendo estes: a perspectiva utilitarista e a concepção elitista de democracia.

Para a perspectiva utilitarista, as ações racionais dos indivíduos deveriam ser orientadas para determinados fins com o objetivo de alcançar os melhores resultados; felicidade, utilidade, satisfação, entre outros, sendo o mercado o protótipo do processo que liga as preferências individuais às escolhas sociais e sua legitimação. Orienta a luta pela própria sobrevivência e a busca para a prosperidade em um mundo dominado por aparente caos e incertezas, permitindo substituí-lo por outro, dominado pela ordem e a previsibilidade (Freitas, 1997).

A concepção elitista de democracia se encontra na base do que Giddens (1990) denomina de sistemas abstratos de confiança, que envolvem as instituições da modernidade que organizam os principais aspectos de nossa vida cotidiana e que se encontram vinculadas às questões decisivas relativas à segurança, risco e perigo no mundo moderno. Para a concepção elitista de democracia, a preocupação maior é manter a estabilidade de um sistema social baseado no utilitarismo. A limitação da participação dos cidadãos nos processos decisórios não é apenas aceita, mas também justificada como sinal de fé e lealdade para com o sistema e suas elites técnicas e políticas, essas sim, capazes de realizar os melhores julgamentos para a maximização de ganhos para todos (Freitas, 1997).

Na modernidade tardia, assistimos ao triunfo do projeto de uma sociedade industrial e capitalista, em que as preferências individuais e escolhas sociais reproduzem, em maior ou menor grau, uma ordem instrumentalmente racional que tem como referência o mercado. Entretanto, falhou a perspectiva de que a expansão e intensificação da intenção de controle de riscos modernidade, como modo de regular, normatizar e submeter o futuro ao nosso domínio, representaria para muitos a liberdade, a felicidade ou a satisfação de suas necessidades. Hoje, somos todos forçados a reconhecer a imprevisibilidade das ameaças provocadas pelo desenvolvimento técnico-industrial e a procurar modos diferentes de relação com a incerteza, tornando-se obscurecido o horizonte de um mundo e um futuro controlados pela razão instrumental (Beck, 1997; Giddens, 2000).

Neste contexto atual, conforme observa Beck (1997), alguém que considere o mundo como um risco irá se tornar incapaz de agir, de modo que vem se produzindo o oposto, sendo o risco-aventura apenas uma das diversas atitudes constituídas para enfrentar a imprevisibilidade dos riscos modernos. Thompson & Wildavsky (1983), por exemplo, na perspectiva de uma teoria cultural dos riscos, identificam cinco atitudes, tais como: indivíduos atomizados (a vida é uma loteria, os riscos estão fora de controle e a segurança é uma questão de sorte), burocratas (riscos são aceitáveis enquanto as instituições têm rotinas para controlá-los), eremitas (riscos são aceitáveis enquanto não envolvem a coerção de outros), igualitários (riscos deveriam ser evitados a menos que sejam inevitáveis para proteger o bem público) e empreendedores (riscos oferecem oportunidades e devem ser aceitos em troca de benefícios). Estas diferentes atitudes, como observam os autores, manifestam que as escolhas dos riscos e de como viver, são tomadas conjuntamente, já que a seleção das formas de organização social predispõe as pessoas a selecionarem determinados riscos em detrimento de outros e de outras formas de organização social. Também manifestam as contradições de um projeto de modernidade para o qual as ações racionais que buscam ordenar o mundo, deveriam ter como fundamentos somente a perspectiva utilitarista e uma concepção elitista de democracia.

O que se encontra por trás das atitudes e discursos sobre o risco e dos debates que lhe acompanham na modernidade são diferentes projetos de sociedade. Dentre esses projetos podemos considerar que o risco-aventura simboliza aquilo que Giddens (1990) denomina de radicalização do projeto da modernidade. Na sua forma mais ambiciosa, aprofunda o individualismo e afirma que o homem é o que ele faz, reduzindo a sociedade e nossas vidas a uma empresa lutando para sobreviver num mercado internacional. Os poderes ocultados passam cada vez mais a ser definidos em termos de gestão e de estratégia, que individualizadas e restritos ao espaço privado, deixam, como observa Torraine (1994), apenas um abismo sem fundo lá onde havia o espaço público, social e político. Trazer para o debate outras atitudes e discursos sobre os riscos na modernidade, que envolvem outros projetos de sociedade, como os que orientam as críticas dos jovens, partidos de esquerda e organizações não-governamentais ao processo de globalização em curso e seus riscos para a saúde e o meio ambiente é, então, de vital importância. Spink perde essa oportunidade, ao limitar sua abordagem a apenas uma perspectiva do risco.

 

 

BECK, U., 1997. A reinvenção da política: Ruma a uma teoria da modernização reflexiva. In: Modernização Reflexiva - Política, Tradição e Estética na Ordem Social Moderna (U. Beck, A. Giddens & E. Lash, org.), pp. 11-71, São Paulo: Editora Unesp.

FREITAS, C. M. & GOMEZ, C. M., 1997. Análise de riscos tecnológicos na perspectiva das Ciências Sociais. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, 3:485-504.

GIDDENS, A., 1990. As Conseqüências da Modernidade. São Paulo: Editora Unesp.

GIDDENS, A., 2000. Mundo em Descontrole - O Que a Globalização está Fazendo de Nós? Rio de Janeiro: Editora Record.

THOMPSON, M. & WILDAVSKY, A., 1983. A proposal to create a cultural theory of risk. In: The Risk Analysis Controversy - An Institutional Perspective (H. C. Kunreuther & E. V. Ley, ed.), pp. 145-161, Berlin: Springer-Verlag.

TOURAINE, A., 1994. Crítica da Modernidade. Rio de Janeiro: Editora Vozes.