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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.17 n.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2001000600012 

Maria Lúcia da Silveira

Debate sobre o artigo de Mary Jane P. Spink

Debate on the paper by Mary Jane P. Spink

Departamento de Saúde Comunitária, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Brasil. marial@onda.com.br

 

 

 

 

Uma das grandes perplexidades vividas na atualidade pelos trabalhadores de saúde é o paradoxo proporcionado pela situação na qual, por um lado, constata-se que inúmeras fontes alimentam um caudal de informações e orientações para a vida mais saudável e incitam o exercício da autonomia e da responsabilidade pessoal sobre a saúde e, por outro, que há uma distância aparentemente intransponível entre o saber e o fazer, de tal forma que aquele que sabe (ou que conhece o risco) nem sempre faz o certo (evitar) para si e para os outros; ao contrário, deliberadamente se expõe, expondo outros ainda, a comportamentos malsãos.

Ao enfrentar este limite das ações educativas e para não cair no niilismo paralisante, cumpre enfrentar o desafio de compreender o que o provoca. Situa-se justamente aqui, a grande contribuição de Spink. Se ainda não nos traz uma proposta de ação, ela permite avançar na compreensão dos motivos que determinam tais comportamentos.

Indicando explicitamente no próprio título, ter assumido a dimensão histórico-social (que evidentemente inclui a psicológica e cultural como componentes do processo saúde e doença), ela caracteriza o risco como "aventura", localizando esse tipo particular no contexto sócio-histórico da modernidade tardia, remetendo-nos, por essa via, a assunção de desejos e prazeres como mediadores necessariamente presentes. Aqui, no meu entender, se encontra a sua maior contribuição, que refere-se diretamente ao campo da subjetividade, amplamente escamoteado das práticas sanitárias até hoje, em que pesem os inúmeros discursos contrários.

Assim, ao invés de isolar essa característica contida no conceito de risco, ela prefere liga-lo aos outros elementos contemporâneos que definem o contexto particular, no qual ele pode ser entrevisto e ao qual se aplica de forma peculiar. Transcende, portanto, o espaço psicológico ao qual, no primeiro momento, pareceria restrita, e localiza-o em pleno campo social, numa abordagem que parece muito adequada para se entender o que se passa hoje com o dito "comportamento de risco".

A autora trabalha o risco na perspectiva da linguagem e eu passo da linguagem ao cotidiano, pois como ela própria deixa claro, a linguagem nada mais é do que a sua expressão.

Agir de forma arriscada, pela "adrenalina" simplesmente, parece de fato, ser a tônica atual. É o que acontece entre os jovens, que no seu dia-a-dia expõe-se constantemente e em ações aparentemente incompreensíveis. Isto é evidente em qualquer situação e não apenas naquelas que dizem respeito diretamente à saúde. Certos reclamos de professores parecem trazer implícito o conceito defendido por Spink, assim como a mesma perplexidade da qual eu falava no início: "Eu sei que é gostoso ficar num papinho com os colegas, azarar as gatinhas como eles dizem, mas o que não consigo entender é que ficam na rua, no meio do maior movimento de carros... Parece que eles gostam de ficar ali se arriscando, parece que se divertem com o perigo!".

"Os alunos adoram ir à livraria X. O gerente volta e meia vem reclamar que eles entram lá para roubar. Eu sei que eles não precisam fazer isso, pois de maneira geral, todos têm o que precisam e a gente dá um jeito de arranjar o necessário para os que não podem comprar. Não sei o que faz com que eles tenham prazer em praticar pequenos furtos: uma borracha, um bloquinho, um lápis... A turma fica na rua esperando, enquanto um entra lá, dá uma disfarçada, surrupia qualquer coisa e sai, sendo recebido em triunfo, parece mesmo que para eles é um grande desafio, pois disputam a vez de ir até livraria e voltar mostrando o seu troféu para a galera...! Não sabemos mais o que fazer!" (orientadora educacional em reunião de pais de alunos de uma escola pública da região central de Curitiba).

O comentário de uma médica-educadora a propósito de outro tema, contribui, à sua maneira, para reforçar essa impressão: "O problema da educação sexual é que fica tudo muito bem explicadinho, mas ninguém diz o que fazer com o tesão, e para dar conta do tesão é preciso se arriscar de alguma forma".

Assim, a Epidemiologia confronta-se com a necessidade de pensar em quantas situações o sabor, o prazer de se arriscar, a aventura enfim, predomina, e o quanto esse predomínio esconde o risco, reduz a sua importância, a sua prioridade, fazendo com que pessoas se exponham para não comprometer a aventura do prazer. Tal acontece, por exemplo, no ato arriscado de transar sem proteção. Aqui a incerteza, embora conhecida, não é obscurecida, é simplesmente olvidada em favor do ato prazeroso que poderia se perder ante a ameaça de uma camisinha, por exemplo.

O mesmo se aplicaria à necessidade não atendida de diminuir a velocidade do carro ou de outro gesto qualquer de prevenção, nas mais variadas situações que impliquem em algum tipo de ameaça. Nesse caso, o certo, que é o prazer, não é trocado pelo incerto (o risco, a probabilidade: posso ou não pegar uma doença, me acidentar ou ter prejuízos materiais) e mais: a ânsia de garantir o prazer pessoal omite a probabilidade do risco do outro ou atrai o outro para as situações-limite do arriscar-se na aventura, por exemplo, de um "racha" urbano ou de uma roda de tóxicos, entre tantas outras possibilidades.

Mas não é só isso, outras ponderações muito interessantes são trazidas por Spink, tal como a possibilidade associada. Coerente com a autora, o dito popular: "quem não se arrisca, não petisca", afirma que há no arriscar-se, a possibilidade associada (ainda que a probabilidade possa ser desfavorável) de ganho, a promessa de recompensa final, e a aventura faz uma referência explícita a ela, o que, justamente, lhe confere um gosto irresistível. Isto permite compreender tanto o jogador contumaz, o rapazinho ou o adulto bem informado que se lança numa aventura sexual, o investidor na bolsa... E muitos outros aventureiros do risco. Sem dúvida, o conceito que nos apresenta é passível de generalização na aplicação, o que constitui outro mérito da autora, permitindo que possamos fazer um juízo mais abrangente dos comportamentos assumidos pelas pessoas nessa modernidade tardia e venturosamente perigosa!

Se no Histórico ela aponta que a noção de risco implica em se ter uma noção de futuro, o que fazer hoje diante daqueles aos quais "o futuro a Deus pertence?" Como enfrentar o risco se seus valores positivos são confrontados com esse contexto? Se só se pode saber do presente, se o futuro, além de imprevisível, não é de nosso domínio, que táticas poderão funcionar preventivamente?

A idéia do risco-aventura nos permite também compreender aqueles que nada têm a perder, ou têm tão pouco que o sabor de um ou outro risco compensa mais do que a monotonia da carência cotidiana: presidiários, mendigos, milhões de pobres... Para quem simplesmente sobreviver já é uma dolorosa aventura, já é a prova de vencer o desafio de manter o sopro vital em meio à carência quase absoluta, o que prevenir? O que deixar de fruir num universo tão pouco prazeroso, onde alimentar-se, dormir, comer, transar, tudo é risco, mas tudo é aventura de manter a vida mesmo que por breves instantes? Mesmo que pelo breve tempo, suficiente apenas para acalentar um sonho irrealizável talvez e encontrar algo que o mantenha por mais um pouco, e assim sucessivamente, vivendo aos empurrões, sobrevivendo de migalhas de prazer?

Seguindo por aqui e considerando o paralelo entre capitalismo e cálculo do risco, apontado por Bordieu (Bourdieu, 1979), esta não seria uma via para explicar a crescente pauperização da epidemia de AIDS (e de outras tantas)? Pois aqueles situados à margem dos ganhos e das benesses do capital não se prenderiam a outra lógica, na qual o futuro objetivo, quantificável em termos daquilo que vai se conseguir ganhar, previsível portanto, não estaria excluído para eles? Sobrando apenas essa rude aventura, quase inexoravelmente mortal ou quem sabe mais precocemente mortal para eles?

E ainda, "gestão positivada da gestão de riscos" não é exatamente isso? A metamorfose da ameaça para a aventura e seu gozo, mesmo que fugaz e seguido talvez de tragédia (é o que o profissional de saúde antevê) ou de da glória de sair ileso (antevista e desejada por aquele que se arrisca, se aventura). Não será apenas este anseio, este sonho - ainda que não explicitado - que move o sujeito e que anularia as freqüentemente enfadonhas ações educativas em saúde? A proposição da autora é um desafio à reflexão e à mudança das mesmas.

Outro ponto por ela levantado com o risco-aventura: a da sua utilidade nestes tempos; enfrentaríamos o cotidiano perigoso da sociedade capitalista urbana se não vivêssemos com a tranqüilidade possibilitada pelo risco aventura na sua função edificadora? Mesmo no enfrentamento das suas formas corrompidas?

Como fica a atuação em saúde se as formas corrompidas de risco-aventura se desenvolverem justamente para, de certa forma, proteger os excluídos sociais? Pois se a exclusão social (vida de rua, tráfico, etc.) pressupõe sujeitos que aceitam ou aos quais é imposta pelo sistema social, o risco aventura em suas formas mais corrompidas e estas, por sua vez, impõem riscos a outros membros da sociedade que, estariam adaptados por já terem assimilado outras formas de risco e sua função edificadora?

Cabe aqui lembrar que o próprio texto mostra que a passagem da sociedade disciplinar para a de risco, significou assumir a transgressão na sua dimensão prazerosa, naquela que significa libertação, ignorando ou enfrentando o que esse processo tem de ameaçador. E, nesse cenário, confrontar o risco-aventura e seus propósitos dionisíacos, com os de polícia que os serviços de saúde mantêm: assegurar a ordem, canalizar o crescimento da riqueza e manter as condições de saúde (Foucault, 1997).

Finalmente, outro aspecto a destacar é o reconhecimento do caráter sistêmico do risco e a conseqüente necessidade de romper as barreiras disciplinares, departamentais e até mesmo nacionais para o seu enfrentamento.

 

 

BOURDIEU, P., 1979. O Desencantamento do Mundo. São Paulo: Perspectiva.

FOUCAULT, M., 1977. A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal.