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Cadernos de Saúde Pública

Print version ISSN 0102-311X

Cad. Saúde Pública vol.19 n.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2003000200037 

NOTA RESEARCH NOTE

 

Avaliação da poluição sonora no parque Jardim Botânico de Curitiba, Paraná, Brasil

 

Evaluation of noise pollution in the Botanical Garden in Curitiba, Paraná, Brazil

 

 

Paulo Henrique Trombetta Zannin; Bani Szeremetta

Laboratório de Acústica Ambiental, Departamento de Engenharia Mecânica, Centro Politécnico, Universidade Federal do Paraná. C.P. 19011, Curitiba, PR 81531-990, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Foi realizado um estudo da poluição sonora no parque Jardim Botânico de Curitiba. Efetuaram-se medições do nível sonoro equivalente Leq em dB(A), em 21 pontos espalhados dentro da área do parque, além de entrevistas com os freqüentadores do local. Constatou-se que 47,6% dos pontos de medição apresentaram níveis sonoros acima de Leq = 65dB(A), considerado pela medicina preventiva como o nível máximo a que um cidadão pode se expor sem riscos à saúde, e 90,5% dos pontos avaliados não satisfizeram à Lei Municipal no 8.583, que fixa o limite de 55dB(A) como nível máximo de emissões sonoras em áreas verdes. O resultado do questionário aplicado na forma de entrevistas aos freqüentadores do parque mostrou que 78% dos entrevistados costumam visitar o parque pelo menos duas vezes na semana e que 96% buscam a realização de uma atividade física. Durante a prática de suas atividades no parque, 24% dos entrevistados apontam a poluição sonora e 22% a segurança no local como fatores de perturbação.

Palavras-chave: Poluição Sonora; Ruído; Riscos Ambientais


ABSTRACT

This study focuses on noise pollution in the Botanical Garden in Curitiba, Paraná, Brazil. Equivalent noise levels (Leq) were measured at 21 points throughout the park, and interviews were conducted with park visitors. Some 47.6% of the measurement sites presented Leq levels over 65dB(A), considered by preventive medicine as the maximum tolerable exposure level without risk of health impairment,, and 90.5% of the sites failed to comply with Municipal Ordinance 8,583, setting 55dB(A) as the maximum noise emission level for green areas. The results of interviews with visitors showed that 78% visit the park at least twice a week and that 96% come for physical activity. During their activities in the Botanical Garden, 24% of interviewees identified noise pollution as a source of annoyance, as compared to 22% who complained of insufficient park security.

Key words: Sound Contamination; Noise; Environmental Risks


 

 

Introdução

O ruído é um fato comum nos grandes centros urbanos, gerado principalmente pelos meios de transporte. Estudos mostram que o ruído de tráfego de 66dB(A) é considerado como o limiar do dano à saúde e, conseqüentemente, a medicina preventiva estabelece 65dB(A) como o nível máximo a que um cidadão pode se expor no meio urbano, sem riscos (Belojevic et al., 1997; Maschke, 1999). Portanto, é preocupante que os níveis dos ruídos emitidos em vias com tráfego intenso atinjam normalmente 75dB(A) (Zannin et al., 2001, 2002).

Este trabalho justifica-se por ser o parque Jardim Botânico uma área de lazer que está localizada em uma região estritamente urbana de Curitiba, cercado por vias de intensa movimentação de veículos. Tais circunstâncias levantam duas hipóteses: violação da Lei Municipal no 8.583 (SMMA, 1995), que fixa o limite de 55dB(A) como nível sonoro máximo admissível para áreas verdes no período diurno (das 7 às 19 horas), e incômodo causado aos freqüentadores pelos níveis sonoros circunvizinhos ao parque. A fim de examinar as duas hipóteses, foram realizadas medições dos níveis sonoros em diferentes pontos do parque, além de entrevistas com os freqüentadores. Os níveis sonoros obtidos foram comparados com o nível de 65dB(A) e com a lei ambiental de Curitiba. As entrevistas serviram para avaliar como os freqüentadores percebem a problemática em questão, nos contextos geral e específico do parque.

 

Materiais e métodos

O parque Jardim Botânico possui uma área total de 270.000m2, dos quais 40% correspondem a um remanescente de floresta de araucária. A pesquisa é do tipo descritiva, de acordo com seus objetivos, apontando características de um fenômeno: a influência do ruído urbano em uma área verde. Seu caráter ainda é exploratório, pois trata-se de um estudo-piloto sobre a exposição dos freqüentadores do parque aos ruídos.

Para a realização do trabalho de campo, foram necessárias duas fases: (1) medições dos níveis sonoros em diferentes pontos do parque, para compará-los com o nível de 65dB(A) e com a Lei Municipal no 8.583 (SMMA, 1995), que estabelece o nível de 55dB(A) como limite máximo para emissões sonoras em Áreas Verdes; (2) utilização de um questionário elaborado pelos autores, aplicado por meio da técnica de entrevistas, com o objetivo de conhecer a reação dos freqüentadores do parque ao ruído ambiental.

A amostra de freqüentadores (52% homens e 48% mulheres), num total de 50, foi selecionada aleatoriamente. As faixas etárias foram classificadas da seguinte forma: de 19 a 29 anos (34%); de 30 a 40 anos (26%); de 41 a 51 anos (20%); e acima de 52 anos (20%). Os entrevistados foram abordados durante a realização de caminhadas e corridas. As entrevistas foram realizadas por dois entrevistadores, de segunda a sexta-feira, totalizando dez entrevistas por dia, no período das 18 às 19 horas, horário de maior utilização do parque.

O tamanho reduzido da amostra, de 50 entrevistados, deve-se à dificuldade encontrada em se obter a colaboração dos freqüentadores do parque para responder ao questionário. Essa dificuldade pode ser explicada pelo fato de as entrevistas terem sido efetuadas durante a realização dos exercícios e por tomarem um certo tempo das pessoas. Como posteriormente ficou evidente, 96% dos entrevistados procuram o parque para praticar atividades físicas. Onze pessoas recusaram-se a responder o questionário.

As medições foram efetuadas no horário de tráfego veicular mais intenso (das 18 às 19 horas), e com ausência de fontes sonoras atípicas: chuva e vento forte. As medições dos níveis sonoros foram realizadas com o medidor Brüel & Kjaer 2238, de acordo com as seguintes etapas: (a) foram escolhidos 21 pontos de medição por meio da análise de carta topográfica; (b) as medições foram realizadas nas pistas por onde os freqüentadores do local circulam; (c) o tempo de medição em cada ponto foi de cinco minutos.

 

Resultados e discussões

Na Tabela 1 são apresentados os resultados das entrevistas realizadas com os freqüentadores do parque Jardim Botânico.

 

 

O parque Jardim Botânico apresentou elevados níveis sonoros, em sua maioria (90,5%) acima do permitido pela Lei Municipal no 8.583, que estabelece o limite de 55dB(A) para áreas verdes. Somente 9,5% dos pontos satisfizeram à referida lei. Outra constatação decorrente das medições acústicas foi que 47,6% dos pontos apresentaram níveis sonoros superiores a 65dB(A), ou seja, acima do limite estabelecido pela medicina preventiva como o limiar do dano à saúde.

Apesar dos altos níveis de ruído, a maioria das pessoas (52%) considerou o parque um lugar tranqüilo, que não provoca maiores perturbações, o que pode explicar a freqüência diária ao local. Dos entrevistados, 54% vão ao parque todos os dias, 24%, três vezes por semana, 6%, duas vezes por semana e 16%, apenas uma vez por semana. Evidentemente, não se deve descartar a possibilidade de os freqüentadores já estarem acostumados ou adaptados ao ambiente. Além disso, a comparação do parque com outros locais do seu cotidiano, como o local de trabalho e o lugar onde moram, pode tê-los induzido a classificar o parque como mais tranqüilo (Tabela 1). Contudo, 24% das pessoas declararam sentir-se perturbadas pela poluição sonora e 22% pela preocupação com a segurança local (Tabela 1), o que permite concluir que esse tipo de poluição vem a ser mais incômoda do que outros agentes perturbadores no local.

 

Considerações finais

Com base nos resultados do diagnóstico da poluição sonora no Jardim Botânico, pode-se afirmar que a situação da área é preocupante, com elevados níveis de poluição sonora: 47,6% ultrapassam 65dB(A). Tais resultados mostram a evolução desse tipo de poluição em nosso meio, constituindo uma ameaça ao bem-estar e à saúde dos cidadãos em um dos poucos lugares da cidade capazes de oferecer alívio para as atribulações do cotidiano urbano. Enfatizando a grave situação da área, 90,5% dos pontos medidos apresentaram níveis acima de 55dB(A), limite máximo para uma Área Verde segundo a legislação local. As entrevistas mostraram que a grande maioria dos freqüentadores (96%) busca a realização de atividades físicas e que 78% visitam o Jardim Botânico pelo menos duas vezes na semana. Durante a prática de suas atividades no parque, 24% indicaram a poluição sonora e 22% a preocupação com a segurança no local como fatores de perturbação. No entanto, 52% dos entrevistados dizem não se sentir perturbados por nenhum fator ambiental ali presente.

 

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e tecnológico (CNPq - Processo no 420040) e do DAAD - Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico.

 

Referências

BELOJEVIC, G.; JAKOVLEVIC, B. & ALEKSIC, O., 1997. Subjective reactions to traffic noise with regard to some personality traits. Environment International, 23: 221-226.        [ Links ]

SMMA (Secretaria Municipal do Meio Ambiente - Curitiba), 1995. Lei no 8.583. Dispõe sobre Ruídos Urbanos e Proteção do Bem-Estar e do Sossego Público. Curitiba: SMMA.        [ Links ]

MASCHKE, C., 1999. Preventive medical limits for chronic traffic noise exposure. Acoustic, 85:448.        [ Links ]

ZANNIN, P. H. T.; DINIZ, F. B. & BARBOSA, W. A., 2002. Environmental noise pollution in the city of Curitiba, Brasil. Applied Acoustics, 63:351-358.        [ Links ]

ZANNIN, P. H. T.; DINIZ, F. B.; CALIXTO, A. & BARBOSA, W. A., 2001. Environmental noise pollution in residential areas of the city of Curitiba. Acta Acustica, 87:625-662.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Paulo Henrique Trombetta Zannin
zannin@demec.ufpr.br

Recebido em 17 de outubro de 2001
Versão final reapresentada em 14 de agosto de 2002
Aprovado em 10 de outubro de 2002